sexta-feira, 25 de maio de 2012

À conquista de Peña Trevinca e da magia das terras Sanabresas

"Há um lugar, lá onde o mundo acaba, muito próximo do céu. Um espelho de Sol e solidão onde, quando te sentas e olhas dentro de ti, quando deixas que o silêncio se apodere do mundo, começas a ouvir uma melodia. Se a escutares, entre aquelas paredes
20.05.2012 - Vale alto do Rio Tera e Peña Trevinca (2127m. alt.)
e agulhas que parecem sair do mais obscuro pe-sadelo, começam-se a desenhar os caminhos; os trilhos da imaginação estendem-te uma mão que te convida a entrar, a entrar nesse mundo de magia onde nada, realmente nada é impossível."
Nos últimos anos, a "conquista" dos pontos mais altos do Gerês e de Somiedo tem-me cada vez mais feito ouvir essa melodia, a melodia que desenha caminhos, a melodia que leva a esse mundo de magia onde nada é impossível ... a melodia do sentimento da montanha.
Nunca fui nem sou homem de ambições desmesuradas. Como "filho da natureza" que ainda hoje me chamaram, os lugares próximos do céu onde os trilhos da imaginação me levam são quase todos na nossa pequena Ibéria. Posso já ter corrido muito ... mas muito mais me espera!

Panorâmica do Lago de Sanabria, próximo de San Martín de Castañeda, 18.05.2012
Nos confins das terras de Zamora, sobre o nordeste transmontano e nos limites com a Galiza, Peña Trevinca era um desses lugares míticos, que há muito me lançava o desafio da conquista. Quis o destino que a minha "família" caminheira me tivesse incentivado a organizar uma actividade no Parque Natural  do  Lago  de  Sanabria,  onde se situa Peña Trevinca.  Quis o destino que,  para isso, ali  tivesse
Senda de los Monjes, 18.05.2012
passado 5 dias, de sexta a terça, de 18 a 22 deste mês de Maio de calor e de frio, Sol e chuva, vento ... e neve!
Com a minha fiel companheira e outro casal de velhos, bons e grandes amigos, que também estão na "família" caminheira, partimos de Vale de Espinho na passada 6ª feira, rumo a terras sanabresas. E que paraíso ali fomos encontrar! Lagos, bosques, rios, torrentes de montanha, altas cascatas ... "O céu a flutuar e o rio a correr, o mato a eriçar-se e a serra também! Tudo lindo, tudo misterioso e mágico! "
(Hermann Hesse, "Siddhartha")        

Não vou relatar em pormenor cada uma das quatro caminhadas que ali fizemos. Qualquer delas daria, só por si, longas descrições dominadas pelo êxtase, pela contempla-ção, pela maravilha das paisagens que a vista e a mente saudavelmente ali sorvem. Na própria sexta feira, em que chegámos, descemos a Senda de los Monjes, que liga o Mosteiro de San Martín de Castañeda, reconstruído por monges moçárabes no século X, à aldeia de Ribadelago, tragicamente destruída pelo rebentamento da barragem de Vega de Tera, em 9 de Janeiro de 1959.
No dia seguinte, sábado ... foi o grande dia da conquista de Peña Trevinca. A previsão meteorológica não era segura, mas iríamos gerindo a progressão à medida do que víssemos ... ou S. Pedro não estivesse sempre comigo...! Partindo da Laguna de Los Peces, a 1735 metros de altitude, o rumo era o vale alto do rio Tera, numa manhã em que o Sol iluminava as esplêndidas panorâmicas que se iam abrindo ante os nossos olhos extasiados. Já acima dos 1900 metros ... há que descer aos 1600, em que se entra no vale do Tera. Ao longo desta progressão, Peña Trevinca aparecia-nos no horizonte ... ora esplendorosa e recortando-se no céu azul, ora coberta por nuvens às vezes ameaçadoras. Pequenos aguaceiros levavam-nos a questionar se deveríamos manter a "missão" ... mas logo a seguir o Sol iluminava de novo as encostas cobertas de urze. Nos cumes, a neve recordava-nos que a Primavera ainda estava a meio.

Lagoa de Vega del Conde, da encosta nordeste do vale do Tera, 19.05.2012
Panorâmica do vale do Alto Tera, a caminho de Peña Trevinca
Entretanto tínhamos deixado para trás duas caminheiras que optaram por regressar à Laguna de Los Peces e ao abrigo do carro. Éramos portanto só dois "exploradores", que avançávamos em direcção ao vértice pontiagudo que, lá ao fundo, chamava por nós. Subir a Peña Trevinca não é pera doce. Do fundo do vale, a pouco mais de 1600 metros de altitude, sobe-se até aos 2127 metros do cume em sensivelmente 2,5 km; uma inclinação média de 21% ... que nalguns pontos ultrapassa os 30%. Cansado, o meu companheiro de jornada resolveu esperar na base do troço final, pelo que foi portanto sozinho que, pouco depois das duas da tarde, atingi o cume de Peña Trevinca.

Vale do Rio Tera, desde a encosta de Peña Trevinca
"Conquistado" o cume de
Peña Trevinca, 2127m altitude
O imponente vale do Tera, do cume de Peña Trevinca
Panorâmica a noroeste de Peña Trevinca, do cume
A sensação de chegar ao cume de Peña Trevinca é sublime, até mesmo pelo esforço dispendido na subida. 360º em redor, tudo é o reino da montanha e das encostas multicolores. Para poente, são terras galegas que vemos. Situada no limite das duas províncias, Peña Trevinca é simultaneamente considerado o ponto mais alto de Zamora e de Orense.
O regresso foi essencialmente pela margem direita do Tera, até à barragem de Vega del Conde, onde existem uns estratégicos abrigos de montanha. Um deles ... tinha a lareira acesa e estava ocupado por simpáticos montanheiros, com quem trocámos algumas palavras ... e que ainda nos ofereceram uns goles de um precioso néctar, alegadamente de sua produção. Mas de Vega del Conde à Laguna de Los Peces ... foram quase duas horas em que se sucedeu a chuva, o granizo ... e a neve! Pequenos e incipientes flocos transformaram-se num nevão que rapidamente ia cobrindo de branco aquela paisagem ímpar. Batida pelo vento, ao chegarmos ao carro o lado direito deste estava já razoavelmente "pintado"; as nossas duas companheiras esperavam-nos com alguma ansiedade. E esta jornada tinha totalizado 23 km extraordinariamente vividos e diversificados.

No regresso de Peña Trevinca, 19.05.2012
Cascatas do
Rio Tera
Peña Trevinca fica para trás ...  e a este Sol seguir-se-ia chuva, granizo ...
... e neve!
"Tombe la neige"...
Puebla de Sanabria mereceu também uma visita, no domingo 20, em que a meteorologia não esteve propícia a "aventuras". Mas na 2ª e 3ª feiras ... aí estávamos nós de novo nas rutas sanabresas, para dois percursos completamente distintos: no primeiro, a jusante do vale alto onde andámos sábado, descemos o espectacular canyon que o Tera abriu nestas paragens fabulosas, de novo até Ribadelago e ao Lago de Sanabria. A sucessão de poços, lagos, lagoas e cascatas é indescritível!

Vale do Alto Tera, 21.05.2012
Refúgio abrigo nos bosques que ladeiam o alto Tera
Lago de La Cueva, rio Tera
O caminho nem sempre é fácil...
Imagens da espectacular descida
do Canyon do Rio Tera
Laguna de La Carbonera
E chegamos a Ribadelago, no fim de uma caminhada fabulosa!
Ribadelago, 21.05.2012
Imagens de um passado não muito distante
Terça feira, a última jornada pedestre em terras sanabresas ... foi um banho de verde, um mergulho num bosque onde pareciam pulular as fadas e duendes, atravessado pelo Rio Truchas, que se precipita naquela que é uma das mais espectaculares cascatas de Sanabria, a Cascata de Sotillo.

Sotillo de Sanabria, 22.05.2012: vai começar mais uma fabulosa caminhada ... através de bosques "encantados"
Miguel de Cervantes andou por estas terras ... das quais provavelmente era natural
Rio de Las Truchas
Neste bosque há formas fantasmagóricas...
Sucedem-se os claustros naturais
O espectáculo das Cascatas de Sotillo
Cascatas de Sotillo
A ponte sobre o Rio Truchas
não estava em muito bom estado...
Um banho de verde!
E regressámos a Sotillo ... dando por findos estes espectaculares dias em terras de Sanabria
A selecção de fotografias a incluir neste artigo foi difícil ... já que o total são mais de 600! Para quem tiver paciência e quiser "explorar" um pouco mais o que foi esta espectacular "aventura" ... aqui ficam os álbuns dos quatro percursos efectuados.
Senda de los Monjes (44 fotos)
Peña Trevinca (160 fotos)
Cañón del Tera (297 fotos)
Bosque e Cascata de Sotillo (160 fotos)
(Clique nas fotos para ver os respectivos álbuns)

Aqui fica igualmente o registo dos percursos em terras sanabresas:
 
               
   

4 comentários:

francamente disse...

Ze Carlos, Foi o reviver de uma grande actividade que fiz há uns bons 16 anos. Com a particularidade de teres apanhado todas as estações

Abraço ate á Malcata

Lírio disse...

Adorei esta viagem!!
Passamos em alguns locais há cerca de dois anos atrás, mas não fizemos trilhos muito longos pois estávamos de férias com os nossos meninos, mesmo assim o pouco que conseguimos fazer foi excepcional!
Lindas fotos!!!Parabéns pela a aventura!

Cristina Sousa disse...

Os trilhos são acessíveis ou demasiado puxados?
Obrigada

José Carlos Callixto disse...

Cara Cristina Sousa ... "acessíveis" ou "puxados" é muito relativo. Mas leu o artigo? É que tem lá a descrição dos trilhos e a respectiva caracterização no wikiloc...