domingo, 8 de outubro de 2017

À (re)descoberta do Gerês profundo (3)

Pitões das Júnias ... a aldeia mágica...
Sexta feira ao fim do dia estávamos em Tourém. A aldeia mágica de Pitões das Júnias não foi, desta vez, o "acampamento" para o que nos faltava viver, já que a "minha" velha "Casa do Preto" estava de lotação esgotada. A "Casa dos Braganças", em Tourém, foi assim a segunda base, com a hospitalidade e a grande simpatia dos seus proprietários, Sr. Fernando Carvalho, esposa e filha.
A ideia original era a grande travessia da Serra, a "minha" velha ligação Pitões - Fonte Fria - Carris - Sombras - Baños, onde o amigo Fernando nos iria buscar no seu minibus, como aliás já tem feito. Mas, ao jantar de sexta feira, já tínhamos praticamente decidido que 30 km de serra pura e dura seria demasiado para as altas temperaturas deste início de Outono. Seria mais sensata uma caminhada mais curta, envolvendo à mesma locais emblemáticos daquele recanto oriental da Serra do Gerês. Já não tínhamos a Dorita, Manel e Heidi, mas, modéstia à parte ... tínhamos as minhas muitas fragas palmilhadas naquelas terras, que de certo modo também são minhas...
E assim, quase uma hora antes de o Sol se levantar, lá estávamos a caminho de Pitões, onde os carros descansariam. Quatro minutos depois das sete começámos a caminhar, atravessando a aldeia ainda meio adormecida ... excepto a Padaria de Pitões, já a trabalhar a bom ritmo.

Campos de Pitões das Júnias às cores do Sol nascente, 7.10.2017, 7h15 - Ao fundo, a Fraga de Brazalite
Calçada da Espinheira
Para trás iam ficando o Seixo, a Calçada da Espinheira, a ribeira das Aveleiras, à medida que íamos ganhando altitude, ao longo de uma manhã mágica e mística. O rumo eram as alturas da Fonte Fria ... tal como numa madrugada igualmente mística, há 11 anos ... completados precisamente um dia antes. Às 4 da manhã de 6 de Outubro de 2006, saí a solo de Pitões, para uma travessia abortada pela intempérie; recordei o local onde estive recolhido. Agora, pelo contrário, tínhamos um dia magnífico a iluminar a nossa progressão: Fornos, a imponência da Brazalite (ou Bruzalite), a Corga da Tulha ... o milagre do verde e das cores outonais, apesar da seca continuada...

À medida que subimos, também o Sol sobe ... e a Lua prepara-se para se recolher 
No mar de fetos, junto ao Ribeiro de Fornos
Subindo o vale da Corga da Tulha, com as alturas da Fonte Fria como farol
Antes das nove e meia passávamos os 1300 metros de altitude. Para a frente, na direcção das Gralheiras, passeavam-se cavalos. Não vimos cabras selvagens; soubemos à noite que andavam mais a leste, na Carvalhosa. E ali, aos pés da Fonte Fria, era o nosso ponto de inflexão para sul, rumo aos marcos de fronteira e depois ao longo deles, ziguezagueando entre terras lusas e galegas.

Fonte Fria: percebe-se o marco de fronteira no cume (1458m alt.)
Ao longo da linha de fronteira, entre o Curral das Bestas e a Pedra do Laço
Entre a Pedra do Laço e os Cabeços de Mação, era altura da grande decisão ... que já estava tomada. Se quiséssemos fazer a travessia, continuaríamos a seguir a fronteira para sudoeste, rumo à Nevosa e aos Carris, ainda distantes. Mas o bom senso (e o calor) aconselhavam a regressar a Pitões, numa caminhada circular igualmente fabulosa mas mais suave ... e que me permitiria dar a conhecer a mágica Ermida de S. João da Fraga, aliás frequentemente à nossa vista como que aérea. Da linha de fronteira descemos assim para sudeste, rumo à Fraga do Paúl e ao Curral das Touças.

Ao fundo, lá em baixo, a Ermida de S. João da Fraga
Fraga do Paúl, à direita
Descida das alturas, em direcção ao Curral das Touças
Um autêntico miradouro, debruçado sobre as Touças, com Pitões das Júnias ao fundo
Entretanto ... era meio dia. Falei ao grupo na possibilidade de umas sombras refrescantes, onde poderíamos almoçar, descansar e ouvir a Natureza. Ligeiramente a norte do Curral das Touças, parámos num bosquezinho místico ... que se tornou mágico... 😨

Pausa para almoço ... no bosque dos druidas... 👪👪

    E porque é que o "bosque dos druidas" se tornou mágico?...
Enquanto uns dormiam e outros tentavam ouvir o silêncio, de repente dos carvalhos começaram a cair ... amendoins... 😳. O Carlos entretinha-se a distribuir aquelas nutritivas sementes ... em voo!
Por entre os sons do silêncio, o descanso e a recolha das alcagoitas ... por ali nos deixámos ficar mais de uma hora. O próximo objectivo era a Ermida de S. João da Fraga.

Rumo à Ermida de S. João da Fraga
Subida à Ermida pelo lado poente, com a Barragem de Paradela ao fundo
Subir à Ermida de S. João da Fraga é sempre uma sensação inesquecível. A 1120 metros de altitude, no alto daquela imponente fraga, a origem da Ermida é totalmente desconhecida. Não se sabe nem quando nem quem a mandou construir. Todos os anos, no primeiro domingo a seguir ao São João, os habitantes de Pitões e muitos forasteiros cumprem a tradição de subir ao alto da fraga, em romaria. Mas nós subimo-la vindos de poente, vindos da serra. Lá no cume ... apetecia-nos voar, dando asas à imaginação, ao companheirismo, à alegria de Viver! Brindámos à Vida e à Amizade!

Ermida de S. João da Fraga ... ou a emoção de estar num local mágico! (Penúltima foto: Carlos Aguiar)
Ainda não eram três da tarde quando iniciámos a descida e, com ela, o regresso a Pitões das Júnias, agora sim pelo caminho da romaria, atravessando os frondosos carvalhais do Teixo e do Beredo. No dia da romaria, manda a tradição que, no final, os habitantes comemorem nestes carvalhais, comendo os lanches ali deixados e dançando ao som das concertinas. Quanto a nós ... ainda íamos à velha aldeia de Sancti Vincencii de Juriz, referida já nas Inquirições Afonsinas. O denso carvalhal camufla e protege os toscos vestígios do povoado, onde parece ouvir-se nas sombras as especulações sobre o seu abandono no século XV, talvez devido à peste, talvez devido a uma praga de formigas … talvez!

Descida do S. João da Fraga, com Pitões em pano de fundo
Na magia dos velhos carvalhais, onde a todo o momento parecem poder saltar fadas e duendes...
Por entre as pedras que falam
da Aldeia Velha do Xuriz
E de repente, por entre a ramagem ... surge a velha Cruz do "Castelo" de Xuriz
A Cruz colocada na rocha, assinalando a localização da aldeia do Xuriz e a que os locais chamam o "Castelo" ... é outro dos locais mágicos destas terras mágicas de Pitões. E como todos fomos e somos fantásticos ... a magia do local mais uma vez se transmitiu a todos, naquele último local desta fabulosa caminhada. Pouco depois das cinco da tarde estávamos de regresso a Pitões.

"Castelo" da aldeia velha do Xuriz ... gente fantástica, num local mágico...
O regresso a Pitões foi pela velha Ponte das Aveleiras. Pouco depois das cinco da tarde estávamos na "aldeia mágica". E embora lá não tivéssemos desta vez feito base ... claro que tinha de ir visitar as minhas velhas amigas da "Casa do Preto". Já se perde na noite do tempo de 4 décadas e de três gerações de "Senhoras Marias" (incluindo a Sandra e a Tina ... que não são Marias... 😉) a minha ligação àquela Casa. Foi lá que matámos a sede e convivemos, no final desta fabulosa caminhada.

Ponte da Ribeira
das Aveleiras
Campos de Pitões. Ao fundo, a imponência da Brazalite e das alturas da Fonte Fria. Sim ... foi por ali que começámos!
E em Pitões, com as minhas velhas amigas
Maria, Maria e Tina, da Casa do Preto
Sábado não tinha ainda contudo acabado. Como a Paixão pela Montanha, a Paixão pelo Gerês, prende e une os seus Amantes ... um casal que há alguns anos segue as minhas "fragas e pragas", eles como eu apaixonados pelo Gerês, quis-me conhecer pessoalmente. Falo dos "Célitos da Montanha", cujo blogue igualmente acompanho. Para conhecerem "mais uma lenda das nossas montanhas" (palavras deles...😄), deslocaram-se propositadamente de Gaia a Calvos de Randín, próximo de Tourém, onde todos jantámos.

Com os Célitos da Montanha em Calvos de Randín. Um abraço também muito especial a estes dois amantes do Gerês.
E ... chegávamos ao último dia, que seria também o dia do regresso a casa. Para fechar esta (re)descoberta do Gerês, a caminhada foi apenas a curta descida ao velho Mosteiro de Santa Maria das Júnias e à Cascata de Pitões. O bucolismo da paisagem do Mosteiro e as margens do Campesinho fizeram sonhar quem ainda não conhecia aquele recanto do Paraíso; até houve ... quem lá queria ficar, transformando-se em Monja... 😆. No miradouro da cascata, contudo, a desolação foi total: a bela cascata de Pitões era um fio de água, tão radicalmente diferente do que conheço.

Mosteiro de Santa Maria das Júnias
Margens do Ribeiro do Campesinho: a água corre ... mas não chega para alimentar a bela Cascata de Pitões
Cascata de Pitões vista do
Presentemente ... era
Miradouro ... mas em Maio de 2013
um fiozinho... 😔
Nas terras celtas de Pitões das Júnias, o almoço e convívio final destes dias estava combinado na Taberna Terra Celta. Ponto de encontro obrigatório nesta aldeia mágica que conheço há mais de 40 anos, ao percorrer as "fragas e pragas" do "meu" Gerês, ali fomos recebidos com a transbordante simpatia e arte da Dª Margarida ... a grande Fada Celta por trás deste cantinho tão especial e imperdível.
E com o "almoço celta" terminou esta actividade fantástica. Durante e depois da mesma ... recebi agradecimentos, ouvi falar em boas escolhas, em sensibilidade de grupo, em humildade. Durante e depois da mesma ... senti alegria, Vontade, Amizade ... Vida! Para que uma actividade em grupo resulte fantástica não basta que a escolha das caminhadas seja boa, que haja boa disposição, que o tempo esteja bom. É preciso ... que as pessoas sejam fantásticas! E se realmente houve sensibilidade de grupo, humildade e companheirismo ... é porque TODOS fomos e somos pessoas fantásticas. A boa disposição, a alegria de Estar e de Viver, vieram de TODOS! A magia do Gerês apimentou ... mas a matéria, numa actividade em grupo, são sempre as pessoas!


" Happiness is only real when shared " (Chris McCandless)
E como no Gerês há MUITO mais para ver e percorrer ... este foi e é um grupo a repetir, (re)descobrindo aquelas terras mágicas ... (re)descobrindo-nos a nós próprios!
Ver o álbum completo
Até porque...

" na vindima de cada sonho fica a cepa a sonhar outra aventura... "
(Miguel Torga)            


PS -
Este artigo foi acabado de escrever quase uma semana depois, em 14 de Outubro ... com as lágrimas nos olhos. Em 13 e 14 de Outubro foram declaradas pelo menos duas frentes de fogo no Parque Nacional da Peneda-Gerês ... precisamente nos Paraísos onde vivemos os dias descritos nestas três partes. A norte de Fafião, na manhã do dia 14, ardia na Touça, Palma, Valongo e Porta Ruivas, bem como a nordeste de Pitões das Júnias; à tarde ... chegam-me relatos de que a Serra do Gerês está coberta de fumo. Mudam-se os tempos, mudam-se vontades, mudam-se governos e políticos ... mas a Natureza em Portugal continua a saque. Dói ... dói fundo!