segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Da Foz do Trancão às Azenhas do Mar (53km)

Em Setembro de 2013, na sequência de ter passado ao "estatuto" de sexagenário, concretizei com outros três "carolas" uma longa marcha de uns "redondos" 60 km (acabaram por ser 62), que me levou de casa à Praia de Santa Cruz. Com alguma saudade dessa travessia, há algum tempo que tinha começado a fermentar no imaginário uma outra longa marcha que, partindo igualmente de casa ou por perto ... me levasse de novo à Costa Oeste, mas desta vez mais a sul ... porque não ao mítico Cabo da Roca, ponto mais ocidental do continente europeu?
Sacavém - Ia começar uma longa marcha até ao Atlântico...
Lançado o desafio a uns quantos, responderam à "chamada" três candidato(a)s, por sinal um deles, companheiro de muitas "aventuras" ... que tinha sido também um dos três companheiros da ligação a Santa Cruz. O ponto escolhido foi, desta vez, a Foz do Trancão, em Sacavém. Mais de uma hora antes do Sol raiar para lá do Tejo - mas com um quarto de hora de atraso em relação ao previsto (porque um dos "carolas" tinha adormecido...J) - estávamos assim a partir da Foz do Trancão. Antes ... já tinha feito quase 4 km a pé, de casa lá.
Várzea do Trancão, 7:27h - O dia começa a clarear
Pelo Caminho de Fátima e de Santiago, o troço inicial seguiu o vale do Trancão ... onde íamos sendo devorados pelos insectos ... mas onde ao fim de 5 km se deu a primeira peripécia desta "aventura"...! Sensivelmente ao nível de Vale de Figueira, já com o dia a clarear ... dei por falta do telemóvel/GPS. Tinha tirado a mochila pouco antes, para arrumar o frontal e tirar o buff para o Sol que aí vinha, pelo que corri para o local onde a tinha tirado, pressupondo que tivesse caído lá. Mas ... não estava lá! Onde então teria caído? Sabia que o tinha consultado pela última vez aos 4,5 km, pelo que, com dois dos companheiros de jornada, voltámos atrás, vasculhando o terreno à esquerda do caminho, já que o aparelho estava dentro de uma bolsa esquerda da mochila ... de onde nunca na vida tinha caído. Mas ... nada! Sem GPS - onde tinha, no OruxMaps, não só as cartas necessárias como o percurso delineado ... teríamos de abortar o projecto.

Unhos, na várzea do Trancão ... visto de próximo do local da "aventura" do GPS...J
Quando já estávamos praticamente na disposição de abortar o projecto ... acendeu-se-me uma "luzinha", que me fez ir procurá-lo, também, no pequeno troço entre o ponto onde tirei a mochila e o ponto onde dei por falta dele ... e lá estava ele, caído, à esquerda do trilho ... mas claro que a registar os 42 minutos que ali esteve, pobre e abandonado...J. E como em tudo na vida, as aprendizagens são constantes: tenho por hábito desligar a componente 'telefone', durante as caminhadas, para poupar bateria para a componente 'GPS'. Se não o tivesse feito ... teria bastado um telefonema de um dos companheiros para que ele "saltasse" e respondesse "estou aqui, deixaste-me cair!"...J

Resgatado o smartphone ...
aí vamos ao longo dos sapais do Trancão
Com três quartos de hora de atraso somados ao quarto de hora inicial ... tínhamos uma hora de atraso! Num projecto desta dimensão ... seria praticamente impossível recuperar. E, aos 10 km de marcha, em S. Julião do Tojal ... o elemento feminino da equipa de 4 ficou para trás. O ritmo de andamento estava a ser demasiado para ela; descontando a "aventura" do telemóvel, tínhamos levado até ali 1 hora e 36 minutos, à boa média em movimento de 6,3 km/h.

Aqueduto de S. Julião do Tojal
Reduzidos a três elementos ... acelerámos a bom ritmo para a Manjoeira e Murteira, próximo da qual passámos por baixo da A8. Na Murteira, tendo há poucos minutos visto os meus dois companheiros bem perto, oiço tocar o meu telemóvel (que depois da "aventura" já tinha ligado...J) e vejo que é um deles; "está-me a ligar por engano", pensei; mas olho para trás ... e não vejo ninguém! Atendi ... e oiço "Callixto, onde é que estás?". Não me tinha apercebido que o outro companheiro parou para trocar de calças para calções ... e eles perderam-me de vista! Só peripécias...J

10:44h - Torre dos Trotes e vale do Rio de Lousa
A oeste da Ribeira de Lousa, tínhamos a maior elevação de todo o percurso, a Serra da Carva e o alto dos Bolores, a 330 metros de altitude, onde completaríamos 20 km de marcha. Começava-se a sentir o calor anunciado para estes dias de Outono ... mais parecidos a um Verão que verdadeiramente não houve.

Dominando o Vale do Inferno,
a oeste de Ponte de Lousa
11:54h - Próximo de Covas de Ferro, pela primeira vez avistamos a Serra de Sintra
Pedreiras de Negrais
12:36h - Negrais, 27 km percorridos
O almoço, rápido e frugal, foi em Negrais. Não fomos ao famoso leitão...J. Na aldeia com o curioso nome de Mastrontas, chegámos à linha do Oeste ... e por uns 400 metros acompanhámos a linha. Depois ... depois foi um caminho de aventura ... a recordar-me alguns troços do verdadeiro "Caminho da Aventura": o estudo prévio sobre as cartas topográficas e o Google Earth parecia indicar um trilho a descer para a estrada da Pedra Furada a Mafra-Gare ... mas, se o houve, estava debaixo de muito mato! Tivemos de voltar de novo para junto da linha do comboio, para descer mais à frente ... a corta mato.

Recordando ... o "Caminho da Aventura"...
Pela frente tínhamos agora a subida aos Moinhos da Raimonda e ao Penedo de Lexim. Quase às duas da tarde, com o Sol a ficar a pino ... a subida não foi propriamente fácil...
O Penedo de Lexim, com origem no complexo vulcânico da região de Lisboa, constitui os restos de uma chaminé vulcânica. O magma sofreu arrefecimento lento e gerou minerais bem desenvolvidos e arranjados em forma de colunas prismáticas; o basalto alcalino das colunas é constituído por cristais de olivina, piroxenas e feldspatos, sob a forma de minerais desenvolvidos, visíveis a olho nú.

Penedo de
Lexim
Do Penedo de Lexim seguimos para a aldeia da Mata Pequena ... não sem mais uma pequena dose de "aventura" ... e de corta silvas!

14:40h - Aldeia da Mata Pequena
A aldeia da Mata Pequena constitui um inovador projecto de turismo de habitação, exemplo possível para tantas outras aldeias por esse país fora. Dela descemos à Ribeira da Mata e a Cheleiros ... onde fizemos reforço de líquidos, incluindo café.

Ao longo da Ribeira da Mata
Cheleiros e a sua velha ponte
Depois de Cheleiros, havia que subir para a encosta da aldeia abandonada de Broas ... depois de atravessar, a vau, a confluência da Ribeira de Cheleiros com a Ribeira da Cabrela, que vêm a constituir o Rio Lizandro.

Travessia da Ribeira da Cabrela, entre
Cheleiros e a aldeia de Broas
A aldeia de Broas guarda os traços de um típico casal saloio que chegou, em tempos, a reunir sete famílias. A subida é íngreme, mas a vista compensa o esforço. O isolamento e a deficiente acessibilidade ditaram o destino de Broas, que se tornou na mais típica das aldeias fantasmas da região saloia. A casa mais recente é datada de 1888 e a última residente - a "avó Gertrudes" - deixou o casario há cerca de 40 anos, quando o adiantar da idade não mais permitiu que vivesse na solidão do alto monte.

Aldeia abandonada de Broas, na colina sobranceira, a poente, às Ribeiras de Cheleiros e da Cabrela
Sempre rumo a ocidente - ao mar e ao Sol poente - passámos a sul de Odrinhas, por Alfaquiques, Codeceira e Pernigem. Alfaquiques marcou a nossa última paragem antes de rumar definitivamente ao mar ... mas também o local onde o meu companheiro "dorminhoco" (o que se atrasou por ter adormecido, à partida) verificou que tinha uma bolha "monumental" num calcanhar! É que, na balbúrdia gerada por ter acordado tarde ... calçou ténis em vez de botas de caminhada! Mais de 50 km de ténis ... é obra...J!

Para norte ... Mafra e o seu Covento
Para sul ... a Serra de Sintra e o Palácio da Pena
Outro episódio do "caminho" para o mar e o Sol poente: à passagem por Pernigem, ao verem-nos com mochilas, dois locais indicam-nos uma boa fonte de boa água. Pergunto-lhes: "Daqui para as Azenhas do Mar conhecem algum melhor caminho a pé do que pelo Arneiro dos Marinheiros e Fontanelas?". Resposta: "Claro, vão por aqui, mais a sul, direito à Ribeira e à aldeia de Gouveia, é mais perto!". Na conversa, dizemos que viemos da Foz do Trancão, que pessoalmente moro na Bobadela. Ora, não só nos dizem que são ambos também caminheiros ... como um deles me fala logo num grande amigo dele na Bobadela, barbeiro ... o barbeiro onde costumo cortar o pouco cabelo que me resta na cabeça...J
Seja qual for a razão ... este Mundo é pequeno...J

18:02h - E lá vamos nós rumo ao Sol, entre Pernigem e Gouveia
O trilho indicado pelo nosso providencial "aguadeiro" de Pernigem não só era mais perto, como se nos revelou um belo trilho, por entre frondosa vegetação, até à simpática aldeia de Gouveia, "pequenita" mas "bonita", como consta num simpático quadro de azulejos.


Aldeia de Gouveia ... "pequenita" mas "bonita"
Rumo ao Oceano ...
...  com o Atlântico à vista! Faltam 15 minutos para o pôr-do-Sol...
 
Pouco depois das 18:40h, estávamos à vista das Azenhas do Mar. Faltavam doze minutos para o pôr-do-Sol...; o último quilómetro que nos separava do mar ... foi feito em trail...! E assim, às 18:48h ... estávamos nas tradicionais escadinhas daquele autêntico "presépio" sobre o mar, preparados para ver mergulhar o astro-rei 4 minutos depois!

"Yupiii! Já vejo o mar e o Sol a deitar-se!"...
18:50h - O Sol mergulha numa neblina no horizonte
Os três "heróis" desta "aventura"
Tínhamos percorrido, até ali, 51,7 km. A hora de atraso inviabilizou-nos a continuação até ao Cabo da Roca. Teríamos visto o pôr-do-Sol talvez na Praia Grande, ou na Adraga, e chegaríamos ao Cabo ainda com a luz do dia a declinar. Assim ... demos por finda a nossa travessia do Trancão ao Atlântico. Ou melhor ... ainda andámos mais cerca de um quilómetro e meio, até à entrada norte da Praia das Maçãs, onde um querido e sempre pronto amigo de há muitas luas nos foi "resgatar" para o regresso!

Ver álbum completo
Os números desta "aventura" foram, assim:

Hora de Início: 20/10/2014 06:52
Hora de Fim: 20/10/2014 19:14
Distância percorrida: 53,1km* (12h:21m)
Tempo em andamento: 10h:19m
Velocidade média: 4,28 km/h
Média em movimento: 5,13 km/h
Altitude Mínima: 7 m (Foz do Trancão)
Altitude Máxima: 320 m (Alto de Bolores)
Desnível acumulado: +1558m / -1573 m

* No meu caso, mais 3,7 km de casa à Foz do Trancão



Não cumprimos o objectivo de chegar ao ponto mais ocidental da Europa Continental. Vimo-lo, a sul, emitindo já o seu faixo de luz na noite já escura. Mas foi, sem dúvida, uma bela travessia de Sol a Sol ... e uma bela jornada de convívio e de partilha entre os três bons amigos, carolas dos percursos pedestres e destas longas jornadas. E que dizer de um deles ... que foi entrar ao serviço à meia noite ... poucas horas depois de ter palmilhado 53 quilómetros por montes e vales ... ou por fragas e pragas...?

5 comentários:

EfeitoCris disse...

E com todas as peripécias, na minha opinião, é prova superada, certo?! Não o local do Atlântico pretendido, mas foi o Atlântico na mesma.
Como já antes tinha dito, muito respeito e admiração pela v/ persistência e determinação em seguir com a aventura.
Bom relato, como já é costume.

José Carlos Callixto disse...

Obrigado Cris. Claro que a "prova" foi superada.
Beijinhos

Ana Bento disse...

Com todo o respeito e admiração pelo vosso percurso e andamento, queria aqui dizer que o elemento feminino do grupo que decidiu abandonar a caminhada, fez de regresso os mesmos kms que até então tinha feito, a pé e sozinha. Chegaria eu às azenhas do mar?? Penso que sim, mas não ao ritmo dos três mosqueteiros :-) mas garanto que fazer 10 kms de volta sozinha foi para mim uma experiência muito boa.Afinal, parece que de algo menos bom pode surgir algo bom. Abraços

José Carlos Callixto disse...

Ana, que chegarias às Azenhas do Mar também penso que sim, mas a questão é que, sem ser ao ritmo a que andámos ... chegaríamos lá muito depois do pôr-do-Sol...
Compreendo que tenhas gostado dos 10 km de regresso, sozinha. Sei por experiência própria que caminhar sozinho também é, efectivamente, uma experiência fabulosa!
Abraços ... dos três mosqueteiros... :)

Raul Branco disse...

Foi pena a não chegada ao Cabo da Roca! Deve ter sido uma caminhada
fantástica?
Reportagem muito boa! Gostei.
Parabéns e um abraço de um grande admirador.
Raul