sexta-feira, 4 de setembro de 2026

✨👣 Caminho da Geira e dos Arrieiros (2) 🚶🚶‍♂️🍀💫

              Ou quando o ω regressa ao α...

No Albergue das Veigas, a madrugada estava fria. Os campos vestiam-se de geada, quando saímos rumo a Vido, Portelinha e ao Porto dos Cavaleiros, um pouco baralhados entre a hora portuguesa e a hora espanhola. Aos 1043 metros de altitude, atingimos o ponto mais alto do Caminho da Geira e dos Arrieiros e descemos para o rio Trancoso - também chamado Troncoso, ou Barxas - que estabelece a fronteira ao longo de quase todo o seu curso, entre os municípios de Melgaço e Padrenda.
Entre as Veigas e Vido, 02.09.2026, 07h25 ... numa manhã gélida de início de Setembro
Marco nº 2 da fronteira luso-galega, no Porto dos Cavaleiros, junto ao rio Trancoso
Descida ao longo da fronteira, acompanhando
o Rio Trancoso
Na Azoreira, despedimo-nos da aldeia portuguesa de Alcobaça, para entrarmos definitivamente na Galiza
Descida dos montes castrejos aos vales do Minho e do Avia
Ao entrarmos na Galiza, pela aldeia deserta da Azoreira, começámos a descida gradual para o vale do rio Minho, que se adivinhava ao fundo, debaixo de um manto de núvens brancas. Lembrava-me bem desta descida; há 12 anos, logo desde a Portelinha, fizemo-la quase sempre debaixo de chuva. Até Monterredondo não há qualquer outra povoação, embora se vejam algumas pequenas aldeias ao longo da encosta portuguesa do Barxas, até à sua foz em Cevide, próximo de Ponte Barxas.
Desde a Azoreira (foto superior), na interminável descida para o vale do Minho, que permanecia debaixo de um manto branco
Passava das onze da manhã quando entrámos em Monterredondo, o primeiro povoado significativo que se encontra depois da travessia do Porto dos Cavaleiros. Em 2014, impulsionado por pistas perdidas nos registos históricos, desviei-me e aos meus companheiros em busca da mítica aldeia de A Escusalla e da Ponte Silvares, sobre o rio Gorgua,
Ponte Silvares, sobre o rio Gorgua, 08.07.2014
chave nas antigas rotas medievais. Encontrámo-la, mas fazendo jus ao "Caminho da Aventura" de então, vencer os acessos ao vale do Gorgua e às suas múltiplas cascatas foi uma autêntica odisseia. Certamente dadas as dificuldades, o traçado oficial do CGA não passa por aquelas paragens perdidas, tanto mais que, depois da ponte, obrigam a um percurso bem maior, por Freáns e San Roque de Crespos, rumo ao vale do Deva, a Ponte Trado... e ao Minho.
Compreende-se, por isso, que a sinalização oficial do CGA contorne aquelas paragens secretas, que implicariam um rodeio considerável até ao vale do Deva. Fiéis ao traçado certificado, seguimos em direcção a San Amaro, não sem antes subirmos à Capela de São Miguel, de onde a vista se espraia para norte e noroeste, adivinhando-se quase os contornos de Melgaço no horizonte.
Capela de S. Miguel, próximo de San Amaro: lá em baixo, ao fundo, está o vale do Minho
Este foi um dos dias em que, no pensamento do meu companheiro de peregrinação, mais importância tinha o seu... "kit de sobrevivência". Falavam-nos de um café em San Amaro... mas só ao fim de semana. De outro em San Roque de Crespos... mas esse seria fora do Caminho... e sem certeza de estar aberto. E, na parte final da etapa, de outro 5 km antes de Cortegada... do qual nem lhe vimos a sombra. É, aliás, um contraste marcante que cada vez mais noto nas zonas rurais da Galiza: o silêncio das ruas, a ausência de pessoas, tudo de portas fechadas. Por cá, por mais modesta que seja a aldeia, haverá quase sempre um café aberto a acolher quem passa. Será este abandono um sinal de desertificação ainda mais severa do que a nossa? O certo é que o contraste é um facto.
Travessia do Deva - afluente do Minho - e a caminho de Vilanova da Barca, numa tarde quente a pedir um bar que não existia
16h10 ... e chegamos à margem esquerda do Minho, já relativamente próximos de Cortegada
Entrámos em Cortegada por volta das cinco da tarde. Uma tarde quente, um trilho junto ao rio, passando pelos históricos balneários termais, teoricamente em funcionamento. Mas... tudo deserto. Só começámos a ver gente (e pouca) já dentro da vila mesmo, a caminho da "Casa do Conde", onde tínhamos o alojamento reservado, e passando pelo pavilhão desportivo onde dormira a equipa de 2014.
Igreja de
Santa María de Cortegada
 
5ª feira, 3 de Setembro, 6ª etapa: ao longo dos vales do Miño e do Avia, era uma das etapas mais fáceis, quase sempre a acompanhar, inicialmente, a margem esquerda do Minho.
Igreja de San Bieito de Rabiño, na manhã mágica de 03.09.2026, 08h00
O espelho de água do Rio Miño, muito pouco antes da foz do Arnoia, 09h15
Lembrava-me perfeitamente destas paisagens ribeirinhas... e da profunda metamorfose da paisagem ao nosso redor, relativamente aos dias anteriores. As serras agrestes e graníticas da Raia davam lugar à suavidade cénica, agrícola e vinhateira. Particularmente a partir da aproximação ao Arnoia... estávamos a entrar nas terras do Ribeiro... "onde a auga reza, o viño fala e a pedra cala."
Polos viñedos do Ribeiro
E assim entrávamos
nas vinhas do Ribeiro
Melhor cartão de visita não podíamos ter...; há 12 anos temos aqui igualmente uma foto 😂
O vinho do Ribeiro é a alma da comarca banhada pelos rios Miño, Avia e Arnoia. A viticultura remonta aos romanos, mas foram os monges cistercienses no Século XII que aperfeiçoaram o cultivo das castas. Nos séculos XV e XVI, o Ribeiro era exportado para toda a Europa, transportado por arrieiros até aos portos atlânticos — uma ligação directa à história dos Caminhos de Santiago. Embora também se produza vinho tinto, o Ribeiro é mundialmente consagrado pelos seus brancos, dominados pela casta Treixadura, frequentemente acompanhada por Godello, Torrontés, Loureira e Albariño.
O Paraíso existe... às portas de Ribadavia. Rio Avia, 03.09.2026, 10h55
Praza Mayor de Ribadavia... igualmente e estranhamente com muito pouco movimento
Castelo dos Condes de Sarmiento, 12h10
Igreja de Santiago,
Ribadavia
E lá vêm as águas límpidas do Avia, oriundas da Serra do Suído, no município de Avion
A norte de Ribadavia, no "Caminho da Aventura" de há 12 anos, a escolha natural parecia ser subir o curso do Avia rumo a Leiro, onde aliás a equipa de então terminou etapa. Mas já nessa altura vira referências à passagem dos peregrinos por Beade e Berán, povoados cravados nas encostas vinhateiras da margem direita do rio. Agora, na preparação deste Caminho de 2026, naturalmente que quis seguir o traçado homologado do Caminho da Geira e dos Arrieiros, fixando o final da etapa em Berán... tanto mais que se perspectivava um dos alojamentos peregrinos mais carismáticos do CGA.
Beade, 03.09.2026, 14h05 - Estávamos literalmente no meio dos vinhedos
Desde que saíramos de Ribadavia... nem um bar! Numa tarde que deve ter sido a mais quente do nosso Caminho...! À entrada de Beade, contudo, uma seta com uns dizeres apelativos desviava-nos do Caminho para a estrada... mas dizia apenas 100 metros. Em boa hora acreditámos! No "Bar Celta", o Zé Manel pediu uma cerveja negra... mas este Zé pediu... uma copa de Ribeiro, pois claro! E que saboroso e fresquinho ele estava; tão fresquinho... que teve de vir o segundo!...😂
Faltavam sensivelmente 4 km para o nosso destino.
Igreja e antigo Mosteiro de Santa María de Beade... no meio das vinhas!
Em plena vindima, muitas vinhas mostram-se ainda carregadas
E Berán surge na encosta, destacando-se a sua Igreja de San Breixo. Desde as margens do Avia tinha sido tudo a subir...
Em Berán, esperava-nos o Albergue "O Casar do Peregrino"... sem dúvida um dos alojamentos mais carismáticos em que fiquei nos meus Caminhos. Trata-se de uma grande casa brasonada, toda em pedra, propriedade do igualmente carismático Abdón Fernández, que a adaptou para o que ele próprio chama de aloxamento altruista. Mais do que uma descrição... algumas imagens ilustram o estilo.
Inicialmente, pensávamos jantar n'"O Trote", mesmo ao lado e com referências a jantares peregrinos. Mas, em plena época das vindimas... o Bar estava encerrado por completa impossibilidade da senhora que o gere. Por isso... trazíamos uma pizza na mochila, para fazer no forno, com muita pena de não ter vivido aquele albergue com outros peregrinos. Aliás, estávamos a ver que nem conhecíamos o amigo Abdón, mas felizmente poude fazer um brinde connosco e dar-nos um abraço e desejos de Bo Camiño.
O jantar possível n'"O Casar do Peregrino"... mas regado com "Raíces Galegas"...
No dia seguinte, dia 4, deixámos "O Casar" ainda de noite, para uma etapa exigente de 28 km e fortes desníveis. Ficava para trás Berán, mas também uma marca simbólica: estávamos a 100 km de Santiago!
Outeiro de Lebosende, no despertar dos mágicos de 04.09.2026
Num alvorecer mágico, cruzámos a carballeira de Lebosende ao som do lendário grupo galego A Quenlla e da sua... "Alborada de Lebosende". E voltámos ao percurso de há 12 anos junto à Igreja de S. Miguel... no momento que o Sol escolheu para despontar sobre as colinas, além do Avia.
Igreja de San Miguel de Lebosende, 04.09.2026, 08h20 ... com o Sol a despontar sobre as colinas do vale do Avia
Em cada figueira que via, o Zé Messias ia comendo dúzias de figos. Lebosende, não foi excepção, pouco antes de começarmos a descer de regresso ao vale do Avia. Em 2014 tínhamos optado por passar pela aldeia abandonada de Viñoá; agora descemos directos ao rio, o que nos permitiu admirar a vetusta Ponte da Cruz, destruída nos confrontos com as tropas napoleónicas, no início do Séc. XIX.
O rio Avia na Ponte da Cruz, símbolo da resistência do concelho de Boborás nas guerras napoleónicas
E às 9h30 da manhã entrávamos em Pazos de Arenteiro
Pazos de Arenteiro é uma das grandes pérolas históricas e arquitetónicas do concelho de Boborás e de toda a comarca do Ribeiro. A povoação parece parada no tempo e condensa, num único espaço, a nobreza da arquitetura fidalga e a herança das antigas ordens de cavalaria que protegiam as rotas do comércio e da peregrinação. Quando ali passámos há 12 anos, o Bar "A Ponte" estava fechado... e agora fechado estava. Mas, vendo-nos indecisos, uma simpática senhora perguntou-nos se queríamos um café, ou alguma outra coisa. Tinha o Bar fechado por causa das vindimas e o tempo contado, mas abriria especialmente para nós. E assim foi, numa demonstração de pura hospitalidade e humanidade.
Café-Bar "A Ponte", Pazos de Arenteiro, com a simpática proprietária, 04.09.2026, 09h35
Igreja de San Salvador, Pazos de Arenteiro...
com alguma ginástica para a fotografar...
Pazos de Arenteiro desempenhava um papel estratégico fundamental para os arrieiros que subiam das zonas baixas do Ribeiro em direcção às serras de Beariz e à Terra de Montes, rumo a Santiago de Compostela. Também no traçado do Caminho da Geira e dos Arrieiros, Pazos de Arenteiro funciona como uma verdadeira "porta de transição": é o ponto onde o peregrino deixa para trás a suavidade soalheira das encostas vinhateiras, para começar a subida rumo às serras mais agrestes do interior.
Em 2014, contudo, não descobri dados sobre este histórico traçado, pelo que seguimos por Boborás, Brués e pelos montes de O Paraño.
Pelas comarcas da Terra de Montes...
Acompanhando ainda o vale do Avia, mas agora a meia encosta, tínhamos pela frente a tão falada subida para Salón e O Igrexario. O que tinha lido e as informações quase diariamente fornecidas pelo Henrique Malheiro e o Zé Almeida diziam-me tratar-se do maior desnível do CGA. E foi, efectivamente... mas fez-se, sem esforço de maior, até porque ainda era de manhã, antes do calor da tarde.
Subida para Salón e Capela de Santa Lucía
Aqui já há castanhas...
Às 11h25 estávamos junto à Igreja de San Miguel de Albarellos
E uma hora depois junto à isolada Capela de San Lourenzo... tínhamos subido 450m desde Pazos de Arenteiro...
Seguia-se uma suave descida até Feás. Eram horas de almoço. Tinham-nos falado de um "Café Solidário". Parecia fechado... mas logo apareceu uma simpática senhora a convidar-nos a entrar... e assim conhecemos duas Ángeles del Camino, a Chus Carballeda e a prima. Principalmente a Chus, só me fez lembrar a Carmen da Casa Avelina, no Caminho Inglês e no Caminho do Mar e dos Apóstolos.
Com a Chus Carballeda e a Bety, as duas
primas do Café Solidário de Feás
 
O que se seguiu foi quase prodigioso: tendo nós pedido apenas duas bebidas para refrescar, surgiu à mesa um banquete improvisado de sopa quente, crepes, pastéis, geleias e bolos, servido com a humanidade e o afeto genuíno que só as grandes almas sabem oferecer.
De Feás a Beariz, porém, o Caminho exigia que continuássemos a subir. A cota máxima do dia, rondando os 800 metros de altitude, não fica muito longe do alto de O Paraño... o cume onde, em 2014, um quarteto de peregrinos portugueses "comandados" por este então sexagenário ergueu um monólito de pedras que acabaria por ficar para a história. Talvez por isso, no nosso Caminho do presente... surgiu-nos um milladoiro pouco antes do cume!
De Feás a Beariz, pouco antes do cume, surge-nos este milladoiro. Cerca de 4 km a norte, à mesma cota (se seguíssemos a cumeada)... está o alto de O Paraño... onde em 2014 construímos um monólito histórico...
11.07.2014, 11h30 ... Quando construímos
um "monólito" histórico no alto de O Paraño...
Só ao escrever esta crónica me apercebi da proximidade entre os dois locais. Se tivéssemos seguido a cumeada, depois do milladoiro e antes de começarmos a descer para Magros e Beariz... teríamos ido ter ao cume de O Paraño! Coincidências?... Fica a dúvida...
Mas Beariz esperava-nos. Ou melhor, em Beariz tínhamos reservado o Refugio "Reposo del Caminante". Continuávamos sem mais peregrinos, mas o hospitaleiro - D. Pepe Balboa - deu-nos telefonicamente as indicações para entrar... e logo pelo telefone ficámos com vontade de o conhecer. Quando lhe disse que completei há dias 73 'primaveras'... respondeu-me que, aos 17 anos, poderia ter sido meu pai! Ora, fazendo contas... D. Pepe tem portanto a bonita idade de 90 anos... e lá foi ter connosco ao seu Refugio... mais um dos icónicos albergues que ficam na memória de qualquer peregrino!
Pouco depois das 5 da tarde do nosso 7º dia de Caminho, estávamos em Beariz (Igreja de Santa María)
No "Reposo del Caminante", com o carismático
D. Pepe Balboa... o hospitaleiro nonagenário!
                                                                  Faltavam três dias para Santiago. As maiores altitudes pareciam vencidas... mas o dia seguinte reservava uma longa travessia, superior a trinta quilómetros... com previsão de temperaturas elevadas. Não importa: no Caminho, cada dia é um novo começo... e cada obstáculo só se enfrenta quando o chão nos exige o passo.
A continuar nas próximas crónicas

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