domingo, 8 de fevereiro de 2026

Entre Penha Garcia e as Idanhas... sob a fúria da Marta

No final da crónica da XV Marcha Nacional de Montanha, deixei no ar a pergunta que regressa sempre, teimosa e luminosa: qual será a próxima Montanha? A resposta não tardou. A “montanha” seguinte já estava marcada pela mão da família gasparita — os Caminheiros Gaspar Correia — e levar-nos-ia às terras de Penha Garcia e das Idanhas. Só que… a “Marta” também quis juntar-se ao fim de semana. E quem foi a “Marta”? Mais uma das intermináveis depressões que nos têm visitado, insistente e ruidosa, tentando assustar o grupo. Mas um grupo com 41 anos de caminhadas não se deixa intimidar assim. Tudo se resolve com gestão, calma… e aquela velha arte de adaptar o passo às circunstâncias.
Penha Garcia sob a "Marta", 07.Fev.2026, 15h25
Conta‑se que, na Serra de Penha Garcia, vivia uma velha — uma figura mítica, metade mulher, metade espírito da montanha — que guardava os penedos, os fósseis, as fragas e as águas que correm para o Ponsul. Quando alguém ousava desafiar a serra, a velha batia com o seu cajado. E então o vento descia em rajadas pelo vale, a chuva caía como se o céu tivesse rebentado e as fragas ecoavam como tambores antigos. Quando o tempo virava de repente, dizia-se apenas: “A Velha da Serra acordou.”
Barragem do Rio Ponsul, Penha Garcia, 15h15
Pois a "Marta" deve ter encarnado na velha da Serra. Chegados a Penha Garcia à hora do almoço... , fomos recebidos por frio cortante, vento agreste e uma chuva persistente que não dava tréguas. O habitual almoço campestre acabou por ser dividido entre o autocarro e um café da vila. E quando nos dirigíamos para o Pelourinho e para a "Casa dos Fósseis" — integrada nos espaços museológicos da Naturtejo — a velha da serra zangou-se de vez. As ruas estreitas transformaram‑se em autênticos rios, o vento inclinava a chuva como se quisesse arrancar telhas e guarda‑chuvas, e cada esquina parecia ecoar o mau humor da serra. Em Penha Garcia... a “Marta” deve ter passado mesmo à hora a que ali chegámos e visitámos aquele centro de interpretação — como que a querer testar a nossa perseverança e capacidade de adaptação...
E não houve outro remédio senão adaptarmo-nos às circunstâncias. Os “gasparitos” não são loucos. Depois de aprendermos o que são cruzianas e de imaginarmos como seriam as paisagens no tempo das trilobites, e depois ainda de visitarmos a eclética Casa‑Museu do Padre João Pires de Campos, que guarda o vasto espólio pessoal que doou ao município, subimos ao miradouro e ao Castelo, aproveitando uma ligeira aberta da tempestade. Mas não houve outro remédio senão “fugirmos” para o abrigo que nos estava reservado, em Idanha‑a‑Nova. A Rota dos Fósseis teve de ficar para outras "núpcias". Mas a habitual festa de Carnaval Caminheiro, essa, não se perdeu — evidentemente.
E o dia seguinte acordaria completamente diferente. Idanha-a-Nova, 08.02.2026, 07h35
Durante a noite, a “Marta” viajou para terras da Extremadura espanhola. E em Idanha-a-Nova acordámos para um belo domingo de Sol, convidativo à missão que nos une: caminhar. Assim, antes das 9h30 já estávamos na pequena aldeia de Carroqueiro, aos pés do grande tor granítico de Monsanto, prontos para marchar rumo à aldeia histórica de Idanha-a-Velha, ao longo de um belo troço da GR12, a Grande Rota de Idanha, que liga aliás também a Penha Garcia e às Termas de Monfortinho.
De Carroqueiro a Idanha-a-Velha, numa bela manhã de domingo
As terras evidenciavam bem a quantidade de chuva que se tem abatido sobre este cantinho ocidental europeu, mas os 5 km do percurso fizeram-se sem dificuldade em cerca de duas horas. Avistar e entrar em Idanha‑a‑Velha vindos de norte, pela GR12, é entrar num dos lugares mais antigos e mais carregados de história do nosso território. A velha Civitas Igaeditanorum — a Egitânia romana — também foi sede episcopal visigótica, povoado moçárabe, praça medieval e, mais tarde, uma aldeia rural onde cada recanto parece guardar uma camada diferente da história. Hoje... tem 40 habitantes...
O monumental lagar de varas, impressionante na sua escala
e na forma como testemunha séculos de trabalho e engenho
Idanha-a-Velha... onde cada recanto parece guardar um capítulo do grande livro do Tempo...
Descemos ao Ponsul e à ponte romana, sólida e serena. Caminhámos até à antiga Sé, austera, quase solene, lembrando que esta pequena aldeia foi, em tempos, centro de poder espiritual e administrativo.
Também pode ver no Relive ou no Wikiloc
Mas de Idanha‑a‑Velha seguiríamos para Alcafozes... onde nos esperava o almoço de encerramento deste belo fim de semana que a “Marta” nos queria estragar. Coitada... não conhecia a garra dos gasparitos... 😂
E entre conversas, risos e o conforto merecido, celebrámos mais uma jornada bem vivida — porque, no fim, nem a fúria da velha da serra consegue travar quem gosta verdadeiramente de caminhar. A Madalena, claro, também alinhou nesta “aventura”… até porque já é gasparita de pleno direito.
E às sete horas estávamos em Lisboa. Em dia de eleições, naturalmente — mas o dever cívico já o tínhamos cumprido antecipadamente no domingo anterior. Cívico… e civilizacional…!