Com os
Caminheiros Gaspar Correia
— e por feliz inerência das origens da amiga que, há já quase 24 anos, me
acolheu naquela verdadeira 'família' — a região de Lafões tem sido por
diversas vezes o destino eleito para as actividades dos 'gasparitos'. As
jornadas de 2005, 2008 e 2017 gravaram-se na memória de todos os que nelas
participaram... mas a verdade é que nem a Isabel se cansa de guiar a sua
'família' adoptiva pelas franjas do seu mundo rural e pelas suas serras, nem
nós nos cansamos de as desbravar. O fim de semana passado foi, por isso, mais
uma celebração da Natureza, da camaradagem, da amizade... da Vida.
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16.05.2026, 11h30 - Em Queirã, íamos começar a primeira
actividade deste fim de semana por terras de Lafões
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Para sábado, o desenho do percurso prometia uma rota quase circular entre
Queirã e
Loumão, serpenteando pelas encostas e pelo vale da
ribeira de
Ribamá, a sudeste de Vouzela. A meteorologia, aliás, fez
questão de se aliar à festa e engrandecer as paisagens: brindou-nos com um
generoso Sol primaveril, sem o frio das manhãs altas nem o calor excessivo que
costuma castigar as subidas. Estavam reunidas as condições para apreciarmos as
cores, as sombras, os reflexos da Natureza.
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Uma incursão no vale verdejante da ribeira de Ribamá
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Ao longo da ribeira dos moinhos, afluente da de Ribamá, sucedem-se diversos
moinhos de água, velhas sentinelas de pedra e relíquias de um tempo distante,
onde o ritmo da vida dependia da força da corrente e da moagem do
grão.
A subida do vale em direcção a Loumão foi como um despertar desse
mundo antigo para o presente... e ali tínhamos o autocarro à espera para nos
levar a Vouzela. Na carismática vila, ainda percorremos um pequeno troço da antiga Linha do Vouguinha, cruzando o Rio Zela e a Ribeira de Vilharigues. Mas Vouzela trouxe-nos também o sabor reconfortante do encontro. O destino
encarregou-se de trazer até nós um filho das terras de Lafões que a vida
ligaria mais tarde à Raia Sabugalense: o amigo Zé Rey fez questão de nos ir
abraçar... e acabou por partilhar connosco o lanche-surpresa com que a
organização brindou a grande família gasparita.
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Vouzela, 16h50: sobre o Zela, da antiga Linha do
Vouguinha, com a vila e a velha ponte medieval ao fundo
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E... um lanche que não estava no programa, ou melhor, estava... ou não
fosse ele uma surpresa!
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A jornada pedestre de domingo apresentava-se, desta vez, como o maior
desafio do fim de semana. E se o sábado fora pacatamente ribeirinho... o
domingo prometia ser senhor e dono das paisagens serranas, desenhado nos
contrafortes altivos da
Serra do Caramulo. O
autocarro deixou-nos junto à pequena e bucólica albufeira junto à Lapa da Meruge, na serra a sul de
Vermilhas. Sim, essa
mesma... a aldeia da nossa 'mana velha' Maria dos Anjos... a albufeira, o
dolmen e as paisagens onde já várias vezes fomos com ela e com o
nosso "mano velho" Mousinho.
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Albufeira da Meruge, 17.05.2026, 09h40, à partida para o
maior desafio do fim de semana 'gasparito'
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Esta jornada reconstituía, quase na totalidade, um percurso idealizado pelos
mesmos organizadores, para os Caminheiros Gaspar Correia, em
Maio de 2008. Só que, em 2008... os 'gasparitos' tinham todos menos 18 anos...😳. Desde
então, o tempo fez o seu caminho: alguns, infelizmente, já partiram; o grupo
renovou-se com rostos mais jovens; e outros... vão sentindo a inevitável
voragem dos anos. Adaptando o passo à realidade, a minha 'estrelita' optou
por fazer apenas a parte final do percurso, guardando as forças para
caminhar junto à beleza dos loendros.
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Não estávamos sós, neste percurso
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a bordejar o Rio do Couto
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Entre a Lapa da Meruge e a aldeia da Abelheira...
a aldeia "dos obos"
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Apontávamos, nesta fase, à aldeia do Couto. Ao passar pela
Abelheira,
não resisti a contar ao grupo que já ali tinha ido com o meu "mano velho"
Mousinho, por ser a aldeia onde eles habitualmente compram os ovos, daqueles
genuínos, de galinhas do campo. Mas a Isabel repôs logo a verdade fonética:
"
aqui não são ovos, são obos"... 😂. E, cantando e rindo, descemos
para o
Couto.
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Aldeia do Couto, 12h00. "Teoricamente" estávamos em
Caminho de Santiago
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E assim chegámos ao
Couto, uma aldeia com história gravada nas pedras e ponto de
passagem daquela que deveria ser a ligação de Coimbra a Viseu do
Caminho de Santiago. Teoricamente, até existe ali um albergue de
peregrinos na antiga escola primária... mas a realidade é bem mais
cinzenta do que a propaganda. Inaugurado com pompa e circunstância há uns
dez anos, este troço foi votado ao abandono desde que nasceu. Recordo-me
bem de, em 2019, ter tentado planear esta rota e enviado e-mails para os
vários municípios da região em busca de informações. A resposta? Um
redondo e absoluto silêncio! No Couto, em Vermilhas, em Vouzela, os
azulejos com a vieira e a seta amarela ainda lá estão (alguns já
partidos)... mas não conheço um único peregrino que o tenha percorrido.
O Couto não foi rampa de lançamento para Compostela, mas foi um
abençoado ponto de neutralização para alguns 'gasparitos'. O cansaço
acumulado pedia tréguas e o autocarro acabou por recolher ali uma parte do
grupo. Reduzidos no número, os restantes continuámos a rota, agora pela
Serra de Farves.
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Serra de Farves: foi o local do almoço... e da entrega aos
deuses...
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Descida para Farves...
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A espectacular descida para
Farves foi... agreste. Vencer
quase 200 metros de desnível negativo em pouco mais de quilómetro e meio
traduziu-se numa inclinação impiedosa. A progressão tornou-se lenta,
calculada à biqueira da bota, com o terreno a exigir uma travagem
constante que massacra qualquer articulação. Foi ali que a
resistência foi posta à prova, com a 'raposa Madalena' a começar a sentir
o joelho a colapsar... mas traduziu-se também numa verdadeira lição de
resiliência e solidariedade.
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E assim, pouco depois das três da tarde, estávamos na
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Os
loendros (ou, para sermos mais precisos, os
rododendros —
Rhododendron ponticum) não são uma planta qualquer, são uma
relíquia da Era Terciária. Esta planta já coloria as nossas serras muito antes de o Homem andar
por cá, sobrevivendo às glaciações que limparam quase toda a Europa. Gosta
de humidade, de solos ácidos e de vales abrigados, crescendo como um
arbusto denso e alto ao longo de linhas de água, como a
Ribeira do Cambarinho, um dos seus últimos grandes refúgios.
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Em maio, os loendros explodem numa floração espectacular, cobrindo
o vale com grandes cachos de flores arroxeadas
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Caminhar entre aquelas relíquias botânicas, num festival de cor, foi o
bálsamo perfeito para o cansaço e o esforço das serranias. E foi ali, nos
passadiços que se debruçam sobre os cachos de loendros, que a família
'gasparita' se voltou a reunir, juntando-nos à minha 'estrelita' e aos
companheiros que haviam neutralizado no Couto. O autocarro esperava-nos
junto à rotunda da
'Virgem Milagrosa', onde fechámos, em comunhão e amizade, mais um memorável fim de semana
pelas fragas de Lafões.
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Clique
para ampliar o mapa,
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2 comentários:
Gostei muito!!
Dá bem para ver o que eu perdi!!
A minha Serra está muito bonita!!
Beijinhos.
Ainda bem... é pena o comentário ser anónimo 😔
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