domingo, 13 de janeiro de 2013

Regresso à Costa de Alvados

Menos de 4 meses depois da Grande Rota do passado dia 22 de Setembro, voltei ontem à Costa de Alvados e à Fórnea, no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. Bem mais pequena do que aquela, esta jornada não deixou contudo por isso de ser mais uma bela recordação dos tempos em que, há mais de 40 anos, percorri aquele autêntico reino da pedra.
Alcaria e Zambujal de Alcaria à vista, 12 de Janeiro de 2013
A caminhada constituiu mais uma actividade da minha "família" caminheira, num dia meteorolo-gicamente muito instável. Não foi só portanto a paisagem que foi diversificada ... as condições atmosféricas também! Tivemos de tudo: Sol aberto, muita chuva, vento, frio ... a condizer com a época. Mas foi, mais uma vez, uma bela jornada de contacto com a Natureza serrana e de convívio entre todos os participantes. Ficam as fotos deste sábado invernal.
Subida da Costa
de Alvados

Uma caminheira atenta à paisagem ...
e chegamos ao espectacular anfiteatro da Fórnea
A Fórnea, aberta ao vale de Alvados
Os campos e muros tão típicos
das Serras de Aire e Candeeiros
E há que voltar a descer para o vale de Alvados
Pelos campos fora ... regressamos à origem

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Águas que correm para o Coa (3)

"Mistérios" do Vale da Maria, da Fonte Moira e da Assentada

A propósito das minhas recentes "descobertas" da Serra de Béjar e dos confins da Serra da Gata, um grande amigo, ele como eu caminheiro de longa data, dizia-me que os adjectivos começam a ficar gastos para falar das minhas aventuras. Os adjectivos podem começar a ficar gastos ... mas a minha paixão, as sensações vividas, o misto de sonho e realidade, o êxtase, o autêntico levitar destas e nestas minhas "aventuras" ... esses ainda não começaram a escassear, bem pelo contrário, aumentam a cada caminhada, a cada esquina da montanha, a cada marca deixada na neve, na terra ou nas folhas caídas, a cada gole de água pura e cristalina, a cada cume onde abro os braços, em entrega aos deuses do céu e da Terra, captando os mistérios da Natureza, captando e carregando a energia para continuar, nesta senda pelo eterno, pelo lá longe, nesta catarse de emoções. Enquanto houver vida e forças que me permitam essa purificação do corpo e da mente … quero seguir em frente!
6.Jan.2013 - Vale de Espinho ... o meu retiro
No meu retiro de Vale de Espinho desde o último dia 27 - de onde aliás parti para aquelas duas primeiras "aventuras" de 2013 - claro que nos restantes dias não estaria parado em casa. Tanto ainda no ano passado como já depois do regresso de nuestros hermanos, curtas deambulações levaram-me a cantos e recantos de que me sinto fazer parte – como as "sagradas" Fontes Lares – e inclusive dentro dos limites da própria aldeia. Projectos à volta de Vale de Espinho continuam a não me faltar, como seja a continuação da (re)descoberta das águas que correm para o Côa ... o "Rio Sagrado".
Fontes Lares, 6.01.2013 - Em entrega ao "barroco sagrado"
Em Outubro, a "peregrinação" tinha ficado na Ribeira dos Abedoeiros. Ontem… lancei-me à subida de uma das encostas mais carismáticas da área de Vale de Espinho, o Vale da Maria, que aos 920 metros de altitude e a sudeste do Cabeço da Pelada passa a ter o nome de Barroca da Fonte Moira. E assim, numa manhã gélida, saí de casa e rumei ao Pontão do Pisão ... a caminho do Vale da Maria.
Vale de Espinho, 7.01.2013, 9:30h ... 0,7ºC. Caiu um nevão de noite? Não, são os campos geados!
Tal como em muitas das minhas anteriores deambulações por estas terras, que adoptei há quase 40 anos, eu sabia que as fotos que publicasse iriam despertar a nostalgia de quem viveu os tempos em que estas terras tinham vida, gente, trabalho, suor.
"O meu Avô Madaleno e os filhos mais velhos receberam o terreno do Vale da Maria e ali plantaram castanheiros, vinha, árvores de fruto. .... Ali tiveram trabalhos e sonhos. A mobília de quarto, de escritório e de sala para o meu irmão, quando casou, foi feita em madeira de castanho do nosso Vale da Maria. .... Nunca esquecemos o Vale da Maria. Algo de mágico se mantém, como que um eco do sonho que fez correr o meu Avô, há mais de cem anos. Faz parte das memórias de família e está preso no coração."
(Aurora Martins Madaleno)
Vale de Espinho, Pontão do Pisão ... a caminho do Vale da Maria
"Agora é Pontão e antes eram poldres que eu saltava, muitas vezes a medo, porque as pernitas não davam mais e caía para a água. Do lado de lá tínhamos um chão com milho, batatas, cebolo, feijão, pimentos... Dali cheguei a ir direita ao nosso Vale da Maria a levar tabaco ao meu Avô Madaleno. Pelo caminho tinha medo das lagartixas. Uma vez encontrei um ninho com perdigotos e assustei-me. Eles também se assustaram comigo e corriam mais do que eu. Eu ia a subir, já cansadita, com os meus 5 ou 6 anitos. O meu Avô ficou contente ao ver-me chegar e deu-me da sua merenda. Vi-o fazer o cigarro e acendê-lo com dois seixos."
Sempre o mais possível junto à água, subi pois o Vale da Maria sabendo que, quando as divulgasse, as minhas fotos iam provocar a saudade e alimentar os sonhos. É a magia destas terras.
Ribeira do Vale da Maria,
Rio Côa tem magia
Que nos atrai e encanta,
Tal como o Vale da Maria
Para mim é terra santa.

Terra santa, digo bem,
E também o seu ribeiro,
Pois à lembrança me vem
O meu sonho derradeiro.

7.01.2013
Sonho que tenho só meu
E que não digo a ninguém,
Um sonho que não morreu
Na minha alma se detém.

(Aurora Martins Madaleno)
Subir o Vale da Maria é realmente uma das caminhadas mais agradáveis na área de Vale de Espinho. Mesmo em épocas de seca, é uma das poucas linhas de água que, vindas das encostas da Malcata, não se secam por completo. Quando tinha o meu "burro" (o meu velho UMM), quantas vezes a cruzei, a caminho da Pelada e do Cabeço da Moura. Mas a pé, subindo o seu curso, sucedem-se os lameiros, o pinhal, os antigos campos de cultivo.

"Chões, lameiros, regatos, plantas da nossa terra..."
E lá ao fundo é Vale de Espinho
"Pela encosta acima houve em tempos um pinhal grande e outro semeado, houve dezenas de castanheiros .... cerejeiras, macieiras, pereira, loureiro, um pessegueiro e até cortiços ao cimo, encostados à parede da vinha."
"Cantando de pedra em pedra ...
cantigas de embalar e de sonho."
"A minha Avó Bicha tinha um chão muito perto deste sítio.
Esses braços nos saudam, eu sei ...reconhecido à Natureza."

"Muita água vai na serra a correr para o vale ...
E Vale de Espinho é um presépio onde, ao centro, os sinos tocam e a saudade soluça nas gentes."
"No meio da seara de centeio, lá estava a Corte. No cimo da vinha, do lado esquerdo, lá estava o choço... e lá encontrei o meu Avô Madaleno... e lá estava a cantarinha da água fresca, à sombra. Bem pertinho, um canteiro com melões e melancias - um luxo que dava muito trabalho, porque se ia buscar a água à Ribeira do Vale da Maria e subia com ela a pequena encosta ao longo de um correr de giestas. Para uma criança era obra..." .... "Depois é aquela beleza pura, agreste, .... o estar só no meio daquela maresia, o cheiro dos pinheiros, das giestas, o murmúrio dos ramos dos castanheiros carregados de ouriços, o canto de tantos pássaros, o cantar da minha Mãe e do meu Pai, o cantar das minhas irmãs, o meu próprio cantar só com a natureza presente."
Já na Barroca da Fonte Moira, com Vale de Espinho ao fundo
"Lembro-me e imagino-me à sombra dum destes pinheiros a espantar as formigas da minha mantinha, enquanto as ceifeiras faziam a sesta."
A cerca de 920 metros de altitude, a sudeste do Cabeço da Pelada e pouco acima do choço que trouxe o passado ao presente, a ribeira do Vale da Maria  passa a ter o nome de Barroca da Fonte Moira. Porquê da Fonte Moira? Ninguém sabe ao certo. Conta-se que andaram por lá os mouros, que teriam até escavado umas minas, mais lendárias que reais. Percebe-se na foto abaixo o vieiro onde nascem as águas da pequena barroca, hoje envoltas em densos matos e silvados, nascente e vieiro que é pois a origem das águas "mágicas" do Vale da Maria.

O vieiro onde correm, incipientes, as primeiras águas da Fonte Moira, que alimentam o Vale da Maria
"Hoje é só mato, mas havia pão semeado noutro tempo. Lavrava-se a encosta e semeava-se centeio ou trigo. Nós tínhamos uns pinheiros na Fontamoira de um lado da Barroca e seara do outro."
Ao cimo da Barroca da Fonte Moira estava no Cabeço Passil, a 1040 metros de altitude ... e eram horas de regressar a casa. Na senda das águas que correm para o Côa, a descida foi ao longo do curso da Barroca da Assentada, afluente da do Nabo da Crasta.

Barroca da Assentada
"Nesta zona há muitas nascentes, muita água. Em cada
vai seco; mas acontece que há sítios onde a água 

baixa corre um regato que no verão, por vezes
brota como nascente, muito fresca e cristalina."
Lameiros da Barroca da Assentada
"Lameiros verdinhos para o gado e para nós nos espojarmos..."
Barroca do Nabo da Crasta ... ou da Cresta?
A Assentada lança as suas águas na ribeira do Nabo da Crasta a nordeste do Cabeço do mesmo nome. "Nabo da Crasta" ... ou "da Cresta"? Tal como em relação a outros topónimos, há divergências entre o que  consta nas cartas topográficas e os nomes que o povo sempre lhes atribuiu. Tendo em conta que a produção de mel era uma actividade bastante difundida em toda esta zona (ainda o é, embora em muito menor escala), é natural que a toponímia correcta seja "da Cresta", termo relativo ao "crestar" dos favos.

As águas do Nabo da Crasta correm para os Abedoeiros
Praticamente no ponto onde em Outubro passado tinha terminado a minha última "corrida" ao longo das águas que correm para o Côa, sobre o vale da Ribeira dos Abedoeiros, estava terminada mais esta "missão". Restava o regresso ao ninho de Vale de Espinho ... pela velha ponte romana de todas as magias!

A velha Ponte de Vale de Espinho ...
"Ponte que nos leva e que nos traz, sobretudo que me fica em memórias tantas..."

O poema e todas as citações deste artigo são da autoria de Aurora Martins Madaleno ... filha e neta das terras do Vale da Maria. É com muito prazer que lho dedico, e é com a amizade pessoal e com a paixão que tenho por estas terras, que adoptei como minhas, que orgulhosamente aqui incluí os muitos comentários que ontem foi fazendo às minhas fotografias. Aurora ... muito obrigado!
Fica, como sempre, a possibilidade de verem (ainda) mais fotografias, bem como o percurso que segui nesta "peregrinação".
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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Nos confins da Sierra de Gata, entre Las Hurdes e Peña de Francia

Depois de uma caminhada espectacular, à descoberta da Serra de Béjar, que poderia haver de melhor ... do que outra caminhada espectacular? O "meu" Xalmas, ou Xálima (a Serra da Xalma da gíria raiana) é o ponto mais alto da porção ocidental da Serra da Gata. Mas ... há mais alto! Bem mais a nordeste, onde a Gata se "mistura" com a Peña de Francia, já nas comarcas de Las Hurdes (a "terra sem pão", de Luis Buñuel),  a  Sierra de La Canchera  e  o seu  Pico Tiendas  é considerado  o  ponto  mais  alto
El Gasco, Las Hurdes, 4.01.2013
da Gata, com os seus 1590 metros de altitude. De regresso de Béjar a Vale de Espinho ... era a oportunidade de conhecer um pouco destas terras "perdidas" entre vales e serras, entre rios caudalosos e cuerdas altaneiras. El Gasco é uma dessas terras "perdidas", ao fundo do vale do rio Malvellido, afluente do Hurdano. O vale é tão profundo e apertado que a aldeia está quase sempre à sombra. A partir de Vegas de Coria (onde pernoitei e onde, às oito e meia da manhã, estava a dois graus abaixo de zero), são 16 km de uma tortuosa estrada que acompanha o rio, passando por outras aldeias com nomes que lembram contos: Rubiaco, Nunomoral, Martilandrán. E a estrada ... termina em El Gasco. Onde portanto começou a "aventura"...
El Gasco despertava para mais um dia (750m alt.)
Os horizontes vão-se abrindo
Miradouro, já a 1095
metros de altitude
Água ... fonte de vida!
E lá está a Serra de Béjar, ao fundo
E a "aventura" era subir a encosta oeste do vale, rumo à Collada de La Piornera. Uma subida íngreme, em zig-zag, dos 780 metros de El Gasco aos quase 1400 metros da Collada. Um desvio para sul teria permitido ir ver o chamado "Volcán del Gasco", mas a extensão e desníveis da jornada aconselharam-me a deixá-lo para outras "aventuras", tanto mais que iria testemunhar, à medida que subisse, a autêntica miríade de vestígios rochosos daquele fenómeno local, que tem, pelo menos, duas explicações possíveis: uma efectiva erupção vulcânica, ou o efeito de um impacto meteorítico há qualquer coisa como cerca de um milhão de anos. O que é facto é que as rochas de aspecto vulcânico que proliferam em grande parte das cumeadas apenas se originam mediante um extraordinário e rápido aumento de temperatura.
Agulhas
apontadas ao céu

Acima já dos 1400 metros de altitude, o rumo era o Pico Tiendas, a 1590 metros e cume absoluto da Serra da Gata. E a panorâmica ... permitia girar 360º, com a Serra de Béjar a leste ... e a Serra da Estrela no horizonte, a oeste! A norte, o cume da Peña de Francia, a sul, o vale de Horcajo e a planura estremenha, a perder de vista. Era magia em estado puro!

Pico Tiendas, cume da Sierra de Gata, 1590m alt.
Para sul, o vale de Horcajo ... e a magia em estado puro...
Descendo do Pico Tiendas para norte, abria-se-me agora o imponente vale das Fuentes del Hurdano. Foi sobre essa garganta que "pousei" para almoçar ... almoço que teve um episódio digno de registo: a garrafita de "Quinta dos Termos" de que normalmente me faço acompanhar já estava encetada de ontem mas, ao tirar a rolha ... esta partiu-se e ficou a meio do gargalo. E agora? Aquele preciso néctar era mal empregado não acompanhar o pitéu que me estava a repôr as forças. Com o dedo ... a rolha não se mexia...; saca-rolhas ... não tinha! Bem ... pedras havia por ali ... e escolher uma pedra fina que coubesse no gargalo não foi difícil. Assim, lá tentei empurrar o resto da rolha para dentro, com a pedra ... e a rolha lá acabou por ir para dentro ... juntamente com a pedra!!! O resto do almoço foi acompanhado portanto ... com "vinho da pedra"...J. Mas aprendi a lição: nunca mais caminharei sem um canivete multi-funções, aliás companheiro inseparável de um arraiano que se preze!

Panorâmicas
sempre fabulosas
E a caminhada estava já na parte de regresso, agora a norte do vale de El Gasco, sempre com panorâmicas espectaculares. Por estas alturas encontrei o único humano desta jornada: um pastor tomava cuidadosamente conta das suas cabras. "Faz queijos?", perguntei; "no, el suelo es pobre, no es como en Portugal". Se lhe podia tirar uma fotografia? "no, que después me judían en el pueblo". Sem dúvida original, este pastor, cujas cabras lá andavam uns socalcos abaixo.
Como eu gostava de ser como tu...
Descida do Lombo de La Pina, de regresso a El Gasco

Um último adeus a Béjar, lá ao longe
Mas estava ainda acima dos 1350 metros de altitude ... e era preciso descer quase 700 metros para o ponto de origem! Através de um estreito e pedregoso carreiro pelo meio de frondoso pinhal, vencer esse desnível descendente - o Lombo de La Pina - não foi obra fácil...

De regresso a El Gasco ... já quase à sombra
Pouco passava das quatro da tarde quando voltei a entrar em El Gasco, agora vindo de nordeste. E depois ... Vale de Espinho estava a pouco mais de 80 km ... onde a minha "musa" me esperava!
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Estes foram sem dúvida dois dias especatculares. Duas caminhadas bem diferentes, mas que me permitiram, como sempre, carregar as baterias, encher as vistas ... rejuvenescer a cada nova cumeada, a cada esvoaçar de alguma ave que passa, a cada marulhar das águas que correm, a cada rocha que salto, a cada curva de um caminho ... de um caminho que se faz caminhando!