Pouco mais de 24 horas depois de termos aterrado em
Istambul estávamos
de novo no ar, como disse no final da
crónica anterior. E a voar para leste! Sobrevoámos
Ankara — vi bem as luzes da cidade
lá em baixo —
e pouco depois começámos a descer para
Nevşehir. Estávamos bem no coração da
Anatólia, a vasta península que
constitui a Turquia asiática. Para este aventureiro e sonhador, que um dia
começou a escrever as suas memórias... era a estreia absoluta na
Ásia.
Em
Nevşehir, esperava-nos o motorista e o autocarro em que faríamos
quase 2000 km nos sete dias seguintes, sempre com o Flávio e o Sancar como
cicerones. Estávamos na
Capadócia, mítica região histórica e geográfica
encravada no centro da Anatólia. E para as duas noites seguintes tínhamos o
imponente
Barceló Cappadocia, um cinco estrelas em que a
suite era constituída por uma enorme
mezzanine debruçada sobre uma grande sala panorâmica 💖
✨ Era uma vez na Capadócia... 🙋
No luxo asiático do
Barceló Cappadocia... acordei cedo. A minha arraiana dormia... e eu saí sorrateiramente para um
"despertar dos mágicos", na imensidão mágica em que nos encontrávamos.
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Despertar dos Mágicos próximo de Ortahısar e do Hotel
Barceló Cappadocia, 23.09.2026, 06h35
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Sabia que o nascer do Sol era às 06h40. Saí do Hotel... olhei em volta...
consultei o meu velho
Locus... e concluí que
tinha um morro muito próximo de onde poderia assistir ao espectáculo magnífico
do alvorecer de um novo dia. O que eu não sabia, na altura, era que aquele
morro e as formações existentes eram já como que a minha entrada no "mundo
perdido" da
Capadócia. O "meu" morro é o
Zindan Tepesi —
literalmente a "Colina da Masmorra" — onde existiu um mosteiro esculpido na
rocha, o
Mosteiro de Zindan. As suas cavidades e túneis escuros faziam lembrar masmorras à população
local, daí o nome. Naquele dia, sozinho, naquele espectacular nascer do Sol...
estava muito longe de imaginar que estava sobre o que resta de um Mosteiro
bizantino do Séc. VI d.C.
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Nascer do Sol no
Zindan Tepesi (1266m alt.)...
em entrega ao Universo
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Paisagem típica da Capadócia, 360º à volta. À esquerda, o vale
de Göreme.
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O planalto anatólio, com a sua origem vulcânica antiga, moldou o relevo único
da
Capadócia, marcado pelas famosas chaminés de fadas, vales erodidos e
cidades subterrâneas escavadas na rocha, como nos fantasmagóricos vales de
Göreme,
Uçhisar e
Pesabag. Ou estaríamos no reino da fantasia?
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No fabuloso Vale de Göreme, 23.09.2026, 09h45
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Göreme é o verdadeiro coração histórico, geográfico e espiritual
da Capadócia. É o complexo monástico escavado na rocha mais famoso da Turquia,
classificado como Património Mundial da UNESCO desde 1985. Entre os séculos IV
e XIII,
Göreme foi um dos maiores centros de vida monástica cristã do
Império Bizantino, impulsionado por São Basílio, Bispo de
Kayseri /
Cesareia.
A história destas formações começou há cerca de 3 a 9 milhões de anos, fruto
de intensa actividade vulcânica. Os vulcões expeliram quantidades gigantescas
de cinzas, escórias e poeira que cobriram toda a região. Com o tempo e a
pressão, essas cinzas acumuladas consolidaram-se numa rocha porosa, leve e
extremamente "trabalhável", o tufo vulcânico. Com ferramentas manuais simples (como picaretas, cinzéis e martelos),
escava-se com facilidade quase semelhante à da madeira ou do gesso.
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O complexo de Göreme alberga as tradicionais habitações
escavadas directamente nas falésias rochosas, bem como dezenas de
santuários, mosteiros e capelas, com frescos bizantinos excecionais.
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Os habitantes locais e os monges imitavam na perfeição a arquitetura bizantina
em pedra. Escavavam abóbadas, cúpulas, arcos, colunas e naves directamente no
miolo da rocha, que funcionavam não só por estética, mas também para
distribuir o peso e garantir a estabilidade estrutural da rocha. Além disso, o
tufo é um excelente isolante térmico. O interior das habitações e igrejas
escavadas mantém uma temperatura quase constante durante todo o ano (cerca de
13 a 15°C), proporcionando abrigo fresco no Verão tórrido da Anatólia e
protecção contra os invernos rigorosos e gelados.
Para pintar as paredes das igrejas, os monges cobriam a rocha porosa com uma
camada de reboco feito de gesso ou cal misturada com palha. Enquanto esse
reboco ainda estava húmido, pintavam com pigmentos minerais naturais
(lápis-lazúli para os azuis, óxidos de ferro para os vermelhos e terras para
os castanhos), o que permitiu que as cores ficassem "presas" no reboco, num
exemplo impressionante de como as características geológicas ditaram a
história e a arquitetura de toda uma civilização!
A grande riqueza destas igrejas reside precisamente nas pinturas bem
preservadas, que retratam cenas do Novo Testamento, da vida de Cristo e de
Santos, como na
Yılanlı Kilise, a Igreja da Serpente.
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Igreja da Serpente, a Yılanlı Kilise, conhecida pelo fresco de
São Jorge e São Teodoro a combater um dragão / serpente
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Junto ao restaurante
Montana, próximo de Uçhisar, 23.09.2026, 12h40 ... eram horas de almoço...
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No "castelo" de Uçhisar (Uçhisar Kalesi), esporão
de tufo vulcânico escavado e transformado em fortaleza natural.
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Voltando a recuar no tempo, posteriores derrames de lava cobriram o tufo com
rocha basáltica, muito mais dura e resistente. Depois, os rios, a chuva, a
neve e o vento começaram a desgastar o terreno. A camada dura serviu como
"capa protectora"; onde a capa permanecia, o tufo ficou protegido da chuva
directa, enquanto a rocha ao redor era lavada. Foi assim que nasceram as
famosas
chaminés de fada -
peri bacaları - com os seus "chapéus"
escuros de rocha dura no topo de colunas de tufo macio.
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Nas chaminés de fada de Paşabağ, 23.09.2026, 15h50
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A paisagem surreal das chaminés de fada inspirou imensas lendas no imaginário
anatólio. Conta a tradição oral que, em tempos remotos, a Capadócia era
habitada por gigantes terríveis, que aterrorizavam os homens. As bondosas
fadas compadeceram-se do sofrimento humano e decidiram intervir, transformando
os gigantes em grandes colunas de pedra. Para proteger o povo, as fadas
ficaram a viver no interior, acendendo fogueiras cujo fumo saía pelas
"chaminés".
Outra narrativa popular conta a história de uma aldeia encurralada por um
exército invasor implacável. Sem ter para onde fugir, nem como defender as
suas famílias, o povo ajoelhou-se e suplicou por um milagre que os salvasse de
cair nas mãos dos inimigos. Em resposta às suas preces, Deus transformou
instantaneamente os soldados invasores em estátuas de pedra.
Seres bondosos são também os gatos. De Istambul às aldeias mais recônditas da
Capadócia, os gatos não são apenas tolerados: são verdadeiros cidadãos de
pleno direito, amados, respeitados e cuidados por toda a comunidade. Esta
afeição profunda pelos felinos tem raízes profundas na cultura turca e no
mundo islâmico. Nas bibliotecas, mosteiros e arquivos imperiais, os gatos eram
os guardiões indispensáveis contra os roedores, ajudando a travar a
proliferação de ratazanas e de pragas transmissoras de doenças letais, como a
peste. Ninguém os repele. Em cada esquina há tigelas de água, pratos com ração
e pequenas "casas de gato" (kedi evi), construídas pelos moradores ou
pelos municípios para os proteger do inverno rigoroso da Anatólia. Como diz um
provérbio turco... «Se matares um gato, precisas de construir uma mesquita para que Deus te
perdoe». A presença serena dos felinos conferiu um toque de doçura, vida e mistério
a toda a viagem 🐈🐈⬛😍
🪨 Entre a Pedra e o Céu, nas Rotas da Anatólia 💫
Nesta digressão turca, ao dia seguinte poderíamos chamar "o dia dos números":
mais de 600 km de autocarro levaram-nos da
Anatólia central a
Pamukkale, no sudoeste da Turquia. Estivemos a pouco mais de 300 km da fronteira
síria... a cerca de 600 km de
Damasco ou de
Beirute... e a menos
de 1000 km de
Jerusalém! Neste périplo rodoviário, duas visitas: o
caravanserai de
Sultanhani, e, em
Konya, o Mausoléu de
Mevlana Rumi, um dos lugares espirituais e culturais mais emblemáticos da Turquia.
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No Sultan Han da cidade de Sultanhani, a caminho de Konya, 24.09.2026,
10h05
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O
Sultan Han é um grande e importante
caravanserai seljúcida do
século XIII. Os
caravanserai (do persa 𝘬𝘢̄𝘳𝘷𝘢̄𝘯𝘴𝘢𝘳𝘢̄𝘺) eram estalagens
fortificadas construídas ao longo das grandes rotas comerciais da antiguidade,
com destaque para a
Rota da Seda e as vias dos Impérios Otomano e
Seljúcida. Os
caravanserai funcionavam como um ponto de apoio vital
para mercadores, peregrinos e viajantes que cruzavam os desertos e planaltos
da Ásia Central, do Médio Oriente e do Norte de África.
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A caminho de Konya, antiga capital do Império Seljúcida, fomos descendo suavemente dos
planaltos da Anatólia central.
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Mesquita / Mausoléu de Jalal al-Din Muhammad Rumi - o
Mevlana ("Nosso Mestre") - em
Konya, 12h30
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Mevlana Rumi foi o grande poeta, místico e
teólogo do século XIII que inspirou a criação da Ordem
Mevlevi, uma
vertente sufista pautada pelo Amor universal, a tolerância e a procura da
união com o Divino através da música, da poesia e da dança meditativa. Os seus
praticantes são os
dervixes.
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Túmulo / Mausoléu de Mevlana Rumi
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e os seus dervixes rodopiantes
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Na véspera tínhamos assistido ao
Sema, uma cerimónia de dança
rodopiante em que os
dervixes giram de forma contínua, com a mão
direita voltada para cima - para receber a bênção divina - e a mão esquerda
para baixo - para enviá-la aos homens. Não se trata de uma exibição artística,
mas sim de uma forma de meditação para libertar o espírito das amarras do ego.
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Depois do almoço, em 𝙆𝙤𝙣𝙮𝙖... uma longa tarde de 400 km de autocarro,
até Pamukkale
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Naquela longa tarde, não sei porquê... creio que houve alturas em que só eu e
o motorista estávamos acordados... 🤪😋🤣. As estepes iam passando, salpicadas
aqui e ali por alguns relevos da cordilheira do
Tauro. Ai tanta
montanha para andar... mas foi já de noite que chegámos ao
Adempira Termal & SPA Hotel. Tínhamos ligado a pedra da
Capadócia... ao céu de
Pamukkale.
Continua
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