Quinta feira passada o Zé Messias perguntava-me: "
Domingo não queres ir desentorpecer as pernas?". Respondi-lhe: "
May be 😀.
A previsão é de bom tempo". E
começámos a ver hipóteses. "
Gostava de dar uma volta por um bosque de carvalhos", dizia o Zé, acrescentando: "
Ainda vou ver os percursos do Henrique". O Henrique é um amigo nosso das caminhadas... um tal "
papaleguas" que publica praticamente tudo o que faz... e faz muito! "
Um Carrossel no Oeste", assim baptizou um sobe e desce em terras da
Sapataria, ali entre
terras do Sobral e de Mafra... que adoptámos e adaptámos para este domingo
de autêntico prenúncio da Primavera que se avizinha.
E aos três "manos" juntou-se o António. Bom amigo e companheiro de velhos
trilhos, trouxe-nos o privilégio de quem caminha em casa; conhece estas
terras do Oeste como quem lê um livro aberto, guiando-nos pelas entrelinhas
das paisagens que lhe são familiares.
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Próximo do apeadeiro de Sapataria, 01.03.2026, 09h20:
tínhamos começado há pouco uma bela jornada primaveril
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Na
Sapataria não se fazem sapatos, mas entre as encostas que serviram
de 'sapata' à defesa de Lisboa, percebe-se que aquele lugar é mais do que
geografia: é alicerce, uma base onde o tempo parece ter ganho a consistência
da pedra. Pela Igreja de Nossa Senhora da Purificação, seguimos rumo à Linha
do Oeste. Encontrámo-la em silêncio, ainda ferida e fechada pelas decorradas
do temporal que, no final de janeiro, fustigou a região. Ali, onde o comboio
devia cantar o progresso, resta agora a prova da força da Natureza,
lembrando-nos que mais não somos do que passageiros do Tempo.
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Belas cores, ar límpido... bons ares a cheirar a Primavera
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Subida ao Monte da Atalaia (314m)
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E os 4 caminhantes no Baloiço da Atalaia
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Do cume da Serra da
Atalaia, o olhar alcança uma panorâmica que
explica por que razão o Duque de Wellington escolheu estas cristas. Diz o
povo que a Atalaia tem olhos próprios e que, em tempos de invasão, era o seu
facho que acalmava ou sobressaltava quem vivia cá em baixo. Hoje só
enfrentámos o declive, mas a recompensa foi a mesma de outrora: o domínio
absoluto sobre o horizonte.
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Atalaia deriva do árabe at-talaya, que significa
precisamente "lugar de vigia", ou "ponto alto de observação"
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Lá, no topo da
Atalaia, o olhar estendeu-se, a nordeste, até à
silhueta inconfundível da
Serra de Montejunto. Enviei uma mensagem à
minha amiga Madalena, com foto, a dizer "
Olha a tua serra lá ao fundo". Mas a Madalena não estava sob a sombra de Montejunto; estava em terras
de Foz Côa, mergulhada no branco e rosa das amendoeiras em flor. É este o
paradoxo belo das nossas caminhadas, mas também das tecnologias dos tempos
modernos: estamos num monte, a vigiar o horizonte, mas as nossas mensagens
cruzam o país, unindo o oeste "selvagem" à doçura das flores do Côa. Uma
prova de que, para quem caminha, o mapa é apenas um conjunto de pontos de
encontro.
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E se já antes as cores assim o diziam, na descida da Atalaia líamos
nos campos... "Spring is coming..."
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Descemos da Atalaia para sul, seguindo o PR2, a
Rota do Sizandro. Primeiro foi o matizado de cores a anunciar a Primavera que se aproxima;
depois, deixámo-nos envolver por túneis de vegetação, rumo ao
Casal da Fonte das Pombas e à
Cachoeira. Pelo caminho, o
António ia desfiando memórias: histórias de moinhos que já foram da família
e dos horizontes que os seus olhos nunca se cansam de ler.
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Através do reino e da magia e da imaginação...
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Efeitos ainda da
Kristin nas terras de Santo Quintino e do Sobral
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E chegamos a Cachoeira: fontes, gado, ribeiras e moinhos de
vento... um retrato da vida de há um século atrás...
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Em
Cachoeira fizemos uma pausa no bar da Sociedade Recreativa, onde a
senhora que nos serviu umas "loirinhas" era quase fotocópia da mulher do
António. "
Sim, ainda somos família", replicou logo ela, quando lhe
referi a semelhança. Cachoeira é uma zona muito característica deste
"carrossel" do Oeste, uma terra com forte tradição de moagem, onde os
moinhos de vento e de água faziam parte do quotidiano das famílias. Aliás o
carrossel do Oeste levou-nos até ao que aparece nas cartas como "
Moinho do Carrão". No mapa é apenas um nome, mas para nós ganhou a cor das estórias...
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Junto ao "Moinho do Carrão", o António revive outros tempos e
avista a sua própria casa, lá em baixo, em Alcobela
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Hoje de outras gentes mas bem recuperado, foi ali que outrora moeu a família
da mulher do António. Mas do alto daquela memória de vento, o horizonte
tornou-se ainda mais íntimo — dali, o António apontou para
Alcobela de Cima, onde se avistava a sua própria casa.
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De repente também me imaginei no Douro florido... mas não, aqui são
ginjeiras, mas igualmente em flor
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Com divertimentos à mistura, chegámos à nascente do Rio
Sizandro... e pouco depois ao local onde o carro ficara a
descansar
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Regressámos ao ponto de partida com as 'baterias' devidamente carregadas. O
Oeste pode ser selvagem e o carrossel pode pedir pernas, mas com amigos
assim e estórias destas, o caminho faz-se sempre a sorrir. A Primavera pode
vir quando quiser; nós já lhe abrimos a porta nos trilhos da
Sapataria.
Obrigado "mano" Zé Messias. A tua pergunta "Domingo não queres ir desentorpecer as pernas?" foi muito bem vinda... e melhor concretizada. Obrigado Dina, ainda bem
que nos pudeste acompanhar neste desabrochar de uma Primavera antecipada,
depois de um Inverno turbulento... a todos os níveis 😟; só alguns percebem
este "a todos os níveis"... mas não faz mal 😃. E obrigado António,
para além do prazer da tua companhia... é um privilégio raro caminhar assim,
com o olhar a saltar entre os moinhos do passado e o teto do presente,
guiados por quem conhece cada palmo daquele chão não apenas pelos mapas, mas
pelo sangue e pela vida. Bem hajas! Bem hajam!
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