domingo, 19 de abril de 2026

Do trilho das hortas ao barranco do Demo e à Fóia de Monchique

Bem-vindos a uma experiência sensorial única. Esqueçam o Algarve dos postais de praia; estamos prestes a desbravar o maciço ígneo de Monchique, onde a biodiversidade e a geologia contam histórias milenares.
Era com esta promessa que abria o preâmbulo da documentação preparada pelos organizadores de mais um capítulo da história dos Caminheiros Gaspar Correia. Previa-se um fim de semana quente — o termómetro não enganava — mas o verdadeiro calor vinha da Amizade que cimenta a 'família gasparita'. No pelotão habitual de amigos, lá estava a minha 'pequena arraiana', os nossos 'manos velhos' mais antigos, e, a dar aquele seu toque de poesia, mais uma vez também a 'raposita' Madalena. Em boa hora decidiu adoptar estas hostes... e em melhor hora foi adoptada por elas. 💞
Monchique, 18.04.2026, 11h20 - Depois de uma viagem desde Lisboa, ia começar "uma experiência sensorial única "
O percurso de sábado começou na "Sintra do Algarve", seguindo o PR7 MCQ, o Trilho das Hortas, num anfiteatro de socalcos que mergulham na ruralidade autêntica, até à aldeia de Pardieiros.
Na ruralidade da Serra de Monchique, rumo a Pardieiros
A previsão de calor ia-se confirmando. O sol decidiu abraçar o maciço ígneo e, à medida que o ar ficava espesso, as subidas pareciam duplicar de extensão e de inclinação. Pouco depois do almoço, a minha 'guerreira' acusou o esforço... mas o caminho não se faz apenas de ritmo, faz-se também de presença. A generosidade deu um passo em frente quando a presença de um local se cruzou connosco, mostrando que neste mundo ainda há gente boa e tornando possível transportar duas 'manas' até ao local onde o autocarro recolheria o grupo. Um gesto simples que, naquele momento, valeu mais do que qualquer trilho perfeito.
Antes das quatro da tarde já as hostes se reuniam em Alferce. O bar à entrada deve ter visto o stock de 'loirinhas' a chegar ao fim, enquanto recuperávamos o fôlego para o que aí vinha. É que ainda havia uma segunda parte da jornada (que, por razões óbvias, já nem todos abraçaram): o Barranco do Demo. Só o nome já impunha respeito.
Igreja de São Romão
de Alferce, 15h55
No Barranco do Demo, 16h45... com a esteva a pintar este maravilhoso quadro!
É conhecida em toda a galáxia a minha aversão a esta moda dos passadiços — a tentativa de domesticar a Natureza com madeira e degraus — mas, como o dever chamava, lá fui... e o meu coração de caminhante ficou lá em baixo, a olhar com nostalgia para o velho trilho que, notoriamente, ainda lá resiste. Ficou a pena de não ter sentido o chão a sério, em vez de martelar tábuas nos domínios do 'Demo'... e às cinco horas da tarde estávamos todos no autocarro.
Silves foi a cidade escolhida para a pernoita... nestas fotos das 20h00 de sábado e das 08h00 de domingo
Se o sábado foi dedicado às hortas, aos vales e aos barrancos demoníacos... o domingo foi reservado às alturas. A Fóia, com os seus 902 metros de altitude, é o soberano ponto mais alto da Serra e de todo o Algarve. A ascensão faz-se a partir da estrada, ligeiramente a poente da vila de Monchique; e o gráfico não enganava: vencemos quase 300 metros de desnível em apenas 1,6 km.
Os heróicos conquistadores da Fóia de Monchique (902m alt.) - 19.04.2026, 10h15
A subida à Fóia é, de facto, daquelas que nos obriga a trocar as palavras pelo fôlego, mas que nos recompensa com a sensação de termos o Algarve inteiro a render-se aos nossos pés. Apenas uma vintena de 'gasparitos' se atreveu a encarar o desafio e a conquistar o cume passo a passo; os restantes... bem, os restantes também subiram, mas no conforto do autocarro e por um caminho, digamos... menos 'vertical' 😂. A nossa jovem 'raposita' claro que subiu galhardamente 😊
"Centro Comercial" e geodésico da Fóia... anacronicamente barrado aos caminhantes...
A Fóia guarda efectivamente uma ironia digna de um guião surrealista. No ponto onde o Algarve atinge o seu apogeu, o acesso ao marco geodésico é proibido, encerrado dentro de uma área militar delimitada. A escassos metros da glória, só pudemos contemplar o vértice através da vedação. É o paradoxo de Monchique: conquistamos a montanha, mas o topo oficial é território reservado. Valeu-nos a vista imensa, que essa, felizmente, ainda não precisa de autorização militar para ser desfrutada.
Mas fomos brindados, na Fóia, pela presença de fabulosos
exemplares de rosa albardeira (Paeonia broteroi)
Onde o Algarve abraça o horizonte. Entre o azul do céu e o mar, ao fundo... houve quem jurasse ver Marrocos, a Madeira, as Canárias! A Fóia tem destas coisas: quanto mais alto subimos, mais longe a vista (e a imaginação) alcança! 🌊🌍
Pouco depois das onze da manhã estávamos a descer da Fóia para leste, agora com a família 'gasparita' reunida e completa. Tal como no dia anterior, parte do percurso corresponde a um troço da GR13, a "Via Algarviana", mas cruzada a Ribeira de Monchique inflectimos para sul. O objetivo era a estrada Monchique - Fóia, onde terminámos a jornada a cerca de 600 metros do ponto onde a havíamos começado... mesmo a tempo de o estômago reclamar o seu direito ao almoço.
No reino das cores e do ar puro, à medida que descemos a Serra
E descemos a Serra... até ao merecido almoço e "fim de festa", para o regresso de mais um episódio da vida dos Caminheiros Gaspar Correia
Caminhada da Fóia (clique para ver no Wikiloc)
A Teresinha recebeu-nos para o repasto final; pelo menos é esse o nome do restaurante que os organizadores haviam seleccionado, onde as calorias perdidas no Barranco do Demo e na ascensão à Fóia foram devidamente (e alegremente) recuperadas. Mais do que um almoço, foi a nossa festa de encerramento; um momento de comunhão, como sempre, onde as histórias do fim de semana foram partilhadas entre brindes e gargalhadas. Com o estômago reconfortado e a alma cheia pelo calor da amizade, iniciámos o regresso à 'capital do império'. Na bagagem trazíamos o cansaço bom das subidas, o orgulho da nossa 'raposita' Madalena - cada vez mais 'gasparita' de gema - e a certeza de que Monchique, com os seus trilhos ígneos e gentes generosas, ficará gravado na memória de todos.
Até à próxima fraga!... 🙋

domingo, 12 de abril de 2026

Caminho dos Simpsons... o K39 que foi K41 🤪

Já há algum tempo que seguia as passadas do grupo 'Caminheiros Daqui e d'Além'. Fundado na Rondulha — uma aldeia que se divide entre Vila Franca de Xira e a Arruda dos Vinhos — define-se simplesmente como um grupo informal de pessoas que se juntam para caminhar. Desta vez, porém, não foi apenas o espírito do grupo que me atraiu, mas sim o baptismo surreal de uma caminhada intensa e circular entre Vila Franca de Xira e Alenquer: o 'Caminho dos Simpsons' 🤪. O nome, longe de ser uma alusão satírica ao espelho da civilização ocidental, nasceu como homenagem ao dia em que a família amarela de Springfield se estreou nos ecrãs: 19 de abril de 1987. Por ironia do destino, graças a uma antecipação que me caiu como um presente, consegui alinhar nesta odisseia.
Afinal, se o percurso prometia ser longo e o desafio intenso, mais valia percorrê-lo com a irreverência de um Simpson do que com a ingenuidade de um Marreta... 😂
E assim... antes das oito da manhã lá fui ter ao ponto de encontro da 'malta', debaixo do viaduto da A1 em Springfield...
desculpem, em Vila Franca de Xira. O Seymour Skinner (o Director da Escola de Caminheiros...) deu as instruções a todo o círculo social que ali se reuniu, para o qual consegui cativar a minha irmã Lisa, vegetariana... às vezes; pois... eu sou o Bart Simpson, o caminheiro rebelde que vai à frente a
saltar muros... quando o Director Skinner me deixa 🤪
Além de outras caras conhecidas de outras fragas, à partida também lá estava o imparável McBain — o homem que venceu o destino e agora gasta a terra com a fúria de quem renasceu — e a sua decidida companheira Ruth. E em Alenquer, à hora do almoço, juntou-se a nós o eternamente indeciso Kirk; só fez metade do percurso, portanto... não fossem as botas largar as solas 😁
Começámos por subir o vale da Ribeira de Santa Sofia, até à Fonte do mesmo nome e depois rumo às Cachoeiras. Num dia de Sol e nuvens... o vento foi o elemento predominante. O avô Abe Simpson ainda pensou vir, aproveitaria para contar as suas histórias intermináveis... mas a Marge prendeu-o com a sua voz da razão, a ele e ao Homer. Ninguém lhe prometeu um lauto almoço no final... e ainda por cima com vento? Nahh... ficou em Springfield.
Por montes e vales, entre Vila Franca e as Cachoeiras, com o Skinner sempre de olhar focado e o cajado em riste,
a analisar o horizonte com a precisão de quem está a planear a estratégia para a próxima subida...
Contornámos a Quinta da Granja, cruzámos o Rio Grande da Pipa... e cruzámos também a A10 por três vezes. Em ritmo acelerado, a passagem pelo Mosteiro Ortodoxo do Nascimento da Mãe de Deus deu um toque de serenidade quase mística ao "Caminho dos Simpsons".
Quinta da Granja, 12.04.2026, 09h50
Mosteiro do Nascimento da Mãe de Deus, junto à Ribeira de S. Sebastião
Auto-estrada A10, junto à Ribeira de S. Sebastião
Alinhamentos...
E os Simpsons progrediam para norte, rumo às terras de Alenquer
Quando chegámos a Refugidos e cruzámos a ribeira de Santana da Carnota, o Bart Simpson teve um momento de 'iluminação' cartográfica. Afinal, aquela aldeia não era apenas um ponto no itinerário do Skinner; era o lugar onde nasceu, há quase um século, uma tia sua por afinidade. No meio da odisseia entre Vila Franca e Alenquer, Refugidos revelou-se um inesperado portal para a história familiar, lembrando ao Bart... que as raízes estão sempre lá para o segurar ao chão.
Refugidos, no fundo do vale da Ribeira de Santana da Carnota
Mas depois de Refugidos... havia que subir a bom subir
A partir do vale da Ribeira de Santana, o ritmo da caminhada decresceu bastante. Não para o McBain — apesar de ter partido duas costelas não há muito tempo — e para muitos outros, que continuaram a marchar como se não houvesse amanhã. Mas para a Lisa... o cansaço começava a doer naquela interminável subida. O zeloso Skinner não a largou... enquanto ela própria começava a questionar a futilidade de subir uma colina para depois a descer... ou a necessidade de fazer tantos km até Alenquer para depois voltar para Vila Franca... 🤪. Eu, como bom Bart, limitei-me a oferecer-lhe um sorriso — até porque parecia que o demo tinha aberto as portas do inferno só para nos empurrar até Alenquer!
A Lisa não dava o braço a torcer, apesar de mais morta que viva. A Ginger e o Gil... leiam mais abaixo...
Passada a Cabreira, tínhamos finalmente Alenquer à vista
Eram quase 13h30. As "tropas rebeldes" já estavam sentadas na esplanada, quando o nosso Skinner entrou em Alenquer
A descida para Alenquer foi um bálsamo para os sentidos; soube a repouso e a meia odisseia no bolso. Às portas da cidade, contudo, a Ginger Flanders e o Gil Gunderson — os dois da foto acima com a Lisa — acabariam por capitular. Desde a subida a seguir a Refugidos, o Gil ainda aceitou os meus bastões como última tábua de salvação, mas o apelo do autocarro da "Boa Viagem" foi maior... 😒
Já sentados na esplanada, lá apareceu o nosso Kirk. O coitado estava há mais de uma hora entregue à sua sorte e à espera do grupo; a sua Luann, num golpe de prudência, decidiu ficar em casa. Afinal, os ventos do diabo que nos fustigaram o lombo poderiam ser fatais para a sua garganta de cristal.
O rio de Alenquer, que nos tinha dado as boas vindas, deu-nos também a despedida; ainda havia muito a palmilhar
À boa maneira de comandante, ainda não eram duas horas já o Seymour Skinner estava de pé e de mochila às costas. Tínhamos 21 km nos pés... teoricamente já só faltavam 18... para os quais o Kirk estava fresquinho que nem uma alface das hortas de Springfield. E lá partimos para o regresso.
Num percurso de largos horizontes, caminhávamos agora para sul, rumo a Cadafais e às Quintas
À tarde, o demo decidiu amainar ligeiramente o seu sopro infernal. Para grande felicidade da nossa heroína Lisa, os desníveis eram agora menos agressivos, mesmo num percurso de horizontes largos. Não demorou muito a termos belas panorâmicas para o vale do Tejo, a leste e a sul.
Enquanto eu e o Kirk vínhamos no papel de 'cavaleiros da retaguarda', a dar apoio moral à Lisa — com o resto do pelotão já a galopar desenfreadamente atrás do rasto de pó do Mr. McBain — a animação da conversa revelou-se fatal para a precisão do GPS. De repente, vimo-nos espartilhados entre a A10 e a N115-4, dentro dos domínios da Quinta de Vale Flores. Estávamos onde não devíamos... e onde não tínhamos entrado. O dilema era digno de um episódio de crise: voltar atrás ou cometer um delito geográfico? "Há que saltar o muro", sentenciei logo eu, num assomo de puro Bart Simpson; "sempre é mais baixo que o portão". E assim, numa manobra que faria o Skinner querer expulsar-nos a todos da escola de caminheiros, três Simpsons provaram que a liberdade não se pede, conquista-se: não entrámos oficialmente na Quinta... mas saímos dela com um salto acrobático e a dignidade intacta.
Reconciliados com o grupo no Monte dos Castelinhos, para a imprescindível foto "de família", incluindo, claro, o nosso "Ajudante de Pai Natal" de quatro patas 🐕‍🦺
O Monte dos Castelinhos já todos o conhecíamos de outras "guerras". Ali se terá situado a cidade de Hieróbriga (ou Ierabriga)... ou pelo menos é um dos fortes candidatos a local dessa mítica cidade romana. Ainda com muito Sol, apreciar a escala da Lezíria a partir daquele miradouro ancestral é uma bênção... e um estímulo para acelerar em direcção à Castanheira do Ribatejo e para os últimos quilómetros desta 'maratona' Simpsoniana... pelo Caminho de Santiago...
O Kirk vinha ainda fresquinho...
a Lisa, lá atrás, nem tanto...
Castanheira do Ribatejo, 17h15 - Já só faltariam 5 km... mas na matemática de Springfield nada é o que parece... 🤪
Estávamos em pleno Caminho de Fátima / Santiago... mesmo que desta vez em sentido contrário.
E eis-nos quase debaixo da Ponte de Vila Franca, 18h30 ... já estavam percorridos 39,5 km... dos 39 km previstos
Estação CP de Vila Franca de Xira, 18h40... faltava agora menos de 1 km (álbum completo aqui)
O contrato assinado com o Director Skinner prometia uns redondos 39 km, mas na matemática de Springfield nada é o que parece. Acabámos a carimbar quase 41 km no odómetro... e nas pernas!
Clique para ampliar ou aqui para ver no Wikiloc ou no Retrive
Um quilómetro nunca é apenas um quilómetro quando há uma lição de moral para aprender pelo caminho. A Lisa, em modo 'zombie', explicava com base na curvatura da Terra e na deriva continental. Para mim, foi apenas o Universo a gozar com o meu cabelo espetado, provando que a maratona Simpsoniana tem sempre um Director's Cut que ninguém pediu 😂

No final desta odisseia, resta-me agradecer a todos os Simpsons que tornaram este dia memorável. Aos que, como o McBain e a sua fiel Ruth, marcharam sem olhar para trás; à Lisa, pela resiliência e paciência; ao Kirk, que lá se decidiu a decidir-se... a todos... e, claro, ao Skinner, por nos manter na linha... mesmo quando a linha, para três... implicou saltar muros. Mas também um agradecimento especial aos que desistiram — por nos lembrarem que o autocarro da 'Boa Viagem' é uma invenção divina.
E, claro, um abraço à distância ao Homer, à Marge, ao avô Abe e à Luann, que ficaram em Springfield. No fundo, a voz da razão deles foi o nosso farol: eles sabiam que o vento era do demo, mas nós, por teimosia ou loucura, fomos à mesma. E ainda um agradecimento especial ao nosso "Ajudante de Pai Natal" de quatro patas, que completou os 41 km sem um único 'Ay Caramba!'. Provou ser mais rijo que muitos veteranos de Springfield; enquanto nós discutíamos o GPS, ele só queria saber qual era a próxima fraga a conquistar! Participantes ou não, com 39 km ou com 40,8 km, somos todos parte desta mesma série. Até à próxima aventura, sem ventos diabólicos (esperemos) e, de preferência, com um lauto almoço garantido por contrato! Aí o Homer vai, de certeza...!

Ay Caramba! Missão cumprida! 🏃🏃‍♂️🏃‍♀️🚶‍♀️🚶🚶‍♂️🙋‍♂️

Nota: Esta não é uma obra de ficção... mas qualquer semelhança com habitantes de Springfield ou com caminheiros reais é pura coincidência... 😉