domingo, 22 de outubro de 2017

Na rota dos rios, levadas e poldras...
ou o paraíso no meio do inferno...

Para este fim de semana de 21 e 22 de Outubro, os Caminheiros Gaspar Correia tinham agendado a sua actividade para a zona de Oliveira de Frades e de Vouzela ... terras que foram mártires na trágica voragem incendiária do domingo anterior.
As imagens dantescas com que os media nos têm bombardeado e o cenário que fomos vendo em vastas áreas ao longo da A1 e A25, faziam-nos prever um cenário de devastação ... ou de terrorismo organizado, permitido e "fomentado" ao longo de décadas e de sucessivos (des)governos. Contudo, assim que iniciámos a primeira caminhada, em Arcozelo das Maias, sentimos que estávamos talvez a entrar ... num paraíso a meio do inferno. O percurso teve início junto à antiga estação dos caminhos-de-ferro (actual sede da Associação "Cultura") e foi uma mistura da Rota do Gaia (PRM2) com um pouco da Rota dos Rios e Levadas (PRM1).

Antiga Estação de combóio de Arcozelo das Maias, 21.10.2017
O principal motivo de interesse eram as zonas ribeirinhas do Rio Gaia, onde as paisagens verdejantes e as pequenas quedas de águas são cenários constantes. Descendo através das leiras e por caminhos agrícolas - os “caminhos dos moinhos" - chegámos ao rio Gaia e à deslumbrante queda de água da foz da Ribeira da Lavandeira, prosseguindo depois pela outra margem, onde se sobrepõem o PRM1 e PRM2, passando por cima da cascata e seguindo ao longo do rio.

Rio Gaia ... um autêntico paraíso incólume, em terras que foram mártires
Seguidamente, o trilho afasta-se do rio, subindo em direcção ao Cabeço da Raposa e descendo, novamente, às suas margens e aos bosques em galeria, repletos de carvalhos, loureiros, fetos e piscinas naturais. O som da água corrente acompanha esta aventura; com paciência e algum tempo, seria possível observar o guarda-rios que, sem descanso, patrulha as margens do Gaia.

Dir-se-ia que caminhávamos num mundo imaginário, por entre obra de fadas e duendes
Chegamos à imponente ponte do Gaia, que serve a EN 16. A montante encontra-se a Ponte de Coifas (ponte medieval da antiga estrada real), assente no espelho de água, que facilmente nos transporta para um cenário bucólico. Com uma breve passagem no chamado caminho da Rainha - estrada nacional substituída pela EN16 – terminámos a nossa primeira e belíssima caminhada.

Ponte do Gaia, na EN 16
Mais fotos do paraíso do Gaia
Terminada a jornada, rumámos às Termas de S. Pedro do Sul. À nossa volta tínhamos agora o inferno em que se transformou toda esta zona há apenas uma semana. Optei por não fotografar o inferno. A organização deste fim de semana caminheiro, a cargo de dois amigos que são filhos destas terras, esteve para cancelar a actividade, na sequência da tragédia. Mas, reconsiderando - e muito bem - optaram por mantê-la, com uma pequena adaptação na segunda caminhada. Não tenho qualquer pudor em partilhar que as palavras da Isabel, no autocarro, sobre essa primeira ideia e posterior reconsideração ... levaram-me às lágrimas; não só pelo que disse, como também pela forma como emotivamente o disse. Depois da catástrofe, as populações precisam que a Vida continue, que as pessoas venham, que a dinâmica recomece. Nos Bombeiros de Vouzela, o Grupo deixou donativos de primeira necessidade, como roupas de cama, alimentos não perecíveis, e mais. Solidariedade precisa-se ... além de uma governação que não abandone o interior e o que resta das nossas florestas.

Fataunços, 22.10.2017, 9h10 - Início
de caminhada, numa manhã gélida
E a segunda caminhada era na zona de Fataunços, curioso topónimo que terá tido a sua origem na botânica, dado que etimologicamente significa "local onde abundam fetos". Descemos em direcção a Bandavises e à ribeira de Ribamá, atravessada por um bem conservado conjunto de poldras e junto ao que resta de um imponente moinho de água. Estávamos, de novo, no paraíso.

Descida à Ribeira de Ribamá
e travessia das poldras
Seguiu-se um troço ao longo da antiga linha ferroviária do Vouga, com amplas vistas para S. Pedro do Sul e a serra ... com largas áreas devoradas pelas chamas criminosas, para depois inflectir de novo para sul, rumo a Figueiredo das Donas e à sua bem preservada calçada romana.

S. Pedro do Sul à vista
Calçada romana de Figueiredo das Donas
Já na parte final, junto à Ponte Pedrinha, cruzámos de novo a Ribeira de Ribamá pelas poldras junto ao Açude das Fidalgas, mais um dos muitos troços paradisíacos desta caminhada e deste fim de semana fabuloso. Foi, autenticamente, um lavar de vistas e de alma, no meio das imagens dantescas resultantes da tragédia do fim de semana anterior. O Universo é grande...

Travessia da Açude das Fidalgas, na Ribeira de Ribamá
Quem ajuda quem?... 😉 (Foto: António Mousinho)
Já no autocarro, dirigimo-nos a Vouzela. Eram horas de almoço ... e a actividade ia terminar com uma boa vitela de Lafões e um pequeno passeio em Vouzela ... onde mais uma vez, como em tantos outros lugares ... os Caminhos de Santiago parecem chamar-me, parecem fazer parte de mim. Parecem não ... o Caminho faz parte de nós ... e nós fazemos parte do Caminho! Trata-se, em Vouzela, da ligação entre o Caminho Principal e o Caminho Português do Interior. A Vieira de Santiago lá está, nalgumas casas senhoriais, a atestar que historicamente ali era, efectivamente, Caminho de Santiago.

Vouzela ... no Caminho de Santiago

3 comentários:

Isabel Guardado disse...

Obrigada por esta magnífica descrição da nossa atividade. É sempre um enorme privilégio partilhar o amor que temos pelas nossas origens e pela natureza com pessoas que tão bem o entendem.

Aurelio Simoes disse...

Essa ligação dos caminhos vai passar na aldeia de Joana Martins que sofreu uma grande devastação com os incêndios de Outubro.
É um caminho exigente na serra do Caramulo, só penso que a volta que dá à serra era inutil, podia perfeitamente ligar a Farminhão e não a Tondela, evitando vários km. Em Tondela não consegui ver nenhuma seta ou vieira.

Jose Vaz disse...

Subscrevo as palavras da Isabel Guardado! Obrigado José Callixto!