terça-feira, 8 de setembro de 2026

✨👣 Caminho da Geira e dos Arrieiros (3) 🚶🚶‍♂️🍀💫

              Ou quando o ω regressa ao α.. .

Ao oitavo dia de Caminho, saímos de Beariz às 7h30, meia hora antes do nascer do Sol. A anacrónica hora oficial espanhola - a oeste de Greenwich mas adiantada uma hora em relação à Grã-Bretanha - adia o nascer do Sol e o crepúsculo. E o dia começou pela ligeira descida ao ribeiro da Ponte Pedriña, para depois subir ao Porto do Carro, no limite entre as províncias de Ourense e de Pontevedra.
Nasce o dia, a caminho do Porto do Carro, 05.09.2026
Já a descer em terras pontevedrenses, encontrámos este belo painel informativo do Caminho da Geira e dos Arrieiros. É notória a disparidade entre concelhos, sobretudo na Galiza, no que toca à promoção e marcação do traçado. O concelho de Forcarei está de parabéns pelo trabalho realizado, em evidente contraste por exemplo com o concelho de Cortegada, onde a sinalização é quase inexistente.
Igreja de Santiago de Pardesoa, do Séc. XV - 05.09.2026, 09h50
E na aldeia de O Sisto surgem-nos estes dois peregrinos, talhados directamente em cedros locais!
Antes das dez e meia da manhã estávamos em Soutelo de Montes, no coração da comarca histórica da Terra de Montes.
Monumento aos gaiteiros
de Soutelo de Montes
Soutelo é indissociável da música tradicional galega, tendo sido o berço de lendários grupos de gaitas e cantares do interior da Galiza, como os históricos irmãos Cachafeiro, imortalizados no monumento de que tão bem me lembrava de há 12 anos. Mas de há 12 anos lembrava-me também da Taberna "Os Carteiros"... palco de um célebre jantar dos quatro peregrinos de então. Do regresso ao pavilhão desportivo onde pernoitámos... há quem só se lembre que o trajecto tinha muitas curvas... e há quem se lembre que, talvez para desmoer o jantar (ou o generoso Ribeiro que o regou...), ao chegar ao pavilhão ainda fomos jogar à bola 😂
E na célebre Taberna "Os Carteiros"... que há 12 anos ficou para as nossas estórias...
Ponte de Gomaíl (Séc. XV), sobre o rio Lérez, entre O Cachafeiro e A Mámoa, 13h30
Através da Galiza profunda... com o
Zé Manel sempre atento aos figos... 😂
Panorâmica sobre a Terra de Montes, a noroeste de A Mámoa, 15h05
Em O Cachafeiro tínhamos deixado em definitivo o percurso que desenhei em 2014, em que seguimos por Forcarei e pelo Pazo de Oca. O rumo agora era para Codeseda e A Estrada, passando pelo Santuário da Virgem de Guadalupe (Séc. XVIII), no lugar de A Grela, num ambiente de frondosa carballeira. Mais à frente, a Cruz da Grela assinalaria o início da descida para Codeseda.
Santuário da Virgem de Guadalupe e a Cruz da Grela, 16h15
Só faltava descer para Codeseda, para terminar a maior etapa do nosso périplo, quase nos 31 km
Em Codeseda, tínhamos reserva na "Casa Palomar / do Avó". Não conhecemos a avó nem o avô, a não ser por telefone, apenas nos recebeu a funcionária da limpeza, que nos abriu a porta. O Javier - o peregrino espanhol de que já falei, um dia à nossa frente - tinha publicado fotos em que nem queríamos acreditar... mas era verdade: tínhamos direito a usar uma piscina privativa! Quarto com WC, cozinha à disposição, jardim, piscina, estendal de roupa com molas... tudo por apenas mais 5 € do que nos cobrara a "famosa" Dª Mariana do Campo do Gerês. E claro que o banho na piscina não se fez esperar, retemperando corpo e espírito do esforço da jornada.
Piscina da Casa Palomar, em Codeseda, 05.09.2026, 17h45

Café-Bar Caminho da Geira (também na foto abaixo).
Uma referência muito badalada e que poderia
ser um local icónico do Caminho... mas não é... 😓

Igreja de San Xurxo de Codeseda, com origem
num antigo mosteiro do Séc. XII
O Café-Bar Caminho da Geira tinha tudo para ser um dos ícones desta rota. Tanto o espaço em si como a Mari Carmen - cremos ser a proprietária - haviam-nos sido recomendados para jantar, encontro de peregrinos e charlas sobre as rotas jacobeias.
Jantámos lá, por sinal os chipirones até estavam bons, mas, além de caro, a Mari Carmen devia estar em dia azedo. As únicas palavras que nos dirigiu foi que nos queria tirar uma foto. No fim do jantar, a funcionária que nos servira tirou-nos efectivamente uma foto, com um telemóvel da casa. Mas, não sei porquê... a sensação de desconforto que nos ficou foi a de dois presidiários a serem registados. E quando lhe pedi para tirar também com o meu, embora tenha acedido... retorquiu que assim tinha mais trabalho! Só depois percebemos que a foto era apenas para um registo: éramos, ao que parece, os peregrinos 750 e 751 deste ano. Ou seja... os peregrinos ali são apenas números... 😞
Pelas terras de Tabeirós... e os últimos passos até Santiago
Até Codeseda, tínhamos atravessado os viñedos do Ribeiro e os vales e serras da Terra de Montes, em que ainda estávamos. As etapas duras estavam para trás... e estávamos a 40 km de Santiago
06.09.2026, 08h40 - Pouco depois de sairmos de Codeseda cruzámos o Umia... e estávamos a 40 km de Santiago
E pouco depois das 9h da manhã do penúltimo dia de Caminho... surge, mágico, no horizonte... o "meu Pico Sacro"
O Pico Sacro, nas imediações de Lestedo, é talvez o meu maior ícone dos dezoito Caminhos de Santiago que, com este, já percorri. Quando do meu primeiro Caminho, em 2014, fez parte do "Caminho da Aventura" já tantas vezes aqui evocado. Voltei lá várias vezes, em família, com amigos... e nos Caminhos Sanabrés e de Invierno. Como sabem os meus mais chegados... o Pico Sacro ficou para sempre ligado a mim... gravado em mim! Mas o Pico Sacro não faz parte do traçado do Caminho da Geira e dos Arrieiros.
Como prémio complementar ao avistamento do Pico Sacro... o CGA entrou nas terras de Tabeirós.
Carballeira e Igreja de Santiago de Tabeirós, 06.09.2026, 10h00
A Estrada, 11h30
Também lhe apetecia ser peregrino...
E às três da tarde estávamos a menos de 20 km de Santiago: Fonte de O Barco
Era a última etapa antes da "meta", com reserva para o Albergue Rectoral de Couso. Ainda equacionámos avançar uns quilómetros rumo a Santiago, mas a pesquisa de alojamento mostrou-se infrutífera. Soubemos que o hospitaleiro, Pedro, gere também o Bar da praia fluvial no rio Ulla, pelo que combinámos terminar a jornada precisamente ali, na praia, junto à ponte medieval que une as duas margens e liga Couso a Pontevea. Almoçámos e descansámos naquele cenário aprazível, repleto de banhistas e veraneantes... ou não fosse aquele um domingo quente de verão.
Ponte medieval de Pontevea, sobre o Ulla - o rio sagrado. 06.09.2026, 16h45
À hora combinada, o Pedro providenciou o nosso transporte para o Albergue, com a promessa também de que mais tarde iriam lá entregar uma pizza que encomendámos e pagámos na praia. No Albergue já estavam entretanto a Marijke e o Albert, o casal belga de que falei na primeira crónica. Tinham começado o Caminho no Porto, mas a um ritmo mais pausado, o que nos permitiu alcançá-los. Naquele domingo, tinham vindo apenas de A Estrada. Finalmente tínhamos outros peregrinos com quem falar! E tive a grata surpresa de saber que o Albert é do meu ano... a frutuosa colheita de 1953 😄
Albergue Rectoral de Couso, 06.09.2026, 18h50
Estávamos sensivelmente a 19 km da Praza do Obradoiro... o campus stellae... o ω que se transfigura em α. Apesar da pouca distância, combinámos sair cedo. O Pedro tinha-nos indicado o Bar "La Tasse" para o pequeno-almoço; abria às 06h30 da manhã... e lá estávamos nós antes da hora... bem de noite ainda. Só começou a clarear pouco antes de Rarís... e a seguir a O Sisto tivemos uma bela subida, para não nos esquecermos que o CGA tem mais de 7000 metros de desníveis acumulados...
2ª feira 07.09.2026, 08h25 - Próximo de O Sisto... surge de novo imponente, ao fundo, o Pico Sacro
E uma hora depois, já às portas de Santiago
Nunca o Pico Sacro me apareceu tantas vezes como agora. Parecia um chamamento... uma atracção. Mas, além do Pico Sacro, do sítio de O Outeiro, a 6 km do Obradoiro... vimos pela primeira vez as torres da Catedral de Santiago! Conter a emoção tornou-se difícil... até porque esta 12ª entrada a pé trazia uma dedicatória íntima e profunda a alguém muito especial que, se habitasse ainda este mundo, celebraria 95 anos. Algures numa existência etérea... ele sabe o que lhe dedicava e dedico!
Do lugar de O Outeiro... surgem-nos ao fundo as Torres da Catedral
O rio Sar... e a ponte sobre o Sar, por onde entrei também em 2014, 2019 e 2022 
Vinte minutos antes das onze horas de uma segunda-feira, 7 de setembro de 2026... entrei pela 12ª vez a pé na Praza do Obradoiro. Nenhum momento é igual a nenhum outro... nenhuma emoção é comparável... mas, hoje como há 12, 10, 2 anos, 1 ano... entrar naquela Praça, pisar aquele chão, abraçar quem esteve connosco ou mesmo quem não conhecemos e simplesmente também chegou... são momentos que não se descrevem... Vivem-se e Sentem-se! Santiago... tem magia no ar!
A apoteose da chegada... o encontro... a procura... o ω que se transfigura em α...
O Albergue em Santiago foi o mesmo do ano passado, "The Last Stamp"... o último selo nas Credenciais. Deixámos as mochilas, fui à Missa do Peregrino, a missa do meio dia. Não sei o que sou... quero aprender! Quero-me encontrar! Quero ler! Quero Sonhar! Quero Viver! Quero Amar!
Mais uma Compostela... mais um Certificado... 12 anos depois
Na Oficina do Peregrino encontrámos a Marijke e o Albert. Tinham saído mais tarde do Couso e tinham acabado de chegar. Depois... depois foi Viver e Sentir Santiago... a cidade mágica... a cidade que nunca dorme...
Igreja de S. Francisco... sempre!          
A Rúa Recordos... uma referência
em Santiago. Obrigado, Óscar!
Amanhecer no Obradoirothe day after the ω, 08.09.2026, 07h45
Amanhecer no Obradoiro no dia seguinte à chegada é rever o Caminho através do olhar dos outros. Entre o céu ainda cinzento da alvorada e as luzes quentes que ainda iluminavam a fachada da Catedral, vimos chegarem os primeiros peregrinos: o abraço emocionado, o sobressalto dos braços estendidos ao céu, o silêncio contemplativo de quem se senta no chão de pedra ao lado da mochila ou a ternura de quem ali desfruta da paz ao lado do seu cão. Ali, ao ver desenhar-se a emoção em cada rosto, lembrei-me da mãozinha amarela dada pelo Óscar, na véspera, na sua lojinha "A Rúa Recordos" — o símbolo perfeito da fraternidade, do Amor, das mãos que se estendem ao longo da Vida.
With arms wide open... into the sky...
Pouco antes do meio dia estávamos na Estação de autocarros e comboios. Num futuro que já não deve ser o meu, sonho com uma ligação ferroviária directa de Santiago de Compostela a Lisboa. Até lá... temos de nos resignar a nove longas horas de autocarro, na viagem que sinto sempre como a ponte de ligação entre o ω e o α ... entre o fim do Caminho... e o início do próximo.
Não é um adeus... é só um até breve... 🙏

Pode ver as 10 etapas deste Caminho no Wikiloc:

  • 245 km
  • 7200m desnível de subidas
  • 7200m desnível de descidas

Chegar nunca é um ponto final, mas apenas um intervalo entre passos. Aos 73 anos... continuo em busca de quem sou... em busca do oráculo perdido...

"O Oráculo não fala. Ele espera que alguém esteja pronto para escutar o que não se diz."

"Compostela - O Oráculo Perdido", Marcelo Ramalho

Sem comentários: