sábado, 22 de agosto de 2015

Em terras de Quadrazais

Em terras de Riba-Côa, entre o Sabugal e Vale de Espinho, Quadrazais ficou para a história como terra de contrabando, talvez mais do que qualquer outra freguesia do Concelho, um pouco pela mão de Nuno de Montemor e do seu "Romance de Maria Mim", mas também por efeito da gíria quadrazenha, uma linguagem específica usada e desenvolvida por uma população ao longo de décadas, de acordo com as necessidades da vida no contrabando.
Quadrazais, 22.08.2015, 8:35h - Juntam-se os caminheiros...

"Amatriz meia choina maquinamos tótios reta Francha. De galhal leva cada cinquenta chulos, artife, chaira, fugantes e baril chingato para andante."

Percebeu o leitor não quadrazenho alguma coisa? Pois, antes de ter conhecido Quadrazais e lido a "Maria Mim" e outras histórias quadrazenhas, eu também não. Mas aí está a tradução:
"Amanhã à meia noite partimos todos para Espanha. Cada um leva cinquenta duros, pão, carne, pistolas e bom vinho para a viagem."
Ora, o Lar de Santa Eufémia, em Quadrazais, organizou para este sábado de Agosto uma caminhada "pelo envelhecimento activo". Caminhada circular, da parte da manhã, entre a sede da freguesia e a povoação anexa de Ozendo, estando nós em Vale de Espinho ... era "obrigatório" participarmos nesta iniciativa... J. E assim lá estávamos, antes das nove da manhã, preparados para maquinarmos tótios...

Há caminheiros de todas as idades!
Alto de S. Gens (950m alt.)
Descida do alto de S. Gens para Ozendo
Entrada em Ozendo
Organizada, como disse, pelo Lar de Santa Eufémia, em colaboração com a Associação Recreativa e Cultural do Ozendo, esta caminhada teve o privilégio de contar com participantes de todas as idades, incluindo alguns dos utentes do Lar, proporcionando um verdadeiro "envelhecimento activo". Os menos possibilitados fisicamente percorreram apenas os primeiros metros, sendo depois transportados pela carrinha do Lar para a sede da ARCO, onde houve um pequeno reforço alimentar e um bonito momento de convívio, que incluiu um louvor cantado a Nª Srª de Fátima.

Ozendo: imagens de outros tempos
Reforço alimentar e convívio, na
Associação Recreativa e Cultural do Ozendo
E maquinamos de novo, pelos velhos caminhos do Ozendo, rumo a Quadrazais
Antes do meio luzio (meio dia) e com menos de 9 quilómetros percorridos, estávamos de novo às portas de Quadrazais. Mas ainda descemos ao Lameirão do Côa, por entre frondoso carvalhal, antes de regressar a cosque (casa), ou seja ... ao Lar de Santa Eufémia.

À entrada de Quadrazais: já há ouriços
A caminho do Côa
O Côa, no Lameirão
Bela perspectiva de Quadrazais, no regresso do Côa
E regressamos às ruas onde, pela pena de Nuno de Montemor, terá deambulado Maria Mim
Bem à hora de assuquir (comer), com 11 km de andante (caminho), estávamos de regresso ao Lar. E o almoço ... foi um excelente exemplo de comunhão e convívio, em que participaram todos os utentes do Lar que se puderam deslocar do seu quarto para uma improvisada "esplanada", onde as mesas foram montadas com as antigas portas interiores do edifício, entretanto renovadas. Foi-me proporcionado conhecer as instalações do Lar de Santa Eufémia ... e o que vi foi uma excelente unidade de apoio à terceira idade, onde muitos utentes seguramente ainda vêem, no seu imaginário e nos seus sonhos, as antigas imagens de luta pela vida, nas bredas do contrabando.

Lar de Santa Eufémia: estava terminada a caminhada ... e seguiu-se um merecido almoço de confraternização
Depois do almoço, ainda houve lugar a um belo momento musical. Quadrazenhas de gema cantaram "A Quadrazenha", um verdadeiro hino a Quadrazais ... e o sempre virtuoso Malcatenho José Corceiro Lucas tocou e encantou para quem quis cantar ... porque "Se alguém houver que não queira ... Trá-lo contigo também ..."!

                      "Quadrazenha,
                       Tão linda, tão sedutora,
                       Pareces a Virgem Senhora! ...."
"Seja bem vindo quem vier por bem ...."
 
(Clique nas fotos para ver o vídeo)
Nas últimas horas de caminhada e principalmente no pós-almoço, este belo dia foi contudo ensombrado pela visão de grossas nuvens de fumo negro e pelo voo dos aviões de combate a incêndios. O concelho do Sabugal estava dolorosamente em chamas! Desta vez aparentemente por causas naturais, um raio terá originado um cenário dantesco, que se estendeu da Serra da Pena e das velhas ruínas das Aguas Radium até muito próximo de Águas Belas, ameaçando diversas povoações e roubando uma vida, que tentava salvar os seus animais de uma morte que acabou por lhe bater inesperadamente à porta. Semanas antes, tinha assistido bem perto à tragédia da Serra da Gata e do "meu" Xalmas. Agora, na "minha" Vale de Espinho, cheguei a ter o carro coberto de cinzas, trazidas pelos ventos das terras mártires do poente transcudano. Que Xalmas (deus Vetão das águas) traga rapidamente as chuvas que se parecem adivinhar no ar pesado, até porque chegou ao fim esta minha e nossa estadia estival nas nossas terras de Riba-Côa. Falta pouco para maquinarmos rumo a Mata Granja (Lisboa, na gíria quadrazenha) ... e falta pouco para novas "aventuras"... J.
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5 comentários:

José Carlos Callixto disse...

Foi enviado um comentário Anónimo cujo conteúdo em nada se relaciona com a temática do artigo e do blogue. Como tal, o autor do blogue reserva-se o direito de não o publicar.

José Carlos Callixto disse...

Mais uma vez a coberto do anonimato, foi recebido novo comentário, desta vez em tom ofensivo e, de novo, completamente fora da temática do artigo e do blogue.
Devo esclarecer a pessoa em causa que:
1) Por princípio, não publico comentários escondidos atrás da palavra Anónimo. Quem tem algo a dizer, assuma-se e identifique-se!
2) A moderação e aprovação de comentários é um direito que assiste aos autores dos blogues, sendo uma das funcionalidades previstas pelo próprio Blogger.

Blue disse...

a "coragem" do anónimo chama-se cobardia.
Segue em frente Caminheiro.
A inveja faz falar.
Obrigado pela tua partilha.

Paulo Teles disse...

Callixto eu nem me dignava a perder tempo com gente desse estilo...

José Carlos Callixto disse...

Às 13:35h foi recebido novo comentário, que o Anónimo diz ser o último. Pelas mesmas razões, reservo-me igualmente o direito de não o publicar. Permito-me apenas fazer minhas as palavras de um dos muitos apoios entretanto recebidos via Facebook: quem esconde aquilo a que chamam cara, por detrás de qualquer coisa, seja lá o que for, não merece sequer o nome de gente.