quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Na senda das águas do Alviela, da Bobadela aos Barbadinhos

... ou um trilho urbano com sabor a passado

Como os terrenos se encontram, sobrecarregados de água, mas ao mesmo tempo cheios de vontade de desenferrujar e voltar às caminhadas, o amigo Deonel - mentor do "Caminhar e Ser Feliz" - desafiou-nos para uma caminhada citadina, a partir de Sacavém, tentando acompanhar o Aqueduto do Alviela até à Estação Elevatória dos Barbadinhos e regressando a Sacavém pela margem do Tejo.
Bobadela, 18.02.2026, 07h50 - Para dois... a caminhada
teria quase mais 5 km do que para os outros 13...
Uma caminhada circular a partir de Sacavém? Ora... para mim isso transformou-se logo numa caminhada desde a porta de casa, e convidei a Madalena para vir cá ter e fazer o mesmo... 😂
E assim, pouco passava das oito da manhã quando atravessámos a Bobadela rumo ao Trancão, num dia acinzentado mas seco... até próximo da minha velha Escola Secundária de Sacavém. Xiiii... já lá vão quase 18 anos que deixei o meu ensino, que tanto amei e tantas vivências boas me deu.
Portela, Moscavide, Olivais, Braço de Prata... na senda do Aqueduto do Alviela
Quando Lisboa começou a crescer rapidamente, no século XIX, o velho Aqueduto das Águas Livres já não chegava para abastecer a cidade. A solução foi construir um novo sistema de captação e transporte de água: o Aqueduto do Alviela, erguido entre 1871 e 1880, preparado para transportar água captada a 114 km a norte de Lisboa, originária das nascentes dos Olhos de Água do rio Alviela. Recorrendo raramente a grandes vias com trânsito, ainda hoje é possível acompanhar diversos troços do velho aqueduto, paralelo à Avenida Infante D. Henrique até próximo da Estação de Braço de Prata.
Parque da Quinta das Flores, próximo de Braço de Prata, 10h30
A Quinta das Flores é um dos últimos testemunhos da antiga paisagem rural de Marvila. Antiga propriedade agrícola, hoje está praticamente engolida pelo tecido urbano, mas durante séculos foi uma quinta de recreio e produção, típica da cintura rural que rodeava Lisboa.
Continuamos na senda do velho Aqueduto, aqui na passagem de nível da Azinhaga dos Alfinetes
A velha Escola Afonso Domingues apareceu‑nos a seguir, ao virar da esquina, silenciosa e cansada. As paredes, outrora cheias de vida, estão agora marcadas pelo abandono; as janelas, que viram gerações entrar e sair, parecem olhar o mundo com uma tristeza antiga. Custa vê‑la assim, mesmo para quem não a frequentou... mas o amigo Mina, nosso guia nesta caminhada com sabor a passado, estudou lá. Há lugares que parece que guardam uma parte de quem os viveu, e quando os encontramos neste estado, é como se nos devolvessem um espelho de um tempo que não volta.
O que resta da velha Escola Afonso Domingues: ruínas perdidas num tempo que foi ontem...
Seguiu-se Xabregas, com passagem em velhas vilas operárias — como a Vila Amélia Gomes e a Vila São João — pequenos mundos que são quase aldeias encaixadas no tecido urbano, com uma identidade própria que resistiu a décadas de transformação. Cada uma delas conta uma história de trabalho, de vizinhança e de sobrevivência.
Panorâmica sobre o Tejo, ao fundo, a caminho de Xabregas, 11h25
Vila Amélia Gomes... será que estávamos em Lisboa?...



Vila São João
Forte de Santa Apolónia. Sim... Santa Apolónia não é só a Estação de comboios...
Subida para os Barbadinhos, com o Mosteiro de Santos-o-Novo a olhar o Tejo
Pouco passava do meio dia e estávamos no antigo Convento Franciscano dos Barbadinhos, onde foi instalado o reservatório final da água transportada pelo Aqueduto do Alviela e construída uma estação elevatória a vapor, destinada a bombear a água para a cidade de Lisboa, que esteve ao serviço até 1928. Hoje as instalações pertencem à EPAL e constituem o Museu da Água.
Museu da Água e Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos, 12h15
Estávamos com 14 km desde Sacavém, eu e a Madalena mais dois... e eram horas de almoço. Sabíamos que o regresso seria mais ou menos de igual distância, mas mais rápido, optando por seguir a margem do Tejo. E por isso... também optámos por almoçar à maneira, n'O Caçador de Xabregas. E o restante percurso não teve história... mas teve o aparecimento de um belo Sol, já na zona do Parque das Nações, depois do cinzento e da chuva miudinha que nos tinha acompanhado.
Há sempre uma luz e um Sol que espera por nós... Parque das Nações, 15h40
Com quase 28 km nos pés - e ainda
faltavam 2 - estávamos quase de regresso...
Que belo desentorpecer o Deonel e o Mina nos proporcionaram, a 15 carolas das caminhadas durante a semana... bem sei, apenas possíveis aos "técnicos" privilegiados... 😁
Mas estamos a um mês da Primavera... e os sonhos e projectos andam no ar... 🙏

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Entre Penha Garcia e as Idanhas... sob a fúria da Marta

No final da crónica da XV Marcha Nacional de Montanha, deixei no ar a pergunta que regressa sempre, teimosa e luminosa: qual será a próxima Montanha? A resposta não tardou. A “montanha” seguinte já estava marcada pela mão da família gasparita — os Caminheiros Gaspar Correia — e levar-nos-ia às terras de Penha Garcia e das Idanhas. Só que… a “Marta” também quis juntar-se ao fim de semana. E quem foi a “Marta”? Mais uma das intermináveis depressões que nos têm visitado, insistente e ruidosa, tentando assustar o grupo. Mas um grupo com 41 anos de caminhadas não se deixa intimidar assim. Tudo se resolve com gestão, calma… e aquela velha arte de adaptar o passo às circunstâncias.
Penha Garcia sob a "Marta", 07.Fev.2026, 15h25
Conta‑se que, na Serra de Penha Garcia, vivia uma velha — uma figura mítica, metade mulher, metade espírito da montanha — que guardava os penedos, os fósseis, as fragas e as águas que correm para o Ponsul. Quando alguém ousava desafiar a serra, a velha batia com o seu cajado. E então o vento descia em rajadas pelo vale, a chuva caía como se o céu tivesse rebentado e as fragas ecoavam como tambores antigos. Quando o tempo virava de repente, dizia-se apenas: “A Velha da Serra acordou.”
Barragem do Rio Ponsul, Penha Garcia, 15h15
Pois a "Marta" deve ter encarnado na velha da Serra. Chegados a Penha Garcia à hora do almoço... , fomos recebidos por frio cortante, vento agreste e uma chuva persistente que não dava tréguas. O habitual almoço campestre acabou por ser dividido entre o autocarro e um café da vila. E quando nos dirigíamos para o Pelourinho e para a "Casa dos Fósseis" — integrada nos espaços museológicos da Naturtejo — a velha da serra zangou-se de vez. As ruas estreitas transformaram‑se em autênticos rios, o vento inclinava a chuva como se quisesse arrancar telhas e guarda‑chuvas, e cada esquina parecia ecoar o mau humor da serra. Em Penha Garcia... a “Marta” deve ter passado mesmo à hora a que ali chegámos e visitámos aquele centro de interpretação — como que a querer testar a nossa perseverança e capacidade de adaptação...
E não houve outro remédio senão adaptarmo-nos às circunstâncias. Os “gasparitos” não são loucos. Depois de aprendermos o que são cruzianas e de imaginarmos como seriam as paisagens no tempo das trilobites, e depois ainda de visitarmos a eclética Casa‑Museu do Padre João Pires de Campos, que guarda o vasto espólio pessoal que doou ao município, subimos ao miradouro e ao Castelo, aproveitando uma ligeira aberta da tempestade. Mas não houve outro remédio senão “fugirmos” para o abrigo que nos estava reservado, em Idanha‑a‑Nova. A Rota dos Fósseis teve de ficar para outras "núpcias". Mas a habitual festa de Carnaval Caminheiro, essa, não se perdeu — evidentemente.
E o dia seguinte acordaria completamente diferente. Idanha-a-Nova, 08.02.2026, 07h35
Durante a noite, a “Marta” viajou para terras da Extremadura espanhola. E em Idanha-a-Nova acordámos para um belo domingo de Sol, convidativo à missão que nos une: caminhar. Assim, antes das 9h30 já estávamos na pequena aldeia de Carroqueiro, aos pés do grande tor granítico de Monsanto, prontos para marchar rumo à aldeia histórica de Idanha-a-Velha, ao longo de um belo troço da GR12, a Grande Rota de Idanha, que liga aliás também a Penha Garcia e às Termas de Monfortinho.
De Carroqueiro a Idanha-a-Velha, numa bela manhã de domingo
As terras evidenciavam bem a quantidade de chuva que se tem abatido sobre este cantinho ocidental europeu, mas os 5 km do percurso fizeram-se sem dificuldade em cerca de duas horas. Avistar e entrar em Idanha‑a‑Velha vindos de norte, pela GR12, é entrar num dos lugares mais antigos e mais carregados de história do nosso território. A velha Civitas Igaeditanorum — a Egitânia romana — também foi sede episcopal visigótica, povoado moçárabe, praça medieval e, mais tarde, uma aldeia rural onde cada recanto parece guardar uma camada diferente da história. Hoje... tem 40 habitantes...
O monumental lagar de varas, impressionante na sua escala
e na forma como testemunha séculos de trabalho e engenho
Idanha-a-Velha... onde cada recanto parece guardar um capítulo do grande livro do Tempo...
Descemos ao Ponsul e à ponte romana, sólida e serena. Caminhámos até à antiga Sé, austera, quase solene, lembrando que esta pequena aldeia foi, em tempos, centro de poder espiritual e administrativo.
Também pode ver no Relive ou no Wikiloc
Mas de Idanha‑a‑Velha seguiríamos para Alcafozes... onde nos esperava o almoço de encerramento deste belo fim de semana que a “Marta” nos queria estragar. Coitada... não conhecia a garra dos gasparitos... 😂
E entre conversas, risos e o conforto merecido, celebrámos mais uma jornada bem vivida — porque, no fim, nem a fúria da velha da serra consegue travar quem gosta verdadeiramente de caminhar. A Madalena, claro, também alinhou nesta “aventura”… até porque já é gasparita de pleno direito.
E às sete horas estávamos em Lisboa. Em dia de eleições, naturalmente — mas o dever cívico já o tínhamos cumprido antecipadamente no domingo anterior. Cívico… e civilizacional…!