Há 41 anos a caminhar, o
Grupo de Caminheiros Gaspar Correia
é uma das mais antigas associações de pedestrianismo em Portugal... e a
minha mais antiga "família" caminheira. Já vai longe aquele dia de
outubro de 2002
em que, em boa hora, a "descobri". Quase 24 anos depois... o 41º aniversário
do grupo estava agendado para uma pequena caminhada ribeirinha ao
Tejo, entre o farol de
Cacilhas e a
Cova do Vapor. As
recentes tempestades que assolaram o país danificaram contudo bastante
alguns troços, pelo que a ligação foi feita em duas "etapas", até ao
Cristo Rei e da
Trafaria à Cova do Vapor.
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09h45, na
Fonte da Pipa, edificada no reinado de D. João V e que fornecia água de
qualidade à vila de Almada
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No sopé do Cristo-Rei, a
Quinta da Arealva
é um dos lugares mais enigmáticos da zona ribeirinha de Almada. Há ali uma
beleza crua e estranha, que nasce do confronto direto entre a ruína
industrial e a vista privilegiada sobre o Tejo e Lisboa. As suas raízes
mergulham no Séc. XVII, quando ali se erguia o
Forte da Fonte da Pipa, sentinela de pedra no sistema defensivo da
margem sul. Mais tarde, no final do século XVIII, os canhões deram lugar à
uva: a propriedade converteu-se em exploração vinícola, tornando-se um
gigante da tanoaria regional, fornecendo inclusive o vinho para as missas
do Vaticano.
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Há lugares que não se deixam abandonar totalmente. Na
Arealva, entre os ecos do passado e o silêncio da ruína...
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O abandono prolongado da
Arealva e a simbiose entre a decadência
das paredes e a imponência do rio criam uma atmosfera densa, onde o
silêncio parece carregado de confidências. A estrutura labiríntica dos
antigos armazéns é um convite à imaginação: há quem jure ver vultos
recortados nos pisos superiores e quem sinta o peso de olhares invisíveis.
Nos dias de vento, o Tejo sopra contra as ferragens degradadas, criando
silvos e estalidos que o eco transforma em passos ou vozes perdidas nas
velhas caves. É como se o espírito de vigia do antigo forte nunca tivesse
abandonado o posto, permanecendo ali, suspenso entre o que fomos e o que o
rio teima em levar.
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Sobre a escadaria do Olho de Boi, com vista panorâmica para
Lisboa e o Tejo
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Na Arealva deixámos a
Almada esquecida e subimos à Almada medieval
e pombalina, com amplas panorâmicas sobre a capital e o estuário, como do
Jardim do Castelo, Castelo que é um testemunho vivo das sucessivas camadas de ocupação,
romanas, visigóticas e muçulmanas - que deu origem ao topónimo
"
Al-Ma'dan" (a mina) - até à conquista Cristã e às muralhas
medievais.
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Pelas ruelas da velha Al-Ma'dan,
subimos ao Castelo e à soberba vista sobre o Tejo e a
Ponte
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Museu de Almada, 11h30: as chamadas covas de pão... ou como se geria o
medo e a fome dentro de uma fortaleza...
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As covas de pão são silos escavados na rocha, em forma de garrafa: uma
abertura estreita no topo que se alarga na base. Serviam essencialmente
para guardar cereais (trigo, cevada). Ao fechar a abertura superior
hermeticamente, o oxigénio era consumido e o grão conservava-se durante
anos, pronto para alimentar a guarnição e a população em caso de cerco.
Embora o conceito de silo seja muito antigo, em Almada estas estruturas
estão fortemente associadas ao período de ocupação muçulmana e à
subsequente Idade Média Cristã, quando o castelo era a última linha de
defesa antes do Tejo.
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Do Museu de Almada passámos à
Casa da Cerca
e seu Jardim, debruçado sobre o Cais do Ginjal e o Tejo
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A "etapa" da manhã terminou, como não podia deixar de ser, no
Santuário do Cristo-Rei. Mas a meteorologia pregou-nos uma partida para a parte da tarde. A
seguir a uns dias que já antecipavam a primavera... a chuva voltou,
escassa e suave mas persistente. Valeu-nos ainda ter-nos deixado almoçar,
na mata adjacente à colossal figura de Cristo, de braços abertos virados
para Lisboa. Depois... seguiríamos para a
Trafaria.
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No Cristo-Rei, 12h45... e as nuvens começavam a adensar-se
sobre o Tejo...
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Recomeçámos na
Trafaria cerca das duas e meia... debaixo de uma
chuva miudinha. A jornada não era longa, até à
Cova do Vapor... mas
dir-se-ia que estávamos a entrar num outro mundo. Se na Arealva as ruínas
se entregam à natureza, na
Cova do Vapor a arquitectura entrega-se
ao surrealismo.
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Da Trafaria à Cova do Vapor... ou num mundo
surreal...
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Que dizer por exemplo de uma casa que não ignora o espaço público...
funde-se com ele! Ao ponto de deixar que um poste de iluminação lhe
atravesse a varanda, como se a electricidade fosse o sistema nervoso
central da própria habitação?...
O lugar era originalmente uma pequena depressão entre as dunas — uma
"cova" natural — junto ao bico de areia onde o Tejo encontra o Atlântico.
Era ali que os vapores encontravam um porto de abrigo mais calmo para
desembarcar passageiros. Mas a característica mais marcante da
Cova do Vapor é a sua relação de sobrevivência com o mar. Devido à
erosão costeira, a aldeia foi "empurrada" várias vezes para dentro da Mata
de São João. Durante décadas, os habitantes desmontavam as suas casas de
madeira, ou colocavam-nas inteiras sobre rolos de madeira e, com a ajuda
de juntas de bois, moviam-nas dezenas de metros para fugir das águas.
A
Cova do Vapor é um daqueles sítios onde a fronteira entre o improviso e a
resistência se torna quase poética.
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Associação de Moradores da Cova do Vapor, 16h00
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E foi nesta peculiar aldeia da Cova do Vapor que os Caminheiros
celebraram o seu 41º aniversário. Mais concretamente na respectiva
Associação de Moradores. Uma celebração e um lanche "ajantarado" que se
prolongaram... até às oito horas deste sábado festivo.
Quase 24 anos
depois, continuo a sentir que cada aniversário do Grupo é também um
reencontro comigo próprio.
Parabéns ao Grupo, parabéns à organização... parabéns a todos nós!
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Convívio, comemoração, festa...
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e o Tejo e Lisboa às luzes da noite
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