domingo, 1 de março de 2026

Spring is coming... nos trilhos da Sapataria

... ou um "carrossel" em terras do Oeste

Quinta feira passada o Zé Messias perguntava-me: "Domingo não queres ir desentorpecer as pernas?". Respondi-lhe: "May be 😀. A previsão é de bom tempo". E começámos a ver hipóteses. "Gostava de dar uma volta por um bosque de carvalhos", dizia o Zé, acrescentando: "Ainda vou ver os percursos do Henrique". O Henrique é um amigo nosso das caminhadas... um tal "papaleguas" que publica praticamente tudo o que faz... e faz muito! "Um Carrossel no Oeste", assim baptizou um sobe e desce em terras da Sapataria, ali entre terras do Sobral e de Mafra... que adoptámos e adaptámos para este domingo de autêntico prenúncio da Primavera que se avizinha.
E aos três "manos" juntou-se o António. Bom amigo e companheiro de velhos trilhos, trouxe-nos o privilégio de quem caminha em casa; conhece estas terras do Oeste como quem lê um livro aberto, guiando-nos pelas entrelinhas das paisagens que lhe são familiares.
Próximo do apeadeiro de Sapataria, 01.03.2026, 09h20: tínhamos começado há pouco uma bela jornada primaveril
Na Sapataria não se fazem sapatos, mas entre as encostas que serviram de 'sapata' à defesa de Lisboa, percebe-se que aquele lugar é mais do que geografia: é alicerce, uma base onde o tempo parece ter ganho a consistência da pedra. Pela Igreja de Nossa Senhora da Purificação, seguimos rumo à Linha do Oeste. Encontrámo-la em silêncio, ainda ferida e fechada pelas derrocadas do temporal que, no final de janeiro, fustigou a região. Ali, onde o comboio devia cantar o progresso, resta agora a prova da força da Natureza, lembrando-nos que mais não somos do que passageiros do Tempo.
Belas cores, ar límpido... bons ares a cheirar a Primavera
Subida ao Monte da Atalaia (314m)
E os 4 caminhantes no Baloiço da Atalaia

Do cume da Serra da Atalaia, o olhar alcança uma panorâmica que explica por que razão o Duque de Wellington escolheu estas cristas. Diz o povo que a Atalaia tem olhos próprios e que, em tempos de invasão, era o seu facho que acalmava ou sobressaltava quem vivia cá em baixo. Hoje só enfrentámos o declive, mas a recompensa foi a mesma de outrora: o domínio absoluto sobre o horizonte.
Atalaia deriva do árabe at-talaya, que significa precisamente "lugar de vigia", ou "ponto alto de observação"
Lá, no topo da Atalaia, o olhar estendeu-se, a nordeste, até à silhueta inconfundível da Serra de Montejunto. Enviei uma mensagem à minha amiga Madalena, com foto, a dizer "Olha a tua serra lá ao fundo". Mas a Madalena não estava sob a sombra de Montejunto; estava em terras de Foz Côa, mergulhada no branco e rosa das amendoeiras em flor. É este o paradoxo belo das nossas caminhadas, mas também das tecnologias dos tempos modernos: estamos num monte, a vigiar o horizonte, mas as nossas mensagens cruzam o país, unindo o oeste "selvagem" à doçura das flores do Côa. Uma prova de que, para quem caminha, o mapa é apenas um conjunto de pontos de encontro.
E se já antes as cores assim o diziam, na descida da Atalaia líamos nos campos... "Spring is coming..."
Descemos da Atalaia para sul, seguindo o PR2, a Rota do Sizandro. Primeiro foi o matizado de cores a anunciar a Primavera que se aproxima; depois, deixámo-nos envolver por túneis de vegetação, rumo ao Casal da Fonte das Pombas e à Cachoeira. Pelo caminho, o António ia desfiando memórias: histórias de moinhos que já foram da família e dos horizontes que os seus olhos nunca se cansam de ler.
Através do reino e da magia e da imaginação...
Efeitos ainda da Kristin nas terras de Santo Quintino e do Sobral
E chegamos a Cachoeira: fontes, gado, ribeiras e moinhos de vento... um retrato da vida de há um século atrás...
Em Cachoeira fizemos uma pausa no bar da Sociedade Recreativa, onde a senhora que nos serviu umas "loirinhas" era quase fotocópia da mulher do António. "Sim, ainda somos família", replicou logo ela, quando lhe referi a semelhança. Cachoeira é uma zona muito característica deste "carrossel" do Oeste, uma terra com forte tradição de moagem, onde os moinhos de vento e de água faziam parte do quotidiano das famílias. Aliás o carrossel do Oeste levou-nos até ao que aparece nas cartas como "Moinho do Carrão". No mapa é apenas um nome, mas para nós ganhou a cor das estórias...
Junto ao "Moinho do Carrão", o António revive outros tempos e avista a sua própria casa, lá em baixo, em Alcobela
Hoje de outras gentes mas bem recuperado, foi ali que outrora moeu a família da mulher do António. Mas do alto daquela memória de vento, o horizonte tornou-se ainda mais íntimo — dali, o António apontou para Alcobela de Cima, onde se avistava a sua própria casa.
De repente também me imaginei no Douro florido... mas não, aqui são ginjeiras, mas igualmente em flor
Com divertimentos à mistura, chegámos à nascente do Rio Sizandro... e pouco depois ao local onde o carro ficara a descansar
Clique aqui para ver no Wikiloc ou no Relive
Regressámos ao ponto de partida com as 'baterias' devidamente carregadas. O Oeste pode ser selvagem e o carrossel pode pedir pernas, mas com amigos assim e estórias destas, o caminho faz-se sempre a sorrir. A Primavera pode vir quando quiser; nós já lhe abrimos a porta nos trilhos da Sapataria.
Obrigado "mano" Zé Messias. A tua pergunta "Domingo não queres ir desentorpecer as pernas?" foi muito bem vinda... e melhor concretizada. Obrigado Dina, ainda bem que nos pudeste acompanhar neste desabrochar de uma Primavera antecipada, depois de um Inverno turbulento... a todos os níveis 😟; só alguns percebem este "a todos os níveis"... mas não faz mal 😃. E obrigado António, para além do prazer da tua companhia... é um privilégio raro caminhar assim, com o olhar a saltar entre os moinhos do passado e o teto do presente, guiados por quem conhece cada palmo daquele chão não apenas pelos mapas, mas pelo sangue e pela vida.
Um obrigado também final ao autor do track e da descrição, no Wikiloc, que serviu de base à nossa jornada. As descrições do "papaleguas" são sempre fabulosas! A todos... bem hajam!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Na senda das águas do Alviela, da Bobadela aos Barbadinhos

... ou um trilho urbano com sabor a passado

Como os terrenos se encontram, sobrecarregados de água, mas ao mesmo tempo cheios de vontade de desenferrujar e voltar às caminhadas, o amigo Deonel - mentor do "Caminhar e Ser Feliz" - desafiou-nos para uma caminhada citadina, a partir de Sacavém, tentando acompanhar o Aqueduto do Alviela até à Estação Elevatória dos Barbadinhos e regressando a Sacavém pela margem do Tejo.
Bobadela, 18.02.2026, 07h50 - Para dois... a caminhada
teria quase mais 5 km do que para os outros 13...
Uma caminhada circular a partir de Sacavém? Ora... para mim isso transformou-se logo numa caminhada desde a porta de casa, e convidei a Madalena para vir cá ter e fazer o mesmo... 😂
E assim, pouco passava das oito da manhã quando atravessámos a Bobadela rumo ao Trancão, num dia acinzentado mas seco... até próximo da minha velha Escola Secundária de Sacavém. Xiiii... já lá vão quase 18 anos que deixei o meu ensino, que tanto amei e tantas vivências boas me deu.
Portela, Moscavide, Olivais, Braço de Prata... na senda do Aqueduto do Alviela
Quando Lisboa começou a crescer rapidamente, no século XIX, o velho Aqueduto das Águas Livres já não chegava para abastecer a cidade. A solução foi construir um novo sistema de captação e transporte de água: o Aqueduto do Alviela, erguido entre 1871 e 1880, preparado para transportar água captada a 114 km a norte de Lisboa, originária das nascentes dos Olhos de Água do rio Alviela. Recorrendo raramente a grandes vias com trânsito, ainda hoje é possível acompanhar diversos troços do velho aqueduto, paralelo à Avenida Infante D. Henrique até próximo da Estação de Braço de Prata.
Parque da Quinta das Flores, próximo de Braço de Prata, 10h30
A Quinta das Flores é um dos últimos testemunhos da antiga paisagem rural de Marvila. Antiga propriedade agrícola, hoje está praticamente engolida pelo tecido urbano, mas durante séculos foi uma quinta de recreio e produção, típica da cintura rural que rodeava Lisboa.
Continuamos na senda do velho Aqueduto, aqui na passagem de nível da Azinhaga dos Alfinetes
A velha Escola Afonso Domingues apareceu‑nos a seguir, ao virar da esquina, silenciosa e cansada. As paredes, outrora cheias de vida, estão agora marcadas pelo abandono; as janelas, que viram gerações entrar e sair, parecem olhar o mundo com uma tristeza antiga. Custa vê‑la assim, mesmo para quem não a frequentou... mas o amigo Mina, nosso guia nesta caminhada com sabor a passado, estudou lá. Há lugares que parece que guardam uma parte de quem os viveu, e quando os encontramos neste estado, é como se nos devolvessem um espelho de um tempo que não volta.
O que resta da velha Escola Afonso Domingues: ruínas perdidas num tempo que foi ontem...
Seguiu-se Xabregas, com passagem em velhas vilas operárias — como a Vila Amélia Gomes e a Vila São João — pequenos mundos que são quase aldeias encaixadas no tecido urbano, com uma identidade própria que resistiu a décadas de transformação. Cada uma delas conta uma história de trabalho, de vizinhança e de sobrevivência.
Panorâmica sobre o Tejo, ao fundo, a caminho de Xabregas, 11h25
Vila Amélia Gomes... será que estávamos em Lisboa?...



Vila São João
Forte de Santa Apolónia. Sim... Santa Apolónia não é só a Estação de comboios...
Subida para os Barbadinhos, com o Mosteiro de Santos-o-Novo a olhar o Tejo
Pouco passava do meio dia e estávamos no antigo Convento Franciscano dos Barbadinhos, onde foi instalado o reservatório final da água transportada pelo Aqueduto do Alviela e construída uma estação elevatória a vapor, destinada a bombear a água para a cidade de Lisboa, que esteve ao serviço até 1928. Hoje as instalações pertencem à EPAL e constituem o Museu da Água.
Museu da Água e Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos, 12h15
Estávamos com 14 km desde Sacavém, eu e a Madalena mais dois... e eram horas de almoço. Sabíamos que o regresso seria mais ou menos de igual distância, mas mais rápido, optando por seguir a margem do Tejo. E por isso... também optámos por almoçar à maneira, n'O Caçador de Xabregas. E o restante percurso não teve história... mas teve o aparecimento de um belo Sol, já na zona do Parque das Nações, depois do cinzento e da chuva miudinha que nos tinha acompanhado.
Há sempre uma luz e um Sol que espera por nós... Parque das Nações, 15h40
Com quase 28 km nos pés - e ainda
faltavam 2 - estávamos quase de regresso...
Que belo desentorpecer o Deonel e o Mina nos proporcionaram, a 15 carolas das caminhadas durante a semana... bem sei, apenas possíveis aos "técnicos" privilegiados... 😁
Mas estamos a um mês da Primavera... e os sonhos e projectos andam no ar... 🙏