Ao oitavo dia de Caminho, saímos de
Beariz às 7h30, meia hora antes do nascer do
Sol. A anacrónica hora oficial espanhola - a oeste de Greenwich mas adiantada
uma hora em relação à Grã-Bretanha - adia o nascer do Sol e o crepúsculo. E o
dia começou pela ligeira descida ao ribeiro da Ponte Pedriña, para
depois subir ao Porto do Carro, no limite
entre as províncias de Ourense e de Pontevedra.
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Nasce o dia, a caminho do
Porto do Carro, 05.09.2026
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Já a descer em terras pontevedrenses, encontrámos este belo painel informativo
do
Caminho da Geira e dos Arrieiros. É notória a disparidade entre
concelhos, sobretudo na Galiza, no que toca à promoção e marcação do traçado.
O concelho de
Forcarei está de parabéns pelo
trabalho realizado, em evidente contraste por exemplo com o concelho de
Cortegada, onde a sinalização é quase inexistente.
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Igreja de Santiago de Pardesoa, do Séc. XV - 05.09.2026,
09h50
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E na aldeia de
O Sisto surgem-nos estes dois
peregrinos, talhados directamente em cedros locais!
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Antes das dez e meia da manhã estávamos em
Soutelo de Montes, no coração da comarca histórica da
Terra de Montes.
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Monumento aos gaiteiros de Soutelo de Montes
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Soutelo é indissociável da música tradicional galega, tendo sido o
berço de lendários grupos de gaitas e cantares do interior da Galiza, como os
históricos irmãos Cachafeiro, imortalizados no monumento de que tão bem me
lembrava de há 12 anos. Mas de há 12 anos lembrava-me também da Taberna "
Os Carteiros"... palco de um célebre jantar dos quatro peregrinos de então. Do regresso
ao pavilhão desportivo onde pernoitámos... há quem só se lembre que o trajecto
tinha muitas curvas... e há quem se lembre que, talvez para desmoer o jantar
(ou o generoso Ribeiro que o regou...), ao chegar ao pavilhão ainda fomos
jogar à bola 😂
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E na célebre Taberna "Os Carteiros"... que há 12 anos ficou
para as nossas estórias...
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Ponte de Gomaíl (Séc. XV), sobre o rio
Lérez, entre
O Cachafeiro e
A Mámoa, 13h30
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Através da Galiza profunda... com o
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Zé Manel sempre atento aos figos... 😂
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Panorâmica sobre a Terra de Montes,
a noroeste de A Mámoa, 15h05
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Em
O Cachafeiro tínhamos deixado em
definitivo o percurso que desenhei em 2014, em que seguimos por
Forcarei e pelo
Pazo de Oca. O rumo agora era para
Codeseda e
A Estrada, passando pelo Santuário da
Virgem de Guadalupe (Séc. XVIII), no lugar de
A Grela, num ambiente de frondosa
carballeira. Mais à frente, a
Cruz da Grela assinalaria o início da descida para
Codeseda.
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Santuário da Virgem de Guadalupe e a Cruz da Grela, 16h15
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Só faltava descer para Codeseda,
para terminar a maior etapa do nosso périplo, quase nos 31 km
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Em
Codeseda, tínhamos reserva na "
Casa Palomar / do Avó". Não conhecemos a avó nem o avô, a não ser por telefone, apenas nos recebeu
a funcionária da limpeza, que nos abriu a porta. O
Javier - o peregrino
espanhol de que já falei, um dia à nossa frente - tinha publicado fotos em que
nem queríamos acreditar... mas era verdade: tínhamos direito a usar uma
piscina privativa! Quarto com WC, cozinha à disposição, jardim, piscina,
estendal de roupa com molas... tudo por apenas mais 5 € do que nos cobrara a
"famosa" Dª Mariana do Campo do Gerês. E claro que o banho na piscina não se
fez esperar, retemperando corpo e espírito do esforço da jornada.
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Piscina da Casa Palomar, em
Codeseda, 05.09.2026, 17h45
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Café-Bar
Caminho da Geira
(também na foto abaixo). Uma referência muito badalada e que
poderia ser um local icónico do Caminho... mas não é... 😓
Igreja de San Xurxo de Codeseda,
com origem
num antigo mosteiro do Séc. XII
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O Café-Bar
Caminho da Geira
tinha tudo para ser um dos ícones desta rota. Tanto o espaço em si como a
Mari Carmen - cremos ser a proprietária - haviam-nos sido recomendados
para jantar, encontro de peregrinos e
charlas sobre as rotas jacobeias.
Jantámos lá, por sinal os
chipirones até estavam bons, mas, além de
caro, a
Mari Carmen devia estar em dia azedo. As únicas palavras que
nos dirigiu foi que nos queria tirar uma foto. No fim do jantar, a funcionária
que nos servira tirou-nos efectivamente uma foto, com um telemóvel da casa.
Mas, não sei porquê... a sensação de desconforto que nos ficou foi a de dois
presidiários a serem registados. E quando lhe pedi para tirar também com o
meu, embora tenha acedido... retorquiu que assim tinha mais trabalho! Só
depois percebemos que a foto era apenas para um registo: éramos, ao que
parece, os peregrinos 750 e 751 deste ano. Ou seja... os peregrinos ali são
apenas números... 😞
Pelas terras de Tabeirós... e os últimos passos até Santiago
Até Codeseda, tínhamos atravessado os viñedos do
Ribeiro e os vales e serras da
Terra de Montes, em que ainda estávamos. As
etapas duras estavam para trás... e estávamos a 40 km de
Santiago!
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06.09.2026, 08h40 - Pouco depois de sairmos de
Codeseda cruzámos o
Umia... e estávamos a 40 km de
Santiago
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E pouco depois das 9h da manhã do penúltimo dia de Caminho... surge,
mágico, no horizonte... o "meu Pico Sacro"
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O
Pico Sacro, nas imediações de
Lestedo, é talvez o meu maior
ícone dos dezoito Caminhos de Santiago que, com este, já percorri. Quando do
meu primeiro Caminho, em 2014, fez parte do "
Caminho da Aventura" já tantas vezes aqui evocado. Voltei lá várias vezes, em família, com
amigos... e nos Caminhos
Sanabrés
e
de Invierno. Como sabem os meus mais chegados... o Pico Sacro ficou para sempre ligado a
mim... gravado em mim! Mas o Pico Sacro não faz parte do traçado do Caminho da
Geira e dos Arrieiros.
Como prémio complementar ao avistamento do Pico Sacro... o CGA entrou
nas terras de Tabeirós.
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Carballeira e Igreja de Santiago de Tabeirós, 06.09.2026, 10h00
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A Estrada, 11h30
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Também lhe apetecia ser peregrino...
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E às três da tarde estávamos a menos de 20 km de Santiago: Fonte de
O Barco
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Era a última etapa antes da "meta", com reserva para o
Albergue Rectoral de Couso. Ainda equacionámos avançar uns quilómetros rumo a
Santiago, mas a
pesquisa de alojamento mostrou-se infrutífera. Soubemos que o hospitaleiro,
Pedro, gere também o Bar da praia fluvial no rio
Ulla, pelo que combinámos terminar a jornada
precisamente ali, na praia, junto à ponte medieval que une as duas margens e
liga
Couso a
Pontevea. Almoçámos e descansámos naquele
cenário aprazível, repleto de banhistas e veraneantes... ou não fosse aquele
um domingo quente de verão.
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Ponte medieval de Pontevea, sobre o
Ulla - o rio sagrado.
06.09.2026, 16h45
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À hora combinada, o Pedro providenciou o nosso transporte para o Albergue, com
a promessa também de que mais tarde iriam lá entregar uma
pizza que encomendámos e pagámos na praia. No Albergue já estavam
entretanto a Marijke e o Albert, o casal belga de que falei na primeira
crónica. Tinham começado o Caminho no Porto, mas a um ritmo mais pausado, o
que nos permitiu alcançá-los. Naquele domingo, tinham vindo apenas de
A Estrada. Finalmente tínhamos outros
peregrinos com quem falar! E tive a grata surpresa de saber que o Albert é do
meu ano... a frutuosa colheita de 1953 😄
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Albergue Rectoral de Couso, 06.09.2026, 18h50
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Estávamos sensivelmente a 19 km da
Praza do Obradoiro... o
campus stellae... o
ω que se transfigura em
α. Apesar da
pouca distância, combinámos sair cedo. O Pedro tinha-nos indicado o Bar "
La Tasse" para o pequeno-almoço; abria às 06h30 da manhã... e lá estávamos nós antes
da hora... bem de noite ainda. Só começou a clarear pouco antes de
Rarís... e a seguir a
O Sisto tivemos uma
bela subida, para não nos esquecermos que o CGA tem mais de 7000 metros de
desníveis acumulados...
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2ª feira 07.09.2026, 08h25 - Próximo de
O Sisto... surge de novo imponente,
ao fundo, o Pico Sacro
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E uma hora depois, já às portas de Santiago
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Nunca o
Pico Sacro me apareceu tantas vezes como agora. Parecia um
chamamento... uma atracção. Mas, além do Pico Sacro, do sítio de
O Outeiro, a 6 km do
Obradoiro... vimos pela primeira vez as
torres da
Catedral de Santiago! Conter a emoção tornou-se difícil...
até porque esta 12ª entrada a pé trazia uma dedicatória íntima e profunda a
alguém muito especial que, se habitasse ainda este mundo, celebraria 95 anos.
Algures numa existência etérea... ele sabe o que lhe dedicava e dedico!
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Do lugar de O Outeiro... surgem-nos
ao fundo as Torres da Catedral
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O rio Sar... e a ponte sobre o
Sar, por onde entrei também em 2014, 2019 e 2022
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Vinte minutos antes das onze horas de uma segunda-feira, 7 de setembro de
2026... entrei pela 12ª vez a pé na
Praza do Obradoiro. Nenhum momento é igual a
nenhum outro... nenhuma emoção é comparável... mas, hoje como há 12, 10, 2
anos, 1 ano... entrar naquela Praça, pisar aquele chão, abraçar quem esteve
connosco ou mesmo quem não conhecemos e simplesmente também chegou... são
momentos que não se descrevem... Vivem-se e Sentem-se!
Santiago... tem
magia no ar!
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A apoteose da chegada... o encontro... a procura... o ω que se
transfigura em α...
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O Albergue em Santiago foi o mesmo do ano passado, "
The Last Stamp"... o último selo nas Credenciais. Deixámos as mochilas, fui à
Missa do Peregrino, a missa do meio dia. Não sei o que sou... quero
aprender! Quero-me encontrar! Quero ler! Quero Sonhar! Quero Viver! Quero
Amar!
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Mais uma Compostela... mais um Certificado... 12 anos depois
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Na Oficina do Peregrino encontrámos a Marijke e o Albert. Tinham saído mais
tarde do
Couso e tinham acabado de chegar. Depois... depois foi
Viver e Sentir
Santiago... a cidade mágica... a cidade que nunca
dorme...
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Igreja de S. Francisco... sempre!
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Amanhecer no Obradoiro, the day after the
ω, 08.09.2026, 07h45
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Amanhecer no
Obradoiro no dia seguinte à chegada é rever o
Caminho através do olhar dos outros. Entre o céu ainda cinzento da alvorada e
as luzes quentes que ainda iluminavam a fachada da Catedral, vimos chegarem os
primeiros peregrinos: o abraço emocionado, o sobressalto dos braços estendidos
ao céu, o silêncio contemplativo de quem se senta no chão de pedra ao lado da
mochila ou a ternura de quem ali desfruta da paz ao lado do seu cão. Ali, ao
ver desenhar-se a emoção em cada rosto, lembrei-me da mãozinha amarela dada
pelo Óscar, na véspera, na sua lojinha "
A Rúa Recordos" — o símbolo perfeito da fraternidade, do Amor, das mãos que se estendem ao
longo da Vida.
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With arms wide open... into the sky...
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Pouco antes do meio dia estávamos na Estação de autocarros e comboios. Num
futuro que já não deve ser o meu, sonho com uma ligação ferroviária directa de
Santiago de Compostela a
Lisboa. Até lá... temos de nos
resignar a nove longas horas de autocarro, na viagem que sinto sempre como a
ponte de ligação entre o ω e o α ... entre o fim do Caminho... e o início do
próximo.
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Não é um adeus... é só um até breve... 🙏
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Pode ver as
10 etapas deste Caminho no
Wikiloc:
- 245 km
- 7200m desnível de subidas
- 7200m desnível de descidas
Chegar nunca é um ponto final, mas apenas um intervalo entre passos. Aos 73
anos... continuo em busca de quem sou... em busca do oráculo perdido...
"O Oráculo não fala. Ele espera que alguém esteja pronto para escutar o que
não se diz."
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