terça-feira, 1 de setembro de 2015

Ao encontro do Toubkal
(3) Imlil - Les Mouflons

Imlil, 1.09, 7:55h - Vai começar a aventura!
Há 4 dias, no último dia de Agosto, tínhamos feito a abordagem à montanha. Em Imlil, entrámos no Atlas. Nos três dias que se seguiram … chegámos ao céu! O Toubkal – aquele que nos vê do alto dos seus 4167 metros de altitude – abençoou-nos com um tempo magnífico, com a grandiosidade destas montanhas imponentes, com a sensação de termos vencido o desafio que nos propusemos. Ontem, ao meio dia de um dia sublime … atingíamos o cume da África do Norte! Ao olhar para estas paredes imponentes de rocha, à volta do pequeno planalto onde ainda me encontro ao escrever estas linhas, tem-se a sensação de que são intransponíveis. Mas não, os trilhos estão lá, serpenteiam por entre ravinas imensas de cascalho e rocha. O caminho está lá … o caminho que um dia entrou no meu imaginário, o caminho que estes dez amigos que aqui estão comigo quiseram trilhar … o caminho do desafio, do conhecer os limites, neste que também foi e é o Caminho ... o Caminho dos céus.
Descrever o que foram estes três dias é complicado. O acordar em Imlil foi como um renascer, um despertar para as forças que nos empurrariam para o início da "aventura". As pernas estavam preparadas. As mochilas também. E o dia nasceu com o Sol a pontificar no azul de um céu que tentava arranjar espaço por entre as montanhas de que estávamos cercados. Um pequeno almoço bem servido e repleto de risadas espontâneas, do sangue a ferver no entusiasmo da partida.

       As primeiras a partir são as mulas ...
... e agora vamos nós, atrás das mulas
Mal começamos a caminhar ... começamos a trepar. Primeiro ao longo de frondoso bosque, mas a trepar. Tínhamos quase 1500 metros de desnível a vencer, dos cerca de 1780 de Imlil aos 3200 do refúgio que iria ser o nosso "acampamento base".

Começou a grande jornada, rumo a Aroumd (também chamada Aremd, ou Armed, a 1840m alt.)
As pessoas, as mulas, as casas, os caminhos, os sentidos, o ar, a terra, os cheiros, as conversas, o silencio, o som das águas do Assif n'Isougouane, o ribeiro que iríamos acompanhar todo o dia ... tudo nos transportava para um reino fabuloso e longínquo ... afinal tão perto e tão longe.

O vale de Mizane, ou Assif n'Isougouane: águas que vêm dos céus...
O Nuno, o nosso guia, já é mais que um guia, é um amigo que conhece o terreno. Somos apenas 11, mas a preocupação com a progressão de todos é bem patente desde a primeira hora. E subimos, subimos sempre. A paisagem é esmagadora. Aqui e ali há bancas a vender sumo de laranja espremida na hora. E chegamos ao marabout de Sidi Chamharouch, uma pedra branca, símbolo muçulmano da procriação, acreditando-se também que o santo cura doenças mentais e outros males de espírito.

Marabout de Sidi Chamharouch, 2330 metros de altitude
Água (muita), barras energéticas, mais sumo de laranja natural ... e mais subida. Sucedem-se cascatas de água cristalina. Passamos os 2500 metros, passamos os 3000 metros, a respiração começa a sentir a altitude. Um passo atrás do outro, de rocha em rocha, de pedra em pedra.

Refrigeração de último
modelo tecnológico...

Para cima, sempre para cima...
3000 metros de altitude
Sufocados pelo cumes que ladeiam o vale, a nossa jornada prossegue. No ar, soavam os sons estridentes das gralhas. Apesar da altitude, o frio não se faz sentir. De repente, o vale abre-se um pouco, divisam-se edificações que mais parecem fortalezas saídas de um filme dos anos 50. São os refúgios do Toubkal, a 3200 metros de altitude: o "nosso" Refuge des Mouflons e o "velho" Refuge du CAF, o Clube Alpino Francês.

Chegamos ao "acampamento base" do Toubkal, a 3200 metros de altitude
Já merecíamos um descanso!...
Ambos os refúgios têm uma autêntica "aldeia" de tendas à volta. Supostamente, o Refuge des Mouflons, mais recente, tem muito melhores condições. Mas ... é só supostamente. Electricidade ... só das 18:30h às 22 horas; água quente idem. É certo que luz e água quente a estas altitudes é um luxo ... mas descobrimos que o Refuge du CAF tem luz, água quente e aquecimento 24 horas por dia; um dos nossos "aventureiros" migra para lá ... pagando menos do que a tabela no Mouflons...


Jantamos às 18:30h, quase à luz de velas, um "banquete" humilde, mas com a atenção de um chefe sempre sorridente. E nós ... também sorríamos. Soltámos gritos de união. Estávamos ali, naquele lugar, escrevíamos os nossos nomes na vida de cada um e do próximo, trocávamos histórias e estórias, sorrisos, carinhos momentâneos mas eternos. Estávamos fortes, crentes na missão que nos havíamos proposto: subir quase mais mil metros acima de onde estávamos! Agora sim com algum frio, era chegada a hora de repousar ... ou de tentar repousar.
Começado a escrever no "Les Mouflons" em 4 de Setembro, terminado em Marrakesh, 5 de Setembro, 13:20h


Ao encontro do Toubkal (3)
(Álbum completo)


1 comentário:

Raul Branco disse...

Grande, Callixto!
Fico satisfeito que tudo tenha corrido bem!
Bela reportagem, gostei!

Um abraço