Já há algum tempo que seguia as passadas do grupo 'Caminheiros Daqui e d'Além'. Fundado na Rondulha — uma aldeia que se divide entre Vila Franca de
Xira e a Arruda dos Vinhos — define-se simplesmente como um
grupo informal de pessoas que se juntam para caminhar. Desta vez,
porém, não foi apenas o espírito do grupo que me atraiu, mas sim o baptismo
surreal de uma caminhada intensa e circular entre Vila Franca de Xira e
Alenquer: o 'Caminho dos Simpsons' 🤪. O nome, longe de ser uma alusão satírica ao espelho da civilização
ocidental, nasceu como homenagem ao dia em que a família amarela de
Springfield se estreou nos ecrãs: 19 de abril de 1987. Por ironia do destino,
graças a uma antecipação que me caiu como um presente, consegui alinhar nesta
odisseia.
Afinal, se o percurso prometia ser longo e o desafio intenso, mais valia
percorrê-lo com a irreverência de um Simpson do que com a ingenuidade de um
Marreta... 😂
E assim... antes das oito da manhã lá fui ter ao ponto de encontro da 'malta',
debaixo do viaduto da A1 em Springfield...
desculpem, em Vila Franca de Xira. O Seymour Skinner (o Director da
Escola de Caminheiros...) deu as instruções a todo o círculo social que ali se
reuniu, para o qual consegui cativar a minha irmã Lisa, vegetariana... às
vezes; pois... eu sou o Bart Simpson, o caminheiro rebelde que vai à frente a
saltar muros... quando o Director Skinner me deixa 🤪
Além de outras caras conhecidas de outras fragas, à partida também lá estava o
imparável McBain — o homem que venceu o destino e agora gasta a terra com a
fúria de quem renasceu — e a sua decidida companheira Ruth. E em Alenquer, à
hora do almoço, juntou-se a nós o eternamente indeciso Kirk; só fez metade do
percurso, portanto... não fossem as botas largar as solas 😁
Começámos por subir o vale da Ribeira de Santa Sofia, até à Fonte do
mesmo nome e depois rumo às Cachoeiras. Num dia de Sol e nuvens... o
vento foi o elemento predominante. O avô Abe Simpson ainda pensou vir,
aproveitaria para contar as suas histórias intermináveis... mas a Marge
prendeu-o com a sua voz da razão, a ele e ao Homer. Ninguém lhe prometeu um
lauto almoço no final... e ainda por cima com vento? Nahh... ficou em
Springfield.
Por montes e vales, entre Vila Franca e as Cachoeiras,
com o Skinner sempre de olhar focado e o cajado em riste, a
analisar o horizonte com a precisão de quem está a planear a
estratégia para a próxima subida...
Contornámos a Quinta da Granja, cruzámos o Rio Grande da Pipa...
e cruzámos também a A10 por três vezes. Em ritmo acelerado, a passagem pelo
Mosteiro Ortodoxo do Nascimento da Mãe de Deus
deu um toque de serenidade quase mística ao "Caminho dos Simpsons".
E os Simpsons progrediam para norte, rumo às terras de Alenquer
Quando chegámos a Refugidos e cruzámos a ribeira de
Santana da Carnota, o Bart Simpson teve um momento de 'iluminação'
cartográfica. Afinal, aquela aldeia não era apenas um ponto no itinerário do
Skinner; era o lugar onde nasceu, há quase um século, uma tia sua por
afinidade. No meio da odisseia entre Vila Franca e Alenquer, Refugidos
revelou-se um inesperado portal para a história familiar, lembrando ao Bart...
que as raízes estão sempre lá para o segurar ao chão.
Refugidos, no fundo do vale da Ribeira de Santana da Carnota
Mas depois de Refugidos... havia que subir a bom subir
A partir do vale da Ribeira de Santana, o ritmo da caminhada decresceu
bastante. Não para o McBain — apesar de ter partido duas costelas não há muito
tempo — e para muitos outros, que continuaram a marchar como se não houvesse
amanhã. Mas para a Lisa... o cansaço começava a doer naquela interminável
subida. O zeloso Skinner não a largou... enquanto ela própria começava a
questionar a futilidade de subir uma colina para depois a descer... ou a
necessidade de fazer tantos km até Alenquer para depois voltar para Vila
Franca... 🤪. Eu, como bom Bart, limitei-me a oferecer-lhe um sorriso — até
porque parecia que o demo tinha aberto as portas do inferno só para nos
empurrar até Alenquer!
A Lisa não dava o braço a torcer, apesar de mais morta que viva. A
Ginger e o Gil... leiam mais abaixo...
Passada a Cabreira, tínhamos finalmente Alenquer à vista
Eram quase 13h30. As "tropas rebeldes" já estavam sentadas na
esplanada, quando o nosso Skinner entrou em
Alenquer
A descida para Alenquer foi um bálsamo para os sentidos; soube a
repouso e a meia odisseia no bolso. Às portas da cidade, contudo, a Ginger
Flanders e o Gil Gunderson — os dois da foto acima com a Lisa — acabariam
por capitular. Desde a subida a seguir a Refugidos, o Gil ainda aceitou os
meus bastões como última tábua de salvação, mas o apelo do autocarro da "Boa
Viagem" foi maior... 😒
Já sentados na esplanada, lá apareceu o nosso Kirk. O coitado estava há mais
de uma hora entregue à sua sorte e à espera do grupo; a sua Luann, num golpe
de prudência, decidiu ficar em casa. Afinal, os ventos do diabo que nos
fustigaram o lombo poderiam ser fatais para a sua garganta de cristal.
O rio de Alenquer, que nos tinha dado as boas vindas, deu-nos
também a despedida; ainda havia muito a palmilhar
À boa maneira de comandante, ainda não eram duas horas já o Seymour Skinner
estava de pé e de mochila às costas. Tínhamos 21 km nos pés... teoricamente
já só faltavam 18... para os quais o Kirk estava fresquinho que nem uma
alface das hortas de Springfield. E lá partimos para o regresso.
Num percurso de largos horizontes, caminhávamos agora para sul, rumo
a
Cadafais e às Quintas
À tarde, o demo decidiu amainar ligeiramente o seu sopro infernal. Para
grande felicidade da nossa heroína Lisa, os desníveis eram agora menos
agressivos, mesmo num percurso de horizontes largos. Não demorou muito a
termos belas panorâmicas para o vale do Tejo, a leste e a sul.
Enquanto eu e o Kirk vínhamos no papel de 'cavaleiros da retaguarda', a dar
apoio moral à Lisa — com o resto do pelotão já a galopar desenfreadamente
atrás do rasto de pó do Mr. McBain — a animação da conversa revelou-se fatal
para a precisão do GPS. De repente, vimo-nos espartilhados entre a A10 e a
N115-4, dentro dos domínios da
Quinta de Vale Flores. Estávamos onde não devíamos... e onde não tínhamos entrado. O dilema era
digno de um episódio de crise: voltar atrás ou cometer um delito geográfico?
"Há que saltar o muro", sentenciei logo eu, num assomo de puro Bart
Simpson; "sempre é mais baixo que o portão". E assim, numa manobra
que faria o Skinner querer expulsar-nos a todos da escola de caminheiros,
três Simpsons provaram que a liberdade não se pede, conquista-se: não
entrámos oficialmente na Quinta... mas saímos dela com um salto acrobático e
a dignidade intacta.
Reconciliados com o grupo no Monte dos Castelinhos, para a
imprescindível foto "de família", incluindo, claro, o nosso "Ajudante de Pai Natal" de quatro patas 🐕🦺
O Monte dos Castelinhos já todos o conhecíamos de outras "guerras".
Ali se terá situado a cidade de
Hieróbriga
(ou Ierabriga)... ou pelo menos é um dos fortes candidatos a local dessa
mítica cidade romana. Ainda com muito Sol, apreciar a escala da Lezíria a
partir daquele miradouro ancestral é uma bênção... e um estímulo para
acelerar em direcção à Castanheira do Ribatejo e para os últimos
quilómetros desta 'maratona' Simpsoniana... pelo Caminho de Santiago...
O Kirk vinha ainda fresquinho...
a Lisa, lá atrás, nem tanto...
Castanheira do Ribatejo, 17h15 - Já só faltariam 5 km... mas
na matemática de Springfield nada é o que parece... 🤪
Estávamos em pleno Caminho de Fátima / Santiago... mesmo que
desta vez em sentido contrário.
E eis-nos quase debaixo da Ponte de Vila Franca, 18h30 ... já
estavam percorridos 39,5 km... dos 39 km previstos
Estação CP de Vila Franca de Xira, 18h40... faltava agora
menos de 1 km (álbum completo aqui)
O contrato assinado com o Director Skinner prometia uns redondos 39 km, mas
na matemática de Springfield nada é o que parece. Acabámos a carimbar quase
41 km no odómetro... e nas pernas!
Clique para ampliar ou aqui para ver no
Wikiloc
ou no
Retrive
Um quilómetro nunca é apenas um quilómetro quando há uma lição de moral para
aprender pelo caminho. A Lisa, em modo 'zombie', explicava com base
na curvatura da Terra e na deriva continental. Para mim, foi apenas o
Universo a gozar com o meu cabelo espetado, provando que a maratona
Simpsoniana tem sempre um
Director's Cut que ninguém pediu 😂
No final desta odisseia, resta-me agradecer a todos os Simpsons que tornaram este dia memorável.
Aos que, como o McBain e a sua fiel Ruth, marcharam sem olhar para trás; à Lisa, pela resiliência e paciência; ao Kirk, que lá se decidiu a decidir-se... a todos... e, claro, ao Skinner, por nos manter na linha... mesmo quando a linha, para três... implicou saltar muros. Mas também um agradecimento especial aos que desistiram — por nos lembrarem que o autocarro da 'Boa Viagem' é uma invenção divina.
E, claro, um abraço à distância ao Homer, à Marge, ao avô Abe e à Luann, que ficaram em Springfield. No fundo, a voz da razão deles foi o nosso farol: eles sabiam que o vento era do demo, mas nós, por teimosia ou loucura, fomos à mesma. E ainda um agradecimento especial ao nosso "Ajudante de Pai Natal" de quatro patas, que completou os 41 km sem um único 'Ay Caramba!'. Provou ser mais rijo que muitos veteranos de Springfield; enquanto nós discutíamos o GPS, ele só queria saber qual era a próxima fraga a conquistar! Participantes ou não, com 39 km ou com 40,8 km, somos todos parte desta mesma série. Até à próxima aventura, sem ventos diabólicos (esperemos) e, de preferência, com um lauto almoço garantido por contrato! Aí o Homer vai, de certeza...!
Ay Caramba! Missão cumprida! 🏃🏃♂️🏃♀️🚶♀️🚶🚶♂️🙋♂️
Nota: Esta não é uma obra de ficção... mas qualquer semelhança com habitantes de Springfield ou com caminheiros reais é pura coincidência... 😉
A Primavera começou, este ano, ao início da tarde de 20 de março… mas para mim
só chegou mais de uma semana depois, no domingo 29, quando vim — com a minha
pequena arraiana — para o nosso retiro nesta aldeia que também é minha:
Vale de Espinho.
Vale de Espinho, 29.03.2026, 18h15
Depois de um inverno tormentoso — e não apenas no que toca ao clima, como bem
sabem os nossos mais chegados — estávamos os dois precisados deste respirar
diferente… livre… puro… a saber a alma e a liberdade. Na manhã de terça-feira,
o Côa e a Malcata chamaram logo por mim, como me chamam há já
quase 53 anos: com o apelo fundo destas terras, destas gentes, destas cores e
destes sons que me adoptaram para sempre.
E assim... foram 10 km matinais a cantar e a ouvir a melodia das águas do
Côa... o Son do ar e do vento... dos brilhos e das memórias... de
gentes e de histórias... 💐💓
Deixo que o vídeo fale por mim — porque há caminhadas que se contam melhor em
luz, água e silêncio do que em palavras.
🦊🌬️ (Madalena Estácio Marques) 🍃
E o poema abaixo foi escrito especialmente para esta minha deambulação a
solo... pela minha amiga poetisa 🌸🌼
O dia seguinte era o primeiro de abril. O amigo Zé Manel Campos — figura bem
conhecida em toda a Raia — tinha-nos convidado para um belo almoço, seguido de
uma deslocação, com dois outros amigos comuns, ao castelo de
Trevejo, do lado de lá desta linha que muito
mais do que dividir... une! É um local onde nunca me canso de voltar... e onde
já cheguei a pé, desde o 'meu' Xalmas ou desde os Fóios. Mas
esta deslocação ao pog de Trevejo não entraria na crónica... não
fora a brincadeira de que me lembrei para assinalar o primeiro de abril.
Trevejo, 01.04.2026, 16h30... quando
5 amigos chegaram
àquele mítico Castelo... "a pé" desde os Fóios 😂
A acompanhar meia dúzia de fotos, publiquei numa rede social: "E esta, hein?! Cinco septuagenários (um ainda não é, mas não lhe falta
muito 🫣) acabámos de percorrer 37 km a pé, entre os Fóios e Trevejo, pelos Llanos
de Navasfrías, as Torres das Ellas e a encosta sul do "meu" Xalmas.
Maravilha! No canto de cada sonho nasce a vontade... e a força
👣 🥾 💫. A Vida é Bela! 🥰🙏"
Há caminhadas que se planeiam com mapas, tracks, tipos de piso… e há
outras que se deixam escrever pelo caminho, ao sabor do improviso. A grande
rota do segundo dia de abril nasceu assim: pensada apenas pela vontade de
fazer uns bons quilómetros de Sol a Sol, desenhada apenas num muito leve
esboço… e depois entregue ao improviso que só estas terras sabem dar. Porque
aqui, em terras de Riba-Côa, com o Xalmas vigilante e os ventos da Malcata a
cantar, cada desvio é um convite, cada trilho é memória... a ver se descubro
‘buracos’ que ainda não conheça...
02.04.2026 — Antes das 7h saio de Vale de Espinho, de
mansinho… com o Sol a raiar, como que numa sarça ardente.
Deixei Vale de Espinho ainda em silêncio, pelo Areeiro, com o Sol a
começar a acordar os campos — e as almas. Passei o cruzamento da Canada, mas
hoje as minhas Fontes Lares não eram destino. Chamavam-me, isso sim, os cumes
da Serra do Homem de Pedra, onde os horizontes e as luzes são sempre
inspiração e força. A sudoeste, erguia-se a Serra da Estrela; a
sudeste, a silhueta inconfundível do ‘meu’ Xalmas; e, mesmo na linha do
Sol nascente, por trás das colinas da Sierra de Gata e à direita
da Peña de Francia, espreitavam os cumes da Sierra de Béjar. Que quadro! Que êxtase!
Quase no cume do Homem de Pedra, ao olhar para trás, para sul,
lá está a Serra da Estrela
Para nordeste e nascente, a linha de cumes da Peña de
Francia e da
Gata... com
Béjar a espreitar lá atrás
No cume do Homem de Pedra, a ideia era simples: descobrir novos caminhos para
descer em direção a Alfaiates… tarefa menos fácil do que parece. Com
Aldeia Velha aos pés, o rumo provisório passou a ser o Santuário de
Nossa Senhora da Granja, também chamada Senhora dos Prazeres — devoções
que há séculos se confundem e se completam. Aos 9 km de jornada, foi ali a
primeira paragem do dia.
Por entre líquenes e pastagens,
desço da serra rumo à
Granja
Santuário de Nossa Senhora da Granja, 08h55 ... 1ª paragem aos
9 km de percurso
A tradição conta que, durante as invasões francesas, uma mãe em fuga escondeu
o filho naquele lugar, por não o poder levar consigo. Meses depois regressou…
e encontrou o menino vivo, são e bem tratado. Quando lhe perguntou quem
cuidara dele, o pequeno respondeu: “Foi a Senhora que mora ali”, apontando para a capelinha. A partir daí, o lugar tornou‑se ponto de
romarias e de festa.
O Santuário de Nossa Senhora da Granja é um daqueles
lugares que parecem guardar um silêncio antigo...
Mas do silêncio nasceram palavras — as palavras de uma devota, também ela de
mochila às costas, como eu. Soitense, contou-me que já tinha ido a Fátima a
pé… e eu despertei-lhe a vontade de seguir um dia até Santiago de Compostela.
Brilharam-lhe os olhos quando lhe falei dos meus 17 Caminhos — um deles desde
Vale de Espinho, há quase sete anos.
Seguiram-se 'caminhos' através de uma paisagem que mais parecia
saída de uma qualquer "Terra Média"
Depois da Granja, os trilhos — mesmo os que não o eram — levaram‑me por
uma paisagem que parecia pertencer à Terra Média de Tolkien: fragas,
sombras, luzes e silêncios que só estas terras sabem dar. Entre o Cabeço do
Odre e o Prado Juncal, a progressão foi lenta, ao ritmo das pequenas linhas de
água que era preciso atravessar e da vegetação, por vezes densa e emaranhada.
Era como se o próprio Universo me sussurrasse: “Então não querias improvisar e descobrir novos caminhos?”
Entre Pero Maio e o Prado Juncal... quando do nada surgiu um
caminho...
vila histórica de Alfaiates
... que me havia de levar à
Pouco depois das 11h30 entrei em Alfaiates. Vila antiga, de fronteira e
de história, que tantas vezes me viu passar e tantas vezes entrou nas minhas
crónicas. Subi à torre de menagem — graças às obras de recuperação do velho
castelo, terminadas há apenas dois anos — para contemplar a panorâmica larga
que abraça a planura e as serras, da linha de fronteira à Sacaparte e à
barragem de Alfaiates.
Castelo de Alfaiates e panorâmica da Torre de Menagem; ao
fundo a Barragem de Alfaiates
Largo e Igreja da Misericórdia, 12h15
Em Alfaiates impunha‑se a pergunta: e agora, qual o rumo? Virar a
nascente — para a Sacaparte e Aldeia da Ponte — significaria entrar numa zona
onde improvisar novos caminhos seria ainda mais difícil, e acabaria por
obrigar, na parte final, a voltar a cruzar a serra de Aldeia Velha, Aldeia do
Bispo, Fóios… desníveis maiores numa fase em que o cansaço já pesaria mais.
Por isso, embora continuasse a desenhar a progressão à medida que avançava,
optei por apontar a poente, contornando as elevações por zonas mais baixas,
algures entre o Sabugal e Quadrazais. Mas estes pensamentos iam rodando entre
os meus ticos e tecos... enquanto seguia em direção a Aldeia da Dona.
Ribeira de Alfaiates: são 12h30... mas ainda só tenho 19 km nos
pés...
Mas... havia que parar para almoçar; passava das 13h30!
Alfaiates ainda ao fundo... com o 'meu' Xalmas por trás
Nesta GR desenhada ao sabor de cada momento, quando parei para almoçar… parei
mesmo. A tarde estava amena, quase quente, e uma bela sombra convidava a um
repouso sem pressas. A gestão horária já me tinha dito duas coisas: não iria
chegar à meia centena de quilómetros, e teria de me cingir aos trilhos que o
mapa garantia que, em princípio, existiam mesmo. E decidi virar o leme rumo à
Nave.
A improvisação continuava — mas agora dentro dos limites que o tempo e o
terreno impunham.
Há cor e aromas de Primavera, nos campos da Nave
Entre a Nave e Vila Boa, 15h10, 28 km
percorridos... enquanto a tarde ia desfilando
O “conta‑km” assinalou os 30 a sul de Vila Boa, num pequeno troço onde
o ritmo voltou a abrandar ao cruzar a Ribeira de Palhais. Mas às 17h15
estava a entrar na Torre e, embora em sentido inverso, reencontrava o
meu
Caminho de Santiago de 2019... aquele que iniciei em Vale de Espinho.
Há passos que nunca se perdem; apenas mudam de direcção...
À entrada da Torre, 17h15... quando entro no memorável Caminho
Vale de Espinho - Santiago de Compostela
E uma hora depois estou em Quadrazais. Sabia que ainda tinha
que "pedalar"... mas já me sentia em casa...
Em Quadrazais, vivi um daqueles episódios que só a Raia oferece. Filho
adoptivo destas terras há mais de meio século, há iguarias que me conquistam
sempre — e o queijo de cabra é uma delas. Costumo consegui-lo em Vale de
Espinho, mas desta vez a sorte parecia fugir-me. Ao passar pela aldeia,
lembrei-me da tabuleta “Vende‑se queijo”, que sempre vi na rua
principal... e pela primeira vez na vida fui lá bater à porta, apesar de não
ter comigo dinheiro físico, nesta jornada de Sol a Sol. Expliquei a situação à
D.ª Lurdes Mesquita — a queijeira da casa — e perguntei se
podia encomendar três queijos. Mas ela pô-los logo à minha disposição: “Eu confio”, disse. Ainda lhe ofereci o meu número de telefone; respondeu apenas: “Para quê? Confio”... e eu prometi que o mais tardar 2ª feira vou lá pagá-los. A Raia é, sem
dúvida, terra de gente boa e confiante!
Com mais 4 kg na mochila, às 18h50 estava a atravessar o
Côa e a passar a Capela do Espirito Santo
19h20 - Com a luz do entardecer, chego ao Alcambar e à
praia fluvial de Vale de Espinho
19h40 ... e estou quase em casa 💖
Sensivelmente treze horas depois de ter saído, regressei ao nosso retiro com
44 km percorridos de Sol a Sol. O corpo pedia descanso, mas a alma vinha leve,
com aquela leveza que só nasce quando o caminho se faz sem certezas, sem medo
de improvisar...
A GR que não estava desenhada em mapa nenhum acabou por se desenhar em mim:
nos passos, nos encontros, nos silêncios e nas pequenas surpresas que o
Universo guarda para quem nele acredita. Fechava-se assim mais uma jornada —
longa, luminosa e cheia de gratidão. Gratidão à Vida... mas também à minha
pequenina/grande arraiana, que além de ter passado o dia à minha espera me
preparara outra iguaria que adoro: uma saborosíssima taça de mílharas. Sim...
as "papas de carolo" na Raia chamam-se mílharas 😋