sábado, 22 de outubro de 2016

Tons de Outono em Vale de Espinho ... com o negro de permeio...

No passado dia 7 de Outubro, recebi a notícia de que o Vale da Maria estava a arder. O Vale da Maria corresponde a uma ribeira, afluente do Côa ... nas "minhas" terras de Vale de Espinho. Os meus sentidos despertaram logo para as memórias dos terríveis incêndios de 2009 ... em que até as minhas "sagradas" Fontes Lares arderam!
Vale de Espinho, 22.10.2016 - A caminho do Vale da Maria
Sendo habitual virmos passar este início de Outono ao nosso "retiro", na tarde do próprio dia em que chegámos eu tinha que ver, com os meus olhos, a extensão da praga que agora tinha caído sobre o Vale da Maria. Chegámos, almoçámos ... e fui. A "minha" Malcata já está pintada com as cores do Outono, apesar de as alterações climáticas estarem a retardar a época da castanha. Transposto o Côa, rapidamente comecei a ver a mancha negra que parecia escorrer do Cabeço da Pelada. "Comecei a ver um fumozinho, como se alguém estivesse a fazer uma pequena fogueira", disse-me o João ... o construtor do meu refúgio nestas bandas. "Mas o fumo logo aumentou e desceu a Pelada",  continuou...; "como é que o fogo desce com aquela rapidez, se nem estava vento ?". Segredos e mistérios de uma nova "indústria"...

As cores são as de Outono ... mas, na encosta para a Pelada ... também há o negro...
Receava ver desaparecida a magia daquele vale que tão bem conheço, que já tantas vezes palmilhei. O vale onde, em Maio de 2013, guiei uma romagem de saudade para tantos naturais destas terras, alguns que há mais de 50 anos não percorriam campos e lameiros que lhes foram familiares. Contudo, se por um lado a visão dantesca de um mundo calcinado entristece sempre, valeu-me a pobre consolação de a área ardida ser bem menor do que imaginara. O vale propriamente tinha sido poupado. O fogo restringiu-se à encosta ENE do Cabeço da Pelada, entre esta e as zonas adjacentes à Ribeira do Vale da Maria.

Vale de Espinho ... para lá do inferno que passou por aqui...
Contornei a área ardida, na encosta. Pouco mais de uns 21 hectares de pinhal. Também a cabeceira do vale foi poupada, a Fonte Moira ... mas não o velho chouço, que tantas histórias teria para contar.

As cabeceiras do Vale da Maria e a Fonte Moira escaparam às chamas ...
... mas não o velho chouço que guarda
histórias de vidas e de gentes
E no meio do inferno negro
... o milagre da vida que renasce!
De novo no vale, junto à ribeira, procurei esquecer a encosta calcinada. Procurei ouvir apenas o cantar da água saltitante, beber os tons quentes de um Outono já chuvoso, mas ainda demasiado ameno. Por entre as brumas e o regresso de fortes aguaceiros ... voltei ao meu retiro raiano.

Lameiros da Ribeira do Vale da Maria. Não olhando para a encosta da Pelada ... a magia continua...!
E de regresso ao "ninho"
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Localização da área ardida, na encosta entre o Cabeço da Pelada
e a margem esquerda da Ribeira do Vale da Maria

1 comentário:

Aurora Martins Madaleno disse...

Só posso agradecer este texto e estas fotografias que um grande amigo tão bem soube partilhar. Depois da notícia do incêndio no Vale da Maria, fez-me bem vir encontrar mais este belo testemunho de alguém que ama e sabe falar de Vale de Espinho. Bem haja!