sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Nos confins da Sierra de Gata, entre Las Hurdes e Peña de Francia

Depois de uma caminhada espectacular, à descoberta da Serra de Béjar, que poderia haver de melhor ... do que outra caminhada espectacular? O "meu" Xalmas, ou Xálima (a Serra da Xalma da gíria raiana) é o ponto mais alto da porção ocidental da Serra da Gata. Mas ... há mais alto! Bem mais a nordeste, onde a Gata se "mistura" com a Peña de Francia, já nas comarcas de Las Hurdes (a "terra sem pão", de Luis Buñuel),  a  Sierra de La Canchera  e  o seu  Pico Tiendas  é considerado  o  ponto  mais  alto
El Gasco, Las Hurdes, 4.01.2013
da Gata, com os seus 1590 metros de altitude. De regresso de Béjar a Vale de Espinho ... era a oportunidade de conhecer um pouco destas terras "perdidas" entre vales e serras, entre rios caudalosos e cuerdas altaneiras. El Gasco é uma dessas terras "perdidas", ao fundo do vale do rio Malvellido, afluente do Hurdano. O vale é tão profundo e apertado que a aldeia está quase sempre à sombra. A partir de Vegas de Coria (onde pernoitei e onde, às oito e meia da manhã, estava a dois graus abaixo de zero), são 16 km de uma tortuosa estrada que acompanha o rio, passando por outras aldeias com nomes que lembram contos: Rubiaco, Nunomoral, Martilandrán. E a estrada ... termina em El Gasco. Onde portanto começou a "aventura"...
El Gasco despertava para mais um dia (750m alt.)
Os horizontes vão-se abrindo
Miradouro, já a 1095
metros de altitude
Água ... fonte de vida!
E lá está a Serra de Béjar, ao fundo
E a "aventura" era subir a encosta oeste do vale, rumo à Collada de La Piornera. Uma subida íngreme, em zig-zag, dos 780 metros de El Gasco aos quase 1400 metros da Collada. Um desvio para sul teria permitido ir ver o chamado "Volcán del Gasco", mas a extensão e desníveis da jornada aconselharam-me a deixá-lo para outras "aventuras", tanto mais que iria testemunhar, à medida que subisse, a autêntica miríade de vestígios rochosos daquele fenómeno local, que tem, pelo menos, duas explicações possíveis: uma efectiva erupção vulcânica, ou o efeito de um impacto meteorítico há qualquer coisa como cerca de um milhão de anos. O que é facto é que as rochas de aspecto vulcânico que proliferam em grande parte das cumeadas apenas se originam mediante um extraordinário e rápido aumento de temperatura.
Agulhas
apontadas ao céu

Acima já dos 1400 metros de altitude, o rumo era o Pico Tiendas, a 1590 metros e cume absoluto da Serra da Gata. E a panorâmica ... permitia girar 360º, com a Serra de Béjar a leste ... e a Serra da Estrela no horizonte, a oeste! A norte, o cume da Peña de Francia, a sul, o vale de Horcajo e a planura estremenha, a perder de vista. Era magia em estado puro!

Pico Tiendas, cume da Sierra de Gata, 1590m alt.
Para sul, o vale de Horcajo ... e a magia em estado puro...
Descendo do Pico Tiendas para norte, abria-se-me agora o imponente vale das Fuentes del Hurdano. Foi sobre essa garganta que "pousei" para almoçar ... almoço que teve um episódio digno de registo: a garrafita de "Quinta dos Termos" de que normalmente me faço acompanhar já estava encetada de ontem mas, ao tirar a rolha ... esta partiu-se e ficou a meio do gargalo. E agora? Aquele preciso néctar era mal empregado não acompanhar o pitéu que me estava a repôr as forças. Com o dedo ... a rolha não se mexia...; saca-rolhas ... não tinha! Bem ... pedras havia por ali ... e escolher uma pedra fina que coubesse no gargalo não foi difícil. Assim, lá tentei empurrar o resto da rolha para dentro, com a pedra ... e a rolha lá acabou por ir para dentro ... juntamente com a pedra!!! O resto do almoço foi acompanhado portanto ... com "vinho da pedra"...J. Mas aprendi a lição: nunca mais caminharei sem um canivete multi-funções, aliás companheiro inseparável de um arraiano que se preze!

Panorâmicas
sempre fabulosas
E a caminhada estava já na parte de regresso, agora a norte do vale de El Gasco, sempre com panorâmicas espectaculares. Por estas alturas encontrei o único humano desta jornada: um pastor tomava cuidadosamente conta das suas cabras. "Faz queijos?", perguntei; "no, el suelo es pobre, no es como en Portugal". Se lhe podia tirar uma fotografia? "no, que después me judían en el pueblo". Sem dúvida original, este pastor, cujas cabras lá andavam uns socalcos abaixo.
Como eu gostava de ser como tu...
Descida do Lombo de La Pina, de regresso a El Gasco

Um último adeus a Béjar, lá ao longe
Mas estava ainda acima dos 1350 metros de altitude ... e era preciso descer quase 700 metros para o ponto de origem! Através de um estreito e pedregoso carreiro pelo meio de frondoso pinhal, vencer esse desnível descendente - o Lombo de La Pina - não foi obra fácil...

De regresso a El Gasco ... já quase à sombra
Pouco passava das quatro da tarde quando voltei a entrar em El Gasco, agora vindo de nordeste. E depois ... Vale de Espinho estava a pouco mais de 80 km ... onde a minha "musa" me esperava!
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Estes foram sem dúvida dois dias especatculares. Duas caminhadas bem diferentes, mas que me permitiram, como sempre, carregar as baterias, encher as vistas ... rejuvenescer a cada nova cumeada, a cada esvoaçar de alguma ave que passa, a cada marulhar das águas que correm, a cada rocha que salto, a cada curva de um caminho ... de um caminho que se faz caminhando!

3 comentários:

Alberto Pereira disse...

Olá José Carlos,

Que fotos magníficas, que bela caminhada!
Excelente!

Abraço.

JORGE FIGUEIREDO SANTOS disse...

Bonito de se ver. Aquelas rochas valem a reportagem, já não digo a canseira...
Dás-me licença, que copie uma para o meu mural? Aquela dos montes e vales corridos pelas brumas?
Abraço!

Unknown disse...

Gostei das paisagens e não resisti a transmitir as emoções que senti ao vê-las, em alguns comentários.
É excelente ver estas reportagens, sem ter de calcorrear todos estes montes e vales. Fica a curiosidade do vinho da Quinta dos Termos, com sabor a pedra! Ainda aproveitam a ideia...
Um abraço.