domingo, 18 de outubro de 2026

Pedras de Ouro e Raia...

Ou das terras de Alcántara às terras mañegas de Trevejo

No final de maio passado, quatro "manos velhos" juntaram-se para os reconhecimentos da actividade de outubro dos Caminheiros Gaspar Correia. A ideia era reunir duas zonas raianas em que a nossa Beira se liga à Extremadura espanhola: a Aurifer Tagus - a rota do Tejo aurífero - e as terras mañegas de Trevejo, nas faldas do Xálima - o "meu" Xalmas, na encosta sul da Sierra de Gata.
Quatro "Manos Velhos" junto à Ponte Romana de Alcántara, sobre o Tejo, 29.05.2026
E assim, de autocarro com 50 pessoas a bordo em vez do meu T-ROC com os quatro "manos velhos", pouco depois das onze horas de sábado estávamos na pequena aldeia de Estorninos, em terras de Piedras Albas, passada a albicastrense aldeia de Segura e cruzada a fronteira ao atravessar o rio Erges... que não é mais do que o extremeño rio das Ellas, ou Eljas ... nas "minhas" terras raianas.
Igreja de Santiago em Estorninos, 17.10.2026
Embora a origem do topónimo Piedras Albas seja puramente geológica (as "pedras brancas" de quartzito), investigações arqueológicas revelam indícios claros de explorações mineiras muito antigas na área de Piedras Albas. Os romanos designavam o rio Tejo e os seus afluentes, como o Alagón e o Erges, como uma zona rica em ouro - a Rota do Tejo Aurífero (Aurifer Tagus).
Foi nessa rota que nos lançámos. Não encontrámos ouro... nem os veados que em maio o meu "mano velho" tinha visto. Encontrámos sim uma tarde mais quente do que as previsões apontavam. Antes das duas e meia estávamos à vista do Tejo... e ainda houve forças para subir à vila que foi sede da Ordem Militar de Alcántara.
Ao encontro do Tejo / Tajo / Tagus e da Ponte Romana de Alcántara
Subindo à vila, a esplanada do Café Lisboa, na Praza de Portugal, recebeu o grupo no pós-caminhada, mas passando também pela Igreja de San Pedro e pelo Alcazar de Alcántara.
Alcázar e Igreja de San Pedro de Alcántara...
e um fim de "festa" no Café Lisboa, para rematar.
Fim de "festa" não... porque festa, sem aspas, teríamos à noite, no Hotel Boavista Vintage, a nossa base deste fim de semana caminheiro, na raiana povoação das Termas de Monfortinho. A seguir ao jantar, a simpática família que gere o Hotel providenciou um serão com o Grupo Cantigas d'Aldeia, um grupo dedicado à recolha, preservação e divulgação do cancioneiro tradicional da Beira Baixa. Foi sem dúvida memorável... e eternizado em filmagem no canal Youtube destas "fragas e pragas...".
Os céus de Monfortinho, 17.10.2026, 18h05. Dificilmente esqueceremos o granizo entre Segura e Monfortinho.
Cantigas d'Aldeia... um memorável serão de música tradicional, no Hotel Boavista Vintage
Domingo bem cedo... rumávamos de novo à Extremadura transfronteiriça, mas agora para norte... para a "minha" Sierra de Gata. Cerca de uma hora de viagem chegou para contar as lendas de Fernán Centeno e do seu bando... do lendário castelo de Rapapelo... das três falas do Xálima... da tragédia do Padre Pedro Picado, pároco de Valverdi du Fresnu, assassinado às mãos do bando do Montejo, depois de ter casado em segredo os jovens enamorados Fernando e Beatriz, na Serra da Marvana... que se via ao fundo. E às nove da manhã estávamos a começar a caminhar, de baixo de uma chuva miudinha, no Puerto de Santa Clara... ali, entre as Torrís das Ellas e o Xálima... o "meu" Xalmas.
Uma janela aberta para o paraíso: descida do Castañar de O'Soitu, 18.10.2026, 09h35
Foto de grupo junto aos castanheiros centenários, Los abuelos, 10h45
Esta descida do Castañar de O'Soitu teve contudo tanto de espectacular como de atribulada. Primeiro foi a minha companheira de todas as jornadas que começou a dar sinais de incerteza no passo, a precisar de um amparo para descer. Logo depois, vários elementos do grupo foram subitamente atacados por uns insectos ferozes. Gerou-se o receio de serem vespas asiáticas, dados os inchaços e a intensidade das dores. Mas eram felizmente vespas extremeñas, e a pronta intervenção dos caminheiros da área da saúde, munidos de analgésicos e anti-histamínicos, controlou o pânico e a situação. Mas ver a minha companheira do grande Caminho da Vida precisar daquele amparo revisitou-me, quase como uma premonição, a crónica que escrevi em Agosto passado, sobre a nostalgia do desacelerar... a nostalgia de "quando se descobre que o Tempo não pára...".
Antes do meio dia estávamos a entrar em San Martín de Trevejo. Tínhamos percorrido apenas 5 km... em quase 3 horas...
No plano para este fim de semana caminheiro, já estava previsto parte do grupo poder neutralizar em San Martín de Trevejo - ou Sa Martín de Trevellu, em mañego, a fala local. Há exactamente cinco anos, em Outubro de 2021, quando percorri 25 km a solo na Rota da Fala do Xálima, abordei na respectiva crónica as origens e as particularidades daquelas três aldeias: de nascente para poente, Sa Martín (onde se fala mañego), As Ellas (lagarteiru) e Valverdi du Fresnu (valverdeiru).
Praza Mayor e ruas típicas de San Martín de Trevejo, 18.10.2026, 13h00 (hora portuguesa)
Em San Martín houve portanto quem optasse por neutralizar e passar mais algum tempo a percorrer estas ruas medievais... e quem optasse por fazer a segunda parte da caminhada, na qual guiei mais quinze caminheiros nos 6 km que nos separavam da aldeia de Trevejo e do que resta do seu vetusto Castelo. O dia estava frio, ao contrário da véspera... mas, na empinada subida inicial, rapidamente deixámos de o sentir. Os que neutralizaram subiriam, mais tarde, no conforto do autocarro.
Subida de San Martín para Villamiel, com a Serra do Espiñazo ao fundo, na primeira foto
Igreja de Santa Maria Madalena, Villamiel
E, de Villamiel, surge-nos ao fundo o Castelo de Trevejo
Já só faltava descer ao vale do Arroyo de Los Lagares... e subir ao Castelo de Trevejo
É claro que me mantive em contacto com os que permaneceram em San Martín de Trevejo. Felizmente o panorama estava bastante melhor, tanto no que respeita às vítimas dos insectos "raivosos" como à minha companheira, mais ou menos refeita do susto. Pouco depois das três da tarde estávamos a chegar a Trevejo... mais ou menos à mesma hora a que os restantes saíram de San Martín.
O Castelo de Trevejo... um daqueles locais a que me sinto pertencer...
Villamiel e o "meu" Xalmas, vistos a partir do Castelo de Trevejo
A Ermita del Castillo e a aldeia de Trevejo... talvez como o lendário Fernán Centeno as via do Castelo.
Os 16 magníficos que "conquistámos" o Castelo de Trevejo... pouco antes de chegar o resto do grupo.
Reunidos em Trevejo, estávamos no fim desta atribulada actividade. Mas não regressámos a Portugal (por Penamacor) e à capital sem uma boa dose de convívio final n'El Buen Avío, o bar do sempre hospitaleiro Daniel, em Trevejo... "un bar pequeño en tamaño, pero enorme en esencia".
As duas jornadas pedestres deste fim de semana
(Clique em cada mapa
raiano... em terras de Alcántara e de Trevejo
para ver no Wikiloc)
18.10.2026, 18h50 - Pôr do Sol sobre as águas do Ocreza, na A23, no sempre demorado coming home...
Vídeo deste fim de semana caminheiro... por terras de ouro e raia...

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