domingo, 24 de março de 2019

Nos Caminhos da Finisterra portuguesa...

Caminhos nascente e poente: Tomar - Fátima - Nazaré

Apesar de os Caminhos de Santiago terem para mim uma carga mística maior do que os Caminhos de Fátima, não me esquecerei nunca que os Caminhos espirituais, ou, se quisermos, os Caminhos da Fé, entraram na minha Vida por via do grupo Novos Trilhos e pela mão do grande Amigo e grande ser humano Francisco Antunes. Em Outubro de 2013 fiz a minha primeira peregrinação; foram 4 dias memoráveis ... com os Novos Trilhos nos Caminhos de Fátima. Depois ... depois veio o chamamento de Santiago, veio o Caminho da Aventura, veio a descoberta de que um Caminho não é uma caminhada como as outras, veio um turbilhão de emoções sentidas e partilhadas,
Tomar, 22.Março.2019, 8h20
ao mesmo tempo que o Universo me brindava com alguns dos maiores tesouros que podemos ter nas nossas vidas: as Amizades genuínas ... o Amor fraternal pelas "manas" e "manos" que se vieram juntar aos meus "manos velhos", aos grandes Amigos que já vinham da noite dos tempos. Especialmente a Paula e o Zé Manel, já palmilharam comigo uns bons pares de quilómetros, no Caminho Francês ... e nos muitos Caminhos de Santiago e de Fátima que se lhe seguiram. Com a Paula ... temos Sonhos pelo menos até 2021 ... porque no canto de cada Sonho nasce a Vontade ... porque em cada Sonho há um Caminho.
Vem este preâmbulo a propósito de um projecto nascido nas etapas do Caminho de Santiago que fizemos entre Setembro e Fevereiro, de Lisboa a Santarém e de Santarém a Ansião, por Tomar. E do projecto à marcação de uma data e da data à concretização ... já foi. E foi a ligação Tomar - Fátima - Nazaré, ou sejam os Caminhos de Fátima nascente e poente, delineados e excelentemente marcados pela Associação de Amigos dos Caminhos de Fátima. São cerca de 86 km que rumam a ocidente. A Nazaré tem vindo aliás a ser considerada a "Finisterra portuguesa" ... lá, onde o Sol se põe.
Sexta feira o dia começou bem cedo. Às seis da manhã estava a apanhar o comboio na Gare do Oriente, o mesmo no qual em Santarém entrariam a Paula e o Jorge. E estava formada a equipa de três Peregrinos para três dias de Caminho. Às oito horas, em Tomar, estávamos a dar início à primeira etapa, rumo à Cova da Iria.
                                 Tomar, Castelo e Convento de Cristo
Aqueduto dos Pegões, Tomar, 22.Março.2019
À partida de Tomar, o Caminho acompanha o Aqueduto dos Pegões, construído com a finalidade de abastecer de água o Convento de Cristo; tem cerca 6 km de extensão; a sua construção foi iniciada em 1593, no reinado de Filipe I, e concluída em 1614. Num contínuo sobe e desce - os desníveis são uma das características destes Caminhos nascente e poente - continuámos ao longo de uma manhã que foi aquecendo substancialmente, naquele que foi o segundo dia de Primavera.
Igreja e Albergue de Fungalvaz, 10h10

E continuamos por belos trilhos, já no
Concelho de Ourém e a cheirar à Serra d'Aire
Com sensivelmente 10 km percorridos desde Tomar, chegámos a Fungalvaz. Para além da excelente marcação que já vínhamos a constatar, com as tradicionais setas azuis de Fátima, ao lado da Igreja deparámos com um Albergue, que poderá ser portanto um primeiro ponto de apoio para os peregrinos que só possam ou que pretendam fazer uma etapa curta.
Outeiro das Matas, 12h40 ... eram horas de almoçar
Na pequena aldeia de Outeiro das Matas, a carta indica a existência de um bar, "O Freixo". Não que não tivéssemos almoço, providenciado desde casa, e até um bom tinto do Douro para empurrar.
Um brinde à Vida e à Amizade!
É para a esquerda ou para a direita?...
Mas se não tivéssemos ... "O Freixo" estava fechado; as informações recolhidas de dois habitantes ... deram a entender que "aquilo é mais para a noite". Já uns quilómetros antes, quando cruzámos a EN349, um tal "O Armando" aparentava desactivado. Mas como os peregrinos têm sempre um Santo protector, no Outeiro das Matas e logo a seguir ao encerrado "O Freixo" surgiu-nos a Tasca de São Bernardo ... um simpático recantozinho na aldeia, com assador, balcão e um banco, onde a população se reúne nas festas de São Bernardo, padroeiro do lugar.
E o nosso Caminho prosseguiu. A norte via-se o Castelo de Ourém, que marcou o início do meu Caminho de Santiago de 2018. Mas em Alveijar deparámos com o insólito que a foto ao lado documenta. Até ali e desde Tomar, não tínhamos visto uma única das "célebres" setas do Turismo de Portugal/CNC ... e a primeira que vemos indica aos peregrinos a direcção errada! A indicação da esquerda corresponde à chamada Rota Carmelita, inventada por aquelas instituições e assinalada (em muitos casos erradamente) com o recurso a fundos comunitários ... e em diversos locais destruindo as marcações correctas, colocadas por voluntários ao longo dos últimos cerca de 12 anos. A Associação de Amigos dos Caminhos de Fátima tem denunciado aquela situação através da imprensa e da televisão, mas os peregrinos continuam a ser induzidos em erro.
Fátima, com o Santuário à vista. Pouco depois das três da tarde tínhamos completado o Caminho Nascente
Em Fátima, a Casa de S. Bento Labre acolheu-nos, pessoalmente pela primeira vez. Boas instalações, com roupa de cama e toalha, ao preço do donativo que o peregrino entender. Um banho retemperador faz-nos esquecer os 31 km nos pés ... bem como o facto de no dia seguinte termos 40 para percorrer, já que por enquanto não existe nenhum albergue antes de Cós.
Fátima, 22.Março.2019, 17h45
22 e 23.Março.2019: Quando às luzes da noite se seguem as luzes de um novo dia...
E o novo dia começou, para estes três peregrinos, poucos minutos depois das seis da manhã. Pequeno almoço tomado (sim, já há locais abertos a essa hora) e antes das sete estávamos a iniciar o Caminho Poente ... e a encontrar as primeiras setas azuis para a Nazaré ... a Finisterra portuguesa. Mais uma vez uma excelente marcação, feita por voluntários da Associação de Amigos dos Caminhos de Fátima, como aliás o "Público" na altura divulgou. Do Turismo de Portugal / CNC não vimos uma única indicação, apesar deste último divulgar a existência do Caminho.
Pia do Urso, 23.Março.2019, 8h15
Por São Mamede e rumando a sudoeste, pouco depois das oito da manhã estávamos na aldeia de Pia do Urso.
3 peregrinos na Barrenta,
com o "velho da morada"
Começávamos a atravessar o maciço das serras de Aire e Candeeiros, cujo relevo marcaria bastante esta segunda etapa da nossa travessia. Pouco mais de um ano depois de ali ter estado com os Caminheiros Gaspar Correia, voltava também à Barrenta e à lenda do velho da morada, que aqui contei nestas "páginas" quando daquela caminhada pelo planalto de São Mamede.
Na Barrenta fizemos um reforço alimentar (e principalmente hídrico...) no simpático Café Carreira, após o que o percurso se aproxima a passos largos da Serra de Candeeiros e das "minhas" velhas terras de Alcaria, com a Fórnea no horizonte próximo. O modelado da paisagem não nos deixava esquecer que estava para vir a parte mais dura desta travessia Tomar - Nazaré, particularmente a partir do sítio do Livramento e da sua muito original Tasquinha da Dona Maria.
Próximo de Alcaria, com a Fórnea no horizonte
Porto de Mós à vista, entre o Livramento e Ribeira de Cima
Subida para a ecopista da Bezerra, no "mar" de pedras da Serra de Candeeiros
Atingidos os quase 400 metros de altitude e com as antenas da Serra de Candeeiros no horizonte, começámos a descida para a povoação de Pedreiras. E que descida...! Ao fundo já se via o mar ... já dava para sonharmos com Fisterra. E no mesmo Café do meu Caminho de 2015, interrompido em Ourém, pedimos um bitoque para cada ... não sabíamos é que era gigante...
Próximo de Pedreiras, 14h30, com a Serra de Candeeiros atravessada ... e já almoçados
Das Pedreiras em diante o Caminho Poente segue por zonas rurais, maioritariamente por caminhos e estradões. Essa é aliás uma característica que muito nos agradou: tal como na véspera no Caminho Nascente, na marcação destes Caminhos de Fátima houve a preocupação de fugir o mais possível ao alcatrão. Já com 35 km nos pés e numa tarde bem quente, a Ermida da Senhora da Luz como que nos dizia para termos forças para mais um pouco ... e pouco depois das quatro e meia da tarde chegávamos a Cós (ou Coz) e ao seu Mosteiro Cisterciense.
Ermida da Senhora da Luz, em Porto Linhares, já em terras de Cister e dos Coutos de Alcobaça
Ainda não são cinco da tarde. Com 40 km percorridos desde Fátima, recebe-nos o Mosteiro de Santa Maria de Coz
O conjunto conventual no qual se integra o Mosteiro de Santa Maria de Coz remonta ao século XIII e está relacionado com o Mosteiro de Alcobaça, que ali teria um conjunto de mulheres devotas que auxiliavam em múltiplas tarefas necessárias ao bom funcionamento daquele. Por ali ficaria e se desenvolveria a comunidade conventual, até à extinção das ordens religiosas, na primeira metade do século XIX.
Albergue de Cós, na antiga Escola Primária
Guardámos contudo a visita ao Mosteiro para depois de nos instalarmos.
O 4º peregrino...
A Junta de Freguesia transformou a antiga Escola Primária num pequeno mas bem apetrechado Albergue, com 6 lugares em beliches, que garante a pernoita aos peregrinos do Caminho Poente. Só fomos três ... mas na manhã seguinte iríamos constatar que tinha havido um quarto "peregrino"... 😋.
Aspectos do riquíssimo interior
da Igreja do Mosteiro de Cós
Para além da dormida, também estava previamente combinado o nosso reforço alimentar no Bar da Associação Desportiva e Cultural ... que abriu especialmente para nós! Esta associação e a Junta de Freguesia são portanto contactos úteis aos peregrinos que querem pernoitar em Cós.
24.Março.2019, 6h50 - E surge a alvorada do terceiro e último dia de travessia, segundo no Caminho Poente
A segunda etapa do Caminho Poente era a mais curta das três que nos propuséramos. Das terras Cistercienses de Cós à Finisterra portuguesa seriam menos de 14 km. Urge criar um albergue entre Fátima e Cós, permitindo uma gestão mais equilibrada das etapas. Mas como o peregrino se levanta sempre à mesma hora ... antes das seis e meia da manhã já estávamos a andar ... na esperança de encontrar um Café aberto na Póvoa ou no Casal da Areia. Enganámo-nos. Para pequeno almoço, valeram-nos os restos que ainda havia nas mochilas, partilhados na Póvoa com um peregrino de quatro patas que nos acompanharia quase até à entrada na Nazaré.

Um pequeno almoço frugal na Póvoa ... e a jornada prossegue,
acompanhados por um peregrino de 4 patas...
Pelos pinhais que ladeiam o IC9, rumo ao Ocidente
Junto ao IC9 e já relativamente próximos da Nazaré, tomámos a opção de seguir o estradão paralelo àquela via. As setas, sempre excelentemente colocadas, apontam contudo para norte, dando uma volta substancialmente maior. A única consequência foi contudo a nossa opção obrigar-nos a saltar uma vedação de arame, encostada já à rotunda do IC9 com a variante à EN242. O nosso amigo de 4 patas é que não o conseguiu; esperamos que tenha sabido regressar a casa.

Às nove da manhã estávamos a atingir o objectivo destas três jornadas: na Nazaré, a caminho do Sítio
O Sítio da Nazaré é um local emblemático. A panorâmica sobre a vila, a praia e o imenso oceano é fabulosa. Ali ... quase nos pareceu ver o cavalo de D. Fuas Roupinho a estacar sobre o vazio.
Nazaré, no Sítio para sempre ligado à lenda de D. Fuas Roupinho.
Ermida da Memória, erigida em memória do milagre, sobre
a gruta onde se venerava a imagem da Virgem Maria
Considerar a Nazaré a Finisterra portuguesa é recente, mas as primeiras peregrinações ao Sítio da Nazaré datam do século VIII, quando a pequena estatueta da Virgem terá sido guardada na gruta. Devido à significativa afluência de peregrinos, em 1377 o rei D. Fernando mandou construir, perto da Ermida da Memória, uma igreja para a qual foi transferida a imagem da Virgem, igreja que viria a ser o actual Santuário de Nossa Senhora da Nazaré. Depois, ao longo dos séculos, grandes romagens organizadas, os Círios, trouxeram milhares de peregrinos à Nazaré, de todas as classes sociais, incluindo muitas vezes a Família Real portuguesa.
Estátua alusiva simultaneamente ao milagre da Nazaré (evocando o veado de D. Fuas) e aos surfistas da Praia do Norte
Forte de S. Miguel Arcanjo e Farol da Nazaré: 3 Peregrinos,
ao fim de 3 dias e 86 km, chegaram à Finisterra portuguesa...

Antes de irmos ao Santuário, a nossa peregrinação tinha de acabar ... na finisterrae. E o fim da terra é, aqui, o promontório onde se ergue o Forte de S. Miguel Arcanjo e o Farol da Nazaré, separando a calma praia da vila da Praia do Norte, mundialmente célebre pelas suas ondas que atingem os 30 metros de altura, formadas por acção do Canhão da Nazaré, desfiladeiro submarino que, até à planície abissal ibérica, atinge profundidades na ordem dos 5000 metros.

As ondas mágicas da Praia 
do NorteNazaré
De regresso do promontório de S. Miguel, faltava-nos terminar no Santuário Mariano e descer à vila. A pé? No ascensor mundialmente famoso? A pé, claro, ou não sejamos nós caminheiros...

Santuário de Nª Srª da Nazaré e a imagem alusiva ao milagre
Nazaré, Praia da vila, 24.Março.2019, 11h25
O objectivo estava atingido. Os Caminhos da finisterra portuguesa tinham-nos levado de Tomar à Nazaré em 2 dias e meio, rumando a Ocidente ... e brindando à Vida e à Amizade. Como ainda há dias a minha "mana" Paula dizia, as amizades são alguns dos maiores tesouros que temos nas nossas vidas. A mim ... o Universo brindou-me com alguns desses tesouros.
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1 comentário:

Raul Branco disse...

Li toda a reportagem, aprendi e gostei imenso! Obrigado Callixto.