quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Caminhada ... ao submundo de uma cidade...

Na noite da antevéspera de Natal, mobilizados por uma das pessoas mais notáveis que conheci na vida, mais de uma dúzia de habituais companheiros de trilhos juntaram-se para uma caminhada muito especial: com as nossas habituais mochilas às costas, acabámos de fazer 10 km pelas ruas de Lisboa. O conteúdo das mochilas era também ele especial: roupas ... sacos-cama ... cobertores ... meias, meias, meias ... cuecas, cuecas, boxers ... sweats ... luvas ... leggings ... bolos secos ... bolachas ... pão ... sumos. Isso mesmo ... uma caminhada de solidariedade, distribuindo coisas aos Sem Abrigo ... uma caminhada ao submundo da cidade...
Preparei a minha mochila de autonomia: 60 litros de roupa que já não usamos, minha e da minha "pequena arraiana". Ela também se juntou nesta "aventura"; na mochila dela ... sumos e bolos.

As regras eram simples: "Não se tira fotos. O que levamos para dar temos de ser nós a transportar, não forçar ninguém, não julgar nem questionar, falar só o que for preciso e ao sabor dos interlocutores... Não se abordar as pessoas em grupo grande: - Olá, boa noite, está a precisar de alguma coisa? E deixar fluir..."
E ... deixámos fluir...!
A partir da Alameda, descemos a Avenida Almirante Reis até ao Martim Moniz e ao Rossio. Passámos junto ao "meu" velho Palácio da Independência, por trás do Teatro Nacional chegámos aos Restauradores, subimos a Avenida da Liberdade até à Praça da Alegria e à Rua do Salitre. Voltámos a descer até à Rua de S. Nicolau, subimos a Rua dos Fanqueiros, de novo o Martim Moniz ... e o regresso à Alameda.
As palavras são poucas para exprimir o que se sente numa caminhada destas. Percebe-se a vida destes rostos sem rosto? Não. Mas sentem-se os pés gelados de uma rapariga esguia, enfiados nuns sapatos a largar a sola. Sente-se o frio do velho "Carlos", agradecido ao ser coberto por um cobertor mais reconfortante. Ouve-se a fome dos que nos pedem comida ... e nos desejam Feliz Natal.

Nunca imaginei que entregar um saco cama nas mãos de alguém fosse uma experiência e uma vivência tão intensa! Aquele saco cama foi meu ... viveu "aventuras" ... tem estórias para contar. "-Um saco cama, dá jeito? -Oh, se dá!" ... e agora é ele, o meu velho saco cama, que afaga as histórias, os dramas e tristezas daquele rapaz que, de olhos arregalados, perto do velho Cinema Condes, o guardou para as noites frias que se avizinham. "A mochila é que também dava jeito", diz-me um outro, do outro lado da Avenida; "oh, isso é que não pode ser", respondo-lhe eu ... com vontade de a largar logo ali, nas mãos de quem seguramente dela tiraria bom proveito. Quem me leva os meus fantasmas?...


«Uma vez passei o ano assim, com espumante e bolos, e tive que desistir e entregar tudo numa casa de acolhimento nos Anjos... Nem a passagem de ano significava nada para eles ... e muitos já estavam bem "grogues"»
(António Araújo Silva, dinamizador desta Caminhada especial)
Um grande obrigado, meu amigo e irmão Araújo! Obrigado por um dia te ter conhecido. Obrigado pelo tanto que já me ensinaste ... pelo tanto que ainda temos a aprender.

(Excepto a primeira, da mochila, as restantes fotos que ilustram este post foram retiradas de diversos sítios na internet, nada tendo a ver com a caminhada efectuada nem com os seus participantes)

4 comentários:

Anónimo disse...

Caro amigo, neste momento não tenho adjectivos para qualificar, esta, mais uma, vossa acção. Mais uma lição de vida que todos nós deviamos aprender.
Obrigado por seres meu amigo.
Um santo Natal para ti e para os teus.
Abraço
João J. Fonseca

José Carlos Callixto disse...

Meu caro João Fonseca, a iniciativa desta acção deve-se ao grande Ser Humano que é o Amigo António José Araújo Silva. Eu ... foi uma nova experiência, enriquecedora, como todas as que tenho vivido com ele.
Feliz Natal!

Raul Branco disse...

Assim procedem homens de coração generoso.
E tu Callixto és um desses!

Bem hajas!

Um Feliz Ano 2015, cheio de saúde e com muitas caminhadas.

Um abraço.

António Cadillon disse...

Muitos de nós, "dos de boa vontade", cremos que chagas sociais destas só se resolvem com medidas estruturais na nossa sociedade e no nosso "sistema". No entanto, infelizmente, permitimos que essa convicção seja o nosso "ópio" para nos afastar da intervenção concreta e da acção directa e Local. A mais importante lição que vos agradeço é a de nos acordarem para a realidade. Bem-hajam