Saímos do
DoubleTree
pelas oito horas. Poder-se-ia dizer que às oito horas de um domingo não
haveria trânsito... mas na Turquia todas as horas são horas de ponta. Mais ou
menos acompanhando a costa egeia, cerca de 120 km a norte de
Esmirna estávamos na cidade de Bergama, nome actual da capital
do próspero e influente Reino de Pérgamo durante o período helenístico
(séculos III e II a.C.) e um dos maiores centros de cultura, ciência e
arquitectura do mundo greco-romano.
A acrópole de Pérgamo foi erguida no topo da íngreme
Kale Tepesi - a "Colina do Castelo" - a mais de 300 metros de altitude,
dominando toda a planície envolvente. Pouco depois das dez e meia da manhã
estávamos a subi-la, nas cabines do moderno teleférico que lhe dá acesso.
Subida de teleférico à Acrópole de Pérgamo, 27.09.2026,
10h40
Na Acrópole de Pérgamo, sobre o imponente Teatro
helenístico, construído na encosta abrupta da colina
Dominando o ponto mais alto da Acrópole, as colunas de contra o
céu e destacam-se
mármore branco do Templo de Trajano recortam-se na
paisagem à distância.
Pérgamo albergava a segunda maior biblioteca do mundo antigo,
rivalizando com a lendária Biblioteca de Alexandria. Quando o Egipto
ptolomaico proibiu a exportação de papiro para travar o crescimento da
biblioteca concorrente, os eruditos locais aperfeiçoaram a técnica de
tratamento de peles de animais para a escrita. Nasceu assim o pergaminho, cujo
nome deriva directamente de 'Pérgamo'.
Na base da colina ficava o santuário dedicado a Asclépio, o deus
greco-romano da medicina.
O Asklepieion era um dos hospitais/estâncias termais mais
famosos do mundo antigo, onde exerceu o célebre médico Galeno. Os
tratamentos combinavam banhos termais, caminhadas em galerias subterrâneas,
dietas, interpretação de sonhos e análises psicológicas.
Seguiram-se quase 200 km de autocarro, ao longo da costa e frente à
ilha grega de Lesbos
Aproximavamo-nos agora do Estreito dos Dardanelos, que separa a Ásia da
Europa e comunica o Mar Egeu com o Mar da Mármara. A
meteorologia previa chuva e a cor dos céus prenunciava-a. Mas, à entrada quase
do Estreito e antes de finalizarmos aquele domingo, faltava-nos um marco
importante do nosso périplo turco: Tróia... um dos sítios
arqueológicos mais lendários e emblemáticos do mundo.
O célebre e lendário Truva
Atı, o Cavalo de Tróia
Tróia, Património Mundial da UNESCO: a cidade combina o mito
com uma realidade arqueológica de mais de 4000 anos...
Tróia é o cenário da célebre guerra travada entre gregos e troianos,
desencadeada pelo rapto de Helena, esposa do rei de Esparta, por Párvis,
príncipe de Tróia. É o teatro das façanhas de Aquiles, Héctor, Ulisses e
Agamémnon. A cidade resistiu a dez anos de cerco ininterrupto antes de cair,
devido à astúcia do Cavalo de Tróia, concebido por Ulisses para
introduzir guerreiros gregos dentro das muralhas inexpugnáveis. No nosso fim
de tarde, contudo... Tróia foi o cenário das primeiras e grossas chuvadas,
alternadas com os céus mágicos do entardecer. Os gatos, esses, nada os
preocupava.
Entardecer / anoitecer em Tróia... com os céus a quererem
desabar... 27.09.2026, 18h20
Durante séculos, julgou-se que Tróia era apenas uma invenção poética de
Homero. Mas em 1870 o escavador alemão Heinrich Schliemann, guiado
pelos textos da Ilíada, iniciou escavações e provou a existência real da
cidade, que dista menos de 20 km de Çanakkale, onde entrámos praticamente de noite. Recebeu-nos o
Hotel Kolin,
praticamente à beira mar, em pleno Estreito de Dardanelos.
Dia 28, segunda feira. Saímos bem cedo de Çanakkale; tínhamos quase quatro horas de viagem até
Bursa. A Europa estava a um palmo, através
da "1915 Çanakkale köprüsü", colossal obra de engenharia inaugurada em
março de 2022, que liga o continente europeu (Gelibolu /
Galípoli) ao continente asiático (Lapseki), sobre o estreito de
Dardanelos.
Ao longo do Estreito de Dardanelos, com a Ponte InterContinental
"1915" e a Europa do outro lado. 28.09.2026, 07h30
Nada nesta ponte foi projectado ao acaso: o vão de 2023 metros evoca o ano de
2023, que assinalou o Centenário da República da Turquia, fundada por
Mustafa Kemal Atatürk em 1923; o nome "1915" homenageia a
vitória otomana na Batalha dos Dardanelos (Campanha de Galípoli), em 18
de março de 1915, um momento decisivo que moldou a identidade nacional turca
durante a Primeira Guerra Mundial. A altura de 318 metros remete para a data
de 18 de março! E até o topo das torres vermelhas tem o formato estilizado de
projécteis de canhão, uma referência a Seyit Onbaşı, um herói de guerra
turco que levantou sozinho projécteis de mais de 200 kg para responder ao
bombardeamento da frota aliada.
Às 11h00 estávamos em Bursa,
primeira capital otomana, entre 1326 e 1364: Mesquita Grande de
Ulu Camii
Como em qualquer Mesquita, exige-se que as senhoras cubram a cabeça e os
ombros, ficando os sapatos de todos à entrada - um detalhe que, em dias de
chuva, não deixa de ser incómodo. Seja como for, cabe a quem visita o dever de
respeitar a cultura e os costumes dos países que o acolhem.
O Bazar da Seda de Bursa, conhecido localmente como Koza Han - "Estalagem do Casulo" - é um
dos complexos comerciais e históricos mais fascinantes da Turquia. Construído
em 1491 por ordem do sultão Bayezid II (filho de Mehmed II, o Conquistador), o
Koza Han foi concebido como um grande caravanserai urbano.
Bursa era o ponto final da Rota da Seda na Anatólia. Caravanas
de camelos vindas da China, Pérsia e Ásia Central chegavam à cidade carregadas
de fios e tecidos preciosos. O Koza Han tornou-se o epicentro do
comércio de casulos de bicho-da-seda (Koza), onde produtores rurais e
comerciantes internacionais negociavam a matéria-prima em leilões concorridos.
O edifício é um exemplo magistral da arquitetura civil otomana do século XV.
Naquela segunda feira chuvosa... o Koza Han foi também porto de abrigo
para quem não estava à espera de chuva... da qual até os gatos se abrigam...
No Bazar da Seda de Bursa, em dia de chuva...
E vamos ao almoço, no
Yüce Hünkar, próximo do Bazar da Seda
em turco como Yeşil Türbe ou "Túmulo Verde")
No Mausoléu de Mehmed I (Green Tomb, conhecido
Quatro "Manos Velhos" despedem-se de
Bursa num dia chuvoso.
Seguiram-se 180 km rumo à Europa, pela nova Ponte Osmangazi, sobre o Golfo de Izmit, na extremidade oriental do
Mar de Mármara. Inaugurada em julho de 2016, a ponte reduziu a
distância entre Bursa e Istambul em quase 90 km; recebeu o seu nome em
homenagem precisamente a Osman I (Osman Gazi), o fundador e primeiro
sultão do Império Otomano, no final do século XIII.
Ponte Osmangazi, durante o regresso a Istambul, na tarde de
28.09.2026
Antes das cinco da tarde, cruzando o Bósforo... estávamos em
Istambul. E assim fechámos um circuito que, se contarmos com o voo
Istambul / Capadócia, ultrapassou os 2000 km. Fechámos o circuito... mas a
"festa" ainda não tinha acabado... 👏💓
E como a "festa" não tinha acabado... ainda nesse mesmo dia à noite participámos num espectáculo nocturno de danças turcas, a bordo de um cruzeiro no Bósforo... entre dois continentes.
Depois da primeira "apresentação" a Istambul, da imersão quase surreal
na paisagem calcária e vulcânica da Capadócia e de termos cruzado a
imensidão do planalto anatólio... o final do quarto dia de viagem levou-nos a
Pamukkale. Seria a nossa base pelas duas noites seguintes, no
Adempira Termal & SPA Hotel, um cinco estrelas que, num contraste curioso, ficava bastante aquém da
imponência e do requinte do
Barceló Cappadocia, de onde viéramos.
Pamukkale foi mais uma das muitas maravilhas desta descoberta da
Turquia. Classificado como Património Mundial da UNESCO, o lugar alia de forma
sublime a História à Natureza. As ruínas da necrópole romana de
Hierápolis debruçam-se sobre um extraordinário conjunto de
piscinas termais de origem calcária, cujas bacias de água límpida descem em
cascata pela encosta. Um percurso pedestre de quase 5 km preencheu-nos quase
toda a manhã. Visto à distância - ou dos balões multicoloridos em que alguns
companheiros de grupo voaram sobre ele - o panorama parece um imenso manto de
algodão - daí o nome “Pamukkale”, que traduzido do turco significa
literalmente "castelo de algodão".
Na necrópole romana de Hierápolis,
em Denizli (Pamukkale), na
manhã de 25.09.2026
Hierápolis (em grego, "Cidade Sagrada") é uma impressionante
cidade helenística e romana fundada no século II a.C. pelo rei Eúmenes II de
Pérgamo. Construída no topo da colina de calcário, a cidade cresceu
precisamente devido às propriedades terapêuticas das suas águas termais,
tornando-se uma famosa estância de cura e repouso do mundo antigo. Sob os
terrenos de Pamukkale existem falhas geológicas activas que
aquecem a água subterrânea a temperaturas entre os 35°C e os 100°C.
Ao subir à superfície, esta água traz uma enorme quantidade de bicarbonato de
cálcio dissolvido. Em contacto com o ar, o dióxido de carbono evapora-se e
liberta-se, alterando o equilíbrio químico e fazendo com que o carbonato de
cálcio precipite, depositando-se inicialmente como um gel macio que, ao
solidificar, forma o travertino, em forma de socalcos, piscinas
naturais e cascatas brancas.
Embora pareça gelo ou neve à distância... é rocha calcária rígida.
Sobre os travertinos de Pamukkale...
onde os gatos também são reis e senhores...
Nos travertinos de Pamukkale,
25.09.2026, 11h30. A água, cá em cima... estava a mais de 40ºC ...
No complexo da necrópole, sobre os travertinos, surge-nos a
Piscina de Cleópatra - a Piscina Sagrada - uma bacia de água quente e
mineralizada onde é possível nadar literalmente no meio de colunas e capitéis
de mármore romanos submersos, derrubados por um grande sismo no século VII
d.C.
A Piscina Sagrada, ou Piscina de Cleópatra... apesar de a
rainha egípcia ter vivido quase sete séculos antes... 😁
Entre a piscina e o grande Teatro Romano, situa-se o
Plutonium... a Porta do Inferno, um dos locais mais fascinantes
e temidos da antiguidade. Trata-se de um santuário dedicado a Pluto,
deus do submundo, construído sobre uma fenda geológica que emite concentrações
letais de dióxido de carbono. Os escritores da antiguidade, como Estrabão,
relatavam que os sacerdotes eunucos entravam na gruta e saíam vivos, enquanto
animais e aves lançados no seu interior caíam mortos instantaneamente... um
"milagre" que a ciência moderna explica pela densidade do gás e pelo
conhecimento que os sacerdotes tinham das bolsas de ar oxigenado junto ao
solo.
No grande Teatro Romano de Pamukkale. Não... não era a Cleópatra... 🤣
O Teatro é uma das estruturas mais bem conservadas de todo o Mediterrâneo.
Construído no reinado do imperador Adriano e remodelado sob Septímio Severo,
tinha capacidade para cerca de 15000 espectadores, num cenário ricamente
decorado com relevos em mármore dedicados a Apolo e Ísis.
O almoço foi no cenário idílico do
Değirmende Canlı Alabalık, um restaurante inserido num pequeno bosque, em
Denizli
A tarde foi basicamente destinada ao descanso... sim, porque viajar também
cansa... 😂. As piscinas e o SPA do
Adempira
atraíram alguns; este "velhote" cronista preferiu apenas uma passagem pela
piscina interior... com água termal a cerca de 42 ºC. Mais tarde, directamente
do quarto... chegaria o espectáculo quase simultâneo do pôr-do-Sol e do nascer
da Lua 💓.
De um lado põe-se o Sol, do outro nasce a Lua... a Lua e o Sol de
Pamukkale 💓✨ 25.09.2026, 18h55 / 19h00
Sábado, 26 de Setembro. De manhã, esperavam-nos cerca de 200 km de autocarro,
a caminho do Mar Egeu. Estávamos agora nas imediações da antiga
Éfeso, a joia da coroa da arqueologia clássica no Mediterrâneo
Oriental, a segunda maior cidade do Império Romano a seguir a Roma. Mas as
visitas começariam pela Casa da Virgem Maria, um dos locais de
peregrinação mais venerados da Turquia.
Com Éfeso no horizonte, estávamos na
Casa da Virgem Maria, na serenidade do Bülbüldağı, o "Monte dos Rouxinóis"
Segundo a tradição cristã, após a crucificação de Cristo, o Apóstolo João
trouxe Maria para esta região, para a proteger das perseguições em Jerusalém.
O local foi descoberto no século XIX graças às visões detalhadas da freira
alemã e mística Anne Catherine Emmerich, que nunca tinha estado na Turquia mas
descreveu a casa e a colina com uma precisão impressionante. Rodeada por uma
floresta tranquila de pinheiros e oliveiras, a Casa é uma pequena capela em
pedra, de ambiente muito íntimo e recolhido, visitada e abençoada por vários
Papas (Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI), e venerada tanto por cristãos
como por muçulmanos, para quem Maria é Meryem Ana, mãe do profeta Isa
(Jesus).
Fonte de água sagrada, no "muro das orações", onde milhares de
peregrinos amarram fitas com preces e agradecimentos.
Sente-se ali uma paz que nos transcende. A Meryem Ana Evi é um daqueles
locais em que as lágrimas nos brotam sem sabermos explicar porquê. E seguiu-se
Éfeso, cidade dedicada à Deusa Artemisa.
25 portugueses em Éfeso, frente à monumental
Biblioteca de Celso, do Séc. II d.C. - 26.09.2026, 15h40
Como por toda a Turquia... o que também não falta do mármore e a
reinar
em Éfeso são kediler a posar para as fotos em cima sobre
as ruínas!🐈🐈⬛😁
E pouco depois das seis da tarde estávamos a entrar em
Esmirna, a terceira maior cidade turca.
Com quase cinco milhões de habitantes e banhada pelas águas do
Mar Egeu, Esmirna (İzmir, em turco) é também o segundo maior
porto da Turquia, logo a seguir a Istambul. Provável local de nascimento do
poeta Homero - lendário autor da Ilíada e da Odisseia -
Esmirna é hoje uma cidade cosmopolita, luminosa e marcadamente
liberal... que não tivemos tempo de conhecer melhor.
Praça 9 de Setembro, que assinala a data em que as forças turcas
entraram em Esmirna, no final da Guerra de Independência.
Apenas para uma noite, recebeu-nos o
DoubleTree by Hilton... de cujo terraço panorâmico ainda pude ver as cores do pré-pôr do Sol.
E panorâmicas do terraço no topo do DoubleTree by Hilton,
Esmirna, 26.09.2026, 19h00
Em Esmirna, estávamos a escassas duas etapas do regresso a
Istambul, de onde tínhamos voado ao encontro do fascínio da
Capadócia. Em quatro dias, cruzámos meia Anatólia, ao encontro
do poente daquela imensa península, de frente para as águas do
Mar Egeu e para o contorno das ilhas gregas.