sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Trilho dos Cornos do Diabo (Serra da Estrela)

No passado dia 27 de Junho subi ao Santuário lusitano do Cabeço das Fráguas, acompanhado por alguns elementos ligados ao Clube de Montanhismo da Guarda que então conheci. Desde aí, acompanhei online as actividades daquele grupo ... que agendou para o primeiro fim de semana de Setembro uma mega caminhada na Serra da Estrela - o MEGATRANSECT da Estrela, precedida de uma
Cornos do Diabo, Serra da Estrela, 31.08.2012
outra caminhada também na Serra, no último dia de Agosto. Apesar de não estar em Vale de Espinho, proporcionou-se participar nesta actividade juntamente com dois elementos vindos também da Grande Lisboa. E é assim que aqui estou, no primeiro dia de Setembro, nas Penhas Douradas, após dois dias de caminhadas ... que se completarão amanhã.
A jornada de ontem tratou-se de um percurso circular de 15 km, no trilho dos chamados Cornos do Diabo, com início e fim junto ao monumento do Sagrado Coração de Jesus, na Lapa dos Dinheiros, concelho de Seia.  O nome  desta aldeia  está associado a uma lenda  que  conta
Sagrado Coração de Jesus, Lapa dos Dinheiros
que, quando alguns homens construíam uma casa e por lá passaram uns caçadores, estes lhes disseram para construírem as suas casas mais abaixo, numas lapas; os homens assim fizeram. Um dia passou por lá o rei D. Dinis e os habitantes ofereceram-lhe um farto jantar. Quando o rei lhes perguntou o nome da aldeia, responderam que se chamava Lapa, porque era construída numas lapas. O rei perguntou-lhes também como tinham feito um jantar tão farto, ao que responderam: "com os nossos dinheiros". D. Dinis ordenou então que a aldeia se chamasse Lapa dos Dinheiros.
Todo o percurso é de grande beleza natural. Com cerca de 2,5 km percorridos, descemos até ao início de uma levada que nos leva ao misterioso rochedo dos Cornos do Diabo. Os Cornos do Diabo são uma grande rocha granítica com cerca de 6 metros de altura, em que no topo duas aguçadas pontas lembram uns cornos. Neste local foi construída uma mini represa que capta as águas da ribeira da Caniça, até à câmara de carga de Ponte Jugais. Seguimos a levada até um caminho que leva na direcção do rio Alva, na Senhora do Desterro, entrando na conhecida Mata do Desterro.

No corno esquerdo do Diabo... J! (Foto de João Ruano)
A fabulosa Mata do Desterro
Cabeça da Velha
Capela da Senhora do Rosário, junto à Cabeça da Velha
Seguiu-se a Capela do Sr. do Calvário e a célebre Cabeça da Velha. Novamente em direcção ao rio Alva, outra levada conduziu-nos à Ponte Jugais. Dir-se-ia que estávamos na Madeira...! Sempre junto à conduta de água, descemos para o "buraco da moura" e para as Cascatas da Caniça. O "buraco da moura" ... fez-me recuar aos meus velhos tempos da Espeleologia! A "exploração" não foi longa, contudo.
Junto às cascatas, a praia fluvial da Lapa dos Dinheiros constitui um local bem agradável, rodeado por uma paisagem deslumbrante. E regressámos ao ponto de partida por estradão florestal.

Senhora do Desterro, rio Alva (foto de Jó Andrade)
Levada de água da Srª do Desterro
Lapa dos Dinheiros à vista
Buraco
da Moura
No Buraco da Moura ... a recordar-me os meus velhos tempos da Espeleologia! (foto de Jó Andrade)
Cascatas da Ribeira da Caniça
Praia fluvial da Caniça, Lapa dos Dinheiros
Aqui fica o percurso realizado:



Uma vez terminada a caminhada, da Lapa dos Dinheiros rumámos ao Vale do Rossim, "base" de onde hoje saímos para Manteigas e o vale do Zêzere! Acima dos 1400 metros de altitude ... a noite não foi felizmente tão fria quanto estávamos à espera. Mas os dias de hoje e de amanhã serão objecto do próximo post.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Douro internacional e calçada de Alpajares ...
no "intervalo" do Intercéltico de Sendim

Depois de 4 dias em terras de Sanábria, descritos no último post, a actividade de verão dos Caminheiros Gaspar Correia terminou em terras de Miranda. Dois objectivos principais: o Parque Natural do Douro Internacional - incluindo o respectivo Cruzeiro Ambiental e a fabulosa Calçada de Alpajares - e a participação nas primeiras duas noites  do  mágico e  histórico  Festival  Intercéltico  de
3.08.2012 - Miranda do Douro: cais de embarque
Sendim, este ano na sua XIIIª edição.
Ainda na sexta feira, 3 de Agosto, entrámos em Portugal pela fronteira de Constantim. Às cinco da tarde, estávamos a partir para o Cruzeiro pelas arribas do Douro, exactamente 9 anos depois de o ter feito pela primeira vez, no dia 3 de Agosto de 2003. Tal como então escrevi, aquele troço internacional do Douro é espectacular, permitindo apreciar as soberbas paredes rochosas a pique sobre o rio e a vida da avifauna típica daquelas abruptas falésias. Depois, Sendim ... de onde regressámos às duas da manhã!

A bordo do cruzeiro ambiental no Douro
Casal de águias de Bonelli nas arribas
Navegando no Douro internacional
Após um merecido descanso, sábado ia mostrar à minha "família" caminheira a fabulosa Calçada de Alpajares, que conheci em Maio de 2008. Próximo de Freixo de Espada-à- Cinta, entre Poiares e a foz da Ribeira do Mosteiro, diz a lenda que nos tempos antigos tudo por ali eram barrancos e precipícios medonhos. Um cavaleiro vindo dos lados de Barca d'Alva, em noite de tempestade, chegou à margem da ribeira; dada a necessidade de atravessar o bravo curso de água, pois tinha a sua amada à espera, suspirou aflito: "valha-me Deus ou o Diabo". Foi Satanás que apareceu ao chamamento e disse:
Campos de Poiares, Freixo de Espada-à-Cinta, 4.08.2012
"Se me deres a tua alma, antes que o galo preto cante, te darei uma ponte e uma estrada para que possas seguir a tua cavalgada sem perigo". O cavaleiro aceitou e o infernal pedreiro e seus acólitos atarefaram-se na arrojada construção de uma calçada entre os fraguedos, ao som de estridentes cantares de bruxas que se reuniram no terreiro, para festejar a conquista de mais uma alma. Mas eis que canta o galo três vezes, quando apenas faltava colocar as duas últimas pedras da ponte. O cavaleiro, liberto do seu compromisso, prosseguiu a sua viagem e o Diabo, enraivecido, desapareceu com os seus acólitos através de uma bocarra que se abriu entre os penhascos!...

Barca d'Alva e o Douro, ao fundo
Aspectos das gargantas de Alpajares
Procurando um pouco menos de calor, só começámos a caminhada já depois das seis da tarde. Completámos os seus 8 km sem sobressaltos nem imprevistos demoníacos ... mas apreciando sobejamente as gargantas e penhascos que a caracterizam, levando as agora escassas águas da Ribeira do Mosteiro até ao Douro.

Calçada de Alpajares
Belos tons de um dia a declinar
O Douro, junto à foz da Ribeira do Mosteiro
E o Sol recolheu-se misterioso...
Seguiu-se a segunda noite mágica em Sendim ... até às três da manhã! E o dia seguinte, domingo ... era o regresso a casa, depois de uma semana intensamente vivida. Natureza, música, amizade, partilha ... que mais se pode desejar?...
Os "Realejo", 13º Festival Intercéltico de Sendim, 4.08.2012

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Regresso às terras de Sanábria

Pouco mais de 2 meses depois da minha "conquista" de Peña Trevinca … voltei na semana passada a terras de Sanábria, agora com a minha "família" Caminheira. Em Maio éramos quatro … agora fomos 42…! Em Maio estava frio e apanhámos chuva, granizo e neve … agora esteve Sol e calor! Mas o encan-
Cascata de Sotillo, Sanabria, 30.07.2012
to das terras sanabresas ... esse continua como em Maio.
Integrado na actividade de verão dos Caminheiros Gaspar Correia, este regresso a Sanábria foi apenas o começo de uma semana intensamente vivida, que terminou em terras transmontanas, saboreando o convívio, a amizade, as brincadeiras e a partilha da vida com os grandes amigos daquela minha "família", que aliás levei a viverem também as primeiras duas noites do mágico e histórico Festival Intercéltico de Sendim, em que, com a minha parceira de vida, participámos pela terceira vez.

Recebidos domingo no Centro de Interpretação do Parque Natural do Lago de Sanábria, para uma introdução ao que todos iam ver e viver, na segunda feira dedicámos a primeira caminhada da semana ao bosque e à cascata de Sotillo. O jogo de luzes, sombras e verdes encantou todos … e todos nos voltámos a sentir pequenos ante a imponência das águas do Rio Truchas, ao precipitarem-se ávidas de atingir o vale.
Um bom cartão de visita de Sanábria, portanto, para esta "família" que eu e os meus três parceiros de Maio fomos agora guiar. E no dia seguinte dividimos o grupo em dois: enquanto eu e o outro "guia" conduzimos os caminheiros mais dotados pelo fabuloso canhão do rio Tera, as nossas duas "guias" levaram os menos preparados fisicamente a descer a Senda de los Monjes. Ambos os percursos foram, naturalmente, os que tínhamos percorrido os quatro, em Maio.

Nas encostas de Peña Mesa, sobre o canhão do Tera, 31.07.2012
Já se avista a Cueva de San Martín
Lago de La Cueva de San Martín
E depois ... começava a "aventura"...
Ao longo da descida do canhão do Tera
Poza de Las Ninfas
O Tera em Ribadelago Viejo, 31.07.2012
Para descanso pedestre, 4ª feira foi dia de cruzeiro ambiental no Lago de Sanábria. E que esplêndido serviço ali encontrámos! Num confortável e silencioso catamaran, movido a energia eólica e solar, quase demos a volta completa ao lago ... incluindo o seu fundo! O comandante mergulha com uma câmara subaquática, permitindo ver num écran a vida animal e vegetal das águas escuras do lago!

A bordo do catamaran do Cruzeiro Ambiental no Lago de Sanábria, 1.08.2012
5ª feira a caminhada era destinada à parte mais alta do Parque, o Alto Tera. Ainda pensei inicialmente levar alguns elementos do grupo ao cume de Peña Trevinca, onde subi em Maio, mas seriam muito poucos, obrigando os restantes a uma espera prolongada. Assim, da Laguna de los Peces subimos a encosta de Peña Cabrita, de onde, tal como há dois meses, se nos deparou a soberba panorâmica do alto Tera, com o maciço de Peña Trevinca a noroeste e a barragem de Vega del Conde aos nossos pés.

Subida da Laguna de Los Peces à encosta de Peña Cabrita, 2.08.2012
E dominando os meandros do alto Tera, com Peña Trevinca ao fundo e Vega del Conde à esquerda
Nos meandros do alto Tera. Ao fundo ... Peña Trevinca.
Abrigo da Majada de Trefacio, à beira de Vega del Conde
Descida a encosta, estávamos na Majada de Trefacio. Paragem para repor energias ... e aí havia que decidir entre regressar pela encosta menos íngreme - o trajecto que em Maio fizemos debaixo de neve... - ou descer à barragem de Vega de Tera, cujo colapso em Janeiro de 1959 provocou a tragédia de Ribadelago. Foi esta última opção que tomámos ... e que nos levou a uma penosa subida, praticamente sem trilhos, de regresso à Laguna de Los Peces e ao autocarro. As panorâmicas e, principalmente, a percepção do que terá sido aquela tragédia, valeram contudo o esforço.

Contornando Vega del Conde
Barragem de Vega de Tera, a presa rota, cujo desmoronamento em Janeiro de 1959 provocou a tragédia de Ribadelago
Junto à barragem de
Vega de Tera
Como foi possível?... Este´documentário é elucidativo do que foi a tragédia de Ribadelago
E o Tera segue o seu rumo, a sudeste da presa rota
A penosa "travessia" de regresso à Laguna de Los Peces (340m de desnível em pouco mais de 2,5 km)
Ao fundo ainda se vê a presa de Vega de Tera ...
... mas pouco depois já estávamos à vista do autocarro!
E assim chegámos a 6ª feira, em que nos tínhamos de despedir de Sanábria ... rumo a terras mirandesas! Ficou a foto de grupo, em Galende, à porta das instalações em que ficámos alojados.

3.08.2012 - À porta do Hostal "El Ruso", em Galende, Sanábria, em dia de despedida
Ficam também os quatro percursos que ficaram para a história dos Caminheiros Gaspar Correia.