segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Côa e Fontes Lares: as águas e as memórias que nos guardam...

Há dias em que o corpo não pede distância, pede profundidade. Hoje não foram precisos grandes trilhos nem metas distantes; bastaram 5 km de uma caminhada que foi um exercício de libertação.
O Côa entre o Moinho dos Pecas e a foz da ribeira dos Abedoeiros, 19.01.2026, 15h20
O frio foi compensado por um Sol generoso, daqueles que parecem querer abraçar a Alma. Fui procurar o Côa em Vale de Espinho — a aldeia que, não sendo minha... é minha, há já mais de meio século. Estava a precisar deste "retiro", deste silêncio que só o campo sabe oferecer, para calar o ruído cá de dentro. Pelo caminho, o destino cruzou-me com dois filhos da terra. Entre o tilintar dos chocalhos e a paciência do pastoreio, com o Zé Manel "ratinho" (ou Zé Manel "da gatinha") colhi fragmentos de vida e partilhei memórias que o tempo não apaga, como as do meu querido Zé Malhadinhas, dos irmãos e do pai dele, avô da minha arraianazinha. Vai fazer em abril 53 anos que conheci estas terras e gentes💖
Vale da ribeira dos Abedoeiros

Com o Zé Manel "ratinho", partilhando fragmentos de vida
e memórias que o tempo não apaga...
A velha Ponte do Côa, ex-libris de Vale de Espinho
Com as mãos na terra, lá estava também o Manuel Lucas, cuidando da horta que o rio alimenta. "Sempre que quiserem venham buscar couves", relembrou. Frases que são a essência da hospitalidade da Raia. Os meus "carregadores solares" abasteceram-se de chão e de rio, de silêncios e memórias.
As hortas do "B'ceiro" ao Sol a caminho do poente, 16h40
Em cima o Manuel Lucas, do alto dos seus mais de 90 anos, continua a labutar.
Voltei à nossa casinha (a que chamamos "da Branca de Neve") com a Alma lavada e a certeza de que, às vezes, é num pequeno vale que encontramos a maior imensidão.
5ª feira 22 de Janeiro Fontes Lares: Onde o Tempo se Descalça
Há lugares que são templos sem teto, e as 𝗙𝗼𝗻𝘁𝗲𝘀 𝗟𝗮𝗿𝗲𝘀 são o meu. Hoje, a caminhada a solo não foi apenas um percurso, foi uma romagem ao meu santuário mais privado: as ruínas da velha casa dos avós da Eulália... a minha estrelita raiana. Ali, naquele chão que guarda o eco de gerações, jazem as
minhas botas. As mais velhas, cardadas — vindas de terras da Vanoise — cumprem agora o seu destino final, depois de palmilharem léguas sem fim. Há quase doze anos que se deixam consumir pelas leis desse Universo Inteligente que sabe que tudo o que é da terra, à terra deve voltar. Vê-las ser devoradas pelo tempo é, para mim, um lembrete da nossa própria impermanência.
Vale de Espinho, 22.01.2026, 09h45           
Mais fragmentos de Vida e silêncios... cores... reflexos... odores...
A manhã trazia o aviso da tempestade Ingrid, mas o que encontrei foi a calma antes da chuva e do vento. Entre águas que espelham o céu, reflexos que baralham o horizonte e os sons da Natureza agreste, vivi uma catarse necessária, sublimação pura. Cada passo era um desprendimento.
Se há lugares que são templos sem teto... as Fontes Lares são o meu!
Minhas botas, velhas, cardadas,
palmilhando léguas sem fim,

quanto mais velhinhas e estragadas,
quanto mais vigor sinto em mim...
Vinha aí a Ingrid... pelo que acelerei o passo para casa. Entrei com as 12 badaladas do meio dia!
Cada imagem captada era uma libertação. Terminei a jornada com o sino da Igreja a ditar as doze badaladas. O meio-dia soou como um "𝘢́𝘮𝘦𝘯" a este retiro espiritual. As botas velhas lá continuarão a "viver" no passado, eu trouxe a alma lavada para o presente.

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