Somiedo ye un llugar mui prestosu, onde moraben les Xanes, seres máxicos
que salíen de les fontes y los ríos de pechu desnudu y llargos cabellos
roxos al vientu.
Somiedo… é uma das minhas "terras natais". Uma terra natal não é só
onde se nasce. Também é uma terra que nos chama, uma terra à qual nos sentimos
pertencer, uma terra pela qual nos apaixonamos… uma terra onde cada fraga,
cada cor, cada som, nos traz sensações de comunhão, libertação… catarse.
Desde há
quase 30 anos, nunca me canso de saborear a magia de Somiedo... mas desta vez o evento
nasceu de um daqueles desafios que nos despem as certezas. "
Ainda um dia gostava de voltar a participar numa actividade organizada por
ti...". Ouvi esta frase na minha
primeira caminhada do ano, da boca de alguém que já alinhou em vários dos meus desafios... no Gerês,
em Somiedo, na minha Malcata / Mesas / Gata... nas minhas "terras natais".
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Pola de Somiedo... estávamos na capital do Paraíso!
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Aquele desafio do Luís tocou-me fundo... e comecei a desenhar mais um episódio
para a estória das nossas vidas. Além da minha velha estrela… além dos 'Manos'
— Velhos e Novos — esta "aventura" reuniu 'famílias' caminheiras que, ao longo
dos anos, foram entrando no meu Caminho. O Caminho grande… o da Vida. Não
fomos, portanto, apenas caminhar. Fomos celebrar a sorte de unirmos a paixão
pelos grandes espaços... à celebração pelos valores e sabores da Amizade... à
paixão pela Vida.
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Algures sob o Pico Mirandiella, a norte do Puerto de San Lorenzo, 09.06.2026, 12h20
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Quando parti para esta fusão de 'famílias', confiava na amizade que se iria
estabelecer, mas o facto de muitos não se conhecerem entre si criava uma
incerteza... um receio natural. Mas
Somiedo é um daqueles lugares
onde as palavras vacilam e o silêncio das montanhas assume o comando... e
desse comando resultou a magia da união, da partilha, da sã alegria de Viver.
"Happiness is only real when shared "
... escreveu Chris McCandless antes de morrer. E sim, a Vida deve ser Vivida
com Amigos e entre Amigos... e estes dias foram, muito para além das
caminhadas, mais duras ou menos duras... estes dias foram uma verdadeira Festa
da Vida, da Amizade, da partilha de Paixões, de Amor💓
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A caminho de Valcárcel, na primeira
das estórias escritas nesta incursão às terras mágicas de
Somiedo
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Vindos de 'famílias' diferentes — "
Caminheiros Gaspar Correia", "
Caminhar e Ser Feliz", ou simplesmente... amantes da Montanha e da sã camaradagem — sabia à
partida que esta seria uma fusão de "duros" e de menos "duros". Delineei por
isso quatro caminhadas, com duas delas acessíveis a quase todos e outras duas
mais dirigidas aos que preferem — e podem — subir aos céus...
A primeira, na terça-feira, levou-nos
do Puerto de San Lorenzo a
Santiago de Hermo: a mais curta e a mais a norte das quatro... mas também uma das duas de
maior desnível descendente, uns belos 1200 metros negativos! Mas, como
descrever o indescritível é tarefa inglória, remeto o leitor para o vídeo
destes dias mágicos, no final desta 'crónica'. Palavras... vou dirigi-las mais
para descrever momentos... emoções... lendas... estórias que fizeram a
história e o Caminho destes dias.
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Valcárcel, 14h25 -
Doña Covadonga já não está entre nós...
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Quando
em 2017
passei em
Valcárcel,
Doña Covadonga manifestou a sua alegria e simpatia, ao ver passar um
grupo de
senderistas portugueses. Ali estivemos uns minutos de
conversa... e, agora, levava a foto de então para lhe mostrar. Bati à porta...
mas ninguém me atendeu. Mais abaixo, dois anciãos descansavam à sombra.
Mostrei-lhes a foto, perguntei-lhes por ela... e soube que já partiu para
outra dimensão da existência. Talvez possa, lá, ver a foto...
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Santiago de Hermo, "perdida" nas
montanhas e no Tempo - 09.06.2026, 16h00
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No dia seguinte, tinha uma aventura há muito pensada: entrar em Somiedo
descendo o
Shangri-La do vale de
Cereizales — o vale do alto
Pigueña —
desde a aldeia leonesa de Orallo. De certo modo, uma travessia semelhante à que delineei
há 9 anos, entre a também leonesa
Genestoso e
Villar de Vildas.
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Vale de Orallo, 10.06.2026,
10h35 - Afinal o Shangri-La também era na vertente leonesa...
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Os romanos classificaram estas montanhas como "terras de lobos e espíritos".
Os guerreiros de
Orallo usavam o
Puerto de Cereizales como "armadilha verde"... mas, à medida que
subíamos, o verde ia dando lugar ao negro. Aquelas encostas foram o cenário de
uma das crises ecológicas mais dramáticas da Cordilheira Cantábrica em agosto
e setembro de 2025. Enquanto os "menos duros", com o meu 'mano velho' Mousinho
a comandar, conheciam
Villablino — capital do vale de
Laciana — eu receava precisamente ver o meu
Shangri-La em
cinzas. Ao almoço, a metros da vertente asturiana e de entrar em Somiedo...
preferi adiar o olhar e ver o vale só mesmo quando iniciássemos a descida.
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Três Zés na "fronteira" Leão / Astúrias, no
Puerto de Cereizales (1743m alt.):
afinal o Shangri-La resistiu 💓
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O Universo é Inteligente e a Natureza é sábia. Com ligeiras cicatrizes na
encosta esquerda, o
vale de Cereizales estava afinal praticamente
incólume. A emoção, ao debruçar-me naquela varanda natural, foi por isso de
felicidade e esperança... ao ponto de, na descida para a
Braña Los Cuartos... irmos a cantar o famoso
yodel alpino da Heidi: "
olaré-i-oh-i-oh" 😂
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Descida do vale do Pigueña para
a Braña de La Pornacal e para
Villar de Vildas
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Em
Villar de Vildas, a velhinha
Casa La Corte recebeu mais uma vez o grupo. Já perdi a conta às vezes que ali acabei
ou comecei "aventuras" pedestres, inclusive a solo. O grupo dos "menos duros",
de regresso de
Villablino, fora obrigado por uma greve a almoçar em
Pola de Somiedo, mas muitos foram ter connosco... e connosco celebraram
a Vida... numa autêntica festa da sidra.
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Villar de Vildas, 10.06.2026, 16h55
- A alegria do reencontro, na Casa
La Corte... a alegria de Viver e (con)Viver...
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À frente da
Casa La Corte já não vi o velho Adriano — guardião lendário das
brañas e
daquele ícone de Somiedo — mas fomos recebidos pela energia da sua filha
Soraya. A hospitalidade daquela mítica aldeia e daquela mítica Casa continua
em muito boas mãos.
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3º Dia: no alto de Piedraxueves,
11.06.2026, 10h50, com um pastor somedano
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Ao terceiro dia voltámos ao
Puerto de San Lorenzo, para virmos agora em
direcção sudeste, pelo
Cordal de La Mesa, rumo à aldeia mágica de
Saliencia. É,
talvez, o percurso que mais vezes fiz naquelas minhas "terras natais". Com
mais um dia esplendoroso (só no primeiro faltaram os céus azuis), foi também a
jornada que contou com mais participantes. Sempre pela livre iniciativa de
cada um, os que não fizeram a travessia seguiram no autocarro para o alto de
La Farrapona, viram o
Lago de La Cueva — o primeiro dos lagos de montanha
da
Ruta de los Lagos — e passearam e almoçaram em
Saliencia... no velho
Albergue de
tantas memórias.
Na tradição oral das gentes de Saliencia,
Peña Michu — o cume que domina o Cordal — era um local
sagrado para os 'mouros' — não se referindo necessariamente aos povos do
norte de África, mas sim a uma raça mítica de seres gigantes, mágicos e
pagãos que habitavam as montanhas antes dos homens.
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11.06.2026, 11h30 - Quando quase metade do grupo foi à procura do
tesouro, até ao cume de Peña Michu
(1766m alt.)...
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Reza a lenda que, bem no coração da rocha, existe uma gruta secreta onde está
guardado um braseiro de ouro maciço, ou uma cabra com cornos de oiro. Segundo
o mito local, a entrada da gruta só se revela a quem subir à
Peña ao primeiro raio de Sol da manhã de São João. Se o caminhante
tiver o coração puro e amar verdadeiramente a montanha, os espíritos
concedem-lhe protecção eterna... o que, para quem anda naquelas altitudes,
vale bem mais do que o próprio ouro!
Como não podíamos esperar pelo São João, tentámos a sorte... e ganhámos o
tesouro da panorâmica esplendorosa do cume, 360º à nossa volta, e também a
companhia de um cão pastor, com coleira contra os lobos, que nos começou a
acompanhar em
Piedraxueves e fez todo o percurso connosco.
Rapidamente o baptizámos de
Michu; que saudades do "meu"
Mastín, já lá vão mais de 12 anos...
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Ao longo do Cordal de La Mesa:
estávamos no Céu ou na Terra?... Num sonho ou na realidade?...
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Sendo uma das principais auto-estradas da antiguidade que ligava Astúrias a
León, o
Cordal de La Mesa viu passar reis, exércitos e tesouros.
Uma das histórias mais contadas remonta à Idade Média, quando uma condessa
leonesa, famosa pela sua arrogância e por desdenhar os pastores da montanha,
insistiu em cruzar o
Cordal durante uma tarde de invernia. Os locais
avisaram-na, mas a comitiva avançou... até que uma violenta lufada de vento
atingiu a carruagem e fê-la tombar encosta abaixo. A condessa sobreviveu
graças ao auxílio dos pastores de
Saliencia, que a acolheram nas suas humildes cabanas de
teito. Diz-se que a
nobre senhora desceu a montanha curada da sua soberba e que, em agradecimento,
mandou construir um dos caminhos empedrados que liga a aldeia aos pastos
altos... precisamente aquele por onde descemos do alto de
La Magdalena para a "minha" aldeia
mágica.
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Descida para Saliencia... e o descanso dos
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"guerreiros"... incluindo o "nosso" Michu...
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Saliencia... o rio, a Igreja, o
velho
Albergue... as memórias...
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Encastrada no fundo do vale glaciar,
Saliencia carrega também o
misticismo da água. O velho
Albergue de
tantas memórias (o edifício foi a antiga escola da aldeia) certamente
recordará as histórias das
Xanas (as ninfas das águas asturianas) que
habitavam as margens do rio
Saliencia. Diz-se que lavavam os seus
lençóis de linho nas noites de lua cheia e que o som do rio a correr nas
pedras mais não era do que o eco dos seus cantos.
Para mim, aquele edifício também guarda memórias de mais de 25 anos. Quantas
vezes ali dormi ou descansei? Perdi a conta. Desde os tempos "imemoriais" com
"legiões" de alunos — incluindo o testemunho de amores e desamores entre eles
e elas — aos grupos de amigos que lá levei (alguns já desaparecidos deste
nível da existência), às três gerências que já lá conheci, desde
o lendário Roberto Menéndez
à Laly Pérez e ao José Cofiño... tantos e tantos serões,
espichas, abraços... tanta Vida!
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Pelas 9h da manhã de 6ª feira, dia 12, saímos de
Valle de Lago pela
Igreja de Sta María Magdalena... rumo à Montanha
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A última jornada era a mais desafiante: a partir da também mítica aldeia de
Valle de Lago, tínhamos pela frente 21 km de
alta montanha, ultrapassando a barreira dos 2000 metros de altitude no cume de
Peña Xana (ou
Peña Chana, ou
Llagüezos, na vertente leonesa). Apenas 12 alinharam à partida; os
restantes optaram por um percurso bem mais acessível, entre
Valle de Lago e o
Lago del Valle, ou mesmo pelo descanso total em Pola de Somiedo.
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Acima já da Braña de Sousas (ou
de Tabladiellu), a caminho do
Alto del Muñón... a "pedra do beijo" de há quase 20 anos!
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Subindo para as pastagens de Tabladiellu, umas boas dezenas de cabeças
de gado eram guiadas por uma dinâmica pastora que, a certa altura, nos indagou
sobre de quem tinha sido o cumpleaños de terça-feira. Estranhando a
questão, perguntei-lhe se já nos tinha visto... e recebi como resposta: "¡Pues... yo soy la cocinera en Casa Miño, donde os alojáis! "... 😂😂😂
Que bela lição de vida, de trabalho, de luta, ali tivemos. De manhã, conduz
dinamicamente o gado às pastagens de altitude; ao fim da tarde, desce ao vale
e trabalha na cozinha do Hotel!
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De novo na vertente leonesa, ao meio dia estávamos à vista da mole
imensa de Llagüezos... ou Peña Chana
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Vista "aérea" do vale de
La Cueta de Babia, do início da
épica subida de Peña Chana
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Subi
Peña Chana há 6 anos, desde
La Cueta de Babia. Escrevi nessa altura que, não sendo dos cumes mais altos (2068m alt.), é
contudo dos mais vertiginosos: 320 metros de desnível em menos de 1 km ...
talvez o cume mais duro de Somiedo. Desta vez, contudo...
Peña Chana pareceu-me seis vezes mais difícil! Aquela subida
disse-me duas coisas: a primeira, que há 6 anos eu ainda não era
septuagenário; e a segunda... que agora os 70 já lá vão há quase três anos...
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Não... nem as fotos nem o vídeo dão a noção plena do que é a subida ao
cume de Peña Chana...
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... e sim, foi dali que viemos, lá de baixo... por esta garganta
escarpada 😨
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O 'mano' Zé Manel participou nesta jornada mais dura, mas, com problemas num
joelho, optou por não fazer a ascensão ao cume. Dos restantes... adivinhem lá
quem foi sempre em último? O septuagenário, pois claro. Na frente, o '
speedy gonzalez' Deonel. E mais quem? Pois, ainda não falei nele: o Paulo... o "nosso"
motorista / caminheiro, amigo e conhecido de quase todo o grupo, 'gasparitos'
ou não 'gasparitos', desde há mais de duas décadas. Quase movi montanhas para
conseguir que fosse ele o nosso motorista; e sendo esta a única caminhada
circular... era a única que ele poderia fazer na íntegra.
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Cume de Peña Chana (2068m
alt.), 13h10 -
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Uma hora para uma progressão de 1 km...
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Será esta a fenda onde habita a Xana'l Aire ... a Xana de Peña Chana?...
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Dizem os mais velhos de
Valle de Lago que, muito antes de haver
brañas ou caminhos marcados,
Peña Chana era guardada por
uma
xana que vivia numa fenda onde a neve nunca derretia por completo.
Chamavam‑lhe
La Xana'l Aire, porque nunca aparecia junto à água, como
as outras, mas apenas quando o vento mudava de rumo e soprava quente das
terras de
Babia.
Nas tardes de verão, a xana saía para pentear os seus longos cabelos,
que brilhavam como a neve tardia. E quem subia demasiado cedo ou demasiado
tarde podia ouvir — não via, apenas ouvia — o som do pente a passar pelos
fios, confundido com o assobio do vento...
Um pastor de Sousas jurava que, certa vez, ao perder uma ovelha no alto,
encontrou-a tranquila junto à fenda da rocha, como se alguém a tivesse
guardado ali. Ao aproximar-se, sentiu uma mão leve no ombro e uma voz a dizer:
“Baxa, que’l día yá nun ye pa homes.”. E a ovelha seguiu-o como um cão
fiel.
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Passava já da uma e meia da tarde:
baxada de Peña Chana, pal colláu de Sobre l'agua
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Quando o vento canta na
Peña Chana, dizem que é a
xana a lembrar
aos caminhantes que ali, entre Somiedo e Babia, há fronteiras que não se vêem…
só se sentem. E por isso...
nós tamén baxamos, ma pal colláu de Sobre l'agua, onde nos
esperava o Zé Manel, para almoçarmos todos juntos.
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Os fabulosos Picos de La Mortera, no anfiteatro
natural onde se encaixa a Braña de Murias Chongas
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Faltava-nos o último dos
ex-libris de Somiedo e destes dias
mágicos: o
Lago del Valle, o maior lago de
toda a cordilheira cantábrica, coroado pelos
Picos Albos e pela mole magestosa de
Peña Orniz. Alguns de nós já subimos ao cume, quase a 2200 metros de altitude... há
mais de dez anos!...
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Descida para o
Lago del Valle (1560m alt.)...
e já só faltava baxar pa Valle de Lago
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A frescura dos primeiros dias tinha entretanto dado lugar ao calor. Alguns dos
que não fizeram a caminhada principal subiram até ao lago, calmamente... e
mais pela fresca. Nós - os "duros" 😂 - fomos ocupando a mente, cada um à sua
maneira, à medida que descíamos aqueles 6 km no vale dos topónimos gémeos.
Sim, estávamos a descer do
Lago del Valle para a aldeia de
Valle de Lago... acompanhando o curso do
Rio del Valle.
O grupinho dos que optaram pelo descanso no vale, almoçaram no bar do
Hotel Somiedo... onde
nos aguardavam para a confraternização final. O actual gerente... é bem
português, de Alfândega da Fé.
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As 4 caminhadas principais destas estórias Somedanas 2026 (clica para
ampliar). Os links para ver no
Wikiloc
estão embutidos no texto das descrições.
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Falta falar, claro, da
Casa Miño... que desde há duas décadas é a "minha casa" em Pola de Somiedo,
particularmente quando levo estas famílias alargadas. Os Hermínios (pai e
filho) - carinhosamente apelidados
Miños - e a Luz (que agora
andava a gozar as delícias da
jubilación) são também já como que
família. Há 20 anos que, de vez em quando... lhes encho os quartos e o
restaurante... 😂
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Casa Miño, 12.06.2026, 22h30 - Com a
cozinheira /
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pastora e com o Hermínio (pai)... em jeito de despedida
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E assim se aproximava... a hora da despedida. E em despedida de uns dias
maravilhosos no Paraíso de 𝗦𝗼𝗺𝗶𝗲𝗱𝗼... que melhor sítio poderia escolher para
deixar as minhas velhas botas
Bestard Top Black? "Especialistas" de alta montanha e só usadas em
alta montanha... o peso de 14 anos já era grande... e "morreram" no melhor
dos locais para lhes fazer o "funeral":
Somiedo!
🥾
Minhas botas, velhas, cardadas...
🥾
palmilharam léguas sem fim...
Dantes cantávamos isto... quando eu tinha 17, 18, 19 anos... pois... daqui a
pouco há 60 anos... há tanto tempo que ainda havia dinossauros... 😂
Esta é assim a crónica e a 'reportagem' destes dias, numa fusão de Amig@s e
de 'famílias' caminheiras que foram entrando na minha vida. Uns caíram-me
dos céus (ou dos Céus) há mais de 50 anos... outros há "apenas" uma ou duas
décadas... uns não conheciam outros... e não fui eu que os uni a tod@s...
foi a magia de Somiedo... foi a mitologia asturiana... foram as
Xanas e Nuberus daqueles bosques e daquelas montanhas mágicas!
Quem já tinha ido e estado em Somiedo comigo já conhecia um pouco da minha
Paixão por aquelas terras... mas desta vez a minha Paixão triplicou,
quintuplicou! E porquê? Porque nenhuma terra é mágica sem gente, sem Vida,
sem Amor... sem os olhos e a Paixão que vêem e se apaixonam pelas
paisagens... mas também pela Felicidade de as partilharmos, de as Sentirmos,
de as transmitirmos.
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ADEUS SOMIEDO... mas não é um adeus, é só um até breve! 13.06.2026, já em terras
de Babia, a caminho de casa
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Obrigado a todo(a)s os que foram... por terem ido, estado, (con)Vivido e
escrito as páginas das estórias que Vivemos e Sentimos... as estórias que se
fizeram Caminho. Não foi por acaso que o Universo nos permitiu estarmos
juntos neste evento... nada acontece simplesmente por acaso.
Carl
Sagan, Fred Hoyle e tantos outros... não acreditavam muito em acasos... 🤔🙏
Gracias a la Vida 🙏