segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Fontes Lares 2017 ... em busca das botas perdidas...

Em Vale de Espinho desde sexta feira passada (que o mesmo é dizer desde o ano passado...), algo me chamou às "minhas" Fontes Lares naquela que foi a primeira caminhada de 2017. Seria apenas mais uma de tantas "romagens" que já fiz àquele meu "santuário"; nem previa, por isso, que mais uma pequena caminhada às Fontes Lares fosse pretexto para abrir o "Por fragas e pragas..." no novo ano. Mas ... o chamamento afinal tinha uma razão...
Có Pequena, 2.01.2017, 9h45 ... tinha começado
a primeira caminhada do ano
Às nove e meia da manhã, estava assim a subir o velho caminho do Areeiro, rumo à Có Pequena e à Serra Madeira. Contrariamente aos anteriores, o dia estava cinzento. Os zero graus davam uma sensação térmica bem mais baixa, com o vento como que a cantar O son do ar, dos galegos Luar na Lubre ... e a acompanhar-me à medida que subia. A sudeste, sobre as Mesas, lá de onde nasce o Côa, o Sol pálido tentava perfurar as nuvens altas ... e às 10h20 estava à vista das "minhas" Fontes Lares ... o meu "santuário".

Fontes Lares! Qualquer semelhança com a imagem que encabeça o blog ... não é pura coincidência...
Este é, sem dúvida ... o meu "santuário"!

Em Agosto passado uma das minhas velhas botas, que um dia ali deixei para a eternidade, tinha desaparecido. Organizei então uma "missão de resgate", bem sucedida ... e os dois pares de botas lá continuaram, no que resta da parede sul da velha casa das Fontes Lares. Mas hoje, ao chegar ... restava uma única bota, no "pedestal" onde, há já quase três anos, fiz o "funeral" às primeiras que ali deixei, as históricas Meindl compradas em Agosto de 2000 em Pralognan-la-Vanoise, em pleno Parque Nacional da Vanoise. Se aquelas botas falassem ... teriam muito para contar, muitas fragas e pragas para descrever...!
Profanadas no seu "leito de morte" não teriam certamente sido. Seguramente que estariam, as três, caídas algures de um ou outro lado das ruínas. Há muitos anos quase completamente rodeados de fetos e silvas, os muros de pedra passaram a ser de difícil acesso ... mas o Inverno é a época em que a vegetação menos se desenvolve. E por isso ... não foi muito difícil saltar o muro sul, afastar as silvas com o auxílio dos bastões ... e lá estava o par da única bota que tinha permanecido no seu lugar... 😊; das outras duas, contudo, nem o rasto.

Dos dois pares de botas a que um dia dei destino final nas ruínas das Fontes Lares ... restava uma... 😢
... mas o par foi reconstituído. A bota "irmã" havia tombado para o antigo pequeno "curral" junto à parede sul
E o outro par? No mesmo local não estavam; só poderiam ter caído, portanto ... para dentro de casa. Da casa que um dia teve tecto, teve vida, teve estórias e história! Há quase 44 anos ainda a conheci de pé; agora, há muitos anos que foi ocupada pelas giestas e pelas silvas, há muitos anos que o tecto desabou, há muitos anos que era praticamente impossível entrar no que, um dia ... foi casa dos meus sogros; e, antes deles, dos pais da minha sogra! Hoje, contudo ... eu entrei na casa das Fontes Lares!

Dentro destas paredes ... um dia houve vidas!
Entrar ali, sentir-me no seio daquele emaranhado de mato que cresceu onde viveu gente que conheci e conheço ... foi uma sensação forte, indescritível. Seguramente que há mais de 30 anos que não entrava na casa das Fontes Lares. Casa ... que um dia até vestígio deixará de o ser. Da parede  leste - entrei "através" dela... - já pouco resta; ainda há 3 anos foi por ela que subi, para fazer o "funeral" ao meu primeiro par de botas, no topo da parede sul. E eram essas, as minhas velhas botas vindas da Vanoise ... que jaziam na "sala" da casa, por entre giestas e silvas!

As minhas botas velhas, cardadas, que palmilharam léguas sem fim ... tinham caído para dentro das ruínas da casa!
A parede sul foi, até hoje, o "pedestal" que eu elegera para o descanso eterno dos dois pares. Mas estas, as mais velhinhas, caídas dentro do que um dia foi uma casa ... pareciam olhar para mim ... e quase as ouvi balbuciarem-me ... "Deixa-nos aqui! Nós pertencemos aqui! ". Mas aqui onde, perguntei-lhes eu! Assim, aí caídas, parecendo vindas da noite da própria casa? Então olhei o que resta das paredes ... das paredes construídas pedra sobre pedra ... das paredes onde, num tempo transversal ao Tempo, se intervalavam pedras razoavelmente lisas e salientes da parede para o interior, sobre as quais se colocava o sal, o azeite, as candeias, protegidas dos animais e à mão da necessidade. E as botas disseram-me ... "é ali "...

Na velha prateleira de pedra do azeite e do sal ... descansam agora
umas botas que, igualmente, contariam muitas histórias e estórias!
E as minhas botas velhinhas lá ficaram, dentro da velha casa das Fontes Lares, debaixo de um tecto sem tecto, convivendo com os troncos que brotam do solo ... atravessando o Tempo! Eram onze e meia quando deixei a casa, o barroco "sagrado", o carvalho e o freixo, a fontinha, a presa, a água que corre e alimenta campos, pastagens, serra abaixo. Serra abaixo, o regresso fi-lo pelas Guizias e bordejando a "Coba" Grande. Algum gado bovino deu-me os bons dias; os bons dias num dia em que havia chuva prometida ... mas em que a chuva não caiu. Pelo contrário, a magia do vento, do som e da cor do ar, da cor dos campos ... levaram-me a abraçar o solo, como que num agradecimento à Terra, à Natureza e à Vida!

11h50 - Nas Guizias, onde o gado vive ao ritmo do tempo
"Coba" Grande, para onde correm as águas que alimentam o Côa a leste de Vale de Espinho
Um abraço ao solo, à Terra, à Natureza, à Vida! Aqui, em primeiro plano ... não ... não é uma rocha. Sou eu...!
Pouco depois do meio dia, tinha Vale de Espinho à vista. Vista do Areeiro, da Pelada, das Cabeças ... Vale de Espinho é e será sempre uma aldeia que é bonito ver-se ... a "minha" aldeia!

Vale de Espinho, vista da descida do alto das Cabeças ao Cabeludo
A primeira caminhada do ano foi curta, uns simples 8 km ... mas as caminhadas meço-as pelo que me dizem, pelo que vivo e sinto. Um primo, nascido em Vale de Espinho, escreveu-me a propósito desta caminhada de hoje: "Nem o frio nem o vento o faz parar, Zé. Será que quando caminha sozinho não sente solidão?". Respondi-lhe assim ... "Nunca estou sozinho, primo. Tenho as giestas, as canaveiras, as nuvens, o vento, as aves, às vezes um javali, uma raposa ou umas perdizes, toda a Natureza à minha volta. Solidão, portanto?... Nenhuma! ". Ao ler a minha resposta, referiu-me ser "a expressão de quem tem também uma alma de poeta"; como não sou poeta, sugeri que possa ter "uma alma que sente a Natureza, que comunga com a Natureza" ... e uma amiga acrescentou "...ou que também pertence um pouco à natureza". É verdade, sem dúvida! Tal como em relação aos Caminhos de Santiago, também fazemos parte da Natureza ... e a Natureza faz parte de nós!
Ver o álbum completo

2 comentários:

Pedro M disse...

Zé,

Adorei a primeira do ano. Para além de "uma alma que sente a natureza", também tens uma alma que sente o invisível e, embora não sejas poeta, descreves muito bem essas sensações "fortes e indescritíveis". Ao ponto de nós, que não estivemos lá, também o conseguirmos sentir.
Um feliz Ano Novo para ti e toda a família, repleto de caminhadas emocionantes como esta primeira.

Um abraço,
Pedro Mousinho

Mário Madeira disse...

Que maior poesia que esta sentimento de comunhão com a Natureza, com a Vida que tu nos transmites em cada Fraga por onde passas?
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhas de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dize-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca