domingo, 17 de maio de 2026

Vouzela... um olhar sobre a Primavera no mundo rural

Com os Caminheiros Gaspar Correia — e por feliz inerência das origens da amiga que, há já quase 24 anos, me acolheu naquela verdadeira 'família' — a região de Lafões tem sido por diversas vezes o destino eleito para as actividades dos 'gasparitos'. As jornadas de 2005, 2008 e 2017 gravaram-se na memória de todos os que nelas participaram... mas a verdade é que nem a Isabel se cansa de guiar a sua 'família' adoptiva pelas franjas do seu mundo rural e pelas suas serras, nem nós nos cansamos de as desbravar. O fim de semana passado foi, por isso, mais uma celebração da Natureza, da camaradagem, da amizade... da Vida.
16.05.2026, 11h30 - Em Queirã, íamos começar a primeira actividade deste fim de semana por terras de Lafões
Para sábado, o desenho do percurso prometia uma rota quase circular entre Queirã e Loumão, serpenteando pelas encostas e pelo vale da ribeira de Ribamá, a sudeste de Vouzela. A meteorologia, aliás, fez questão de se aliar à festa e engrandecer as paisagens: brindou-nos com um generoso Sol primaveril, sem o frio das manhãs altas nem o calor excessivo que costuma castigar as subidas. Estavam reunidas as condições para apreciarmos as cores, as sombras, os reflexos da Natureza.
Uma incursão no vale verdejante da ribeira de Ribamá
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Ao longo da ribeira dos moinhos, afluente da de Ribamá, sucedem-se diversos moinhos de água, velhas sentinelas de pedra e relíquias de um tempo distante, onde o ritmo da vida dependia da força da corrente e da moagem do grão. A subida do vale em direcção a Loumão foi como um despertar desse mundo antigo para o presente... e ali tínhamos o autocarro à espera para nos levar a Vouzela. Na carismática vila, ainda percorremos um pequeno troço da antiga Linha do Vouguinha, cruzando o Rio Zela e a Ribeira de VilhariguesMas Vouzela trouxe-nos também o sabor reconfortante do encontro. O destino encarregou-se de trazer até nós um filho das terras de Lafões que a vida ligaria mais tarde à Raia Sabugalense: o amigo Zé Rey fez questão de nos ir abraçar... e acabou por partilhar connosco o lanche-surpresa com que a organização brindou a grande família gasparita.
Vouzela, 16h50: sobre o Zela, da antiga Linha do Vouguinha, com a vila e a velha ponte medieval ao fundo
E... um lanche que não estava no programa, ou melhor, estava... ou não fosse ele uma surpresa!
A jornada pedestre de domingo apresentava-se, desta vez, como o maior desafio do fim de semana. E se o sábado fora pacatamente ribeirinho... o domingo prometia ser senhor e dono das paisagens serranas, desenhado nos contrafortes altivos da Serra do Caramulo. O autocarro deixou-nos junto à pequena e bucólica albufeira junto à Lapa da Meruge, na serra a sul de Vermilhas. Sim, essa mesma... a aldeia da nossa 'mana velha' Maria dos Anjos... a albufeira, o dolmen e as paisagens onde já várias vezes fomos com ela e com o nosso "mano velho" Mousinho.
Albufeira da Meruge, 17.05.2026, 09h40, à partida para o maior desafio do fim de semana 'gasparito'
Esta jornada reconstituía, quase na totalidade, um percurso idealizado pelos mesmos organizadores, para os Caminheiros Gaspar Correia, em Maio de 2008. Só que, em 2008... os 'gasparitos' tinham todos menos 18 anos...😳. Desde então, o tempo fez o seu caminho: alguns, infelizmente, já partiram; o grupo renovou-se com rostos mais jovens; e outros... vão sentindo a inevitável voragem dos anos. Adaptando o passo à realidade, a minha 'estrelita' optou por fazer apenas a parte final do percurso, guardando as forças para caminhar junto à beleza dos loendros.
Não estávamos sós, neste percurso
a bordejar o Rio do Couto
Entre a Lapa da Meruge e a aldeia da Abelheira... a aldeia "dos obos"
Apontávamos, nesta fase, à aldeia do Couto. Ao passar pela Abelheira, não resisti a contar ao grupo que já ali tinha ido com o meu "mano velho" Mousinho, por ser a aldeia onde eles habitualmente compram os ovos, daqueles genuínos, de galinhas do campo. Mas a Isabel repôs logo a verdade fonética: "aqui não são ovos, são obos"... 😂. E, cantando e rindo, descemos para o Couto.
Aldeia do Couto, 12h00. "Teoricamente" estávamos em Caminho de Santiago
E assim chegámos ao Couto, uma aldeia com história gravada nas pedras e ponto de passagem daquela que deveria ser a ligação de Coimbra a Viseu do Caminho de Santiago. Teoricamente, até existe ali um albergue de peregrinos na antiga escola primária... mas a realidade é bem mais cinzenta do que a propaganda. Inaugurado com pompa e circunstância há uns dez anos, este troço foi votado ao abandono desde que nasceu. Recordo-me bem de, em 2019, ter tentado planear esta rota e enviado e-mails para os vários municípios da região em busca de informações. A resposta? Um redondo e absoluto silêncio! No Couto, em Vermilhas, em Vouzela, os azulejos com a vieira e a seta amarela ainda lá estão (alguns já partidos)... mas não conheço um único peregrino que o tenha percorrido.
O Couto não foi rampa de lançamento para Compostela, mas foi um abençoado ponto de neutralização para alguns 'gasparitos'. O cansaço acumulado pedia tréguas e o autocarro acabou por recolher ali uma parte do grupo. Reduzidos no número, os restantes continuámos a rota, agora pela Serra de Farves.
Serra de Farves: foi o local do almoço... e da entrega aos deuses...
Descida para Farves...
A espectacular descida para Farves foi... agreste. Vencer quase 200 metros de desnível negativo em pouco mais de quilómetro e meio traduziu-se numa inclinação impiedosa. A progressão tornou-se lenta, calculada à biqueira da bota, com o terreno a exigir uma travagem constante que massacra qualquer articulação. Foi ali que a resistência foi posta à prova, com a 'raposa Madalena' a começar a sentir o joelho a colapsar... mas traduziu-se também numa verdadeira lição de resiliência e solidariedade.
E assim, pouco depois das três da tarde, estávamos na
Reserva de Cambarinho, a apreciar os loendros
Os loendros (ou, para sermos mais precisos, os rododendrosRhododendron ponticum) não são uma planta qualquer, são uma relíquia da Era Terciária. Esta planta já coloria as nossas serras muito antes de o Homem andar por cá, sobrevivendo às glaciações que limparam quase toda a Europa. Gosta de humidade, de solos ácidos e de vales abrigados, crescendo como um arbusto denso e alto ao longo de linhas de água, como a Ribeira do Cambarinho, um dos seus últimos grandes refúgios.
Em maio, os loendros explodem numa floração espectacular, cobrindo o vale com grandes cachos de flores arroxeadas
Caminhar entre aquelas relíquias botânicas, num festival de cor, foi o bálsamo perfeito para o cansaço e o esforço das serranias. E foi ali, nos passadiços que se debruçam sobre os cachos de loendros, que a família 'gasparita' se voltou a reunir, juntando-nos à minha 'estrelita' e aos companheiros que haviam neutralizado no Couto. O autocarro esperava-nos junto à rotunda da 'Virgem Milagrosa', onde fechámos, em comunhão e amizade, mais um memorável fim de semana pelas fragas de Lafões.

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2 comentários:

Anónimo disse...

Gostei muito!!
Dá bem para ver o que eu perdi!!
A minha Serra está muito bonita!!
Beijinhos.

José Carlos Callixto disse...

Ainda bem... é pena o comentário ser anónimo 😔