quinta-feira, 23 de julho de 2026

Sobre o adeus a Luís Represas...

Ou quando se descobre... que o Mundo é uma Ervilha...

Ao longo dos milhares de posts e de comentários acerca do desaparecimento físico de Luís Represas... de repente deu-me um segundo 'baque'. O apelido Represas sempre me soou a memórias... e ontem, em que o Luís nos deixou... encontrei referências nas redes sociais (uma delas de um meu companheiro de "aventuras" de há mais de meio século) à participação do João Nuno - irmão mais velho do Luís - connosco, nessas actividades... e, embora esporadicamente... do próprio Luís!
Imaginem como fiquei. Passei grande parte do resto do dia à procura de certezas. O António J. de Oliveira - foi o comentário dele que despoletou a minha atenção - confirmou-me ter participado com ele e com o João Nuno nalgumas actividades, no início dos anos 70, confirmando-me que efectivamente, antes de se dedicar inteiramente à música, o Luís esteve mesmo ligado à Espeleologia. Consta, por antigos companheiros, que participava nas saídas de campo e animava o grupo a tocar viola e a cantar.
Com o João Nuno, mais próximo à minha idade, é muito provável que tenha estado nalguma(s) das muitas actividades de campo dos meus "anos loucos" de 1970 a 1973. Na montagem acima, para além do jovem Luís Represas em fundo, à esquerda estão velhos companheiros de um longínquo 1º de novembro de 1970 nas grutas de Bolhos, Lourinhã... e à direita saídos da gruta de Colaride, Cacém, em abril de 1972. Este agora velho septuagenário está à esquerda nessa foto, com o António Oliveira logo a seguir; seguem-se o Mário Próspero e o António Leitão. A menina à direita é a Ana Maria Ribau, filha do meu saudoso professor Hernâni de Seabra Ribau; os dois atrás dela... já nem os nomes recordo. Em baixo, o Miguel e o Zé Batáguas.
E como é que eu e o António J. de Oliveira nos reencontrámos, há uns 4 ou 5 anos? Melhor do que descrever... é transcrever umas frases dele:
«Eu ainda estou meio siderado, sou amigo do teu puto há montes de tempo por via das músicas.»
... disse-me ele um dia; e hoje acrescentou:
«Uma vez mostrei-lhe a foto de Colaride, já não sei porquê, e ele diz... "Caraças, tu andaste na espeleogia com o meu pai..."» 😬🤣
O António é dado às músicas e não só; o "meu puto"... é o investigador musical João Carlos Callixto, autor de livros e programas de rádio e de televisão sobre Música, essencialmente sobre os cruzamentos entre a Música e a Literatura e sobre a História da Música Popular em Portugal. O mundo é ou não é uma ervilha?...
Para os interessados, as histórias e estórias desses tempos "pré-históricos" contei-as na parte retrospectiva das minhas "fragas e pragas...". No meu caso e no de tantos outros, o motor que nos movia era o referido Dr. Ribau, no meu velhinho Liceu Passos Manuel, e o Centro Nacional Juvenil de Espeleologia, integrado nas EBECs - Escolas de Brigadas Especiais de Campo, onde o António também "militava". Ali conhecemos nomes sonantes de então, alguns deles ligados também à Sociedade Portuguesa de Espeleologia, como o Prof. Serra, o Prof. Álvaro Vilar Moreira, o Orlando Cordeiro, o Rui Dilão, o Marques, o Guerra, o Marote... e tantos outros que o Tempo varreu.
Que caminhem em Paz, como ontem disse o Sebastião Antunes, no belo tributo que prestou ao Luís...
Um dia o céu estremece a rir, hei-de ser eu a chegar...
Vai ser no dia em que nos vamos encontrar...

domingo, 5 de julho de 2026

K 58 Entre Pontes... ou do pôr do Sol ao luar de prata...

e do luar de prata ao amanhecer dourado...

Há cerca de uma semana atrás, os "Caminheiros Daqui e d'Além" lançaram um evento... que para mim seria imperdível: "uma caminhada que unirá a Ponte Marechal Carmona, em Vila Franca de Xira, à Ponte Vasco da Gama, em Lisboa, num percurso de ida e volta.", lia-se. O evento tinha início antes do pôr do sol e terminaria com o nascer do sol, contando no regresso com a claridade da Lua para a maior parte do percurso". Supostamente, teria uma extensão aproximada de 50Km, mas com a possibilidade de fazer só metade, na ida ou de volta, podendo usar o comboio na parte restante.
E foi precisamente de comboio que fui, a meio de uma tarde tórrida, para uma Vila Franca de Xira ao rubro...
Ponte Marechal Carmona vista já quase em Alhandra, 04.07.2026, 18h20
Em Vila Franca viviam-se as festas do Colete Encarnado. Por forma a poder decidir in loco se fazia o percurso nos dois sentidos, fui de comboio e atravessei a vila debaixo de uns tórridos 38ºC. O ponto de encontro era em Povos, para lá da Ponte a que vulgarmente chamamos apenas "ponte de Vila Franca". E éramos 14 os aventureiros que responderam ao desafio do Zé Sousa, o 'chefe' dos Daqui e d'Além.
Entre Vila Franca e Alhandra, de cenas do quotidiano ribeirinho ao Caminho de Santiago
Pelas 19h00 estávamos em Alhandra. Apesar do calor, caminhávamos a bom ritmo. 'Por este andar ainda vamos jantar a Vila Franca', dizíamos, obviamente brincando. Mas a Alhandra seguiu-se uma hora 'sem história', a fastidiosa e eterna necessidade de seguir pela nacional 10, enquanto a frente ribeirinha não se completar entre a Adarse (Sobralinho) e Alhandra, pela 'praia dos tesos'. O que foi gasto na incompreensível 'cidade da madeira', com passadiços e rotundas em quantidade completamente paradoxal, entre a Adarse e as OGMA... provavelmente chegaria para fechar de uma vez por todas a ligação pedonal entre Lisboa e Vila Franca!
Entre as 20h e as 21h, junto às OGMA e rumo à Póvoa de Santa Iria, à medida que o Sol descia no poente...
O Sol pôs-se antes da Póvoa, ainda sob a canícula de mais de 30º. 'E vão 18 km... desde as seis da tarde. Já só faltam 32... 😝😝', escrevi nessa altura numa rede social... mas nove horas depois teria de corrigir a informação: naquela altura... pelo menos a mim ainda me faltavam 40 km... 😯
A Lua estava prometida para as 23h50... faltavam mais de duas horas... mas mesmo assim continuávamos a bom ritmo... como que se o calor nos empurrasse. Uma das meninas de vez em quando descalçava-se, caminhando apenas em meias. E entretanto já tinha havido uma baixa; éramos agora 13... o número da sorte 😉
Bem antes da meia noite... tínhamos atravessado o Trancão e estávamos no Parque das Nações(foto: Pedro Rocha)
Os prometidos 26 km até à foz do Trancão estavam certíssimos... mas portanto se a vinda para sul era de 26 km... o diferencial começava logo aí: no mínimo, o total teriam de ser 52 km e não 50... se não fôssemos a mais lado nenhum. Mas, no mínimo... pelo menos passar a Ponte Vasco da Gama tínhamos de passar... e também precisávamos de hidratar. E aqui este "lunático sonhador"... precisava também de ver o nascer da Lua... e fez uma "birra": depois de deixada uma segunda desistente e depois de uma 'loirinha' no Real Forte de Sacavém... disparei de novo para junto do rio, a solo, dando a volta por Moscavide... e aumentando a quilometragem 😂
Mesmo com "birra"... já não consegui ver o nascer mesmo da Lua. Mas o Universo ainda me brindou com uma espectacular 'red moon' e um luar de prata espelhado no Tejo. Num planeta moribundo, num clima louco, nestes conturbados tempos modernos... eu podia lá perder este espectáculo do Universo!
Mas a engrenagem universal mostrou-me, mais uma vez... que há uma inteligência que nos comanda: quando já pensava que seria complicado reencontrar o grupo, quando já equacionava optar pela versão só num sentido... eis senão quando vejo um grupo de "peregrinos" a caminho da ponte pedonal do Trancão. Pois, claro... eram os 'Daqui e d'Além'... e estávamos reduzidos a 11 elementos.
Extremo norte das OGMA, 05.07.2026, 03h50 ... num regresso maior que a vinda...
O regresso teve menos história, menos conversas... e menos velocidade. Os músculos já pediam descanso, os pés também... mas mesmo assim antes das cinco da manhã estávamos em Alhandra... mais de uma hora antes do nascer do Sol, tentando gerir a transição da noite para a madrugada, onde a poesia do luar dava lugar à resistência pura e dura como caminheiros. E depois... os enxames de melgas que na "viagem" para sul já se tinham feito anunciar... agora pareciam querer comer-nos vivos, obrigando a poucas ou nenhumas paragens e a acelerar o passo.
Alhandra, 04h50: ao fundo... já se percebiam as luzes de Vila Franca e da Ponte Marechal Carmona
Pouco depois de Alhandra... a nordeste, sobre o rio, começavam-se a perceber as primeiras cores do amanhecer. Àquele ritmo... íamos chegar a Vila Franca antes das 06h15... e eu permanecia dividido: por um lado também me apetecia regressar ao 'ninho'... por outro lado e tão perto da hora mágica... ainda equacionei ficar à espera, numa espécie de segunda 'birra'. Acabei por optar por viver e fotografar a hora azul - o crepúsculo matutino - aquele período mágico em que o céu ganha um tom azul-escuro, profundo e aveludado, enquanto a linha do horizonte começa a pintar-se com tons quentes.
Aproximação a Vila Franca de Xira e à Ponte Marechal Carmona, entre as 05h30 e as 05h45... na hora azul...
Clique aqui para ver no Wikiloc ou no Relive
E assim, apenas meia hora antes do nascer do Sol, completámos o regresso a Povos, com registos entre os 52 e os 58 km, conforme as 'derivações' de cada um, nomeadamente entre a estação CP e o ponto de encontro. Foi sem dúvida uma jornada extraordária... ou melhor, uma noitada, que se destacou pela extensão, pelo calor, pelas melgas... pela convivência. Uma verdadeira jornada de longo curso em que o nascer do Sol propriamente dito... o vimos já da auto-estrada, a caminho de casa; sim... regressei de boleia com o autor da foto de grupo 😊
Quando cheguei a casa, pouco antes das sete da manhã, com o Sol a preparar-se para mais um dia de braseiro, a minha arraiana ainda dormia. Entrei, comi, tomei banho... só muito depois deu por isso... 😂😂😂