Ao rever as imagens de 2025, no segundo dia do ano, senti o
inverno lá fora... e um certo outono cá dentro. Descobri um ano estranho: caminhei
menos do que em qualquer outro dos últimos quinze anos, não por falta de
pernas ou de vontade, mas porque a vida, às vezes... tece-se por fragas e
pragas.
O mundo interior por vezes tem as suas fragilidades, os seus silêncios... e
o fim de um ano e início de outro nem sempre é fácil. Neste início de 2026,
sinto essa mistura estranha de gratidão e melancolia, ternura e amargura. A
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A8, rumo a norte, 10.01.2026, 07h50
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música diz muitas vezes por mim aquilo que às vezes não sei escrever.
Estava a precisar de caminhar - de conViver - como que de pão para alimentar
o meu mundo interior - into the light... ou The Light.
Caminhar e Ser Feliz, é o lema do meu amigo Deonel... talvez o ser humano que eu conheço que
mais caminha à face da Terra...🤪
Para hoje o Deonel tinha proposto uma caminhada circular, entre
Óbidos e a Lagoa. Para mim... foi assim como que a minha primeira
respiração do ano. Não era a paisagem... não era o azul ou o verde. Era o
carregar baterias... era o deixar as ondas negativas... era o convívio... a
Amizade... a Vida! Dezasseis caminheiro(a)s, incluindo a Madalena... a minha
peregrina peruana... galega... recém chegada da terra das valsas... da terra
dos Sonhos. E a Ana Cristina... outro Ser de Luz... que sinto aproximar-se
pelo Universo Inteligente... 🙏
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Óbidos, 09h00 - Dezasseis caminheiro(a)s juntaram-se para uma
proposta de uns previstos 22 km de festa da Vida
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À boa maneira do Deonel, a "aventura" teve adrenalina suficiente, com muito
sobe e desce, muita lama... mas sempre por belas panorâmicas de um ameno
sábado de inverno, por vezes com Sol, por vezes com nuvens... mas sempre com
companheirismo e o Universo a entrar em nós.
Diz-se que estas pedras guardam o suspiro de um homem, Antão Vaz Moniz,
fidalgo obidense, cavaleiro do rei D. João I. Herói de Aljubarrota — onde
lutou na lendária "
Ala dos Namorados" — Antão Vaz fez deste monte o seu altar de gratidão. Após lutar pelo
Reino, escolheu a solidão de asceta, tal como o santo de quem era devoto.
Apenas o vento e Deus sabiam quem ali descansava.
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Trás do Outeiro, 10.01.2026, 10h30... seguindo o "chefe" 💞
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Por trilhos nem sempre direitinhos e limpinhos... chegamos à
Lagoa de Óbidos, 11h25
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A
Lagoa de Óbidos é o coração pulsante do vale. É o sistema lagunar
mais extenso da costa portuguesa, onde o rio
Arnóia se funde com o
Atlântico numa dança constante de marés. Historicamente, a lagoa era muito
maior do que é hoje. Na Idade Média, as suas águas chegavam mesmo ao sopé da
colina de Óbidos, permitindo que as embarcações atracassem junto às muralhas
do castelo. Com o passar dos séculos e o fenómeno do assoreamento, a água
recuou, deixando para trás as terras férteis que hoje vemos, mas a aura de
"porto de mar" ainda se sente na brisa. Paraíso para os amantes da Natureza
e do
birdwatching, a lagoa é um ponto de paragem vital para as aves
migratórias, como os flamingos, garças reais, patos reais e outras.
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Dois peregrinos do Mar... das Montanhas Peruanas... da Amizade...
dos Sonhos...
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E com a Ana Cristina... também ela peregrina. Seremos três
Seres de Luz uns dos outros?...
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Bordejando a bela Lagoa de Óbidos, com flamingos a
vigiar-nos...
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No extremo sudoeste da lagoa, inflectimos para o interior... e descobrimos
que o conceito de almoço é relativo. Nós queríamos as sandes; as melgas
queriam-nos a nós. E não eram melgas amadoras: estas criaturas usavam brocas
de diamante que atravessavam
t-shirts e lenços de cabeça sem pedir
licença, como se estivéssemos nus. Emílio... ali é que eu te queria ter
visto em tronco nu 🤣! Diz a lenda que estas melgas descendem dos tempos de
D. João I e que ainda hoje guardam o espírito de combate de Aljubarrota...
mas aplicam-no nos nossos corpos a pedir a paz!
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Desce e sobe, a SE da Lagoa, 13h10 Sim, foi no alto daquela
subida que almoçámos... nós e as melgas... 😞🤪
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E se subimos... temos de descer... às vezes tipo escorrega... ou no
jogo do agarra agarra... 😁
Em baixo, a união dos rios
Real e Arnóia, próximo do aeródromo de Óbidos
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Os 6 km que nos separavam de
Óbidos foram cumpridos em passo de
carga, numa marcha de 75 minutos pelas várzeas generosas do
Arnóia.
Quando o relógio bateu as três, estávamos de novo na Estação da CP. Dali,
partimos para o "assalto" épico ao Castelo. Deixámos o silêncio da Natureza
para trás e mergulhámos no habitual mar de gente que inunda a vila,
serpenteando entre turistas e história, com a adrenalina de quem ainda tem
quilómetros no corpo.
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6 km em 1h15' pelas terras férteis do Arnóia, com a
aproximação a Óbidos pela
Ermida de Nª Srª do Carmo
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E no habitual bulício de Óbidos, 15h20. Não... não fomos à
Ginjinha... 😆
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E não houve realmente filas nem balcões para a nossa Ginjinha de despedida.
Bebemo-la em liberdade, cortesia da Madalena, que juntou ao brinde umas
deliciosas 'pirâmidezinhas' de chocolate para rematar este sábado perfeito.
Já as tínhamos também tomado como
doping inicial... 😂
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Igreja de Santa Maria, Óbidos, 15h25 (Clique para
ver o
álbum completo)
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Foi a estreia das "
fragas pisadas" em 2026. Mas acima de tudo foi o momento de abrir os meus próprios
painéis solares. Há baterias que só carregam assim: com o corpo em movimento
e a alma exposta ao que o caminho nos dá. No final, descobri que o motor
está vivo e, sim, eu ainda sei andar.
Obrigado Deonel, obrigado Madalena, obrigado Ana Cristina, obrigado Luís
Crucho... obrigado a todos os que participaram nesta que foi para mim uma
caminhada...
into the light. Obrigado Universo 🙏