quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Da Bobadela ao Cabeço de Montachique...
na senda dos Makavenkos

Num dos últimos dias do ano que findou, um companheiro de "aventuras" publicou numa rede social esta fantástica foto que, com sua autorização, aqui reproduzo.

O Triângulo de Verão: Altair, Deneb e Vega (Foto: Henrique Feliciano Silva)
Ele como eu apaixonado pelos montes e vales, o Henrique também tem outra grande paixão: a fotografia ... e, entre outras, a fotografia nocturna. No verão, as três estrelas da foto dispõem-se sobre as nossas cabeças à meia-noite; de inverno, é preciso espreitar mais cedo para ver o triângulo. Para fotografar este belo céu, o Henrique escolheu as ruínas do Sanatório Grandella, no Cabeço de Montachique. Como ele próprio diz, "um lugar esquecido às portas de Lisboa, com uma surpreendente história".
Atrás do Parque Urbano de Santa Iria da Azóia, 11.01.2017
A foto do Henrique e a história do Sanatório ... fascinaram-me! Já ali tinha passado várias vezes - inclusive em Outubro último, com os Novos Trilhos - mas nunca tinha dado grande atenção ao "Castelo" em ruínas ali existente. A foto do Henrique ... motivou-me para lá ir; e para lá ir ... a pé desde casa... 😃
E assim ... às primeiras luzes do dia estava a partir da Bobadela, com três companheiros que aceitaram o desafio para uma jornada que se sabia ser longa. Primeiro pelos bairros sobranceiros ao vale do Trancão, com o Sol a nascer sobre o Tejo, rumámos a Santa Iria da Azóia e à Granja de Alpriate. Sabíamos que avançávamos por zonas bastante urbanizadas ... nem sempre fáceis para um percurso pedestre...

Passagem sob a estrada,
próximo de Quintanilho
Às nove horas estávamos a subir para a aldeia quase rural do Zambujal, para depois cruzar o Trancão e subir a encosta sul da serra do Mosqueiro. Com menos de três horas de caminho e 14 km percorridos, às 10h15 estávamos em Fanhões ... primeira paragem, numa apelativa pastelaria 😃

Aldeia do Zambujal
Rio Trancão, entre Zambujal e Fanhões
Aspectos da bela mata que cobre a encosta sul da serra do Mosqueiro, entre o vale do Trancão e Fanhões
E ... Fanhões à vista
Depois de Fanhões ... nova subida! Agora rumávamos nitidamente a noroeste ... e pouco depois já avistávamos o objectivo: o Cabeço de Montachique. Bordejando o vale da ribeira de Ribas, às 11h30 estávamos no Forte do Mosqueiro ... de onde já se avistava também o famoso "Castelo" de Montachique. Castelo que não o é ... sanatório que nunca o chegou a ser...

Cabeço de Montachique à vista!
Forte do Mosqueiro ...
... de onde já se avista o Sanatório Grandela
O "Castelo", ou "Palácio" de Montachique
Mas o que é afinal, ou foi, o "Castelo" de Montachique? Curiosamente, na sua múltipla actividade jornalística, o meu pai - Vasco Callixto - escreveu em Julho de 2001 um pormenorizado artigo sobre o Cabeço de Montachique e aquele Sanatório que nunca o chegou a ser, artigo esse que faz parte dos "Retalhos de Portugal", obra editada em 2004. Corria o ano de 1918 e Francisco de Almeida Grandella - esse mesmo, o dos Armazéns Grandella - doava um terreno de 3.500 metros quadrados para a construção de um edifício destinado ao tratamento e internato temporário de doentes de tuberculose, em nome da chamada “Sociedade dos Makavenkos”. Juntou-se o gesto solidário do arquitecto Rosendo Carvalheira, que criou um grandioso projecto para o edifício.

E cá está ele, o ex Sanatório que nunca o chegou a ser...
Rosendo Carvalheira não sobreviveu para assistir ao lançamento da primeira pedra deste grandioso feito. À festa, compareceu a aristocracia da época, o que não impediu que desde logo existissem algumas limitações no que toca ao financiamento da obra; até há alguns anos, dizia-se que junto às fundações do edifício se tinha enterrado uma caixa onde o povo anónimo colocaria os seus singelos donativos. Um cofre bem seguro, à prova de roubo ... um tesouro!

O que resta desta imponente estrutura, abandonada há quase 100 anos
O apelo aos ricos da época para que doassem “uma pequena parcela da sua enorme riqueza” não teve resposta e depressa se parou com a construção. Todas as expectativas geradas em torno do projecto acabaram por sair goradas. O Sanatório continua de pé, tal como foi deixado há quase cem anos. E o cofre escondido? Continuará por lá? Não o encontrámos ... nem ao fantasma que também se diz que por lá anda, apesar de nunca lá ter morrido ninguém, já que nunca chegou a ser terminado.

E, como não encontrámos o fantasma dos Makavenkos ... zarpámos para o cume do Cabeço de Montachique
Pouco antes do meio dia, sensivelmente com 20 km percorridos, estávamos no geodésico de Montachique, a 409 metros de altitude. As nossas pernas já tinham, na altura ... qualquer coisa como 900 metros de desnível acumulado! E ali ... começaria o regresso.

Chegamos ao geodésico do Cabeço de Montachique
Vista para noroeste. Ao fundo, percebe-se o mar.
Foto de grupo. Os quatro conquistadores de Montachique
O regresso foi pela encosta sobranceira ao vale da Ribeira de Lousa, onde ainda em Outubro passado tinha estado com os Novos Trilhos. Tal como nessa altura, passámos na gruta de Salemas e, sempre para sul, pouco depois da uma da tarde estávamos em Torre dos Trotes ... que elegemos para local de almoço.

Campos da Ponte de Lousa
Gruta de Salemas
Em Murteira passámos por baixo da A8, agora em direcção sudeste, rumo a Santo Antão do Tojal e à várzea de Loures. O belo Aqueduto do Tojal e a respectiva Igreja são sempre dignos de registo. E antes das quatro estávamos na Quinta do Monteiro Mor, já na várzea do Trancão ... e a entrar no Caminho de Fátima e de Santiago...

Aqueduto de Santo Antão do Tojal
Quinta do Monteiro Mor ... no Caminho de Santiago e Fátima
Estávamos na parte final desta longa "maratona". Seguindo o Caminho de Santiago e Fátima, embora em sentido contrário, descíamos também o curso do Trancão ... não sem a habitual lama que caracteriza estes terrenos alagadiços.

Um pouco de lama, na várzea do Trancão...
E o Trancão pouco antes de Sacavém, já à luz do Sol a baixar. A caminhada estava perto do fim ... 
Antes das cinco da tarde estávamos a subir para a Bobadela. Acabámos antes do previsto, com 41 quilómetros percorridos ... e mais de 1200 metros de desnível acumulado! Obrigado, companheiros!
Ver o álbum completo

2 comentários:

José Mota Amado disse...

Boa decisão.

Raul Branco disse...

Mais uma excelente reportagem, bastante didática, por locais que me são familiares, pelas muitas caminhadas que fiz, com o meu amigo Prof. Manuel Silva, organizadas pelo Dep. de Desporto da Câmara de Loures.

Adorei!

Obrigado Callixto

Um abraço