quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Divagações à volta de um tema: os Caminhos de Santiago

A maioria do que tenho escrito nestas minhas memórias foi-o durante ou após as "fragas e pragas" de uma vida feita de fases, de episódios mais felizes ou menos felizes, de "instantâneos de uma vida ao ar livre", como escolhi para subtítulo do blogue. Alguns episódios, poucos, justificaram uma escrita antecipada, um preâmbulo ... mas este artigo é o primeiro que não escrevo acerca de mais uma fraga, de mais um episódio dessa vida. Este ... é acerca de uma "aventura" global ... de uma "aventura" pela qual me apaixonei há sensivelmente três anos ... a "aventura" dos Caminhos de Santiago.

"É un camiño moi antigo, que te leva a novas experiencias. Sexan cales foren as túas crenzas, o Camiño é unha experiencia única que vas vivir en corpo e alma. Unha viaxe espiritual que te leva ao encontro coa natureza, cos outros e, sobre todo, contigo mesmo." (Camiño de Santiago)


"Sexan cales foren as túas crenzas" ... pois! Eu não sei quais são as minhas! Mas sei que, há quase três anos ... os Caminhos de Santiago passaram a fazer parte da minha Vida! Sei que ... "Eres parte del Camino y él … ¡es parte de ti!"

Nos dias em que comecei a escrever estas linhas, acompanhei pelas redes o percurso de alguns amigos e conhecidos que se encontravam nos Caminhos de Santiago. Um começou em Le Puy-en-Velay há quase um mês, esteve a fazer a Via Podiensis; um pequeno grupo fez o Caminho Português, de Valença a Santiago, guiados pelo meu "mano" Araújo; outro seguiu as pisadas do Caminho da Aventura, que desbravei há dois anos ... entre "irmãos".
O que nos lança nestes Caminhos? Qual é a magia?... No meu caso ... talvez tudo tenha começado em Outubro de 2013, com os Novos Trilhos ... nos Caminhos de Fátima...

28.Out.2013, 16:25h - Com os "Novos Trilhos" e com 138 km nos pés, entro no Santuário de Fátima pela primeira vez a pé
Naquele dia de Outubro, como então escrevi, das paródias que caracterizaram quatro dias de percurso passámos a um silêncio meditativo ... ou a uma meditação silenciosa. Ali, naquela "Cova" chamada "da Iria" ... onde se cruza o tempo e se reacende a Alma ... como diz o meu "mano" Araújo. "Mano" Araújo que, na altura, andava já a programar o seu Caminho de Uma Vida ... o Caminho de Santiago Francês.
No dia 17 de Abril de 2014, despedi-me dele em Santa Apolónia. Aquele sorriso, aquele acenar, aquele misto de emoção e felicidade ... nunca mais me saíram da memória. E os "meus" Caminhos de Santiago tinham começado ... antes mesmo do primeiro passo!
A 5 de Julho de 2014, parti da Sé Catedral de Braga rumo às terras mágicas do Gerês ... e a Santiago. Nos meses anteriores, tinha reunido tudo o que encontrei sobre os Caminhos da Geira romana, o Camiño Miñoto-Ribeiro e o Camiño Vreeiro, velhas rotas medievais utilizadas pelos peregrinos que, do norte de Portugal e do sul da Galiza, se dirigiam à cidade do Apóstolo. Foi, autenticamente, desencantar a historia dun Camiño por descubrir. Ao meu primeiro Caminho de Santiago ... chamámos-lhe o Caminho da Aventura ... e fui incapaz, depois, de descrever aquela que tinha sido a experiência e a vivência mais fascinante da minha vida, fora do âmbito da família que felizmente e orgulhosamente construí!

Outeiro de Lebosende, 10.07.2014, 8h45 (6º dia)

Pelos paraísos perdidos de un Camiño por descubrir... 
Brincando aos deuses ... quando construímos um "monolito" nos Montes de Testeiro ... 11.07.2014, 11h30 (7º dia)
Não há descrição possível para o turbilhão de emoções que se sentem e partilham num Caminho de Santiago. Imagens, emoções, sensações que jamais esquecerei. Boborás, Galiza, 10 de Julho de 2014, pouco passava das onze da manhã, durante o nosso Caminho da Aventura. Que dizer de uma humilde aldeã que, não nos conhecendo mas vendo-nos com as mochilas, as cabaças e as vieiras, nos veio pedir para rezarmos pela sua mãe: "Ai que perdín miña nai. Recen por ela en Santiago". Três dias depois, nove dias depois de sair de Braga, chegávamos ao mágico Pico Sacro ... e a Santiago.

Cume do Pico Sacro, 13.07.2014, 9h50 (9º dia). Esta imagem ficaria para sempre gravada em mim ... de múltiplas formas
Plaza do Obradoiro, Santiago,
13.07.2014, 16h10 (9º dia)
Para aqui convergem todos os
Caminhos ... todos os destinos ...
... todas as emoções...
No dia seguinte iríamos de Dumbria a Fisterra ... nas terras do "fim do mundo". Quase quarenta longos quilómetros ... para viver uma autêntica catarse purificadora, antes e durante o espectáculo grandioso do pôr-do-Sol no mar ... lá, na finis terrae ... lá ... onde o fim se torna início ... lá ... onde o corpo e o espírito renascem!

14.07.2014 - Cabo Fisterra, no final do Camiño das estrelas: Km '0' ... uma irmandade unida pela energia cósmica...
Seja-se o que se for ... o Caminho mexe com cada um de nós; quem volta não é o mesmo que quem parte. E eu voltei, voltei para o amor que me agardava, para a minha estrela, que ainda não se achou com forças e motivação para se fazer ao Caminho. Talvez um dia ... quem sabe...
01.08.2014 Cabo Fisterra : Km '0' ... com a estrela
que ilumina os meus camiños...
Mas menos de três semanas depois, estava de novo em Santiago e nas terras do "fim do mundo" ... com a minha estrela. A magia dos Caminhos de Santiago tinha-me cativado para levar a minha "família" caminheira àqueles mágicos lugares. E, ainda em 2014, em Setembro ... voltei ao Camiño! Com outros companheiros, de carro, em apenas 4 dias, foi um regresso nostálgico, um relembrar para reviver de outro modo, fazendo de guia, naqueles locais tão marcantes, à minha companheira de Vida e aos grandes amigos que nos acompanharam ... afinal também eles irmãos, vindos já da noite dos tempos...
Os Caminhos de Santiago tinham passado a fazer parte de mim! No meu imaginário, fervilhavam ideias e rotas peregrinas ... até porque peregrino vem de peregrinus, a contracção latina de per (através) e ager (terra, campo). Se peregrino é, portanto, o que atravessa os campos ... eu sou sem dúvida um peregrino! Um peregrino que, no final de um conturbado mês de Fevereiro de 2015 ... devolve ao mar as cinzas da súa nai. A minha mãe nunca foi caminheira, nunca galgou fragas ... mas admirava as minhas "aventuras", desde os velhos tempos da espeleologia, do mergulho amador, dos acampamentos ... da minha paixão pela vida ao ar livre! Muitas vezes me dizia ... "tu tens feito na vida tudo aquilo que eu gostava de ter feito"...

Junto ao Penedo do GuinchoSanta Cruz, 15.04.2015 - Ia começar um caminho que o destino não transformou em Caminho
Desde que regressara do Caminho da Aventura que começara a delinear aquele que seria, no meu imaginário, o meu próximo Caminho: partiria da "minha" Vale de Espinho, seguindo o Caminho de Torres e o Caminho Português do Interior. Mas a "partida" da minha mãe levou-me a mudar o ponto de partida para o Penedo do Guincho ... santuário natural que me permitiria ligar o mar de Santa Cruz ao mar de Fisterra ... lá nas galegas terras do "fim do mundo".
Fátima, 18.04.2015 ... com 106 km nos pés desde Santa Cruz

   "Trago o destino das águas
     No aguardar dos rochedos
     Dizem que o tempo é que apaga as mágoas
     Quem será que apaga os medos? "
Sebastião Antunes, "Ninguém é dono do mar"

Mas os "medos", as "mágoas" ... ou o "destino das águas" ... traçaram-me outras rotas. As estrelas ditaram que não chegasse ao destino. Com 120 km percorridos em 4 dias … o Caminho terminou no Centro de Saúde de Ourém ... o mesmo a que a minha mãe tinha um dia precisado de recorrer...
Em Fátima ... o meu pai esperara-nos, a mim e aos dois "irmãos" que me acompanharam durante três dias! Do alto dos seus 90 anos e a gerir a solidão da perda da minha mãe ... também tinha ido de Santa Cruz a Fátima, ao volante do seu velho Corsa. O que se passou com os meus pés naqueles dias, que me levou à sempre difícil decisão de desistir? Botas já velhas e cansadas? Não creio. Excesso de peso na mochila? Talvez. Ou, segundo o meu "mano" Araújo ... a minha mãe a dizer-me que não era ainda a altura de mais um Caminho...
Igreja de Santiago, Lisboa, 29.04.2015
Aqui começa o Caminho...
Dez dias depois estava a testar os pés, da Igreja de Santiago até casa, com os dois "manos" que me haviam acompanhado de Santa Cruz a Fátima ... e com a "namorada" que me faltara em Ourém. Mas, na manhã seguinte à da minha pausa forçada ... eu recebera um mail do meu filho mais novo...

".... já tínhamos tudo planeado para não apenas a mãe, como julgavas, ir ter contigo a Ponte Ulla ... eu e o João também éramos para ir! ...."

Afinal ... a meta estava definida antes mesmo do meu primeiro passo! E assim, no dia em que supostamente sairia de A Laxe para uma etapa de 30 km até Ponte Ulla ... saímos de casa como há muito não acontecia: os quatro, pais e filhos ... rumo a terras galegas. De caminho, quis visitar pela segunda vez o "monolito" que construí nos Montes de Testeiro, com os meus Irmãos do Caminho da Aventura! Mas no alto de O Paraño ... o nosso monolito não estava lá! Não me admiraria ... que tivesse tombado no dia 19 de Abril! E no dia 10 de Maio, em que supostamente chegaria a Santiago desde Santa Cruz ... cheguei ao "meu" Pico Sacro e a Santiago, a pé ... com o ninho familiar que construí!

Pico Sacro, 10.05.2015 - Somos
vultos num mar de nubes...
Praça do Obradoiro, 10.05.2015
Um "ninho" reunido ... uma meta definida antes mesmo do primeiro passo...
"Na Verdade esta Foto é o Caminho..." (António Araújo)
Naquele intenso dia 10 de Maio ...o meu irmão e o meu pai também estavam em Santiago ... também foram ter connosco ao Obradoiro ... também iriam connosco às terras do "fim do mundo". Afinal ... tínhamos estado todos em Santa Cruz naquele dia 27 de Fevereiro, no mesmo local de onde trouxe as pedras que fariam comigo o Caminho das Estrelas.

Cabo Fisterra, 10.05.2015
"... um mar que contém memórias, lágrimas, alegrias ... um mar que une mais do que separa! " (Vítor Lima Vieira)
De Santa Cruz a Fisterra ... um Caminho feito de múltiplos caminhos...
Das três pedras vindas de Santa Cruz, colhidas junto ao Penedo do Guincho, deixei a primeira nos penhascos da ponta do Cabo, lá onde ela pode admirar o mar de onde veio; a segunda ficou sobre o marco do km '0'; ouvirá outras histórias de vidas, de amores, de ciclos encerrados. A terceira ... essa regressou comigo ... e comigo viajou um ano depois, durante 32 dias consecutivos a andar ... ao longo de 920 km ... no meu Caminho Francês ... o Caminho de todos os Caminhos!
26.04.2016 ... Santa Apolónia
A 26 de Abril de 2016 vivi a despedida a que tinha assistido dois anos antes. Porque um dia, acordado ... sonhei fazer o Caminho Francês, com Amigos ... com Irmãos. Consciente da dimensão do projecto e da dor que iria ser, também para mim, a separação tão prolongada do ninho familiar, sabia contudo que tinha de o fazer enquanto as pernas ainda andam, enquanto a saúde e a idade o permitem. E fi-lo ... de Saint Jean Pied de Port a Santiago, a Muxía, a Fisterra ... sem percalços nem interrupções ... fazendo-me mais uma vez questionar o porquê do meu Caminho interrompido em Ourém. Mistérios dos Caminhos de Santiago...
Descrever o que foram os 32 dias do Caminho Francês?
Pirenéus franceses, 28.04.2016
Virgem de Biakorri ... com os ventos que correm...
Impossível! O Caminho vive-se e sente-se, partilha-se, não se descreve. Os Caminhos de Santiago têm as descrições mais curtas destes meus escritos sobre quase meio século de "aventuras"! O Caminho ... é acreditar na realização dos sonhos ... é dar um passo de cada vez ... é encontrar os limites e superá-los. O Caminho é dormir em qualquer lugar, comer o que está na mesa, ver a Natureza com outros olhos ... o Caminho é encher os olhos de lágrimas sempre que se ouve falar dele. O Caminho é Amor! É amar as estrelas, as montanhas, as nuvens, a chuva, o Sol, a água dos rios. O Caminho é Amar os Amigos ... conhecendo-nos e amando-nos a nós próprios ... amar as saudades que se tem da família. O Caminho ... é amar a Vida!

Alto del Perdón, entre Pamplona e Puente de La Reina, 30.04.2016 (3º dia de Camiño)
Donde se cruza el camino del viento con el de las estrellas ...
Montes de Léon, vistos do Caminho entre Carrión de los Condes e Calzadilla de la Cueza, 11.05.2016 (14º dia)
Cruz de Ferro, 17.05.2016 (20º dia)
O Caminho Francês foi vivido intensamente, dia a dia, passo a passo. Na Cruz de Ferro, como que conduzido por mãos alheias, erigi um pequeno "monolito", recordando o construído com os Irmãos do Caminho da Aventura.
Tantos e tantos lugares que se vão juntando nas memórias. Lugares que continuarão a ser meus e dos meus Irmãos com quem os percorri, de mochilas às costas!

Cume de O Cebreiro ... onde nos entregamos ao mundo!
20.05.2016 (23º dia de Camiño)

A Luz que ilumina a Vida (Santa María La Real, Cebreiro)
Caminhos do verde ... da luz ... da força anímica ... (23.05.2016, 26º dia de Camiño)
E na manhã do 28º dia de Camiño ... chove em Santiago...!
Pisar o Obradoiro depois de 28 dias consecutivos de Camiño ... é indescritível. Emoções e sensações de um convívio 24 horas por dia ... sensibilidades tantas vezes à flor da pele ... amizades feitas com outros que, como nós, tinham (têm) unha estrela por guia ! Nas memórias estavam já os longínquos Pirenéus, as estepes de Palencia, os cumes nevados dos Picos de Europa, dos Montes de León e de Sanabria, dos Ancares ... do Cebreiro! Nas memórias estavam também o Vinicius, a Letícia, a Esther, o Alexandre, o Félix, os amigos húngaros ... e tantos outros que fomos conhecendo ... com quem fazíamos uma festa cada vez que nos reencontrávamos noutro albergue. Mas ... o meu Camiño não tinha ainda acabado: a terceira pedra vinda de Santa Cruz, a que fez todo o Caminho Francês comigo ... tinha como destino os Camiños da Fín da Terra. Ao meu 29º dia (19º da minha "mana" Paula) partiríamos os dois, bem cedo, para as "terras do fim do mundo".

Agora apenas a dois, continuávamos a nossa "corrida" para o Ocidente, para os Camiños da fín da Terra (26.05.2016)
Muxía, 28.05.2016 (31º dia de Camiño) - Frente ao mar imenso, o Santuário da Virgem da Barca
Pelo Monte de S. Guilherme, chegamos a Finis terrae ... Km 0 ... o fim do Camiño (29.05.2016, 32º dia)

Coroando o Caminho de todos os Caminhos, lá, na Finis terrae galaica, despojámo-nos de alguns objectos terrenos que nos ligavam ao "antes" ... para renascer e viver o "depois". Lá, onde se terá situado Ara Solis ... onde adorámos o Sol, o Universo, a Natureza, a Criação. E lá, nas rochas da fín da Terra ... passou a "viver" uma pequena rocha, uma pequena pedra, um fragmento vindo das rochas de uma outra terra, de um outro mar que é no entanto o mesmo: a terceira das três pedras vindas do "santuário" do Penedo do Guincho, "dorme" agora nas falésias escarpadas de Fisterra ... assistindo talvez a uma viagem eterna, à passagem de umas cinzas que são pó, à passagem voraz do tempo, das vidas, das vivências.

Ocaso no Cabo Fisterra, 29.05.2016 ... culminar de uma "aventura" mágica de 32 dias, 921 km ... con unha estrela por guia...
Depois de palmilhar 921 km a pé (ou 630 km, a Paula), sempre com o nosso "mundo" às costas, fisicamente só nós dois vivemos as horas e momentos sublimes daquele dia 29 de Maio. Mas também ali estiveram sem dúvida todos quantos fazem parte da minha Vida, da família que herdei àquela que construí ... e àquela que os Caminhos do Amor e da Fraternidade trouxeram à minha Vida. Entre todos, também ali esteve comigo, seguramente ... a estrela que tem iluminado a minha vida, a minha "pequena arraiana" ... que no dia seguinte me esperava de volta, ao fim de uma longa e dura ausência!
A cabaça e a vieira de Santiago acompanharam-me sempre; todos os dias as tinha penduradas à minha cabeceira. De regresso ao ninho ... ali estão penduradas dos livros ... até ao meu próximo Camiño ... porque o Caminho é ter saudades do Caminho ... é ter a certeza que se vai voltar ao Caminho...! Namastê!

Próximo Caminho de Santiago? Sim, claro! No início de Maio de 2017 conto estar ... a partir para o Camiño...

Vídeos:
- Caminho "da Aventura": http://tinyurl.com/hm952x4
- Caminho Francês: http://tinyurl.com/hapk47x

Os Caminhos de Santiago e de Fátima no "Por fragas e pragas...": https://goo.gl/oXz8dL

2 comentários:

Jose Da Silva Rey disse...

Quando leio estas passagens da tua vida, compreendo que a tua falecida mãe tinha certamente um imenso orgulho em ter-te trazido ao mundo.
De uma certa forma ela vivia através de ti todas as aventuras que gostaria de ter realizado.
Se por ventura algum dia ter faltar uma justificação para iniciares o proximo "caminho", pensa na tua mãe.

Um forte abraço

Miguel Bento Lopes disse...

Grande testemunho, Callixto, de um grande caminheiro. És um exemplo e uma referencia para nós. Obrigado por estas palavras e pela paixão inspiradora que comportam. Abç caminheiro