segunda-feira, 8 de julho de 2013

Monte Perdido Extrem (4)

... ou o fim da aventura de uma vida...

Etapa 4 (2ª feira 8 de Julho): Góriz - Fuen Blanca - Collado de Añisclo - Pineta (15km)
Duração: 10 horas
Altitude mín.: 1240m (Rio Cinca)               / Desnível positivo: 1.563m
Altitude máx.: 2453m (Collado de Añisclo)  / Desnível negativo: 2.502m
Mantendo-se dois dos quatro elementos da equipa na intenção de subirem ao cume do Monte Perdido, a última "etapa" deste Monte Perdido Extrem tinha de começar bem cedo. Pouco depois das seis e meia da manhã, com o vale de Ordesa ainda nas sombras, os dois "profissionais" da montanha iniciaram a ascensão; este quase sexagenário e a mais jovem do grupo ... iniciaram aquela que se viria a revelar uma fabulosa caminhada de regresso a Pineta.

Aí vão os "profissionais", a caminho do Monte Perdido
Um último olhar ao altiplano de Góriz...
Para o regresso a Pineta, a organização do Monte Perdido Extrem indicava duas variantes: pela Punta Olas, com menos desnível, ou por Fuen Blanca, descendo ao fundo do Canyon de Añisclo, com muito mais desnível, já que depois ambas as alternativas se encontram no Collado de Añisclo, para iniciar a vertiginosa descida para o vale do Cinca. Cansados de neve e sabendo de bosques e sucessivas cascatas ao longo do percurso de Fuen Blanca, eu e a Cristina não nos intimidámos com os desníveis e optámos por este último ... e não nos arrependemos!

Primeiras águas no Collado de Arrablo, a 2240m alt.
Do alto do Collado de Arrablo (2345m) a Fuen Blanca (1660m), descemos quase 700 metros ... para depois subirmos 800 metros para o Collado de Añisclo (2453m) ... e descermos finalmente mais de 1200 metros para o Rio Cinca (1240m). Segundo o próprio Monte Perdido Extrem ... esta última etapa era um teste a nuestras rodillas... J.
Collado de Arrablo (2345m alt.)
Vamos começar a descer o Barranco de Arrablo
Felizmente que nuestras rodillas (joelhos) funcionaram bem ... e este foi realmente um percurso fabuloso. Barrancos profundos, imponentes e sucessivas cascatas, bosques que nos ofereciam saborosas sombras e a magia dos sons das águas e das aves, tudo nos envolvia aos dois num perfeito e místico paraíso, no qual a qualquer momento não nos admiraríamos de ver pairar fadas e duendes por entre a ramagem, sobrevoando as águas e os vales.

Let's fly?...
O Sol sai do Canyon de Añisclo
Águas de cristal
A magia do bosque, abaixo já dos 1800m alt.
Fuen Blanca, confluência do Barranco de Arrablo no Rio Bellos
Pouco abaixo dos 1700 metros de altitude, encontrámos a pequena cabana de Fuen Blanca, um saboroso descanso no meio daquele paraíso, quase a entrarmos no Canyon de Añisclo, aberto pelas águas do Rio Bellos.
Cabana de Fuen Blanca
Se o Paraíso existe ... nós estávamos literalmente nele...!
Fuen Blanca (1660m alt.)
Antes das dez da manhã, estávamos em Fuen Blanca, lá onde o Barranco de Arrablo se precipita no Rio Bellos e se abre no espectacular Canyon de Añisclo ... prontos para recomeçar a subir. Pelas nossas contas, os nossos companheiros deveriam estar no Monte Perdido, mas não tínhamos forma de comunicar e de saber do êxito da sua missão.

Fuen Blanca, águas do Rio Bellos
Começamos a subir o Canyon de Añisclo, ao longo de uma sucessão de cascatas imponentes
A subida do Canyon de Añisclo, rumo ao Collado do mesmo nome, é qualquer coisa de espectacular! De todas os imponentes paredões rochosos se precipitam cascatas, que juntam as suas águas no Rio Bellos. O trilho, sempre muito bem assinalado, faz-se comodamente e, àquela hora, quase sempre à sombra. Não sabemos como seria o percurso pela Punta Olas, muito mais acima e com menos desníveis ... mas abençoámos a opção tomada de conhecer este autêntico santuário da Natureza.

O Canyon de Añisclo ia ficando para baixo ...
... enquanto nós íamos subindo em direcção ao céu...!
Um "voo" sobre as águas do Canyon de Añisclo...
Cerca dos 1950 metros de altitude ... a neve voltou; troços pequenos, sem necessidade de crampons. Algumas das manchas de neve ... rodeámo-las pela rocha! A panorâmica que íamos ganhando para trás, para o Canyon, tornava-se cada vez mais espectacular. Mas dos lados do Monte Perdido vinham núvens; onde andariam os nossos dois companheiros?...

O vale de Añisclo visto dos 2000m de altitude. Ainda faltam mais de 400 metros para o Collado...
Dos lados do Monte Perdido ... vinham núvens. Onde andariam os nossos dois companheiros?...
Cinco minutos antes da uma da tarde estávamos no Collado de Añisclo, de novo a 2453 metros de altitude. Uma língua de neve marcava a cumeada. Para sudoeste, o impressionante canhão de Añisclo que deixávamos para trás; para norte e nordeste ... bem, a nossa respiração parou! De repente, para lá da pequena língua de neve, abriu-se-nos uma autêntica vista aérea do vale de Pineta e do Rio Cinca! Que impressionante panorâmica! Num raio de quase 180 graus, percebia-se à nossa esquerda o Balcón de Pineta e a Brecha de Tucarroya. Mais abaixo, os Llanos de La Larri; em frente, a barreira de montanhas da encosta norte do vale. E bem lá em baixo, 1200 metros abaixo de nós, numa quase e impressionante vertical, corriam as águas do Cinca.

No Collado de Añisclo (2453m alt.), com uma impressionante panorâmica sobre o vale do Cinca e os Llanos de La Larri
Em voo livre sobre o Collado de Añisclo e o Vale de Pineta. Que bom seria continuar...
Se a missão tinha tido sucesso e as contas deles e nossas batiam certas, os nossos dois companheiros já deveriam ter regressado do Perdido e deveriam estar no percurso pela Punta Olas, que no troço final vem ter igualmente ao Collado de Añisclo. Mas ... não havia rede móvel. Só mais tarde, algumas horas depois, recebemos finalmente uma mensagem SMS a dizer ... "Perdido conquistado"! Decididamente, tínhamos na equipa dois "profissionais" da montanha... J!

Os nossos dois heróis na Escupidera e no cume do
Monte Perdido (3355m alt.) (Fotos de Ramiro Gameiro Jorge)
A descida do Collado de Añisclo para o vale de Pineta (1200 metros de desnível em pouco mais de 4km) é um verdadeiro teste de resistência às "rodillas"... J. Mas também é uma espectacular "aventura" de descoberta permanente! Curvas e contracurvas de um trilho mais que sinuoso, pedra solta, troncos ... mas uma experiência fabulosa e inesquecível!

Há que iniciar a descida, atrás de um grupo espanhol que igualmente viveu a aventura do Monte Perdido Extrem
A espectacular descida do Collado de Añisclo para o vale do Cinca
Barranco de La Solana
Ao entrarmos na zona arborizada, parecia faltar-nos já pouco para o vale ... mas o GPS marcava bem que ainda estávamos acima. A dureza da descida preocupava-nos, não por nós, mas pela hora tardia a que os nossos dois companheiros a iriam fazer, tanto mais que tínhamos perdido de novo o contacto com eles. Por entre a ramagem e alguns tufos floridos, nós continuávamos num permanente zigzag ... para baixo, sempre para baixo.

Pelas quatro da tarde, preocupados com os nossos companheiros mas felizes por as nossas "rodillas" terem passado bem o teste, com os olhos e a alma cheios das autênticas vistas aéreas que se nos tinham deparado ... chegámos ao vale! E, ao chegar ao vale ... tivemos uma muito grata e feliz "aparição": o nosso companheiro que teve a coragem de desistir na hora certa, no momento certo, no primeiro dia ... tinha vindo ao nosso encontro! Surgido das árvores e das águas do Cinca, o amigo Zé Manel ali estava, para nos receber aos dois, no final desta fabulosa aventura. No final? Não, o final só seria depois de atravessar o rio a vau, com uma corrente bastante impetuosa!

Rio Cinca (1240m alt.); descemos 1200 metros desde o Collado de Añisclo ... e tivemos uma recepção muito especial!
Souberam bem
estas águas...
Circo de Pineta ... onde tudo começou!...
Refúgio de Pineta, 8.07.2013, 16:40h - a felicidade nos rostos, no fim da aventura de uma vida!
Só bastante tempo depois de chegarmos a Pineta e a Bielsa conseguimos de novo contactar os nossos dois "conquistadores" do Monte Perdido. A jornada foi, segundo os próprios, bastante dura ... levando-os a fazer grande parte desta descida do Collado de Añisclo já de noite! Chegaram ... quase à meia noite! Em Bielsa, mesmo antes deles chegarem ... brindámos ao sucesso da nossa equipa com um belo de um Gin tónico ... que andei a desejar em cada um dos três refúgios onde pernoitámos na fantástica aventura que tínhamos acabado de viver!
Bielsa, 8.07.2013, 20:10h - Este Gin ... andou a ser desejado durante os 4 dias do Monte Perdido Extrem ... J
(Foto: Cristina Ferreira)
Monte Perdido Extrem - 4º Dia: Góriz - Fuen Blanca - Collado de Añisclo - Pineta


O que dizer mais desta aventura? Que pouco mais de um mês antes dos 60 anos, vivi sem dúvida a maior "aventura" da minha vida! Liguei o vale de Pineta ao de Gavarnie, atravessei a mítica Brecha de Rolando, entrando por ela de novo em Espanha, "sobrevoei" o vale de Ordesa, desci ao Canyon de Añisclo, voltei a subir ao Collado do mesmo nome, para enfim voltar numa vertiginosa descida ao vale de Pineta. Foi duro? Foi! Principalmente o primeiro dia e, para mim, as travessias laterais em neve! Mas também tive a surpresa de ouvir da boca de um "profissional" das caminhadas de montanha e da neve … que algumas etapas desta travessia foram mais duras do que a subida ao Kilimanjaro!
Não cheguei a subir ao cume do Monte Perdido, mas não fiquei frustrado por não ter "conquistado" o cume. O que vivi foi a concretização de um sonho de 30 anos. Ficaram guardadas em mais de mil fotos e vídeo - mas principalmente na minha memória visual - panorâmicas de cortar a respiração; andei horas e horas na neve; comi neve para matar a sede; partilhei sensações, emoções, momentos inesquecíveis. Foram essas sensações e esses momentos que procurei partilhar nestes quatro posts.

Obrigado a todos os que tiveram a paciência de me ler e de ver as fotografias … e daqui a algum tempo o filme. Mas um obrigado muito especial e muito grande aos meus 7 companheiros desta fantástica "aventura": aos 3 que a completaram comigo, aos restantes 3 que ficaram no "acampamento base", em Bielsa (incluindo a minha "companheira especial") … e, claro, a quem teve a coragem de desistir já depois de ter iniciado a "aventura", na altura certa, no momento certo. Excepto este último (que já conhecia há mais tempo), partimos para os Pirenéus como simples conhecidos, com quem tinha feito uma ou duas caminhadas simples. Regressámos … como grandes amigos, que jamais se esquecerão e às emoções vividas antes, durante e depois da "aventura"! É a magia da montanha! É a união de uma paixão, de uma paixão pela Natureza, pelos grandes espaços … mas também pela sã e verdadeira construção de amizades … de uma paixão pela vida!
Obrigado Zé Manel, Cristina, Anabela, Ramiro! Obrigado Lourdes e Anabela! Obrigado … Lala!

Escrito em Tours, França, 14 e 15.07.2013

2 comentários:

Margarete disse...

Fabuloso! Mais uma aventura muito bem sucedida para juntares ao teu rol .
Bjs

J. Gomes disse...

Que dizer.....faltam-me as palavras.....é muita beleza no mesmo sítio....locais de rara beleza.... imagino que tenha sido uma aventura fascinante.....um forte abraço de parabéns deste seu amigo.....fica a esperança que um dia possa lá ir na sua companhia e de outros amigos....um abraço