sábado, 14 de março de 2026

De Cacilhas à Cova do Vapor...

no 41º aniversário dos Caminheiros Gaspar Correia

Há 41 anos a caminhar, o Grupo de Caminheiros Gaspar Correia é uma das mais antigas associações de pedestrianismo em Portugal... e a minha mais antiga "família" caminheira. Já vai longe aquele dia de outubro de 2002 em que, em boa hora, a "descobri". Quase 24 anos depois... o 41º aniversário do grupo estava agendado para uma pequena caminhada ribeirinha ao Tejo, entre o farol de Cacilhas e a Cova do Vapor. As recentes tempestades que assolaram o país danificaram contudo bastante alguns troços, pelo que a ligação foi feita em duas "etapas", até ao Cristo Rei e da Trafaria à Cova do Vapor.
14.03.2026 - Pouco depois das 9h partíamos do Farol de Cacilhas rumo ao Cais do Ginjal, ao longo do "Jardim do Rio"
09h45, na Fonte da Pipa, edificada no reinado de D. João V e que fornecia água de qualidade à vila de Almada
Do Cais do Ginjal à Quinta da Arealva: há sempre um rio desconhecido à nossa espera
No sopé do Cristo-Rei, a Quinta da Arealva é um dos lugares mais enigmáticos da zona ribeirinha de Almada. Há ali uma beleza crua e estranha, que nasce do confronto direto entre a ruína industrial e a vista privilegiada sobre o Tejo e Lisboa. As suas raízes mergulham no Séc. XVII, quando ali se erguia o Forte da Fonte da Pipa, sentinela de pedra no sistema defensivo da margem sul. Mais tarde, no final do século XVIII, os canhões deram lugar à uva: a propriedade converteu-se em exploração vinícola, tornando-se um gigante da tanoaria regional, fornecendo inclusive o vinho para as missas do Vaticano.
Quinta da Arealva, 10h10

Na fantasmagoria de uma época de ouro que colapsou...
Há lugares que não se deixam abandonar totalmente. Na Arealva, entre os ecos do passado e o silêncio da ruína...
O abandono prolongado da Arealva e a simbiose entre a decadência das paredes e a imponência do rio criam uma atmosfera densa, onde o silêncio parece carregado de confidências. A estrutura labiríntica dos antigos armazéns é um convite à imaginação: há quem jure ver vultos recortados nos pisos superiores e quem sinta o peso de olhares invisíveis. Nos dias de vento, o Tejo sopra contra as ferragens degradadas, criando silvos e estalidos que o eco transforma em passos ou vozes perdidas nas velhas caves. É como se o espírito de vigia do antigo forte nunca tivesse abandonado o posto, permanecendo ali, suspenso entre o que fomos e o que o rio teima em levar.
Sobre a escadaria do Olho de Boi, com vista panorâmica para Lisboa e o Tejo
Na Arealva deixámos a Almada esquecida e subimos à Almada medieval e pombalina, com amplas panorâmicas sobre a capital e o estuário, como do Jardim do Castelo, Castelo que é um testemunho vivo das sucessivas camadas de ocupação, romanas, visigóticas e muçulmanas - que deu origem ao topónimo "Al-Ma'dan" (a mina) - até à conquista Cristã e às muralhas medievais.
Pelas ruelas da velha Al-Ma'dan, subimos ao Castelo e à soberba vista sobre o Tejo e a Ponte
Museu de Almada, 11h30: as chamadas covas de pão... ou como se geria o medo e a fome dentro de uma fortaleza...
As covas de pão são silos escavados na rocha, em forma de garrafa: uma abertura estreita no topo que se alarga na base. Serviam essencialmente para guardar cereais (trigo, cevada). Ao fechar a abertura superior hermeticamente, o oxigénio era consumido e o grão conservava-se durante anos, pronto para alimentar a guarnição e a população em caso de cerco. Embora o conceito de silo seja muito antigo, em Almada estas estruturas estão fortemente associadas ao período de ocupação muçulmana e à subsequente Idade Média Cristã, quando o castelo era a última linha de defesa antes do Tejo.
Do Museu de Almada passámos à Casa da Cerca e seu Jardim,
debruçado sobre o Cais do Ginjal e o Tejo
A "etapa" da manhã terminou, como não podia deixar de ser, no Santuário do Cristo-Rei. Mas a meteorologia pregou-nos uma partida para a parte da tarde. A seguir a uns dias que já antecipavam a primavera... a chuva voltou, escassa e suave mas persistente. Valeu-nos ainda ter-nos deixado almoçar, na mata adjacente à colossal figura de Cristo, de braços abertos virados para Lisboa. Depois... seguiríamos para a Trafaria.
No Cristo-Rei, 12h45... e as nuvens começavam a adensar-se sobre o Tejo...
Recomeçámos na Trafaria cerca das duas e meia... debaixo de uma chuva miudinha. A jornada não era longa, até à Cova do Vapor... mas dir-se-ia que estávamos a entrar num outro mundo. Se na Arealva as ruínas se entregam à natureza, na Cova do Vapor a arquitectura entrega-se ao surrealismo.
Da Trafaria à Cova do Vapor... ou num mundo surreal...         
Que dizer por exemplo de uma casa que não ignora o espaço público... funde-se com ele! Ao ponto de deixar que um poste de iluminação lhe atravesse a varanda, como se a electricidade fosse o sistema nervoso central da própria habitação?...
O lugar era originalmente uma pequena depressão entre as dunas — uma "cova" natural — junto ao bico de areia onde o Tejo encontra o Atlântico. Era ali que os vapores encontravam um porto de abrigo mais calmo para desembarcar passageiros. Mas a característica mais marcante da Cova do Vapor é a sua relação de sobrevivência com o mar. Devido à erosão costeira, a aldeia foi "empurrada" várias vezes para dentro da Mata de São João. Durante décadas, os habitantes desmontavam as suas casas de madeira, ou colocavam-nas inteiras sobre rolos de madeira e, com a ajuda de juntas de bois, moviam-nas dezenas de metros para fugir das águas.
A Cova do Vapor é um daqueles sítios onde a fronteira entre o improviso e a resistência se torna quase poética.
Associação de Moradores da Cova do Vapor, 16h00

E foi nesta peculiar aldeia da Cova do Vapor que os Caminheiros celebraram o seu 41º aniversário. Mais concretamente na respectiva Associação de Moradores. Uma celebração e um lanche "ajantarado" que se prolongaram... até às oito horas deste sábado festivo.
Quase 24 anos depois, continuo a sentir que cada aniversário do Grupo é também um reencontro comigo próprio.
Parabéns ao Grupo, parabéns à organização... parabéns a todos nós!


Convívio, comemoração, festa...
e o Tejo e Lisboa às luzes da noite

Sem comentários: