domingo, 13 de junho de 2021

Nos píncaros do Monte da Lua ... 47 anos depois

Os pontos mais altos da Serra de Sintra, incluindo o Palácio da Pena e a Cruz Alta, situam-se dentro do chamado Parque da Pena, gerido há mais de 20 anos pela Parques de Sintra - Monte da Lua, S.A., tal como os restantes parques e monumentos de Sintra. A minha "peregrina especial" ... há muito que
tinha vontade de visitar os Palácios (da Pena e da Vila) ... eu há muito que tinha vontade de cirandar por aqueles píncaros, onde só se pode aceder com o bilhete de acesso ao Parque. Assim ... juntámos as duas paixões. O "mano" Zé Manel juntou-se a nós e, enquanto a pequena arraiana se deliciou com as muitas riquezas do Palácio da Pena, os dois "manos" fizeram quase 5 km pelos trilhos da Pena.
Ronda do Palácio da Pena
Gruta do Monge ... onde na pedra alguém desenhou uma imagem de Cristo
Cruz Alta (529m alt.)
47 anos separam estas duas fotografias: hoje (esq.)
e em 26 de Maio de 1974 (dir.)
Parece que já nem a Cruz é exactamente a mesma ...
eu e a minha "peregrina especial" somos os mesmos...
Gradualmente, o Palácio da Pena vai-se afastando na paisagem de uma esplêndida tarde de quase verão
Os dois Zés foram caminhando mansamente para ocidente. A combinação era a "peregrina" telefonar-me quando terminasse a visita do Palácio e do Chalet da Condessa d'Edla; mas, como o Universo é inteligente, quando chegámos ao Chalet estava ela à porta ... procurando alguma coisa na pequena mochila; "não sei do telemóvel" - disse - "devo-o ter perdido pelo caminho"...


Chalet da Condessa d'Edla; à porta ... a
peregrina especial procura algo na mochila... 😊
Entre o Palácio da Pena e o Chalet são cerca de 1400 metros ... e nem sabia bem porque caminhos tinha vindo. Procurar o telemóvel seria procurar uma agulha num palheiro. Ligámos várias vezes para o dito ... ele tocava ... mas ninguém atendia; fomos acreditando que alguém o encontrasse e o entregasse na portaria do Parque...

Jardins e estufas do Chalet da Condessa d'Edla. Foi por aqui que almoçámos...
Estávamos quase a terminar o nosso almoço volante, quando toca o meu telemóvel; era ... o telemóvel da minha parceira. "É o sr. Zé?", oiço uma voz masculina do outro lado 😊. O telefone tinha sido encontrado; pelas tentativas de contacto, foi possível ligarem-me; "Estou junto ao chalet da condessa", disse-me ... e lá fui eu resgatar o telemóvel "abandonado" algures entre a Pena e o Chalet. Quem o encontrou? Um casal jovem, penso que na casa dos 20 a 30 anos ... que ainda me disse que não tinham mexido em mais nada a não ser telefonar para a chamada perdida que ele acusava! Agradeci encarecidamente. Ainda há gente boa neste Mundo! Não percamos a esperança! 🙏


Fonte dos Passarinhos e Vale dos Lagos
Vale dos Lagos, uma das zonas mais bonitas do Parque da Pena

Passava das duas e meia. Estávamos junto ao portão do Vale dos Lagos para a Calçada da Pena, portão que sabíamos estar temporariamente fechado. Actualmente, as únicas entradas/saídas para o Parque da Pena são a principal, de acesso ao Palácio, e a do Chalet da Condessa. Tínhamos duas opções: subir mais de um quilómetro para a entrada principal ... ou saltar o muro 🤣. Pergunto: a Parques de Sintra não tem possibilidade de ter este portão a funcionar, pelo menos para saída? Um funcionário a controlar que não haja entradas sem bilhete bastaria. E daria assim uma melhor imagem. Não fomos os únicos a saltar o muro ... incluindo três turistas estrangeiros que já estavam nessa "escalada" antes de nós...
O regresso ao centro histórico de Sintra poderia ser no autocarro 434, como fizéramos de manhã ... mas optámos por descer a pé pelo lendário Penedo da Amizade, desde há muitas luas usado pelos adeptos da escalada.

Penedo da Amizade ... e Zé Manel a pensar ... "pois ... já
lá vão uns anitos eu fazia isto aqui"... 😛
Descida ao centro histórico de Sintra, pelo Penedo da Amizade e a Vila Sassetti
Uma vez no centro histórico, à minha peregrina ainda lhe faltava a visita ao Palácio da Vila. Os dois Zés ... demos por terminadas as actividades na Piriquita 😊. Foi um belo domingo na serra da Lua; um passeio que nem chegou bem a 10 km ... mas, como sempre ... as caminhadas não se medem em km.
Sintra, centro histórico, 13.Jun.2021, 15h30 - Lá em cima, o Castelo dos Mouros domina a vila
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domingo, 23 de maio de 2021

De Valença do Minho a Santiago … no Caminho do meu renascer (3)

De Padrón a Santiago ... e o regresso renascido
Bobadela, 23 de Maio
Para penúltima etapa, optámos por apontar a Milladoiro, subúrbio já da capital da Galiza, a escassos 7 km da mítica e mágica Praça do Obradoiro. Tinha dito à minha pequena peregrina que esta era uma etapa fácil ... mas esqueci-me que eram 19 km praticamente sempre a subir. Se na etapa anterior ela tinha precisado de força e ânimo ... esta foi verdadeiramente uma prova de superação, particularmente nos quilómetros finais; os 100 km já percorridos, o cansaço acumulado ... faziam-se sentir.

           Igreja de Iria Flavia, primeira Catedral galega
As setas amarelas guiam-nos no Caminho das Estrelas...
Saímos de Padrón às oito e meia da manhã. Rapidamente atingimos Iria Flavia, a cujas imediações terá chegado a barca de pedra com o corpo decapitado de Santiago. Entre o Sar, a linha do comboio e a N-550, o Caminho era sempre para norte, atravessando pequenas aldeias rurais e marcado por diversas grandes Igrejas, como a de Iria Flavia, o Santuário da Excravitude ou a Igreja de Santa María, mas marcado também pelos belos bosques até ao lugar de O Faramello.
Igrejas da Excravitude (acima) e de Santa María, entre Iria Flavia e Angueira de Suso
Imagens de uma Galiza rural e campestre, a caminho de O Faramello
Igreja de S. Martinho, já no município de Teo
Estávamos cada vez mais perto...
A etapa estava a ser durinha para a minha pequena/grande peregrina, por efeito cumulativo do perfil quase sempre ascendente, da alternância frio/calor ... e, claro ... dos mais de 100 km que já levava nos pés. Mas ... nem uma bolha, nem um músculo "avariado", nada; apenas cansaço, perfeitamente natural. Quanto orgulho nesta minha PE (Peregrina Especial) 💞
Os últimos 6 km foram os mais penosos, com subidas mais acentuadas ... e já com alguma fome. Finalmente, lá nos aproximávamos de Milladoiro; numa recta interminável ao longo da estrada, pareceu-nos ver um polícia ... mas afinal era um "sinaleiro" a cativar peregrinos para o snack "O Camiño", ligeiramente desviado da estrada, à entrada da povoação. Nem pensámos duas vezes ... e a paragem deu para almoço e recuperação de forças...
A recarregar energias na tapería "O Camiño", Milladoiro
E em repouso, no excelente "Albergue Milladoiro
Estávamos a 7 km do campus stellae. No dia seguinte bem cedo deixámos Milladoiro, para chegar bem cedo. O pequeno almoço foi já em Santiago ... e a apoteose da chegada tomava conta de mim ... de nós dois. Pela sétima vez a pé ... cheguei a Santiago de Compostela.
22.Maio.2021, 9h15 - Passo a passo ... pedra a pedra ... entrávamos em Santiago de Compostela
São 9h20 ... avançamos pela Rúa do Franco ... rumo à Catedral ... rumo ao Campo das Estrelas!
Foi a minha 7ª vez ... mas este Caminho ... este foi o 1º de uma "nova era"; a minha pequena/grande peregrina estava ali comigo, com superação e, principalmente, com Amor. E todos os que Amamos estavam também ali connosco, nos nossos corações, naquela apoteose da chegada às estrelas ⭐ Mas desta vez o que mais me impressionou foi o quase total vazio e silêncio das ruas e da Praça, tão diferente do bulício habitual; por isso ... gritei a plenos pulmões ... SANTIAAAAGOOOO!
SANTIAAAAGOOOO ! OBRADOOOOIROOOO !
128 km depois ... chegava ao campus stellae com a estrela que acompanha o Caminho da minha Vida!
O Universo permitiu esta foto monumental: apesar dos poucos peregrinos, um peregrino checo que tínhamos visto apenas uma ou duas vezes ofereceu-se para imortalizar a nossa chegada.
A chuva ligeira com que tínhamos entrado na cidade parou ... mas a chuva em Santiago é Arte! Até pouco antes ... tínhamos vindo a ouvir os "Luar na Lubre" ... "O son do ar" e ... "Chove en Santiago". Jamais esquecerei a sensação desta minha sétima chegada ao Obradoiro; a primeira com a companheira da minha Vida ... mas também a primeira em Ano Xacobeo, ou Ano Santo.
Fila para a Oficina do Peregrino
O Ano Santo é celebrado desde a Idade Média, por disposição papal, quando o dia do apóstolo Santiago (25 de Julho) coincide com um domingo; o último celebrou-se em 2010 ... os próximos serão em 2027, 2032 e 2038.
Não é permitido entrar na Catedral com as mochilas, pelo que fomos primeiro à Oficina do Peregrino mostrar as nossas Credenciais e pedir as Compostelas. Como quis mudar tudo, para alojamento em Santiago reservara desta vez um lugar desconhecido, a Pensión Airiños Aires ...
e foi uma óptima escolha, muito perto da Catedral e da Oficina do Peregrino. Largámos as mochilas ... e então sim fomos à Catedral, à Missa do Peregrino, ao meio dia. Claro que entrámos pela Porta Santa, ou Porta do Perdão, porta que é apenas aberta nos Anos Santos e através da qual o Peregrino ganha o Jubileu, a indulgência plenária, ou perdão dos pecados. A abertura da Porta Santa tem lugar na tarde do dia 31 de Dezembro do ano anterior, segundo um complexo e antigo cerimonial (a que assisti em 31 de Dezembro passado pela TVE). Quando está fechada, a Porta está tapada por um muro de pequenas pedras soltas, que simbolizam a dura peregrinação. No momento da abertura, a procissão aproxima-se desse muro pela Praça da Quintana, o arcebispo golpeia-o três vezes com um martelo de prata e ordena que se abra a Porta. Os operários derrubam o muro pelo lado de dentro, recolhem o cascalho, limpam o chão com ramos de loureiro e a procissão entra na Igreja.

Entrada na Catedral pela Porta Santa ...
a Porta do Perdão, ou da indulgência plenária
Quando saímos da Missa do Peregrino, já havia um pouco mais de movimento ... e já se ouvia a gaita no Arco do Pazo, entre a Acibecheria e o Obradoiro 🎶🎵...
Mas para já eram horas de alimentar os estômagos. E também a esse nível fomos a um sítio novo para mim, o "Bocalino Cafe Bar", na Travesa do Franco, onde comemos um esplêndido pulpo a feira ... e uma tarte de Santiago.
Largo e esplanadas junto à Pensión "Airiños Aires", uma óptima opção de alojamento em Santiago a preços peregrinos
E um belo almoço na
"Cafetería Bocalino"
Depois ... depois foi a única vez que nos separámos neste Caminho. A minha peregrina especial optou pelas compras ... eu optei por deambular pelo Parque da Alameda e seus miradouros, pelas velhas ruas e ruelas ... a Viver e Sentir Santiago ... cidade mágica ... o campus stellae ...a chegada de peregrinos de todos os "estilos" ... sentindo o que eles sentem ... embora ninguém sinta o mesmo que ninguém ... nem sequer o mesmo que nós próprios, noutro "lugar" do espaço/tempo.
Miradouro da Catedral, a partir do Parque da Alameda
Viver e Sentir Santiago ... cidade mágica, na tarde de 22 de Maio de 2021
Aproximava-se a hora da despedida ... mas o fim de um Caminho é só o início de outro. "Não é um adeus, irmãos ... é só um até breve ". No dia seguinte, domingo, seria o regresso a casa ... e até o regresso foi diferente: depois de cinco anos a regressar de autocarro da ALSA, viemos para casa com a FlixBus ... a partir da novíssima Estação Intermodal de Santiago ... inaugurada na véspera!
23.Maio.2021, 9h00 - Partida da novíssima Estação Intermodal de Santiago
Não é um adeus, irmãos ... é só um até breve!

Ria de Vigo, 10h15 - Ao fundo as Ilhas Cíes
Porto e o rio Douro, 12h35
Serra de Montejunto, 15h15 ... estávamos quase em casa...
Este foi o Caminho do meu renascer ... o expurgar dos meus fantasmas ... o arrumar das fragas e pragas que me atiraram ao Caminho, que tinha que ultrapassar ... que ultrapassei 🌿🕊️
Em tempos ainda de pandemia, claro que também a esse nível este Caminho foi diferente, muito para além da necessidade do uso da máscara. Senti a falta, essencialmente ... das ceias comunitárias, do maior convívio e troca de experiências e vivências com outros peregrinos de nacionalidades as mais diversas, como era habitual na "era pré-covid". Mas, apesar de tudo, o Caminho vai retomando a sua imagem; encontrei mais peregrinos do que imaginava, nesta fase ... e o amanhã será seguramente melhor! Dos vários peregrinos que conhecemos, destaco essencialmente o grupo de 4 portugueses que mais vezes nos encontrámos e com quem vivemos, entre outros, os momentos da "Mesa de Pedra". Ana, Joana, Dário e Mammy Maria Luísa ... Bom Caminho ... Bons Caminhos!
Não sei quando nem com quem será o meu próximo Caminho ... contigo ... sozinho ... com quem o destino quiser. Mas a ti, que fizeste deste o teu primeiro Caminho de Santiago ... dizer obrigado é pouco, muito pouco! Foste e és uma pequena/grande Peregrina, que, além deste, me acompanha no maior e principal Caminho: o da Vida! Ultreïa! 🙏💞
(Escrito e composto em casa, a 29 de Maio)
(Clique na faixa Franciscana, à esquerda, para ver o álbum completo de Fotos)
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