sábado, 22 de agosto de 2026

Do Tejo ao Côa... e da Malcata às "origens"...

Ou quando se descobre... que o Tempo não pára...

Quando em janeiro de 2011 iniciei este blog, comecei pela retrospectiva dos primeiros 40 anos dos meus "instantâneos de uma vida ao ar livre". Mas tudo já lá vai há muito tempo! Essas quatro décadas aproximam-se das seis... e até esse 2011 já lá vai há uns longínquos 15 anos! No endereço retrospectivo, claro que condensei "aventuras":
resumi mais de metade da minha vida em 147 publicações, que foram vistas por mais de 220 mil visitantes do blog. Relatei como me liguei às serras e aos rios... a Vale de Espinho e às minhas outras "terras natais". Os "Contos de Fragas e Pragas" que inspiraram o título do blogue... levaram-me a falar das Fontes Lares, da aldeia mágica de Pitões das Júnias, das terras mágicas de Somiedo ... e de tantas outras. Mas também falei de amores e desalentos... do vento das Cíes, da paixão pelos alunos e pelas "aventuras" que com eles vivi. Quando escrevo, leio e sonho, no meio do silêncio... continuo a escutar as lendas perdidas da Marvana, das cabanas perdidas do Gerês, das xanas e nuberus que se escondem na ramagem dos bosques de Somiedo. Mas o Tempo... esse rola sempre, inexorável.
Oito meses depois, o blog retrospectivo dava lugar ao novo blog. As fragas do passado deram lugar às fragas do que era então o presente. Desde 2011... as crónicas têm sido escritas mais ou menos "em directo"... e tanto e tanto já se passou nestes 15 anos! Entre outros "capítulos"... os Caminhos de Santiago entraram na minha Vida... há já 12 anos! Do avô que já era em 2011... em 2023 vi-me septuagenário... ao lado da minha "pequena arraiana", oito meses mais septuagenária do que eu.
Da nostalgia do desacelerar...
Mas afinal, a que propósito vem esta nostalgia, perguntarão os meus leitores. Nem tudo tem de ter um propósito. Por vezes... é simplesmente o Tempo a rolar. Se os primeiros "anos loucos" relatados no blog foram os da minha adolescência... poderia dizer, como aliás escrevi na altura, que os "anos loucos" regressaram em força entre 2011 e 2020. Da Malcata ao Gerês, do Monte Perdido aos cumes de Somiedo, do Toubkal ao Pico da ilha do Pico e ao sonho vivo de Machu Picchu... nesses nove anos percorri quase 14.000 km a pé, registados apenas para ter esta... estatística das "aventuras".
Depois... depois o ritmo começou a baixar. Foi a pandemia? Hmm... não foi, tanto mais que, nestes últimos seis anos, o declive descendente só se acentuou a partir de 2024. Mas, descansem os amigos preocupados, a nostalgia não me leva a uma busca exaustiva de razões. Foi, é, simplesmente... o Tempo a rolar.
14.07.2026, 10h50 - Junto à Foz do Trancão no Tejo
Ou não tivesse já eu viajado para o futuro e, em 2034, com mais de 80 anos, peregrinado até Roma... a Caminho de Jerusalém 🤭😂!
Mas em vez de avançar no Tempo... recuemos a julho. Depois da grande "maratona" Entre Pontes da última crónica... num dia de nostalgia fui ouvir os sons do Tejo, nos novos passadiços ribeirinhos de Loures... que já vão sendo velhos. E no final do mês rumávamos ao nosso retiro raiano... Vale de Espinho.
Verão em Vale de Espinho... a viver a Amizade e as tradições...
No primeiro fim de semana de agosto - cuja sexta feira foi também o último dia de julho... há muito que estava combinado um convívio raiano com os Manos Vítor e Paula. Companheiro do meu primeiro Caminho de Santiago... companheiros a escreverem juntos o Caminho da Vida... entre montanhas, vales e afectos; se não se lembram... leiam a crónica que tem aquele título... já lá vão 10 anos.
Junto à velha Ponte do Côa, Vale de Espinho, 01.08.2026 ... entre montanhas, vales e afectos...
Não tínhamos programa para este fim de semana raiano. Ou melhor... o programa era Viver e desfrutar a Amizade, não dar pelas horas passarem. Mas, na naturalidade dos gestos, surgiram duas pequeninas caminhadas, uma em cada dia, com o Côa como tema e a Malcata como pano de fundo.
No domingo, 2 de agosto, percorremos 8 km de
manhã, entre o Côa e as encostas da Malcata
Mas depois de um saboroso almoço... ficámos de novo entregues a nós próprios. Não por muito tempo, já que dias depois começaria a chegar a prole a que demos origem. Nove pessoas numa "casa de bonecas"... por vezes parecia uma linha de montagem... 😂
Há já algum tempo que não estávamos quase três semanas em Vale de Espinho. Seja pelo calor excessivo ou pela 'multidão' dentro e fora de portas - nas ruas ouvia-se mais francês que português - a única actividade pedestre foi a tradicional caminhada da Associação local, na manhã do dia 12. Esse mesmo, o dia em que, ao fim da tarde, o Sol se escondeu atrás da Lua num eclipse quase total.
12.08.2026 - Caminhada anual da ADAVE: 12 km em terras de Vale de Espinho e da Malcata
nordeste transmontano)... e tínhamos óculos para o ver
12.08.2026, 19h35 - Eclipse do Sol a 98% (total no
20h22 ... já libertado pela Lua, o Sol põe-se num horizonte longínquo...
Que dizer mais de um verão em Vale de Espinho a Viver a Amizade, o Amor familiar e as tradições? Que houve mercado, que houve arruadas, que houve cantares... e, claro, que houve a tradicional capeia, da qual, como sempre, o que mais gosto é o matinal encerro, pelos montes e ruas da aldeia.
16.08.2026 - Encerro para a Capeia de Vale de Espinho
No dia seguinte à capeia, foi a debandada geral. Brasinha brasinha... cada um para a sua casinha... 😂
Vale de Alvados... em férias das férias...
Ter a casa cheia de filhos e netos é, sem dúvida, uma bênção que nos enche o coração... mas que nos esgota as energias! A gestão das rotinas e da vivacidade de nove almas — entre os 8 e os 73 anos — a que acrescia o carinho da nossa residente nonagenária na casinha defronte, às vezes deixa-nos com a cabeça a andar à roda. Por isso, a meio da última semana raiana, foi com um sorriso cúmplice que ouvi a minha estrelita confessar:... "agora apetecia-me era irmos descansar só os dois para qualquer lado".
Cooking & Nature Hotel - The Nest, 20.08.2026 - Puro relax... num "regresso às origens"...
Neste Mundo louco, entre incêndios, guerras, tremores de terra, filhos que matam mães, governantes que desgovernam... Viver cada dia é uma "obrigação" e uma benção. Por isso e por muito mais... daquela confissão à reserva de duas noites num 'retiro' relaxante... foi apenas o trabalho rápido dos meus "amigos virtuais" — leia-se IA. Rapidamente me deram 3 ou 4 propostas, das quais escolhemos a que mais nos cativou, junto à aldeia de Alvados, na minha velhinha Serra d'Aire... onde, há quase 60 anos, nasceu a minha ligação às actividades de ar livre, através da espeleologia.
O retiro foi no Cooking & Nature Hotel, um conjunto de módulos hoteleiros onde impera a madeira e a pedra. O nosso módulo era o The Nest... onde cada quarto tem o nome de um animal da zona; o nosso era a geneta 🦝. A minha pequena estava encantada com tudo. O pequeno almoço é levado ao quarto numa cesta de verga... o quarto e a varanda debruçam-se para a piscina e para a serra, num ambiente convidativo ao descanso, à paz, ao silêncio.
Vale de Alvados, 21.08.2026, 11h20
Gruta do Castelejo: regressei às origens
     
Igreja de Nossa Senhora da Consolação, Alvados, 21.08.2026, 12h10
Foram só duas noites, neste regresso às origens das minhas "aventuras"... mas viemos rejuvenescidos. Pena que o rejuvenescimento não faça parar o Tempo... da mesma maneira que faz parar esta já longa crónica, que vai de meados de julho ao fim de agosto, do Tejo ao Côa e da Malcata... às "origens" na Serra d'Aire. Mas agosto ainda não acabou... e há uma "aventura" no horizonte próximo... 🙏

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Sobre o adeus a Luís Represas...

Ou quando se descobre... que o Mundo é uma Ervilha...

Ao longo dos milhares de posts e de comentários acerca do desaparecimento físico de Luís Represas... de repente deu-me um segundo 'baque'. O apelido Represas sempre me soou a memórias... e ontem, em que o Luís nos deixou... encontrei referências nas redes sociais (uma delas de um meu companheiro de "aventuras" de há mais de meio século) à participação do João Nuno - irmão mais velho do Luís - connosco, nessas actividades... e, embora esporadicamente... do próprio Luís!
Imaginem como fiquei. Passei grande parte do resto do dia à procura de certezas. O António J. de Oliveira - foi o comentário dele que despoletou a minha atenção - confirmou-me ter participado com ele e com o João Nuno nalgumas actividades, no início dos anos 70, confirmando-me que efectivamente, antes de se dedicar inteiramente à música, o Luís esteve mesmo ligado à Espeleologia. Consta, por antigos companheiros, que participava nas saídas de campo e animava o grupo a tocar viola e a cantar.
Com o João Nuno, mais próximo à minha idade, é muito provável que tenha estado nalguma(s) das muitas actividades de campo dos meus "anos loucos" de 1970 a 1973. Na montagem acima, para além do jovem Luís Represas em fundo, à esquerda estão velhos companheiros de um longínquo 1º de novembro de 1970 nas grutas de Bolhos, Lourinhã... e à direita saídos da gruta de Colaride, Cacém, em abril de 1972. Este agora velho septuagenário está à esquerda nessa foto, com o António Oliveira logo a seguir; seguem-se o Mário Próspero e o António Leitão. A menina à direita é a Ana Maria Ribau, filha do meu saudoso professor Hernâni de Seabra Ribau; os dois atrás dela... já nem os nomes recordo. Em baixo, o Miguel e o Zé Batáguas.
E como é que eu e o António J. de Oliveira nos reencontrámos, há uns 4 ou 5 anos? Melhor do que descrever... é transcrever umas frases dele:
«Eu ainda estou meio siderado, sou amigo do teu puto há montes de tempo por via das músicas.»
... disse-me ele um dia; e hoje acrescentou:
«Uma vez mostrei-lhe a foto de Colaride, já não sei porquê, e ele diz... "Caraças, tu andaste na espeleogia com o meu pai..."» 😬🤣
O António é dado às músicas e não só; o "meu puto"... é o investigador musical João Carlos Callixto, autor de livros e programas de rádio e de televisão sobre Música, essencialmente sobre os cruzamentos entre a Música e a Literatura e sobre a História da Música Popular em Portugal. O mundo é ou não é uma ervilha?...
Para os interessados, as histórias e estórias desses tempos "pré-históricos" contei-as na parte retrospectiva das minhas "fragas e pragas...". No meu caso e no de tantos outros, o motor que nos movia era o referido Dr. Ribau, no meu velhinho Liceu Passos Manuel, e o Centro Nacional Juvenil de Espeleologia, integrado nas EBECs - Escolas de Brigadas Especiais de Campo, onde o António também "militava". Ali conhecemos nomes sonantes de então, alguns deles ligados também à Sociedade Portuguesa de Espeleologia, como o Prof. Serra, o Prof. Álvaro Vilar Moreira, o Orlando Cordeiro, o Rui Dilão, o Marques, o Guerra, o Marote... e tantos outros que o Tempo varreu.
Que caminhem em Paz, como ontem disse o Sebastião Antunes, no belo tributo que prestou ao Luís...
Um dia o céu estremece a rir, hei-de ser eu a chegar...
Vai ser no dia em que nos vamos encontrar...