domingo, 25 de janeiro de 2026

XV Marcha Nacional de Montanha ... entre a Ingrid e as memórias da Nogueira

Último fim de semana de janeiro. Para muitos, apenas mais um inverno húmido; para mim, é sempre o sinal de partida para a Marcha Nacional de Montanha, primeira actividade do calendário da FPME e ritual que o Grupo de Montanhismo de Vila Real teima — felizmente — em manter vivo.
Desde a oitava edição, a primeira em que alinhei, nunca mais faltei. E este ano, depois de semanas de fragas e pragas… precisava mesmo desse mergulho nos grandes espaços, dessa respiração larga que só a montanha concede.
Já vinha meio purificado do meu retiro raiano, onde o Côa, as Fontes Lares, as águas frias e as memórias antigas me tinham oferecido uma catarse, daquelas que só a paisagem sabe dar. Mas a XV Marcha trazia um sabor especial: seria nas faldas da velha Serra da Nogueira, pela primeira vez longe do triângulo habitual Marão / Alvão / Padrela. E isso, para mim, era mais do que um atractivo... era um reencontro.
A Serra da Nogueira estava distante no meu “Livro do Tempo”. Em junho fará meio século que ali vivi dias fabulosos, guiado pelo saudoso Professor Carlos Magalhães, com colegas da Faculdade de Ciências — entre eles uma colega muito especial, que já então era minha mulher e companheira da Aventura da Vida. Oito anos depois voltei, já professor, levando um pequeno grupo de alunos... e de novo pela mão generosa do mesmo Carlos Magalhães. Depois disso, silêncio. Quarenta e dois anos que passaram como quem atravessa um nevoeiro denso — talvez o mesmo que nos envolveu na Serra de Bornes, já noite, a caminho de Macedo de Cavaleiros, onde montaríamos o “acampamento base”. A minha pequena arraiana ficaria ali a descansar; a Marcha não era para ela, e a montanha também sabe quando deve esperar. Pelo caminho, na Guarda, juntou-se-nos a Madalena, a grande amiga de tantas aventuras, dos Andes peruanos à costa oeste das nossas mães, do último Caminho de Santiago às histórias que ainda não escrevemos. Mas aventura, aventura… foi mesmo sair da Guarda no auge do nevão com que a depressão Ingrid decidiu testar-nos. Durante horas, ninguém sabia se a Marcha se realizaria, ou sequer se os participantes conseguiriam lá chegar. O Universo, porém, tem destas ironias luminosas. Depois do susto, ofereceu-nos um fim de semana magnífico. O GMVR adaptou o percurso de sábado com mestria às condições meteorológicas e logísticas, e quem desistiu… nem imagina o que perdeu. Como relembrou a Madalena, com aquela simplicidade que acerta no alvo, "Tudo vale a pena, se a alma não é pequena". E assim foi. Sem “depressão” e com coragem plena, acabou por ser uma aventura serena — daquelas que ficam a ecoar muito depois de as botas repousarem.
Começava a XV Marcha Nacional de Montanha, próximo da aldeia de Bragada, 24.01.2026
A concentração dos participantes estava marcada para a EN 15, junto da pequena aldeia de Bragada. Ali, no frio agreste da manhã, iam surgindo as caras conhecidas desta romaria montanhista: gente da Gardunha, do CAAL, do GMVR. Da Guarda, o mesmo peregrino solitário de quase sempre... mas desta vez acompanhado da estreante Madalena, também ela peregrina. Éramos menos, é verdade; a Ingrid tinha varrido muitos dos habituais companheiros de trilho. Mas na encosta sul da Serra da Nogueira, onde a neve dominava a paisagem — muros, carvalhos, caminhos — sentia-se que a montanha nos esperava assim mesmo: mais silenciosa, mais branca, mais inteira.
Foto de grupo, junto à Capela de São Frutuoso de Teixedo, 11h20
O manto branco cobria os campos e encostas, entre as aldeias de Bragada, Pereiros e Rebordainhos
Há muito tempo que não caminhava em neve. A cada passo, a paisagem parecia reinventar-se: ora seguíamos sobre um tapete já marcado, ora a neve voltava a cair — primeiro das ramagens pesadas, depois, quase impercetível, do próprio céu. Havia uma quietude antiga naquele vale. Sem vento, o mundo reduzia-se ao som das nossas botas a afundarem-se na brancura, compassadas como uma respiração. Subíamos o vale do Azibo, mesmo quando o rio se escondia, seguindo em parte o PR1 de Bragança, com o sugestivo nome “Entre Carvalhais e Vales Encaixados”. Porém, o nome parecia-nos incompleto: faltava-lhe o manto que tudo unificava… “e cobertos de neve”.
À hora de almoço estávamos em Rebordainhos, a 1016m de altitude... onde nos esperava um lauto reforço alimentar 😋
Conta-se em Rebordainhos que, quando a serra está coberta de neve e o vento muda de repente, se ouve ao longe um bufar quente… como o de uma fera adormecida. Os mais velhos garantem que há muitos, muitos anos, a aldeia era assolada por fenómenos inexplicáveis: luzes que apareciam nos caminhos,
Igreja de Rebordainhos, 15h10
sombras que atravessavam os lameiros e um rumor persistente de que um fantasma vagueava pelas encostas. A história ganha força quando surge a figura de um touro negro, enorme, que, dizem, cuspia fogo pelas ventas. Aparecia sobretudo em noites de vento, junto aos carvalhais, e ninguém sabia se era animal, espírito ou castigo. Os habitantes, assustados, procuraram ajuda espiritual. Foi então que um frade itinerante, vindo de longe, subiu à aldeia e, perante a comunidade reunida, abençoou as terras e o gado, pedindo proteção para Rebordainhos. Desde aí, o fantasma desapareceu e o touro de fogo nunca mais foi visto, ficando apenas o som da sua respiração... em dias como o de sábado. Não o ouvimos, contudo. Saímos aliás da aldeia com os estômagos bem reconfortados 😄
Saída de Rebordainhos para nascente... num percurso alternativo, imposto pela Ingrid
O programa de sábado da Marcha Nacional de Montanha previa a subida desde Rebordainhos até ao cume da Serra da Nogueira. Estávamos pouco acima dos mil metros de altitude, na encosta sul, e a ideia original era subir até aos 1320m, onde se ergue o Santuário de Nossa Senhora da Serra e de onde, em dias límpidos, se avistam terras de Sanabria. Mas a montanha, vestida de branco, tinha outros planos. O autocarro que nos deveria recolher no alto não tinha qualquer hipótese de lá chegar, e a organização viu-se obrigada a redesenhar o percurso. Em vez de subirmos... descemos para a antiga linha do Tua e para Santa Comba de Rossas, a nascente, onde aí sim o autocarro nos aguardou.
De Rebordainhos a Santa Comba de Rossas... um percurso levado pelas contingências, mas através de um paraíso...
Às quatro e meia da tarde estávamos portanto a embarcar no autocarro que nos levaria, numa curta viagem, ao ponto onde tinham ficado os carros. Percorremos 15 km em vez dos 21 previstos, mas
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o encanto não foi menor por isso. Pelo contrário: por entre a ramagem dos carvalhais, o Sol insinuava-se por breves instantes, rasgando o manto de nuvens e abrindo janelas de branco, azul, verde e ocre — como se a serra nos quisesse oferecer pequenos quadros antes de terminarmos e do cair da noite.
Em Macedo de Cavaleiros... a minha donzela aguardava-nos. Passara o dia em completo descanso no "acampamento base"... ou seja no Hotel Alendouro, uma unidade que é de toda a justiça referenciar como tendo ultrapassado as nossas expectativas, em todos os aspectos.
E à noite lá estávamos no habitual jantar-convívio entre os organizadores e participantes da Marcha, lembrando-nos, entre brindes e conversas, que ainda faltava uma "2ª Etapa".
Albufeira do Azibo
Completamente diferente da primeira, a segunda jornada desta XV Marcha de Montanha desenrolou-se junto à Albufeira do Azibo, uma área de paisagem protegida entre a encosta sul da Serra da Nogueira e Macedo de Cavaleiros, com a aldeia de Santa Combinha como principal núcleo habitado e centro turístico. Hoje não tínhamos neve, aliás a Ingrid estava a despedir-se do território... embora para dar lugar a outras depressões dos actualmente célebres rios atmosféricos e "comboios" meteorológicos.
Praia fluvial da Fraga da Pegada, na Albufeira do Azibo, 25.01.2026, 09h00
Miradouro de Santa Combinha: dois peregrinos sobre a albufeira...
A caminhada de hoje era circular, sem dependermos de autocarro. Iniciámos a subida pela ladeira que se ergue sobre a aldeia de Santa Combinha. Ir na dianteira tem, por vezes, os seus pequenos privilégios: apenas eu e outro companheiro fomos brindados pela aparição fugaz de uma raposa, que atravessou o trilho num relâmpago silencioso antes de desaparecer no mato. Quando contei o episódio à Madalena, que vinha um pouco atrás, não hesitou — “raposo”, chamou-me ela. E, claro, a partir daí passei a tratá-la por raposa… ou “raposinha” 😄
Junto às águas da albufeira do Azibo, a sul de Santa Combinha, 10h55
Antes da barragem, o vale tinha vários moinhos. Conta-se que alguns moleiros falavam com a água e sabiam prever tempestades só pelo som da corrente. À medida que avançávamos pela margem... parecia-nos ouvi-los. Como em tantos outros casos idênticos, quando a albufeira foi criada, várias famílias de Santa Combinha e de outras aldeias perderam lameiros, hortas e caminhos que ficaram submersos. Há relatos de gente que dizia que, em certas noites de verão, a água parecia devolver sons antigos — o mugido de vacas, o chiar de carros de bois... e até o eco de vozes.
Sem ouvirmos os sons antigos... nem sempre a
progressão nas margens da albufeira era fácil...
E pouco depois do meio dia estávamos de regresso à praia fluvial da Fraga da Pegada, com 10 km percorridos
2ª Etapa da XV MNM, junto à Albufeira do Azibo
Como que a lembrar-nos que a Ingrid ainda não se despedira, os últimos metros fizeram‑se sob uma chuva miudinha, apressando abraços, despedidas e o recolher aos carros. Assim se fechava a XV Marcha Nacional de Montanha — a minha oitava edição consecutiva… a primeira para a Madalena:

Deixando a terra de manto branco coberta
Molhar o olhar em água de romantismo desperta...💚😊

Almoçámos em Macedo de Cavaleiros - de novo a três - antes de seguirmos caminho. Mais de 400 km até às terras do Oeste, onde deixámos a raposa estreante, e quase 500 km para este raposo sonhador de crónicas, de “aventuras” e de espaços… e para a sua companheira nesta longa viagem pelos tempos do Tempo.
Enquanto a estrada se estendia à nossa frente, ficava a pergunta que sempre regressa, teimosa e luminosa: qual será a próxima Montanha?...

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