Último fim de semana de janeiro. Para muitos, apenas mais um inverno húmido;
para mim, é sempre o sinal de partida para a
Marcha Nacional de Montanha, primeira actividade do calendário da
FPME e ritual que o
Grupo de Montanhismo de Vila Real
teima — felizmente — em manter vivo.
Desde a oitava edição, a primeira em que alinhei, nunca mais faltei. E este
ano, depois de semanas de fragas e pragas… precisava mesmo desse mergulho nos
grandes espaços, dessa respiração larga que só a montanha concede.
Já vinha meio purificado do meu retiro raiano, onde
o Côa, as Fontes Lares, as águas frias e as memórias antigas
me tinham oferecido uma catarse, daquelas que só a paisagem sabe dar. Mas a XV
Marcha trazia um sabor especial: seria nas faldas da velha Serra da Nogueira,
pela primeira vez longe do triângulo habitual Marão / Alvão / Padrela. E isso,
para mim, era mais do que um atractivo... era um reencontro.
A
Serra da Nogueira estava distante no meu “Livro do Tempo”. Em junho
fará meio século que ali vivi
dias fabulosos, guiado pelo saudoso Professor Carlos Magalhães, com colegas da Faculdade de
Ciências — entre eles uma colega muito especial, que já então era minha mulher
e companheira da Aventura da Vida. Oito anos depois voltei, já professor,
levando um pequeno grupo de alunos... e de novo pela mão generosa do mesmo Carlos Magalhães. Depois disso,
silêncio. Quarenta e dois anos que passaram como quem atravessa um nevoeiro
denso — talvez o mesmo que nos envolveu na Serra de Bornes, já noite, a
caminho de
Macedo de Cavaleiros, onde montaríamos o “acampamento base”.
A minha pequena arraiana ficaria ali a descansar; a Marcha não era para ela, e
a montanha também sabe quando deve esperar. Pelo caminho, na Guarda,
juntou-se-nos a Madalena, a grande amiga de tantas aventuras, dos
Andes peruanos
à costa oeste das nossas mães, do último
Caminho de Santiago
às histórias que ainda não escrevemos. Mas aventura, aventura… foi mesmo sair
da Guarda no auge do nevão com que a
depressão Ingrid
decidiu testar-nos. Durante horas, ninguém sabia se a Marcha se realizaria, ou
sequer se os participantes conseguiriam lá chegar. O Universo, porém, tem
destas ironias luminosas. Depois do susto, ofereceu-nos um fim de semana
magnífico. O
GMVR adaptou
o percurso de sábado com mestria às condições meteorológicas e logísticas, e
quem desistiu… nem imagina o que perdeu. Como relembrou a Madalena, com aquela
simplicidade que acerta no alvo, "
Tudo vale a pena, se a alma não é pequena". E assim foi. Sem “depressão” e com coragem plena, acabou por ser uma
aventura serena — daquelas que ficam a ecoar muito depois de as botas
repousarem.
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Começava a XV Marcha Nacional de Montanha, próximo da aldeia de
Bragada, 24.01.2026
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A concentração dos participantes estava marcada para a EN 15, junto da pequena
aldeia de
Bragada. Ali, no frio agreste da manhã, iam surgindo as caras
conhecidas desta romaria montanhista: gente da Gardunha, do CAAL, do GMVR. Da
Guarda, o mesmo peregrino solitário de quase sempre... mas desta vez
acompanhado da estreante Madalena, também ela peregrina. Éramos menos, é
verdade; a
Ingrid
tinha varrido muitos dos habituais companheiros de trilho. Mas na encosta sul
da
Serra da Nogueira, onde a neve dominava a paisagem — muros,
carvalhos, caminhos — sentia-se que a montanha nos esperava assim mesmo: mais
silenciosa, mais branca, mais inteira.
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Foto de grupo, junto à Capela de São Frutuoso de Teixedo, 11h20
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O manto branco cobria os campos e encostas, entre as aldeias de
Bragada, Pereiros e Rebordainhos
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Há muito tempo que não caminhava em neve. A cada passo, a paisagem parecia
reinventar-se: ora seguíamos sobre um tapete já marcado, ora a neve voltava a
cair — primeiro das ramagens pesadas, depois, quase impercetível, do próprio
céu. Havia uma quietude antiga naquele vale. Sem vento, o mundo reduzia-se ao
som das nossas botas a afundarem-se na brancura, compassadas como uma
respiração. Subíamos o vale do
Azibo, mesmo quando o rio se escondia,
seguindo em parte o
PR1
de Bragança, com o sugestivo nome “
Entre Carvalhais e Vales Encaixados”. Porém, o nome parecia-nos incompleto: faltava-lhe o manto que tudo
unificava… “e cobertos de neve”.
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À hora de almoço estávamos em Rebordainhos, a 1016m de
altitude... onde nos esperava um lauto reforço alimentar 😋
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Conta-se em
Rebordainhos que, quando a serra está coberta de neve e o
vento muda de repente, se ouve ao longe um bufar quente… como o de uma fera
adormecida. Os mais velhos garantem que há muitos, muitos anos, a aldeia era
assolada por fenómenos inexplicáveis: luzes que apareciam nos caminhos,
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Igreja de Rebordainhos, 15h10
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sombras que atravessavam os lameiros e um rumor persistente de que um fantasma
vagueava pelas encostas. A
história
ganha força quando surge a figura de um touro negro, enorme, que, dizem,
cuspia fogo pelas ventas. Aparecia sobretudo em noites de vento, junto aos
carvalhais, e ninguém sabia se era animal, espírito ou castigo. Os habitantes,
assustados, procuraram ajuda espiritual. Foi então que um frade itinerante,
vindo de longe, subiu à aldeia e, perante a comunidade reunida, abençoou as
terras e o gado, pedindo proteção para Rebordainhos. Desde aí, o fantasma
desapareceu e o touro de fogo nunca mais foi visto, ficando apenas o som da
sua respiração... em dias como o de sábado. Não o ouvimos, contudo. Saímos
aliás da aldeia com os estômagos bem reconfortados 😄
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Saída de Rebordainhos para nascente... num percurso
alternativo, imposto pela
Ingrid
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O programa de sábado da Marcha Nacional de Montanha previa a subida desde
Rebordainhos até ao cume da
Serra da Nogueira. Estávamos pouco acima
dos mil metros de altitude, na encosta sul, e a ideia original era subir até
aos 1320m, onde se ergue o
Santuário de Nossa Senhora da Serra
e de onde, em dias límpidos, se avistam terras de Sanabria. Mas a montanha,
vestida de branco, tinha outros planos. O autocarro que nos deveria recolher
no alto não tinha qualquer hipótese de lá chegar, e a organização viu-se
obrigada a redesenhar o percurso. Em vez de subirmos... descemos para a antiga
linha do Tua e para
Santa Comba de Rossas, a nascente, onde aí sim o
autocarro nos aguardou.
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De Rebordainhos a Santa Comba de Rossas... um percurso
levado pelas contingências, mas através de um paraíso...
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Às quatro e meia da tarde estávamos portanto a embarcar no autocarro que nos
levaria, numa curta viagem, ao ponto onde tinham ficado os carros. Percorremos
15 km em vez dos 21 previstos, mas
o encanto não foi menor por isso. Pelo contrário: por entre a ramagem dos
carvalhais, o Sol insinuava-se por breves instantes, rasgando o manto de
nuvens e abrindo janelas de branco, azul, verde e ocre — como se a serra nos
quisesse oferecer pequenos quadros antes de terminarmos e do cair da noite.
Em
Macedo de Cavaleiros... a minha donzela aguardava-nos. Passara o dia
em completo descanso no "acampamento base"... ou seja no
Hotel Alendouro,
uma unidade que é de toda a justiça referenciar como tendo ultrapassado as
nossas expectativas, em todos os aspectos.
E à noite lá estávamos no habitual jantar-convívio entre os organizadores e
participantes da Marcha, lembrando-nos, entre brindes e conversas, que ainda
faltava uma "2ª Etapa".
Albufeira do Azibo
Completamente diferente da primeira, a segunda jornada desta XV Marcha de
Montanha desenrolou-se junto à
Albufeira do Azibo, uma área de paisagem protegida entre a encosta sul da Serra da Nogueira e
Macedo de Cavaleiros, com a aldeia de
Santa Combinha como principal
núcleo habitado e centro turístico. Hoje não tínhamos neve, aliás a
Ingrid
estava a despedir-se do território... embora para dar lugar a outras
depressões dos actualmente célebres rios atmosféricos e "comboios"
meteorológicos.
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Praia fluvial da Fraga da Pegada, na Albufeira do Azibo,
25.01.2026, 09h00
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Miradouro de Santa Combinha: dois peregrinos sobre a
albufeira...
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A caminhada de hoje era circular, sem dependermos de autocarro. Iniciámos a
subida pela ladeira que se ergue sobre a aldeia de
Santa Combinha. Ir
na dianteira tem, por vezes, os seus pequenos privilégios: apenas eu e outro
companheiro fomos brindados pela aparição fugaz de uma raposa, que atravessou
o trilho num relâmpago silencioso antes de desaparecer no mato. Quando contei
o episódio à Madalena, que vinha um pouco atrás, não hesitou — “raposo”,
chamou-me ela. E, claro, a partir daí passei a tratá-la por raposa… ou
“raposinha” 😄
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Junto às águas da albufeira do Azibo, a sul de
Santa Combinha, 10h55
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Antes da barragem, o vale tinha vários moinhos. Conta-se que alguns moleiros
falavam com a água e sabiam prever tempestades só pelo som da corrente. À
medida que avançávamos pela margem... parecia-nos ouvi-los. Como em tantos
outros casos idênticos, quando a albufeira foi criada, várias famílias de
Santa Combinha e de outras aldeias perderam lameiros, hortas e caminhos
que ficaram submersos. Há relatos de gente que dizia que, em certas noites de
verão, a água parecia devolver sons antigos — o mugido de vacas, o chiar de
carros de bois... e até o eco de vozes.
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Sem ouvirmos os sons antigos... nem sempre a
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progressão nas margens da albufeira era fácil...
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E pouco depois do meio dia estávamos de regresso à praia fluvial da
Fraga da Pegada, com 10 km percorridos
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2ª Etapa da XV MNM, junto à Albufeira do Azibo
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Como que a lembrar-nos que a
Ingrid
ainda não se despedira, os últimos metros fizeram‑se sob uma chuva miudinha,
apressando abraços, despedidas e o recolher aos carros. Assim se fechava a
XV Marcha Nacional de Montanha — a minha oitava edição consecutiva… a
primeira para a Madalena:
Deixando a terra de manto branco coberta
Molhar o olhar em água de romantismo desperta...💚😊
Almoçámos em Macedo de Cavaleiros - de novo a três - antes de seguirmos
caminho. Mais de 400 km até às terras do Oeste, onde deixámos a raposa
estreante, e quase 500 km para este raposo sonhador de crónicas, de
“aventuras” e de espaços… e para a sua companheira nesta longa viagem pelos
tempos do Tempo.
Enquanto a estrada se estendia à nossa frente, ficava a pergunta que sempre
regressa, teimosa e luminosa: qual será a próxima Montanha?...
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