domingo, 19 de fevereiro de 2017

Incursão na História e na Natureza, em terras do Bandarra

Caminheiros Gaspar Correia, 312ª actividade. Quase a comemorar 32 anos de actividade - um dos mais antigos grupos de pedestrianismo portugueses - a minha mais antiga "família" Caminheira levou-nos este fim de semana às terras do Bandarra, o sapateiro visionário.
Próximo de Trancoso, 18.02.2017, 11h30
Trancoso, palco de diversas lutas e batalhas marcantes, foi terra de fronteira. Recebeu de D. Afonso Henriques a Carta de Foral (1162-65). As muralhas, mandadas construir por D. Dinis, acolheram um burgo onde conviveram cristãos e judeus. O próprio rei D. Dinis elegeu Trancoso para celebrar as suas bodas com a Rainha Santa, D. Isabel de Aragão, em 1282. E foi rumo a Trancoso que partimos da Portela, a umas matinais seis e meia da manhã ... e agora liberto das minhas habituais tarefas da "família"; ao fim de 10 anos consecutivos, deixei a Direcção dos Caminheiros Gaspar Correia; sangue novo, precisa-se... 😊
Os percursos deste fim de semana pedestre seguiram em parte o trajecto do PR1-TCS, que realça as ligações entre as aldeias históricas de Trancoso e Moreira de Rei. É evidente o posicionamento estratégico dos castelos milenares que estão na origem destas duas povoações e que, quais guardiões do planalto, defenderam por séculos este território. Ao mesmo tempo, contempla-se uma vista única e deslumbrante para a imensidão das terras de Riba-Côa. A espaços, elevam-se pequenas serras, como a majestosa Serra do Pisco, observável no traçado inicial do percurso, e a Serra do Barroco do Oiro.

Percurso de Trancoso para norte, ao longo da Ribeira do Vale Azedo e até aos barrocos de Castaíde
Em plena serra do Barroco de Oiro, atingimos o ponto mais alto do trilho, conhecido por Cabecinha. A vista espraia-se para um extenso horizonte desde a Serra da Estrela, a sul, até ao vale do Douro, a norte. A partir de então, a visibilidade torna-se abrangente para nascente, onde se desenvolve a vasta peneplanície da Meseta Ibérica, apenas quebrada pela altiva Serra da Marofa.

Panorâmica do Geodésico da Cabecinha (912m alt.), para o vale da Ribeira da Teja e para sul, com a Marofa ao fundo
A visita a Moreira de Rei era imprescindível. A aldeia é, ainda hoje, importante pela riqueza patrimonial que encerra, nomeadamente a sua necrópole. O Castelo, referenciado pela primeira vez no ano 960, tem uma história longa de conquistas e reconquistas. Revivem-se memórias e tradições nesta aldeia, marcada pela exuberante paisagem granítica ... e nela fui encontrar o que aparentam ser Vieiras de Santiago, nos portais da Igreja de Santa Marinha, românica e gótica.

Moreira de Rei: Igreja Paroquial e Igreja de Santa Marinha, românica e gótica
Serão Vieiras de Santiago?...
Pelourinho de Moreira
de Rei
Castelo de Moreira de Rei e panorâmicas em redor. Na segunda foto, a Serra da Marofa, a sudeste
O PR1-TCS é um percurso circular com cerca de 21 km, pelo qual poderíamos regressar a Trancoso. Mas em Moreira de Rei demos por terminado o percurso do primeiro dia deste fim de semana Trancosano; e às quatro e meia estávamos de regresso à cidade, que ficou também para sempre na história como sendo a terra do Bandarra, o sapateiro poeta e profeta, de seu nome verdadeiro Gonçalo Anes.

Trancoso: Porta d'El-Rei
À incursão pela Natureza, este fim de semana em terras do Bandarra somaria naturalmente uma incursão na história, na cultura e nas tradições de Trancoso, nomeadamente nos múltiplos testemunhos da presença judaica. Após uma noite no excelente Hotel Turismo - onde realizámos mais um tradicional Carnaval da "família" caminheira Gaspar Correia - o domingo começaria precisamente por uma visita guiada aos principais locais históricos de Trancoso, como o monumento a Bandarra.
Monumento ao Bandarra, frente à Câmara Municipal
Gonçalo Anes nasceu no início do século XVI. Deu em versejar umas trovas que agradavam aos cristãos-novos ... mas não à Inquisição. Um tal Afonso de Medina, deu por elas em forma de manuscrito e, com desembaraço, alertou os superiores. No Palácio dos Estaus, em Lisboa, onde o Santo Oficio exercia o mester, a nova caiu como uma bomba: um sapateiro, possivelmente de letras gordas, das Beiras, trazia alvoroçados os judeus de Portugal. E a ordem não tardou: prenda-se o dito sapateiro versejador e traga-se acorrentado; que venha à viva força, bem amolgado de costelas, até à enxovia do Santo Oficio, onde será açoitado e mantido a pão e água, para a seu tempo ser julgado.
Algemado e carregado de grilhões, custodiado por beleguins e outras varas da justiça, compareceu Bandarra na sala do despacho. Todos os presos temiam a fogueira do Santo Oficio, dita da purificação dos corpos e almas, mas que reduzia a torresmos os condenados. Mas Bandarra era um homem de sorte! Mais coisa menos coisa, negou ser judeu, o que deve ter sido conferido pela Inquisição. Obrigaram-no a renegar heresias e apostasias. Outros que tais, porventura com menos matéria de facto, tinham sido submetidos à fogueira purificadora. Soubessem os zelosos e doutos inquisidores o alvoroço que as trovas do sapateiro continuariam a dar anos adiante, mesmo após a morte do autor, e a sentença teria sido bem mais severa. As profecias do Bandarra foram aproveitadas para servirem o mito nebuloso do regresso de D. Sebastião, a causa dos revoltosos e restauradores de 1640, a derrota de Napoleão em terras lusas e o mito do Quinto Império, incendiado pelo Padre António Vieira e por Fernando Pessoa.
Grande profeta ou não, numa das suas coplas o Bandarra parece confirmar a continuidade do pretérito português:
                Sou sapateiro, mas nobre
                Com bem pouco cabedal:
                E tu, triste Portugal,
                Quanto mais rico, mais pobre.
Igreja de S. Pedro, Trancoso, e,
à esquerda, o Túmulo do Bandarra
Outra figura para sempre ligada à história de Trancoso é a do Padre Francisco da Costa, Prior de Trancoso no século XV ... e que terá gerado 299 filhos em 53 mulheres, muitas delas familiares directas, incluindo irmãs e a própria mãe! O prior terá sido julgado em 1487, aos 62 anos; a sentença proferia que seria "degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos". No entanto, El-Rei D. João II perdoou-o e mandou-o pôr em liberdade ... com o fundamento de ajudar a povoar aquela região da Beira Alta, ao tempo tão despovoada!

A visita guiada a Trancoso incluiu também o Centro de Interpretação da Cultura Judaica. No interior existe uma Sinagoga - Beit Mayim Hayim ou Casa das Águas vivas. São aliás vários os testemunhos da presença judaica em muitas casas trancosanas. Seguiu-se o Castelo, do alto de cuja torre de menagem se contempla uma paisagem soberba. Para leste e sudeste, percebe-se o vale do "meu" Côa...

no bairro judeu de Trancoso
Castelo de Trancoso e panorâmica para sudeste
De referir que Trancoso ... é etapa dos Caminhos de Santiago, mais concretamente do Caminho de Torres, que, proveniente de Salamanca, atravessa Portugal por Trancoso, Sernancelhe e Lamego, seguindo a peregrinação de D. Diego de Torres Villaroel em 1737. Infelizmente, nada na cidade assinala este Caminho, apesar de a cidade ser final de etapa (Pinhel - Trancoso).
Mas as actividades de domingo não terminariam sem um complemento do PR1-TCS, entre a aldeia de Porcas e a cidade de Trancoso. Situada a nordeste, Porcas também se chama Aldeia de Santo Inácio ... um nome um pouco mais apelativo, convenhamos. Dali partimos, quase ao meio dia, para um percurso de pouco mais de 3 km mas lindíssimo, num meio muito rural e com fabulosas panorâmicas a perder de vista ... de novo com o Castelo de Trancoso como destino.

Com o Castelo de Trancoso como destino ...
... através de um lindíssimo meio rural e cruzando o vale da Ribeira do Alcaide
Estávamos no fim de um fim de semana de muita diversão e amizade, como é apanágio dos Caminheiros Gaspar Correia. Faltava-nos apenas um saboroso almoço no Restaurante "O Museu", nas muralhas ... e o regresso a casa. Como quase sempre ... S. Pedro esteve do nosso lado!
Ver o álbum completo

3 comentários:

Anónimo disse...

Muito bom, reportagem fotográfica aliada a uma descrição deslumbrante.
Parabéns, abraço
João J. Fonseca

Jose Vaz disse...

Excelente e apelativo relato, muito bem ilustrado, das duas caminhadas realizadas.
A esta informação acresce um acervo de informação dos factos, episódios e personagens historicamente mais conhecidos de Trancoso.

Rui Cortes disse...

Excelentes fotos. E eu desconhecia esse Centro de Cultura Judaica em Trancoso, imagino que é recente...