sábado, 10 de janeiro de 2026

Óbidos... into the light

Onde o Trilho se Faz Luz: Crónica de um Sábado entre o Céu e a Lagoa

Ao rever as imagens de 2025, no segundo dia do ano, senti o inverno lá fora... e um certo outono cá dentro. Descobri um ano estranho: caminhei menos do que em qualquer outro dos últimos quinze anos, não por falta de pernas ou de vontade, mas porque a vida, às vezes... tece-se por fragas e pragas.
O mundo interior por vezes tem as suas fragilidades, os seus silêncios... e o fim de um ano e início de outro nem sempre é fácil. Neste início de 2026, sinto essa mistura estranha de gratidão e melancolia, ternura e amargura. A
A8, rumo a norte, 10.01.2026, 07h50
música diz muitas vezes por mim aquilo que às vezes não sei escrever.
Estava a precisar de caminhar - de conViver - como que de pão para alimentar o meu mundo interior - into the light... ou The Light.
Caminhar e Ser Feliz, é o lema do meu amigo Deonel... talvez o ser humano que eu conheço que mais caminha à face da Terra...🤪
Para hoje o Deonel tinha proposto uma caminhada circular, entre Óbidos e a Lagoa. Para mim... foi assim como que a minha primeira respiração do ano. Não era a paisagem... não era o azul ou o verde. Era o carregar baterias... era o deixar as ondas negativas... era o convívio... a Amizade... a Vida! Dezasseis caminheiro(a)s, incluindo a Madalena... a minha peregrina peruana... galega... recém chegada da terra das valsas... da terra dos Sonhos. E a Ana Cristina... outro Ser de Luz... que sinto aproximar-se pelo Universo Inteligente... 🙏
Óbidos, 09h00 - Dezasseis caminheiro(a)s juntaram-se para uma proposta de uns previstos 22 km de festa da Vida
À boa maneira do Deonel, a "aventura" teve adrenalina suficiente, com muito sobe e desce, muita lama... mas sempre por belas panorâmicas de um ameno sábado de inverno, por vezes com Sol, por vezes com nuvens... mas sempre com companheirismo e o Universo a entrar em nós.
Subimos aos moinhos a SW de Óbidos, descemos à Estação CP... subimos à Ermida de Santo Antão
Diz-se que estas pedras guardam o suspiro de um homem, Antão Vaz Moniz, fidalgo obidense, cavaleiro do rei D. João I. Herói de Aljubarrota — onde lutou na lendária "Ala dos Namorados" — Antão Vaz fez deste monte o seu altar de gratidão. Após lutar pelo Reino, escolheu a solidão de asceta, tal como o santo de quem era devoto. Apenas o vento e Deus sabiam quem ali descansava.
Trás do Outeiro, 10.01.2026, 10h30... seguindo o "chefe" 💞
Por trilhos nem sempre direitinhos e limpinhos... chegamos à Lagoa de Óbidos, 11h25
A Lagoa de Óbidos é o coração pulsante do vale. É o sistema lagunar mais extenso da costa portuguesa, onde o rio Arnóia se funde com o Atlântico numa dança constante de marés. Historicamente, a lagoa era muito maior do que é hoje. Na Idade Média, as suas águas chegavam mesmo ao sopé da colina de Óbidos, permitindo que as embarcações atracassem junto às muralhas do castelo. Com o passar dos séculos e o fenómeno do assoreamento, a água recuou, deixando para trás as terras férteis que hoje vemos, mas a aura de "porto de mar" ainda se sente na brisa. Paraíso para os amantes da Natureza e do birdwatching, a lagoa é um ponto de paragem vital para as aves migratórias, como os flamingos, garças reais, patos reais e outras.
Dois peregrinos do Mar... das Montanhas Peruanas... da Amizade... dos Sonhos...
E com a Ana Cristina... também ela peregrina. Seremos três Seres de Luz uns dos outros?...
E o grupo... quase todo. Falta o fotógrafo e obreiro deste pequeno/grande projecto "Caminhar e Ser Feliz 👍😀"
Bordejando a bela Lagoa de Óbidos, com flamingos a vigiar-nos...
No extremo sudoeste da lagoa, inflectimos para o interior... e descobrimos que o conceito de almoço é relativo. Nós queríamos as sandes; as melgas queriam-nos a nós. E não eram melgas amadoras: estas criaturas usavam brocas de diamante que atravessavam t-shirts e lenços de cabeça sem pedir licença, como se estivéssemos nus. Emílio... ali é que eu te queria ter visto em tronco nu 🤣! Diz a lenda que estas melgas descendem dos tempos de D. João I e que ainda hoje guardam o espírito de combate de Aljubarrota... mas aplicam-no nos nossos corpos a pedir a paz!
Desce e sobe, a SE da Lagoa, 13h10
Sim, foi no alto daquela subida que almoçámos... nós e as melgas... 😞🤪
E se subimos... temos de descer... às vezes tipo escorrega... ou
no jogo do agarra agarra... 😁

Em baixo, a união dos rios Real e Arnóia, próximo do aeródromo de Óbidos
Os 6 km que nos separavam de Óbidos foram cumpridos em passo de carga, numa marcha de 75 minutos pelas várzeas generosas do Arnóia. Quando o relógio bateu as três, estávamos de novo na Estação da CP. Dali, partimos para o "assalto" épico ao Castelo. Deixámos o silêncio da Natureza para trás e mergulhámos no habitual mar de gente que inunda a vila, serpenteando entre turistas e história, com a adrenalina de quem ainda tem quilómetros no corpo.
6 km em 1h15' pelas terras férteis do Arnóia, com a aproximação a Óbidos pela Ermida de Nª Srª do Carmo
E no habitual bulício de Óbidos, 15h20. Não... não fomos à Ginjinha... 😆
E não houve realmente filas nem balcões para a nossa Ginjinha de despedida. Bebemo-la em liberdade, cortesia da Madalena, que juntou ao brinde umas deliciosas 'pirâmidezinhas' de chocolate para rematar este sábado perfeito. Já as tínhamos também tomado como doping inicial... 😂
Igreja de Santa Maria, Óbidos, 15h25
(Clique para ver o álbum completo)
(Clique para ver no Wikiloc)
Foi a estreia das "fragas pisadas" em 2026. Mas acima de tudo foi o momento de abrir os meus próprios painéis solares. Há baterias que só carregam assim: com o corpo em movimento e a alma exposta ao que o caminho nos dá. No final, descobri que o motor está vivo e, sim, eu ainda sei andar.
Obrigado Deonel, obrigado Madalena, obrigado Ana Cristina, obrigado Luís Crucho... obrigado a todos os que participaram nesta que foi para mim uma caminhada... into the light. Obrigado Universo 🙏