quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Na rota da prata e do ouro
Do Penedo Furado a Andreus (GR44, Sardoal)

Três amigos dos Caminheiros Gaspar Correia, numa bela quinta feira, combinámos fazer um reconhecimento de caminhada na zona do Sardoal. Tratava-se de parte da GR44, a Rota da Prata e do Ouro, um percurso de grande rota que liga os concelhos de Vila de Rei e do Sardoal.
Depois de um dia cinzento e de chuva, esta quinta feira acordou fria mas soalheira. E às nove e meia da manhã já estávamos perto do centro geodésico de Portugal - o vértice da Milriça - e sobre a Ribeira de Codes, onde a mesma se aperta no sítio do Penedo Furado, que se admira da antiga estrada N2, entre Brescôvo e Milreu. O sítio é um espectacular Miradouro, de onde se admira uma fabulosa panorâmica sobre a ribeira e as encostas.
Ribeira de Codes, no Miradouro do Penedo Furado, Vila de Rei, 18 de Fevereiro de 2016, 9:37h
Lá em baixo, a ribeira corre fresca e cristalina. Para lá chegar, uma passagem no meio da rocha valeu ao sítio o nome de "Penedo Furado". Mas antes, no miradouro, de tempos idos guardaram-se em azulejos as lendas perdidas de mouras e pastoras...
Em passo ligeiro, de pé descalço, uma jovem pastora caminhava atrás das ovelhas e das cabras. Entre assobios, toques com o cajado e latidos dos cães, encaminhou o rebanho para os lameiros verdejantes. Saboreando  o  dia  lindo  e  soalheiro
- como o nosso... - deixou-se estar sentada, a ouvir o canto da água e dos pássaros. É então que distingue, no meio de todas as melodias naturais, o canto de uma mulher, afinado, exótico, numa língua que ela não conhece e não percebe. Levanta-se; devagar, dirige-se para de onde lhe parece vir o canto, melodioso e triste. Aproxima-se sem ruído, quase com medo, e espreita por entre as ervas e as árvores. Vê-a. Sentada numa laje, com uma pele morena e dourada, cabelos negros como carvão, vestida de sedas e cetins, enfeitada com jóias preciosas ... uma moura!
A pentear os seus lindos e longos cabelos com um pente de ouro. Tamanha maravilha a pastora nunca vira! Cobiçou o objecto, dourado e brilhante, que deslizava nos cabelos macios da Moura. Aproximou-se um pouco mais, pé ante pé. Um pau que estala, uma pedra que resvala, ela não se apercebe, mas a Moura dá conta dela. E olha na direcção dela, com os olhos grandes, escuros e tristes, como se lhe entrasse no profundo da Alma. Em silêncio, fitam-se. A jovem e alegre pastora pobre, a Moura rica e triste.
Perante o olhar da Moura, a pastora enche-se de coragem e estende a mão, pedindo-lhe o pente. A Moura sorri, tristemente, e diz-lhe: "Queres o pente, não é?... Pois terás de te converter à minha fé. E se mais quiser, um bezerro dourado estou a guardar, para quem por bem vier e me souber amar...". A pastora, cansada de pobreza e beatices, de padres bem vestidos e bem alimentados pelas ofertas forçadas dum povo pobre e inculto, aceita sem hesitar. A ideia do bezerro dourado aguçou-lhe a coragem, pensando no irmão que poderia amar a bela Moura. Acena com a cabeça, aceitando. A Moura levanta-se, as pernas esbeltas e morenas a vislumbrarem-se sob os véus de seda que a cobriam. Sorri e diz-lhe: "Para a minha fé poderes rezar, o céu da boca tenho de te beijar...". E, perante os olhos da pastora, a bela Moura transforma-se numa serpente, para lhe ser mais fácil entrar na boca dela. Assustada, a pastora grita e faz o sinal da cruz, virando costas e fugindo. Com um silvo, amaldiçoada e presa no encantamento, a Moura esgueira-se e desaparece por entre as rochas, deixando um sulco gravado e pintado com pó de ouro, que o tempo se encarregou de levar. A pastora, essa, fugiu a sete-pés para junto da família e, mais tarde, recuperada a coragem, voltou armada e acompanhada. Desceram pela passagem do Penedo, procuraram atrás de cada árvore e erva, vasculharam nas rochas ... mas nada. Nem sinal de Moura, de bezerro ou de tesouro. Apenas o sulco ficara como recordação da aventura e prova do medo da pastora...

Ribeira de Codes junto ao Penedo Furado ... na senda da Moura encantada e do Bezerro dourado...
Cascatas da
Ribeira de Codes
Sem encontrarmos vestígios da Moura encantada ou do Bezerro dourado ... subimos o curso da Ribeira de Codes, que depois deixámos rumo a sul. E ... subimos a bom subir, rumo a Salgueira e a Santiago de Montalegre. Esquecida nos actuais percursos dos Caminhos de Santiago, esta freguesia atesta ainda a passagem dos Santiagueiros medievais rumo à cidade do Apóstolo.

Ponte de Codes
Lameiros junto à Ribeira de Codes
Poços dos Mouros (ou Minas romanas?)
Estará aqui enterrado o Bezerro dourado?...
Santiago de Montalegre
Seguiram-se as aldeias de Lameiras, Lobata e Mivaqueiro. De uma parte inicial muito bonita, fomos contudo subindo e descendo depois através de eucaliptais mais monótonos, pelo que optámos por cortar alguns troços do traçado original do GR44. Já junto à Ribeira de Andreus, eram já quase duas da tarde, com 14 km percorridos, quando chegámos a uma certa casa já nossa conhecida, rural, no meio da quietude daquele lugar tranquilo. E um dos caminhantes até tinha a chave...

Junto à Ribeira de Andreus ...
o almoço foi nesta bela casinha rural!
Foi sem dúvida um belo percurso, num belo dia de Sol de inverno. Terminada em Andreus, da jornada pedestre ainda fariam parte mais cerca de 2,5 km junto à aldeia de Valhascos, num pequeno troço do PR4. A câmara do Sardoal está sem dúvida de parabéns pelo desenvolvimento dos seus percursos.

Andreus, em fim de percurso
Campos próximos de Valhascos
Ver o álbum completo

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Carnaval na Figueira e na Serra da Boa Viagem

A actividade de Carnaval dos Caminheiros Gaspar Correia estava este ano programada para o próprio fim de semana de Carnaval, na acolhedora cidade da Figueira da Foz e na Serra da Boa Viagem.
06.02.2016, 11h - Tinha começado uma bela caminhada,
na Serra da Boa Viagem
A partida, como sempre, foi da Portela; às 10:30h já estávamos a passar o Mondego. O dia prometia chuva, mas S. Pedro foi-a segurando durante a maior parte do percurso.
A caminhada começou na estrada florestal da Serra ... e foi um belo ziguezaguear por entre o arvoredo e as perspectivas que se abriam para norte e poente, desde o Cabo Mondego às areias de Quiaios, Tocha e Mira. Passámos próximo da Capela de Santo Amaro, do século XIX, e subimos aos geodésicos do Monte Redondo e da Bandeira, este último o mais elevado desta serra.

Ao fundo o farol do Cabo Mondego, onde terminaríamos a caminhada
Praia de Quiaos, vista do Miradouro da Bandeira
Ode à floresta portuguesa
Vale de Fontes ... e por aqui íamos almoçar
Depois do almoço, descemos em direcção norte até à cascata da Boa Viagem, para depois voltarmos em direcção ao mar, a uma cota pouco acima dos 100 metros, sob os geodésicos da Corredoura, Bandeira e Monte Redondo. Quase sobre a praia da Murtinheira, rumámos a sudoeste, em direcção ao Monumento Natural do Cabo Mondego. Os afloramentos jurássicos do Cabo Mondego constituem um conjunto de excepcional importância, nacional e internacional; para além de elevados valores no domínio da paleontologia e sedimentologia, este conjunto sobressai, em particular, no domínio da estratigrafia.

Cascata da Serra
da Boa Viagem
Praia da Murtinheira

Uma subida radical ... e com muito vento...
Monumento Natural do Cabo Mondego
A parte final do percurso ... foi molhada. As muitas nuvens negras que nos tinham acompanhado tinham de despejar o seu conteúdo. Mas pouco depois das quatro da tarde estávamos no Cabo Mondego, onde o autocarro nos recolhia. Tínhamos completado sensivelmente 15 km, naquela que foi uma belíssima caminhada de serra com sabor a mar. Depois, à noite ... seria o habitual e sempre grande Carnaval dos Caminheiros Gaspar Correia... J


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Carnaval Caminheiro ... versão 2016
7 de Fevereiro, 9:30h ... e o segundo dia começara...
Domingo, segundo dia de actividade. Sabíamos que a caminhada trazia surpresas ... e o dia começou por um briefing em que ficámos a saber que o grupo ia ser dividido em pequenos grupos, com vista a um percurso tipo peddy paper, cujas etapas nos dariam a conhecer alguns dos atractivos principais das zonas de Buarcos e da cidade da Figueira da Foz. Sem dúvida uma ideia original ... e lá partimos para as tarefas, meio disfarçados de "narigudos", "enlaçados" e outros adereços carnavalescos... J

Ao longo da marginal, de Buarcos à Figueira da Foz
De "missão" em "missão", passámos assim pelo monumento e placa de homenagem às peixeiras de Buarcos, situada na praça com o curioso "distintivo" de ... Praça da Má Língua.

Homenagem à Peixeira de Buarcos
O "oásis" na Marginal da Figueira
Imagens de um peddy paper muito animado
Eram 12 as etapas que tínhamos a cumprir. Mas, à nona etapa ... podíamos repor energias na Pastelaria Dionísio, para saborear as doces brisas que não são do Liz ... são do Mondego... J. Depois o Jardim Municipal, a Igreja ... e estávamos próximos do fim.


12 "etapas" constituíam esta original forma de caminhar e conhecer Buarcos e a Figueira da Foz
Ver o álbum completo
P
Pouco depois do meio dia e meia hora estávamos junto ao "Sol", com 8,6 km percorridos. O fim de semana de Carnaval terminaria com um almoço na "Quinta da Salmanha", após o que regressámos a Lisboa.
A equipa organizadora desta actividade está sem dúvida de parabéns, pelo empenho e pela originalidade dos momentos que proporcionou ao grupo! Foi ... um excepcional Carnaval Caminheiro!