A Primavera começou, este ano, ao início da tarde de 20 de março… mas para mim
só chegou mais de uma semana depois, no domingo 29, quando vim — com a minha
pequena arraiana — para o nosso retiro nesta aldeia que também é minha:
Vale de Espinho.
Vale de Espinho, 29.03.2026, 18h15
Depois de um inverno tormentoso — e não apenas no que toca ao clima, como bem
sabem os nossos mais chegados — estávamos os dois precisados deste respirar
diferente… livre… puro… a saber a alma e a liberdade. Na manhã de terça-feira,
o Côa e a Malcata chamaram logo por mim, como me chamam há já
quase 53 anos: com o apelo fundo destas terras, destas gentes, destas cores e
destes sons que me adoptaram para sempre.
E assim... foram 10 km matinais a cantar e a ouvir a melodia das águas do
Côa... o Son do ar e do vento... dos brilhos e das memórias... de
gentes e de histórias... 💐💓
Deixo que o vídeo fale por mim — porque há caminhadas que se contam melhor em
luz, água e silêncio do que em palavras.
🦊🌬️ (Madalena Estácio Marques) 🍃
E o poema abaixo foi escrito especialmente para esta minha deambulação a
solo... pela minha amiga poetisa 🌸🌼
O dia seguinte era o primeiro de abril. O amigo Zé Manel Campos — figura bem
conhecida em toda a Raia — tinha-nos convidado para um belo almoço, seguido de
uma deslocação, com dois outros amigos comuns, ao castelo de
Trevejo, do lado de lá desta linha que muito
mais do que dividir... une! É um local onde nunca me canso de voltar... e onde
já cheguei a pé, desde o 'meu' Xalmas ou desde os Fóios. Mas
esta deslocação ao pog de Trevejo não entraria na crónica... não
fora a brincadeira de que me lembrei para assinalar o primeiro de abril.
Trevejo, 01.04.2026, 16h30... quando
5 amigos chegaram
àquele mítico Castelo... "a pé" desde os Fóios 😂
A acompanhar meia dúzia de fotos, publiquei numa rede social: "E esta, hein?! Cinco septuagenários (um ainda não é, mas não lhe falta
muito 🫣) acabámos de percorrer 37 km a pé, entre os Fóios e Trevejo, pelos Llanos
de Navasfrías, as Torres das Ellas e a encosta sul do "meu" Xalmas.
Maravilha! No canto de cada sonho nasce a vontade... e a força
👣 🥾 💫. A Vida é Bela! 🥰🙏"
Há caminhadas que se planeiam com mapas, tracks, tipos de piso… e há
outras que se deixam escrever pelo caminho, ao sabor do improviso. A grande
rota do segundo dia de abril nasceu assim: pensada apenas pela vontade de
fazer uns bons quilómetros de Sol a Sol, desenhada apenas num muito leve
esboço… e depois entregue ao improviso que só estas terras sabem dar. Porque
aqui, em terras de Riba-Côa, com o Xalmas vigilante e os ventos da Malcata a
cantar, cada desvio é um convite, cada trilho é memória... a ver se descubro
‘buracos’ que ainda não conheça...
02.04.2026 — Antes das 7h saio de Vale de Espinho, de
mansinho… com o Sol a raiar, como que numa sarça ardente.
Deixei Vale de Espinho ainda em silêncio, pelo Areeiro, com o Sol a
começar a acordar os campos — e as almas. Passei o cruzamento da Canada, mas
hoje as minhas Fontes Lares não eram destino. Chamavam-me, isso sim, os cumes
da Serra do Homem de Pedra, onde os horizontes e as luzes são sempre
inspiração e força. A sudoeste, erguia-se a Serra da Estrela; a
sudeste, a silhueta inconfundível do ‘meu’ Xalmas; e, mesmo na linha do
Sol nascente, por trás das colinas da Sierra de Gata e à direita
da Peña de Francia, espreitavam os cumes da Sierra de Béjar. Que quadro! Que êxtase!
Quase no cume do Homem de Pedra, ao olhar para trás, para sul,
lá está a Serra da Estrela
Para nordeste e nascente, a linha de cumes da Peña de
Francia e da
Gata... com
Béjar a espreitar lá atrás
No cume do Homem de Pedra, a ideia era simples: descobrir novos caminhos para
descer em direção a Alfaiates… tarefa menos fácil do que parece. Com
Aldeia Velha aos pés, o rumo provisório passou a ser o Santuário de
Nossa Senhora da Granja, também chamada Senhora dos Prazeres — devoções
que há séculos se confundem e se completam. Aos 9 km de jornada, foi ali a
primeira paragem do dia.
Por entre líquenes e pastagens,
desço da serra rumo à
Granja
Santuário de Nossa Senhora da Granja, 08h55 ... 1ª paragem aos
9 km de percurso
A tradição conta que, durante as invasões francesas, uma mãe em fuga escondeu
o filho naquele lugar, por não o poder levar consigo. Meses depois regressou…
e encontrou o menino vivo, são e bem tratado. Quando lhe perguntou quem
cuidara dele, o pequeno respondeu: “Foi a Senhora que mora ali”, apontando para a capelinha. A partir daí, o lugar tornou‑se ponto de
romarias e de festa.
O Santuário de Nossa Senhora da Granja é um daqueles
lugares que parecem guardar um silêncio antigo...
Mas do silêncio nasceram palavras — as palavras de uma devota, também ela de
mochila às costas, como eu. Soitense, contou-me que já tinha ido a Fátima a
pé… e eu despertei-lhe a vontade de seguir um dia até Santiago de Compostela.
Brilharam-lhe os olhos quando lhe falei dos meus 17 Caminhos — um deles desde
Vale de Espinho, há quase sete anos.
Seguiram-se 'caminhos' através de uma paisagem que mais parecia
saída de uma qualquer "Terra Média"
Depois da Granja, os trilhos — mesmo os que não o eram — levaram‑me por
uma paisagem que parecia pertencer à Terra Média de Tolkien: fragas,
sombras, luzes e silêncios que só estas terras sabem dar. Entre o Cabeço do
Odre e o Prado Juncal, a progressão foi lenta, ao ritmo das pequenas linhas de
água que era preciso atravessar e da vegetação, por vezes densa e emaranhada.
Era como se o próprio Universo me sussurrasse: “Então não querias improvisar e descobrir novos caminhos?”
Entre Pero Maio e o Prado Juncal... quando do nada surgiu um
caminho...
vila histórica de Alfaiates
... que me havia de levar à
Pouco depois das 11h30 entrei em Alfaiates. Vila antiga, de fronteira e
de história, que tantas vezes me viu passar e tantas vezes entrou nas minhas
crónicas. Subi à torre de menagem — graças às obras de recuperação do velho
castelo, terminadas há apenas dois anos — para contemplar a panorâmica larga
que abraça a planura e as serras, da linha de fronteira à Sacaparte e à
barragem de Alfaiates.
Castelo de Alfaiates e panorâmica da Torre de Menagem; ao
fundo a Barragem de Alfaiates
Largo e Igreja da Misericórdia, 12h15
Em Alfaiates impunha‑se a pergunta: e agora, qual o rumo? Virar a
nascente — para a Sacaparte e Aldeia da Ponte — significaria entrar numa zona
onde improvisar novos caminhos seria ainda mais difícil, e acabaria por
obrigar, na parte final, a voltar a cruzar a serra de Aldeia Velha, Aldeia do
Bispo, Fóios… desníveis maiores numa fase em que o cansaço já pesaria mais.
Por isso, embora continuasse a desenhar a progressão à medida que avançava,
optei por apontar a poente, contornando as elevações por zonas mais baixas,
algures entre o Sabugal e Quadrazais. Mas estes pensamentos iam rodando entre
os meus ticos e tecos... enquanto seguia em direção a Aldeia da Dona.
Ribeira de Alfaiates: são 12h30... mas ainda só tenho 19 km nos
pés...
Mas... havia que parar para almoçar; passava das 13h30!
Alfaiates ainda ao fundo... com o 'meu' Xalmas por trás
Nesta GR desenhada ao sabor de cada momento, quando parei para almoçar… parei
mesmo. A tarde estava amena, quase quente, e uma bela sombra convidava a um
repouso sem pressas. A gestão horária já me tinha dito duas coisas: não iria
chegar à meia centena de quilómetros, e teria de me cingir aos trilhos que o
mapa garantia que, em princípio, existiam mesmo. E decidi virar o leme rumo à
Nave.
A improvisação continuava — mas agora dentro dos limites que o tempo e o
terreno impunham.
Há cor e aromas de Primavera, nos campos da Nave
Entre a Nave e Vila Boa, 15h10, 28 km
percorridos... enquanto a tarde ia desfilando
O “conta‑km” assinalou os 30 a sul de Vila Boa, num pequeno troço onde
o ritmo voltou a abrandar ao cruzar a Ribeira de Palhais. Mas às 17h15
estava a entrar na Torre e, embora em sentido inverso, reencontrava o
meu
Caminho de Santiago de 2019... aquele que iniciei em Vale de Espinho.
Há passos que nunca se perdem; apenas mudam de direcção...
À entrada da Torre, 17h15... quando entro no memorável Caminho
Vale de Espinho - Santiago de Compostela
E uma hora depois estou em Quadrazais. Sabia que ainda tinha
que "pedalar"... mas já me sentia em casa...
Em Quadrazais, vivi um daqueles episódios que só a Raia oferece. Filho
adoptivo destas terras há mais de meio século, há iguarias que me conquistam
sempre — e o queijo de cabra é uma delas. Costumo consegui-lo em Vale de
Espinho, mas desta vez a sorte parecia fugir-me. Ao passar pela aldeia,
lembrei-me da tabuleta “Vende‑se queijo”, que sempre vi na rua
principal... e pela primeira vez na vida fui lá bater à porta, apesar de não
ter comigo dinheiro físico, nesta jornada de Sol a Sol. Expliquei a situação à
D.ª Lurdes Mesquita — a queijeira da casa — e perguntei se
podia encomendar três queijos. Mas ela pô-los logo à minha disposição: “Eu confio”, disse. Ainda lhe ofereci o meu número de telefone; respondeu apenas: “Para quê? Confio”... e eu prometi que o mais tardar 2ª feira vou lá pagá-los. A Raia é, sem
dúvida, terra de gente boa e confiante!
Com mais 4 kg na mochila, às 18h50 estava a atravessar o
Côa e a passar a Capela do Espirito Santo
19h20 - Com a luz do entardecer, chego ao Alcambar e à
praia fluvial de Vale de Espinho
19h40 ... e estou quase em casa 💖
Sensivelmente treze horas depois de ter saído, regressei ao nosso retiro com
44 km percorridos de Sol a Sol. O corpo pedia descanso, mas a alma vinha leve,
com aquela leveza que só nasce quando o caminho se faz sem certezas, sem medo
de improvisar...
A GR que não estava desenhada em mapa nenhum acabou por se desenhar em mim:
nos passos, nos encontros, nos silêncios e nas pequenas surpresas que o
Universo guarda para quem nele acredita. Fechava-se assim mais uma jornada —
longa, luminosa e cheia de gratidão. Gratidão à Vida... mas também à minha
pequenina/grande arraiana, que além de ter passado o dia à minha espera me
preparara outra iguaria que adoro: uma saborosíssima taça de mílharas. Sim...
as "papas de carolo" na Raia chamam-se mílharas 😋