domingo, 7 de outubro de 2018

Nas rotas do Lima

... do Corno do Bico aos canos de água de Santa Luzia … e aos Caminhos de Santiago

Feriado à sexta feira, o 5 de Outubro permitiu este ano um fim de semana de três dias … que os Caminheiros Gaspar Correia aproveitaram para um périplo minhoto. Depois de cinco horas de autocarro, poucos minutos depois do meio dia estávamos em Gemieira, próximo de Ponte de Lima, onde íamos começar a primeira de três caminhadas em terras do Rio Lima.
Gemieira, Ponte de Lima, 5.Out.2018, 12h15
O percurso da primeira caminhada, dedicada precisamente ao Lima, decorreu essencialmente na Ecovia dos Açudes, desde o que resta dos velhos moinhos de água da aldeia de Gemieira até Ponte de Lima e a Bertiandos. Um belo percurso quase sempre ribeirinho, fácil … e que em Ponte de Lima me proporcionou a nostalgia … de reviver o Caminho de Santiago. Na velha ponte romano-gótica e à porta do Albergue, a ver chegar Peregrinos … a sentir nos rostos as sensações deles … a reviver a nossa passagem ali … a antever a nossa passagem em tantos outros locais … em tantos outros Caminhos…
Moinhos de Gemieira, Ponte de Lima, 5.Out.2018, 12h40
Ao longo do Lima … íamos ao encontro do Caminho de Santiago
Em Ponte de Lima misturei-me com os Peregrinos.
Sensações e emoções só compreensíveis por quem já
as viveu nos Caminhos de Santiago
Em Ponte de Lima, Decius Brutus exorta as suas tropas a atravessarem o rio
Cruzado o Lima, a caminhada continuou ainda pela margem direita até ao belo solar de Bertiandos, passando pela estátua de Decius Brutus, que pretende recrear a lenda do Rio Lethes … o rio do esquecimento: os soldados romanos ter-se-ão recusado a passar o rio, temendo a perda total da sua memória. Mas Decius Brutus atravessou o rio e chamou cada soldado pelo respectivo nome, provando assim que a sua memória permanecia intacta.

Ao longo da margem direita do Lima
Solar de Bertiandos
Ao pôr do Sol, as cores da bela cidade do Lima assumem matizes de encanto e sedução
Ponte de Lima by night, 5.Out.2018
Sábado 6.10: da Mesa dos 4 Abades ao Corno do Bico

O segundo dia, sábado, estava destinado à serra de Vilar do Monte, a norte de Ponte de Lima, entre aquela aldeia e a área de Paisagem Protegida do Corno do Bico. Saímos assim de Ponte de Lima para norte, cruzando o Rio Labruja. A poente, bem perto, tínhamos a serra do mesmo nome, que ainda em Maio subira a caminho da "Cruz dos Franceses" e do alto da Labruja … no Caminho de Santiago.
Pouco depois das nove estávamos assim na aldeia de Vilar do Monte, encravada entre terras de Ponte de Lima e de Paredes de Coura. E ali, a primeira incursão foi à afamada Mesa dos Quatro Abades – uma mesa de granito ladeada por quatro bancos também em pedra, cada um assente nas quatro freguesias confinantes: Calheiros, Cepões, Bárrio e Vilar do Monte. Outrora, os representantes de cada paróquia sentavam-se para debater e resolver os mais diversos assuntos, consultando os fiéis que se encontravam ao seu redor. Esta tradição, hoje fruto da iniciativa das juntas de freguesia, foi recuperada em 1988, sendo celebrada no terceiro domingo de Junho de cada ano.

Vilar do Monte, 6.Out.2018, 9h20
Na Mesa dos 4 Abades … em Concílio de Caminheiros 😊
Campos de Vilar do Monte
Celebrado o "concílio" na Mesa dos 4 Abades, iniciámos a subida rumo aos cumes a nascente de Vilar do Monte. Desde logo a envolvência se revelava imponente, entre pastagens, com cavalos semi selvagens por companhia, até aos bosques onde predominavam castanheiros e faias, cuja densa folhagem esconde a lagoa dos Salgueiros Gordos. Não nos admiraríamos se a qualquer momento aparecessem fadas e duendes … mas o único que vimos foi mesmo um companheiro em saboroso descanso sobre um ramo do denso bosque… 😂

Subindo a serra
sobre Vilar do Monte
Um altar dos duendes do bosque...
Lagoa dos Salgueiros Gordos
  
Luzes e cores do bosque
  
Ao meio dia estávamos no geodésico dos Salgueiros Gordos e pouco depois nos imponentes Penedos do Castelo, os pontos mais altos da caminhada. A nascente, terras de Arcos de Valdevez, com a Serra Amarela e a do Soajo ao fundo, separadas pelo vale do Lima. A poente a Serra da Labruja; deixando voar a imaginação … consegui ver os Peregrinos a subi-la, pelas estreitas e pedregosas veredas que também subi, há 5 meses atrás. Mais à esquerda, a Serra de Arga também se recortava contra um céu um pouco ameaçador; aproximavam-se nuvens negras…

Geodésico dos Salgueiros
Gordos (832m alt.)
Panorâmica para terras de Arcos de Valdevez, com as serras Amarela e do Soajo ao fundo
Voando nos Penedos do Castelo ...
Rumo ao Alto do Cavalo … pelo meio do paraíso...
Ao almoço, no Alto do Cavalo, o vento parecia querer trazer a chuva que se via ao longe, a norte, para lá do Minho, em terras da Galiza. Mas S. Pedro deixou-nos almoçar … e só a seguir caiu alguma água dos céus. Rumávamos agora à Área de Paisagem Protegida do Corno do Bico.

Rumo à Área de Paisagem Protegida do Corno do Bico
Em plena Serra do Corno do Bico ...
um encontro imediato de altíssimo grau! 😉
A chuva, que nunca foi muita, parou de novo. À entrada da área protegida, na zona do Cabeço Alto, estavam dois jeeps parados … e vejo alguém a acenar-me. O que é que se sente quando, a caminhar em plena serra ... encontramos uma ex-aluna, bióloga, ao serviço do CIBIO? Pois é, Mónia ... sente-se orgulho! Escreveria ela mais tarde: "Eu não estava a conseguir acreditar no que via!! 😊 Os meus primeiros passos no monte foram atrás dos vossos e cá continuo! Muito obrigada!". A Mónia foi minha aluna há duas décadas atrás. Comigo participou em aventuras "por fragas e pragas...", do Cabo Espichel ao Gerês, a Somiedo, aos Açores. Algum "bichinho" lhe deixei, alguma paixão pela Natureza, pelos grandes espaços. A Mónia já trabalhou na floresta de Białowieża, na Polónia, onde se dedicou ao estudo da organização social das populações de bisonte europeu (Bison bonasus). No CIBIO, dedica-se desde 2007 a projectos de monitoramento, pesquisa e conservação do lobo ibérico (Canis lupus). É ou não motivo de orgulho?
Panorâmica junto à Torre de Vigia no Corno do Bico
Na magia da Lagoa e dos bosques do Corno do Bico
O extremo norte da nossa caminhada correspondeu ao extremo sul da área protegida do Corno do Bico. Regressámos à zona do Cabeço Alto, descendo agora a encosta sobranceira à aldeia de Labrujó, até à estrada de Vilar do Monte, onde o autocarro nos aguardava. Tínhamos percorrido 16 km numa magnífica caminhada de montanha, entre terras do Lima e do Coura.

Descida da encosta sobre Labrujó e Vilar do Monte
E às 16h00
estávamos no autocarro...
Terminada a caminhada de sábado, rumámos a Viana do Castelo. Continuávamos na rota do Lima, mas as organizadoras deste belo fim de semana quiseram diversificar o mais possível os trilhos a percorrer ... e em boa hora o fizeram. Ao fim da tarde estávamos assim na Foz do Lima ... e de novo em Caminho de Santiago, já que por Viana passa o chamado Caminho Português da Costa ... que espero um dia vir a percorrer.

Domingo 7.10: Trilho dos canos de água

Santuário de Santa Luzia, 7.Out.2018, 9h00
O ex-libris de Viana do Castelo é sem dúvida o Santuário de Santa Luzia, ou do Sagrado Coração de Jesus, no alto do monte de Santa Luzia. Dali se avista uma panorâmica ímpar sobre o mar, a foz do Lima e todo o complexo montanhoso envolvente. Tendo Santa Luzia por base, a terceira e última caminhada nas rotas do Lima seguiu parcialmente o PR9, o trilho dos canos de água. Trata-se de um antigo e complexo sistema de abastecimento de água à cidade, com origem em várias minas da serra de Santa Luzia. Iniciámos o percurso pouco antes da aldeia de S. Mamede.
Panorâmica de Santa Luzia para a Foz do Lima
Nos bosques próximos da aldeia de S. Mamede, na parte inicial da caminhada de domingo
Grande parte do trilho é feito sobre os canos de água, as antigas condutas que, aproveitando o desnível, levavam a água das minas, descendo a encosta, até à cidade e arredores. Duas dessas minas são ainda visíveis, a mais alta das quais se encontrava aliás cheia de água.

Ao longo dos canos de água, descendo a encosta da Serra de Santa Luzia
Mina de água, uma das várias nascentes a partir das quais se construíram os canos
Onde o aqueduto é mais alto, o trilho vai pelo
solo ... mas houve quem quisesse seguir nele... 😋
E uma segunda mina de água perde-se no emaranhado selvático da vegetação
Já quase na Areosa, os canos de água formam os imponentes Arcos do Fincão, quase também portanto no final do percurso, à vista e já perto do mar.

Arcos do Fincão, quase
no final da caminhada
E dos Arcos do Fincão ... já se vê o mar. Estamos sobre a Areosa, a noroeste de Viana do Castelo
Antes da uma da tarde estávamos na Areosa ... e estávamos no fim de um belíssimo fim de semana. Três caminhadas diferentes, fabulosas, em terras do Rio Lima ... e com os Caminhos de Santiago por perto. O almoço foi na Praia Norte de Viana. Lá em cima, o Santuário de Santa Luzia parecia vigiar-nos ... e saudar-nos para a viagem que se seguiria, de regresso a casa ... e de Alma cheia.

A serra e o Santuário de Santa Luzia, visto da Praia Norte de Viana do Castelo, 7.Out.2018, 13h00
(Clique para ver o álbum completo)

2 comentários:

Isabel Guardado disse...

Gostei muito da descrição! Obrigada

Jose Vaz disse...

A leitura do relato da atividade caminheira em que tive o privilégio de participar constitui um acréscimo de informação/descoberta deste encantador recanto de Portugal. Obrigado Callixto.