sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Duas rodas, o Tempo e as Serras...

... ou um e-regresso às fragas do Homem de Pedra e da Malcata

Como tantas vezes tenho referido, com orgulho, a minha ligação a Vale de Espinho é já velhinha de mais de meio século. Mas é a partida de um timoneiro que nos leva a um doloroso regresso, em abril de 2003. No verão desse ano - como escrevi na retrospectiva com que iniciei este blog - a necessária
Em demanda da nascente do Côa, 19.08.2003... há 23 anos!
catarse levou-nos a umas férias sediadas em Vale de Espinho... e de lá parti, a pé e de bicicleta, ao desbravar da Serra da Malcata, das Mesas, do Homem de Pedra. A comunhão com a serra dava-me paz, conversava com as águas, com o vento, com as perdizes fugidias ... com a memória de quem tinha trilhado aqueles trilhos e bredas. Embora sempre tenha preferido confiar mais nas botas do que nas rodas, a bicicleta permitia-me chegar mais longe. Só no verão de 2003 percorri quase 200 km, a pé e de bicicleta, pelas "minhas" terras raianas; sozinho... a melhor forma de catarse. Depois, em 2005, surgiu o nosso "retiro espiritual": Era uma vez uma casa em Vale de Espinho... e os meus "instantâneos de ar livre" passavam a ter uma base na Raia!
Das escadas da eólica mais próxima das Fontes Lares, 27.10.2026, 15h55
Porquê a introdução que fiz a esta "crónica"? Porque, passados mais de vinte anos, voltei às duas rodas... mas agora apoiadas por motor eléctrico. Não foi a primeira vez. Conforme enumero na página dedicada à Bike, desde que em 2024 aderi à mobilidade eléctrica, a e-bicla já por duas vezes tinha visitado Vale de Espinho e passeado em terras do Côa e da Malcata. Mas agora talvez tenha vindo para ficar... assim o destino o dite. Assim ela dure. Mas, e principalmente... assim nós duremos!

Na Lomba, a olhar sobre Vale de Espinho,
26.10.2026, 16h10
No dia seguinte ao "Caminhar e ser feliz" na Malcata - que relatei na crónica anterior - levei contudo a minha pequena arraiana à Lomba, onde se juntam os limites Portugal / Espanha e Beira Alta / Beira Baixa. Há uns 20 anos que ela não subia ali. A Lomba é o ponto de fronteira mais perto de Vale de Espinho, uns escassos 5 km. Mas subiu... com batota, em quatro rodas😂! Mas tê-la ali comigo, naquele local geográfica e paisagisticamente significativo, onde já tantas vezes passei... gerou emoção.
Que o Universo nos continue a ajudar 🙏
3ª fª 27, próximo do Cabeço Melhano, com
Aldeia Velha ao fundo... e a bordo da e-Bike
Geodésico e Torre de Vigia do Homem de Pedra (1135m alt.). Na foto superior... o "meu" Xalmas ao fundo.
Ao fim de 53 anos, ainda vou descobrindo locais que ainda me eram desconhecidos, como umas soberbas cristas quartzíticas na Serra do Homem de Pedra, sobre o Soito e toda a extensão entre o Côa e a fronteira castelhana. O dia declinava rapidamente, agora na dita hora de inverno... mas detive-me ali uns bons momentos, extasiado pelas cores do Sol poente 💓
Do balcão quartzítico da Serra do Homem de Pedra, assisto ao declinar de mais um dia...
Três dias depois voltei a pegar na bicla. Sem dúvida que a assistência eléctrica é uma enorme ajuda. Subir a ladeira do Cabeço da Moura desde a margem do Côa não é pêra doce, mesmo na versão "e-regresso". Sobretudo pelas pedras resvaladiças, que levam a desmontar uma ou duas vezes. E quando se desmonta... voltar a montar naquele piso e com inclinação é praticamente impossível; o motor eléctrico só actua com o impulso inicial do pedal...
Mas antes das três e meia da tarde estava na cumeada da Malcata, debruçado para as ladeiras de Penamacor. A nebulosidade da tarde, atravessada pelo Sol tímido, preenchia a paisagem com um ar mágico e místico.
30.10.2026 - Cruzo o Côa no Moinho do Rato... e subo ao secreto mundo dos deuses...
"Barroco branco", crista quartzítica apontada a Quadrazais
Cruzamento da Ventosa e Espigal
Fonte e tanque do Espigal, e a antiga Casa da Portucel, 16h00
Há quadros pintados na Serra...
Pouco depois das quatro horas estava junto à Torre de Vigia da Machoca, sobre a Barragem do Sabugal. A poente, a silhueta inconfundível da Serra da Estrela. Tinha agora a opção, mais curta, de descer ao vale do Alcambar, ou maior mas mais segura de descer para a estrada florestal Malcata - Quadrazais. O bom senso ditou esta segunda opção. Antes das cinco estava em Quadrazais e vinte minutos depois em Vale de Espinho, com 24 km... nas rodas. Mas não... não vou largar as botas...
Baloiço do alto da Machoca e, a poente, o Sol a caminho do poente. À direita, ao fundo, a silhueta da Serra da Estrela.
O Côa na Açude da Mursa, Quadrazais

◀️ Impossível não se ficar extasiado...
      (próximo de Quadrazais, 17h00)
Novembro aproxima-se a passos largos e o tempo, inexorável, continua a rodar. Quem dera poder desligar a assistência eléctrica... à voragem do tempo e do mundo...

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