quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Pedra, Vento e Memória: Crónicas de uma Viagem à Turquia (2)

Pouco mais de 24 horas depois de termos aterrado em Istambul estávamos de novo no ar, como disse no final da crónica anterior. E a voar para leste! Sobrevoámos Ankara — vi bem as luzes da cidade lá em baixo —
Hotel Barceló Cappadocia, 22.09.2026, 22h45
e pouco depois começámos a descer para Nevşehir. Estávamos bem no coração da Anatólia, a vasta península que constitui a Turquia asiática. Para este aventureiro e sonhador, que um dia começou a escrever as suas memórias... era a segunda vez na Ásia.
Em Nevşehir, esperava-nos o motorista e o autocarro em que faríamos quase 2000 km nos sete dias seguintes, sempre com o Flávio e o Sancar como cicerones. Estávamos na Capadócia, mítica região histórica e geográfica encravada no centro da Anatólia. E para as duas noites seguintes tínhamos o imponente Barceló Cappadocia, um quatro estrelas em que a suite era constituída por uma enorme mezzanine debruçada sobre uma grande sala panorâmica 💖.
✨ Era uma vez na Capadócia... 🙋
No luxo asiático do Barceló Cappadocia... acordei cedo. A minha arraiana dormia... e eu saí sorrateiramente para um "despertar dos mágicos", na imensidão mágica em que nos encontrávamos.
Despertar dos Mágicos próximo de Ortahısar e do Hotel Barceló Cappadocia, 23.09.2026, 06h35
Sabia que o nascer do Sol era às 06h40. Saí do Hotel... olhei em volta... consultei o meu velho Locus... e concluí que tinha um morro muito próximo de onde poderia assistir ao espectáculo magnífico do alvorecer de um novo dia. O que eu não sabia, na altura, era que aquele morro e as formações existentes eram já como que a minha entrada no "mundo perdido" da Capadócia. O "meu" morro é o Zindan Tepesi — literalmente a "Colina da Masmorra" — onde existiu um mosteiro esculpido na rocha, o Mosteiro de Zindan. As suas cavidades e túneis escuros faziam lembrar masmorras à população local, daí o nome. Naquele dia, sozinho, naquele espectacular nascer do Sol... estava muito longe de imaginar que estava sobre o que resta de um Mosteiro bizantino do Séc. VI d.C.
Nascer do Sol no Zindan Tepesi (1266m alt.)... em entrega ao Universo
Paisagem típica da Capadócia, 360º à volta. À esquerda, o vale de Göreme.
O planalto anatólio, com a sua origem vulcânica antiga, moldou o relevo único da Capadócia, marcado pelas famosas chaminés de fadas, vales erodidos e cidades subterrâneas escavadas na rocha, como nos fantasmagóricos vales de Göreme, Uçhisar e Paşabağı. Ou estaríamos no reino da fantasia?
No fabuloso Vale de Göreme, 23.09.2026, 09h45
Göreme é o verdadeiro coração histórico, geográfico e espiritual da Capadócia. É o complexo monástico escavado na rocha mais famoso da Turquia, classificado como Património Mundial da UNESCO desde 1985. Entre os séculos IV e XIII, Göreme foi um dos maiores centros de vida monástica cristã do Império Bizantino, impulsionado por São Basílio, Bispo de Kayseri / Cesareia.
A história destas formações começou há cerca de 3 a 9 milhões de anos, fruto de intensa actividade vulcânica. Os vulcões expeliram quantidades gigantescas de cinzas, escórias e poeira que cobriram toda a região. Com o tempo e a pressão, essas cinzas acumuladas consolidaram-se numa rocha porosa, leve e extremamente "trabalhável", o tufo vulcânico. Com ferramentas manuais simples (como picaretas, cinzéis e martelos), escava-se com facilidade quase semelhante à da madeira ou do gesso.
O complexo de Göreme alberga as tradicionais habitações escavadas directamente nas falésias rochosas, bem como dezenas de santuários, mosteiros e capelas, com frescos bizantinos excecionais.
Os habitantes locais e os monges imitavam na perfeição a arquitetura bizantina em pedra. Escavavam abóbadas, cúpulas, arcos, colunas e naves directamente no miolo da rocha, que funcionavam não só por estética, mas também para distribuir o peso e garantir a estabilidade estrutural da rocha. Além disso, o tufo é um excelente isolante térmico. O interior das habitações e igrejas escavadas mantém uma temperatura quase constante durante todo o ano (cerca de 13 a 15°C), proporcionando abrigo fresco no Verão tórrido da Anatólia e protecção contra os invernos rigorosos e gelados.
Para pintar as paredes das igrejas, os monges cobriam a rocha porosa com uma camada de reboco feito de gesso ou cal misturada com palha. Enquanto esse reboco ainda estava húmido, pintavam com pigmentos minerais naturais (lápis-lazúli para os azuis, óxidos de ferro para os vermelhos e terras para os castanhos), o que permitiu que as cores ficassem "presas" no reboco, num exemplo impressionante de como as características geológicas ditaram a história e a arquitetura de toda uma civilização!
A grande riqueza destas igrejas reside precisamente nas pinturas bem preservadas, que retratam cenas do Novo Testamento, da vida de Cristo e de Santos, como na Yılanlı Kilise, a Igreja da Serpente.
Igreja da Serpente, a Yılanlı Kilise, conhecida pelo fresco de São Jorge e São Teodoro a combater um dragão / serpente
Junto ao restaurante Montana, próximo de Uçhisar, 23.09.2026, 12h40 ... eram horas de almoço...
No "castelo" de Uçhisar (Uçhisar Kalesi), esporão de tufo vulcânico escavado e transformado em fortaleza natural.
Voltando a recuar no tempo, posteriores derrames de lava cobriram o tufo com rocha basáltica, muito mais dura e resistente. Depois, os rios, a chuva, a neve e o vento começaram a desgastar o terreno. A camada dura serviu como "capa protectora"; onde a capa permanecia, o tufo ficou protegido da chuva directa, enquanto a rocha ao redor era lavada. Foi assim que nasceram as famosas chaminés de fada - peri bacaları - com os seus "chapéus" escuros de rocha dura no topo de colunas de tufo macio.
Nas chaminés de fada de Paşabağı, 23.09.2026, 15h50
A paisagem surreal das chaminés de fada inspirou imensas lendas no imaginário anatólio. Conta a tradição oral que, em tempos remotos, a Capadócia era habitada por gigantes terríveis, que aterrorizavam os homens. As bondosas
fadas compadeceram-se do sofrimento humano e decidiram intervir, transformando os gigantes em grandes colunas de pedra. Para proteger o povo, as fadas ficaram a viver no interior, acendendo fogueiras cujo fumo saía pelas "chaminés".
Outra narrativa popular conta a história de uma aldeia encurralada por um exército invasor implacável. Sem ter para onde fugir, nem como defender as suas famílias, o povo ajoelhou-se e suplicou por um milagre que os salvasse de cair nas mãos dos inimigos. Em resposta às suas preces, Deus transformou instantaneamente os soldados invasores em estátuas de pedra.
Seres bondosos são também os gatos. De Istambul às aldeias mais recônditas da Capadócia, os gatos não são apenas tolerados: são verdadeiros cidadãos de pleno direito, amados, respeitados e cuidados por toda a comunidade. Esta afeição profunda pelos felinos tem raízes profundas na cultura turca e no mundo islâmico. Nas bibliotecas, mosteiros e arquivos imperiais, os gatos eram os guardiões indispensáveis contra os roedores, ajudando a travar a proliferação de ratazanas e de pragas transmissoras de doenças letais, como a peste. Ninguém os repele. Em cada esquina há tigelas de água, pratos com ração e pequenas "casas de gato" (kedi evi), construídas pelos moradores ou pelos municípios para os proteger do inverno rigoroso da Anatólia. Como diz um provérbio turco... «Se matares um gato, precisas de construir uma mesquita para que Deus te perdoe». A presença serena dos felinos conferiu um toque de doçura, vida e mistério a toda a viagem 🐈🐈‍⬛😍
🪨 Entre a Pedra e o Céu, nas Rotas da Anatólia 💫
Nesta digressão turca, ao dia seguinte poderíamos chamar "o dia dos números": mais de 600 km de autocarro levaram-nos da Anatólia central a Pamukkale, no sudoeste da Turquia. Estivemos a pouco mais de 300 km da fronteira síria... a cerca de 600 km de Damasco ou de Beirute... e a menos de 1000 km de Jerusalém! Neste périplo rodoviário, duas visitas: o caravanserai de Sultanhani, e, em Konya, o Mausoléu de Mevlana Rumi, um dos lugares espirituais e culturais mais emblemáticos da Turquia.
No Sultan Han da cidade de Sultanhani, a caminho de Konya, 24.09.2026, 10h05
O Sultan Han é um grande e importante caravanserai seljúcida do século XIII. Os caravanserai (do persa 𝘬𝘢̄𝘳𝘷𝘢̄𝘯𝘴𝘢𝘳𝘢̄𝘺) eram estalagens fortificadas construídas ao longo das grandes rotas comerciais da antiguidade, com destaque para a Rota da Seda e as vias dos Impérios Otomano e Seljúcida. Os caravanserai funcionavam como um ponto de apoio vital para mercadores, peregrinos e viajantes que cruzavam os desertos e planaltos da Ásia Central, do Médio Oriente e do Norte de África.
A caminho de Konya, antiga capital do Império Seljúcida, fomos descendo suavemente dos planaltos da Anatólia central.
Mesquita / Mausoléu de Jalal al-Din Muhammad Rumi - o Mevlana ("Nosso Mestre") - em Konya, 12h30
Mevlana Rumi foi o grande poeta, místico e teólogo do século XIII que inspirou a criação da Ordem Mevlevi, uma vertente sufista pautada pelo Amor universal, a tolerância e a procura da união com o Divino através da música, da poesia e da dança meditativa. Os seus praticantes são os dervixes.
Túmulo / Mausoléu de Mevlana Rumi
e os seus dervixes rodopiantes
Na véspera tínhamos assistido ao Sema, uma cerimónia de dança rodopiante em que os dervixes giram de forma contínua, com a mão direita voltada para cima - para receber a bênção divina - e a mão esquerda para baixo - para enviá-la aos homens. Não se trata de uma exibição artística, mas sim de uma forma de meditação para libertar o espírito das amarras do ego.
Depois do almoço, em 𝙆𝙤𝙣𝙮𝙖... uma longa tarde de 400 km de autocarro, até Pamukkale
Naquela longa tarde, não sei porquê... creio que houve alturas em que só eu e o motorista estávamos acordados... 🤪😋🤣. As estepes iam passando, salpicadas aqui e ali por alguns relevos da cordilheira do Tauro. Ai tanta montanha para andar... mas foi já de noite que chegámos ao Adempira Termal & SPA Hotel. Tínhamos ligado a pedra da Capadócia... ao céu de Pamukkale.
Continua                        

Pedra, Vento e Memória: Crónicas de uma Viagem à Turquia (1)

Corria o ano de 1967... tinha eu 14 anitos, acabados de fazer. Com os meus pais e irmão... cheguei a Istambul num VW "carocha", desde Lisboa! Levei 59 anos para voltar... mas voltei... à procura do Tempo que não foi perdido... mas que foi há muito, muito tempo...
Em Istambul... à procura do tempo perdido...
Istambul, Grande Bazar (𝘒𝘢𝘱𝘢𝘭ı𝘤̧𝘢𝘳𝘴̧ı), 21.09.2026, 16h40
Menos de duas semanas depois de regressar do meu último Caminho de Santiago... "caminhei" mais de 4 mil km de avião até ao outro lado da Europa. E dessa "caminhada"... aterrei com a minha menina e os nossos "Manos Velhos" no Grande Bazar de Istambul, um dos maiores e mais antigos mercados cobertos do mundo.
Erguido em 1461 por ordem do sultão Mehmed II, logo após a conquista de Constantinopla, o Grande Bazar é um mundo dentro desse outro mundo que é Istambul, a grande metrópole entre dois Continentes, com 16 milhões de habitantes!
Atravessando a Ponte Atatürk, sobre o Corno de Ouro (Haliç), que divide a parte europeia de Istambul
entre a península histórica, a sul, e a Galata / Beyoğlu, a norte.
De certo modo, esta viagem à Turquia surgiu na sequência lógica da que, no ano passado, fizemos aos tesouros da Eslovénia, Croácia e Bósnia... que, curiosamente, me levou igualmente a paragens por onde passei na mesma viagem "pré-histórica" de há quase 60 anos, como Split ou a famosa Ponte Turca de Mostar. Também à semelhança do ano passado, o programa esteve a cargo da Pinto Lopes Viagens, integrados num grupo de 24 portugueses acompanhados pelo dinâmico Flávio Soares e, durante todo o périplo turco, guiados por uma genuína enciclopédia humana chamada Sancar Sözer... um autêntico poço de cultura e de contagiosa paixão pelo seu país.
No dia seguinte, as visitas começaram pela famosa Torre Gálata (Galata Kulesi).
Construída originalmente pela colónia genovesa de Constantinopla, ao longo
da época otomana serviu como torre de vigia de incêndios,
prisão e observatório astronómico.
Do topo tem-se uma fabulosa panorâmica sobre o Bósforo e o Corno de Ouro.

 
Por volta de 1632, segundo o cronista Evliya Çelebi, o lendário aviador otomano Ahmed Çelebi terá saltado do topo da Torre de Gálata com asas por si construídas, sobrevoando o Bósforo até aterrar em Üsküdar, na margem asiática. O seu feito espantou a cidade e o próprio sultão atribuiu-lhe o título de Hezarfen, designação de origem persa que significa "o homem dos mil saberes". Mas... os conselheiros imperiais convenceram o sultão de que um homem capaz de tal proeza era perigoso para estar por perto, acabando Hezarfen por ser exilado para a Argélia, onde viria a falecer...
Seguiu-se o Palácio de Dolmabahçe, residência dos últimos sultões do Império Otomano em Istambul
Nas margens do Bósforo, o Palácio de Dolmabahçe foi construído no Séc. XIX, para substituir o antigo Palácio de Topkapı, que deixaríamos para o final da viagem. Em Dolmabahçe viveu e faleceu Mustafa Kemal Atatürk, o fundador da República da Turquia.
A partir da Praça Taksim, coração da Istambul moderna, descemos a avenida pedonal İstiklal Caddesi,
a "Avenida da Independência"... rumo ao almoço, no Restaurante Lipsos
A Igreja de Santo António, a mais monumental das
pregou aqui durante dez anos, quando foi Delegado
Igrejas católicas de Istambul. O Papa João XXIII
Apostólico na Turquia, antes de ser eleito Papa
Muito mais havia para ver em Istambul... que ficaria para o final de um périplo de dez dias. Ao contrário da viagem de há 59 anos, agora íamos desbravar muito mais do que a grande metrópole. Por isso, ao final do dia, com o Sol a pôr-se, estávamos a partir de novo do Aeroporto Internacional de Istambul, junto à costa do Mar Negro, actualmente um dos maiores e mais modernos hubs de aviação do mundo.
E pelas 20h30 daquela 3ª feira 22 de Setembro... aterrámos noutro aeroporto. Qual... leiam na próxima crónica... 🤪
Crónica seguinte