terça-feira, 31 de julho de 2018

Pico ... a mais bonita solidão do mundo...

... e à memória do querido Amigo Luís Fialho, que partiu a viver um Sonho

Em Maio de 1996 subi o Pico pela primeira vez; pouco mais de 4 anos depois voltei ao ponto mais alto do território português. De ambas as vezes, fi-lo com alunos, nos tempos áureos do "meu" Ensino ... mas de ambas as vezes ficou o Sonho de viver o pôr e o nascer do Sol na Montanha. 22 anos depois, os Caminheiros Gaspar Correia agendaram para o verão de 2018 uma incursão aos Açores ... e no canto dos meus sonhos logo nasceu a vontade de voltar ao Pico.
Ramisquedo, Serra Amarela, 12.06.2010 ... durante o
minuto de silêncio mais maravilhoso que alguma vez vivi!
Para dormir na cratera, para assistir ao pôr e ao renascer do Sol ... mas também para sentir no Cosmos a memória do querido Amigo Luís Fialho. Em Março de 2015, o Luís cumpriu um Sonho: subiu o Pico. Já na descida, o seu débil coração não aguentou contudo a pressão que lhe exigiu. Dois dias depois, como que o senti a planar no "meu" Gerês ... no Gerês que várias vezes o levei a atravessar ... onde um dia nos levou a fazer, na Serra Amarela, o minuto de silêncio mais maravilhoso que alguma vez vivi. Agora, sozinho n'"a mais bonita solidão do mundo", na minha entrega à Montanha que o viu cair, como que o vi em cada estrela na imensidão do céu ... na imensidão da eternidade.
Desde cedo procurei conjugar o programa da actividade dos Caminheiros com uma vinda antecipada para os Açores, que possibilitasse por um lado a "romagem" ao Pico, mas também a visita e uma ou outra caminhada nas ilhas do Faial e S. Jorge, com a estrela que acompanha a minha Vida ... e com dois "Manos velhos" que têm acompanhado as nossas fragas e pragas ao longo deste quase meio século. E assim ... voámos os 4, anteontem, de Lisboa para o Faial; pegámos num Corsa alugado à Auto Turística Faialense e navegámos para o Pico. Ontem, os meus três acompanhantes ficaram no "acampamento base" ... e à tarde, na Casa da Montanha, começou a "aventura"!

30.07.2018, 16h00 ... vai começar a grande subida do Pico (Foto: A. Mousinho)
Subir a Montanha do Pico é uma experiência fabulosa. E subi-la a solo ... é mais fabulosa ainda. Principalmente quando se leva no pensamento a memória de um querido amigo ... e quando o Universo se conjuga para que tudo corra ... de forma mágica e mística. Logo para começar, se bem que as previsões meteorológicas não previssem chuva, também não previam uma limpidez e uma claridade como aquela que logo nos primeiros troços da subida se me começou a revelar. Subida ... completamente a solo. Quem se inscreve para fazer a subida com pernoita no Pico só pode começar às quatro da tarde ... e às quatro em ponto deixei os meus "assistentes" na Casa da Montanha; um grupo de outros "escaladores", com guias de montanha, começaram poucos minutos depois ... mas gradualmente eu ia-os vendo ficar para trás.

Começou a aventura...
Rumo aos céus! Lá em baixo, os rochedos da Madalena e ao fundo a Ilha do Faial
Da Casa da Montanha à cratera grande do Pico e ao cume do Piquinho medeiam apenas cerca de 4 km ... mas 4 km que vencem sensivelmente 1100 metros de desnível, até aos 2351 metros de altitude do Pico Pequeno, como também é chamado. Lembrava-me da dureza do trilho ... e das cerca de 4 horas para o percorrer. 4 horas para 4 km ... parecia-me impossível ... mas cada vez mais possível à medida que subia. Os meus "perseguidores" ... de vez em quando via-os ... mas bem mais abaixo. Tinha a Montanha toda só para mim! E como eu a respirava e vivia!

Durante largas horas, este foi o meu único acompanhante
Pouco depois das sete da tarde estava no bordo da cratera principal do Pico, com o Piquinho à minha frente. Sublime!
Com três horas de caminho, cheguei à cratera do Pico, a 2240 metros de altitude. Dir-se-ia que tinha chegado ao céu, que aliás estava pouco acima de mim, de um azul intenso. Abaixo, via nuvens brancas, mas também o mar, a ilha do Faial, os reflexos dourados do Sol no mar, preparando o espectáculo a que iria assistir no Piquinho duas horas depois. Emocionei-me, ali, sozinho, contemplando a imensidão à minha volta ... contemplando a minha pequenez ... e lembrando-me da emoção do meu querido Luís quando ali chegou também, há pouco mais de três anos.

O meu "apartamento" montado, na cratera
principal do Pico, na base do Piquinho
Panorâmica da cratera, vista da subida ao Piquinho
Outra panorâmica da cratera
E ... o Pico projecta-se sobre um mar de nuvens
Montada a tenda num local que me pareceu ameno, no interior da cratera, ataquei a subida ao Piquinho pelas oito horas. Tinha cerca de uma hora até ao pôr-do-Sol. Aquele último desafio são pouco mais de 250 metros de percurso, que vencem os últimos cerca de 150 metros de desnível, até aos míticos 2351 metros de altitude. Grande parte da subida ... implica pés e mãos. O frio - principalmente o vento - começava a fazer-se sentir ... mas as fumarolas que exalam do Piquinho aquecem-nos por instantes ... embora metam respeito; fui-me lembrando que enquanto elas exalam fumo ... a pressão não se está a concentrar...! E foi só já do Piquinho que vi chegar à cratera os restantes candidatos à pernoita no ponto mais alto de Portugal; à hora a que chegaram ... deixaram-me o cume só para mim.

O Piquinho fumega ... é bom sinal...
Piquinho conquistado. 2351m alt. ... quase a tocar os céus!
E no Piquinho, como espectador único, aguardei pelo fabuloso espectáculo do pôr-do-Sol. Apesar do manto de nuvens brancas abaixo daquele cume místico, era possível ver parte da ilha de S. Jorge, grande parte do Faial (por trás da qual o Sol se iria deitar no mar) e até, ao longe, a Graciosa e a Terceira, embora envoltas em neblina difícil de registar em fotos. O vento soprava forte ... mas de vez em quando recolhia-me junto à fumarola ... até que o espectáculo começou!

Pôr-do-Sol no cume do Pico ... um espectáculo de cor, de emoção, de êxtase ... na mais bonita solidão do mundo...
Embora tivesse levado frontal, mas desci assim que o Sol se pôs, ainda com a luz do Sol pôr. Os meus companheiros de cratera já tinham as tendas montadas, relativamente distantes da minha. E a noite ... foi sob um céu repleto de estrelas e iluminado pela Lua quase cheia. Frio ... bem menos do que esperava ... bem menos do que a previsão. Os céus tinham-me abençoado.

De regresso à cratera, ainda com as cores do Sol poente
E a noite seria neste "apartamento", a 2220 metros de altitude
Pelas cinco da manhã comecei a ouvir vozes. Faltavam duas horas para o nascer do Sol, mas muitos dos montanheiros que haviam perdido o espectáculo do recolher do astro-rei não queriam perder o renascer. Frontais a postos ... parecia uma procissão das velas, Piquinho acima. Fiz as minhas arrumações dentro da tenda ... e só saí pouco antes das seis, ainda noite cerrada. Agora sim precisava do frontal, claro ... e mais do que nunca dos pés e das mãos. E cheguei bem a tempo.

Uma plateia assiste em silêncio ao renascer do Sol para mais um novo dia
Sinto-me abençoado pelo Universo!
Descida do Piquinho
Antes das oito iniciei a descida, de regresso à Casa da Montanha. Sei que a maioria das pessoas chega a levar mais tempo para baixo do que para cima ... mas à semelhança das minhas anteriores subidas ao Pico levei bem menos; às nove e um quarto estava de regresso. Luís, meu querido Luís ... dediquei-te esta minha "romagem" à Montanha mais alta de Portugal ... lá onde estiveres seguramente que me acompanhaste! Obrigado pelo muito que me ensinaste, sempre ... obrigado por teres sido quem foste ... obrigado por teres sido meu Amigo!
Na descida, um guia de montanha que estava a subir meteu conversa comigo ... mas reparando melhor nele ... reconheci o guia que, em 1996 e em 2000, me havia levado e aos grupos de alunos que levei a subirem a Montanha do Pico. "Tu não és o Joaquim Néné?", perguntei. E claro que era ... e claro que se lembrou daquelas subidas ... e claro que se lembrava do trágico desfecho da concretização do sonho do Luís Fialho.
Janelas por entre as nuvens, na descida do Pico
Culminando a bênção do Universo nesta minha "romagem" ao Pico ... quase assim que entrei na Casa da Montanha começou a chover! Os meus três "assistentes" foram-me buscar. A "aventura" no Pico estava terminada ... mas não um périplo açoriano que ainda vai durar mais uns bons dias. Aliás, neste momento ... já estamos na ilha de S. Jorge.

Adeus Pico ...
... olá S. Jorge

5 comentários:

Margarete disse...

Uma reportagem e fotos excelentes. Através das tuas palavras revivi bons e maus momentos passados nessa montanha. Parabéns Callixto.
Se não te importas associo-me à tua grande homenagem que Fizeste ao nosso grande amigo Luis.

Américo Guerreiro disse...

Bonita crónica como sempre, obrigado pela partilha. Abraço e boa continuação.

Raul Branco disse...

Maravilhosa e comovente reportagem,obrigado Callixto pela partilha, espero que o resto do programa corra bem! Um abraço

Alexandra Gameiro disse...

Maravilhoso relato! Emocionante!

Teresa disse...

Obrigada pela partilha. Tanto as fotos como a narrativa estão de excelência. Parabéns pela façanha.
Um abraço
Teresa Guardão