segunda-feira, 1 de maio de 2017

No Desfiladeiro de los Gaitanes - Caminito del Rey...

O desfiladeiro de los Gaitanes é um canyon escavado pelo rio Guadalhorce entre os términos municipais de Ardales, Antequera e Álora, na província de Málaga, comunidade autónoma da Andaluzia. O local é conhecido pela espectacularidade das paisagens e, essencialmente, pelo chamado Caminito del Rey ... até há uns anos atrás considerado por muitos o percurso pedestre mais perigoso do Mundo!

Caminito del Rey: o (ex) caminho mais perigoso do mundo
A construção de um canal para uma central hidroeléctrica, levou à necessidade de um caminho de acesso para a manutenção, construído entre 1901 e 1905. Começava na Estação de El Chorro e permitia a passagem do salto do mesmo nome para o de Gaitanejo, numa extensão de aproximadamente 3 km, preso às paredes verticais do desfiladeiro, em média 100 metros acima do rio. O Rei Afonso XIII percorreu-o na totalidade em 21 de Maio de 1921, na visita inaugural à represa de El Chorro; desde então, o caminho ficou conhecido por Caminito del Rey ... e veio a transformar-se mais tarde num atractivo para todos os amantes das emoções fortes. Com o passar dos anos e os efeitos da acção dos elementos naturais, a degradação foi-se acentuando ... mas não impediu nunca que milhares de aventureiros usassem o Caminito para provar adrenalina, de certo modo à semelhança do que ainda se passa na velha Linha do Douro, entre Fregeneda e Barca de Alva - a Ruta de los túneles - que percorri há 5 anos.

As imagens dizem mais que as palavras...

O Caminito del Rey nos últimos anos antes da restauração (imagens de diversos sites na web)
Não foram poucos os acidentes mortais ali ocorridos, principalmente entre os anos de 1990 e 2000, o que levou a Junta da Andaluzia a proibir e encerrar os acessos. Catorze anos depois, a Diputación de Málaga iniciou o processo de adjudicação das obras de restauração do Caminito del Rey, que abriu ao público no final de Março de 2015. E o Caminito entrou então no imaginário dos Caminheiros Gaspar Correia. Agora em perfeitas condições de segurança, mas sem perder a espectacularidade, com a minha "pequena arraiana" e a restante "família" caminheira, percorri o Caminito del Rey neste fim de semana prolongado.

Embalse do Rio Guadalhorce, desde El Chorro, na saída sul do Caminito del Rey, 30.04.2017, 8h40
Sábado foi a longa viagem até El Chorro, com uma parte da tarde em Málaga, a cidade mais próxima. E domingo de manhã ... começava a "aventura". O autocarro levou-nos à barragem Conde de Guadalhorce, junto à entrada norte do Caminito del Rey. De norte para sul - sem dúvida o sentido mais aconselhado - a "aventura" ia começar a correr à frente dos nossos olhos e passos.

Parte inicial do Caminito del Rey, a norte
Descrever o Caminito del Rey não é fácil. As sensações são muitas, à medida que a espectacularidade do traçado e da paisagem vai passando à frente dos nossos olhos e debaixo dos nossos pés. A parte inicial, os primeiros 2,7 km, é de acesso livre, desde a barragem até ao posto de controlo de entradas. A partir daí, para grupos o percurso é acompanhado por guias; um guia para cada cerca de 25 pessoas.

Parte inicial do Caminito del Rey,
a norte ... vigiados pelos grifos...
E primeiras explicações e recomendações sobre a "aventura" que íamos viver
Como tantos outros locais, o Caminito também tem as suas lendas ... inclusive sobre a visita real em 1921. Correm três versões sobre como Afonso XIII terá efectuado o percurso: a pé, a cavalo ... ou de combóio a partir da Puente del Rey. O nosso guia perguntou-nos qual a mais verosímil. A cavalo, nas estreitas passagens do caminito original e perante os sucessivos abismos, seria virtualmente impossível; a pé ... pouco provável; portanto ... a terceira versão terá sido portanto a real... 😊

Caminito del Rey, até à zona da Puente del Rey e do vale de El Hoyo
Do outro lado do rio, o percurso acompanha sempre a linha do comboio, que inúmeras vezes atravessa os imponentes estratos rochosos em sucessivos pequenos túneis. E se a parte inicial da "aventura" já é fabulosa ... ao entrarmos no Desfiladeiro de Los Gaitanes propriamente dito tornamo-nos personagens de um autêntico filme de suspense ... o suspense que atraía os verdadeiros aventureiros que percorriam o Caminito nos últimos anos antes da restauração. Para que se possa ter uma ideia, o velho Caminito permanece ao longo de quase todo o trajecto. Bastante mais estreito, sem quaisquer guardas e com troços esburacados ou mesmo inexistentes ... a adrenalina era seguramente muita...

A linha do comboio
atravessa a rocha...
O velho Caminito del Rey
permanece para a história...
Ponte sobre o Desfiladeiro de Los Gaitanes
Nas lendas do Caminito, também é conhecida a história da trágica morte de uma jovem inglesa, de longa cabeleira ruiva, que se teria lançado do chamado el Balconcillo, montada no seu cavalo branco, quando a vida se lhe tornara insuportável. Certo é porém que, apesar de todos os habitantes das aldeias vizinhas conhecerem a história, ninguém a testemunhou. Real é contudo a queda no vazio de três jovens aventureiros, em Agosto de 2000, quando o cabo de slide em que atravessavam o desfiladeiro se desprendeu e encontraram a morte instantaneamente no fundo do vale.

Homenagem aos três jovens que encontraram a morte em 11 de Agosto de 2000, ao desprender-se o cabo de slide
A travessia da ponte suspensa de Los Gaitanes é talvez a parte mais empolgante do Caminito actual. O vale abre-se aos nossos pés ... sentindo o vazio por baixo deles e o balançar da ponte...

Ponte suspensa de Los Gaitanes e vista para o Rio Guadalhorce
Um grifo aguarda que as correntes de ar lhe permitam cruzar os ares
A parte final do Caminito conduz-nos de regresso à zona de El Chorro, junto à linha de comboio, agora na margem esquerda do Rio Guadalhorce. O merecido almoço foi, aliás, praticamente à beira rio.

Troço final do Caminito del Rey, de regresso a El Chorro
E de regresso a El Chorro ... estávamos cheios do deslumbramento que tínhamos acabado de viver. Não é, não foi, a adrenalina que seria no tempo em que o Caminito estava no estado de degradação patente no que resta das antigas estruturas ... mas fazer o Caminito del Rey foi e é uma experiência única e fabulosa!
Mas ... o domingo não se esgotava com o Caminito del Rey...

Ronda, a cidade suspensa

Ronda e a Puente Nueva, sobre o rio Guadalevín
Cerca de 60 km a sudoeste de El Chorro, situa-se Ronda, um dos mais famosos pueblos blancos da Andaluzia. O rio Guadalevín esculpiu um assustador corte na rocha, o Tajo, que divide a cidade em duas por uma ravina profunda de 100 metros. De um lado, está La Ciudad, a velha cidade, onde a presença mourisca prevalece; do outro lado, a parte nova, que é unida à antiga por três pontes.
O fim da tarde de domingo foi assim dedicado a Ronda, começando por descer ao leito do Guadalevín por um belo trilho que passa por baixo da Puente Nueva ... mas que precisa bastante mais cuidado em termos de segurança e até de limpeza. É pena que tão belo percurso não esteja sequer sinalizado e ponha em risco os numerosos visitantes que por ali circulavam.
No fundo do Tajo, junto ao leito do Guadalevín
A Puente Viejo de Ronda e panorâmica sobre o bairro popular de Padre Jesus
Miradouro de Ronda (Clique para ver o álbum completo)
Mas o fim de semana por terras andaluzas não tinha ainda terminado. Segunda feira, 1º de Maio, a manhã foi dedicada ao espectacular Torcal de Antequera, entre esta cidade e Málaga.

A magia do Torcal de Antequera

Início de um pequeno mas espectacular percurso no El Torcal, 1.05.2017

A impressionante paisagem cársica de El Torcal deve-se a um processo iniciado há 200 milhões de anos, quando grande parte da Europa se encontrava submergida pelo mar de Tetis e se iniciou um processo de sedimentação por acumulação e depósito de sedimentos compactados em diferentes níveis. Até ao Miocénico médio, como consequência da deslocação das placas ibérica e africana, os sedimentos acumulados foram comprimidos, deformados e fracturados, até emergirem num lento e continuado processo que ainda se mantém. Uma vez emergido o relevo, a acção prolongada dos agentes erosivos, como a água, o gelo e o vento, modelou esta espectacular paisagem de El Torcal de Antequera. Simplesmente fabuloso!

Nas espectaculares formações rochosas do Torcal de Antequera
Um pequeno percurso de cerca de três quilómetros leva-nos pelo meio daquele emaranhado de formas fantasmagóricas, a desafiar a imaginação. Sentimo-nos gnomos, pequenos seres que seguramente pertencemos à rocha, ao modelar da paisagem, à Natureza. Simplesmente espectacular!


Quando pertencemos a um mundo de rocha...
Percorrer El Torcal é percorrer milhões de anos da história da Terra
No final do percurso, um espectacular miradouro debruça-se a sul. O Mediterrâneo lá está; com alguma imaginação, divisam-se terras de África. Mas a leste, não foi precisa imaginação para vermos neve, ao fundo, sobressaindo sobre as montanhas próximas. Eram terras de Granada; era, claro, a Serra Nevada.

Panorâmica a sul de El Torcal. Ao fundo o Mediterrâneo.
E para leste, ao fundo, a Serra Nevada
O Torcal de Antequera marcaria o fim deste espectacular fim de semana alargado. Depois do almoço ... foi a longa viagem de regresso a Lisboa. Entre o Caminito del Rey e os pequenos percursos em Málaga, Ronda e no Torcal percorremos apenas 19 km nos três dias ... um excelente exemplo de que as actividades pedestres não se medem em quilómetros. Medem-se naquilo que "vemos, ouvimos e lemos", medem-se naquilo que vivemos ... e que não podemos nem queremos ignorar. Obrigado, Caminheiros Gaspar Correia! Fica aqui apenas o registo do percurso efectuado no Caminito del Rey.
Torcal de Antequera
(Ver álbum completo)


e percurso do Caminito del Rey

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