quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Da Várzea de Loures à Costa Oeste - 62 km

Depois das "assombrações" em Sintra, o mês de Agosto não teve mais "aventuras" ... a não ser a aventura de passar 24 horas por dia, em Vale de Espinho, com 3 neto(a)s entre os 3 e os 5 anos... J.
A sede de caminhar já era portanto muita; ora, dizendo o bilhete de identidade e o calendário que o autor destas linhas ganhou há uma semana o estatuto de sexagenário, porque não correlacionar dois números? - 60 anos ... 60 km... J!
Em 27 de Abril de 2012 já tinha testado os meus limites, ao ligar a solo a Malcata à Gardunha. Onde bater esse record e perfazer os "redondos" 60km? Bem ... uma hipótese era ir a pé de casa àquela que, durante a minha meninice e adolescência, foi ... a "minha" praia: Santa Cruz.
Estudadas as cartas e feita uma "prospecção" à frente do meu velho OziExplorer, lancei o desafio a alguns companheiros destas lides das grandes jornadas pedestres. Com grande pena minha, nenhum dos que viveram comigo a aventura do Monte Perdido Extrem estava disponível ... mas três já "velhos" companheiros de várias GRDs responderam ao repto... J!
E assim ... às seis da manhã estávamos a partir da Bobadela em direcção ao vale do Trancão e à várzea de Loures. É o troço inicial dos caminhos de Fátima ... ou de Santiago! O dia começou a clarear pouco antes das ruínas da velha Quinta do Monteiro Mor, com as primeiras cores do nascer do Sol para os lados da Granja. Passado o Tojal, seguiu-se a subida da margem direita do Trancão, com a aldeia do Zambujal do outro lado. Fanhões era a primeira “etapa” … e com 12,5 km percorridos em menos de duas horas e meia … estávamos satisfeitos com a média... J!

4.09.2013, 6,25h - A "aventura" começou bem de noite...
Ao fundo o Pico da Aguieira
Ruínas de velhas quintas, na encosta fronteira à aldeia do Zambujal (Foto: José Baleiras)
Uma travessia desta dimensão tinha forçosamente de incluir troços de alcatrão, no entanto procurámos reduzi-los ao mínimo e, a maioria dos que houve, em estradas e caminhos secundários. De Fanhões para Ribas de Baixo (para a qual curiosamente se sobe...) percorremos a Serra do Picoto, passando precisamente entre os fortes do Picoto e de Ribas. E em Ribas de Baixo fizemos a primeira curta paragem, para o café matinal. O Cabeço de Montachique ia ficando a sudoeste, à medida que nos aproximávamos da Póvoa da Galega, com a linha de chaminés do complexo vulcânico de Lisboa no horizonte.

Ao fundo o Cabeço de Montachique
Póvoa da Galega e as chaminés do complexo vulcânico de Lisboa
Entre Roussada e Jeromelo cruzámos a linha do Oeste, descendo depois para a Ribeira de Pedrulhos. E à metade do caminho, com 30 km percorridos, 5 minutos depois do meio dia resolvemos parar em Vila Franca do Rosário, para o necessário reforço alimentar.

Linha do Oeste, próximo de Roussada
Aldeia de Jeromelo
Com a Tapada de Mafra à nossa esquerda, próximo do Gradil voltámos a passar por duas vezes a Ribeira de Pedrulhos, para depois rumarmos a norte, para o LivramentoAsseiceira e Poços, próximo de Freiria.

Ao fundo a Serra do Socorro
Paisagens rurais, entre Aboboreira e Freiria
Um dos troços mais bonitos da caminhada foi a vertente da Serra de Sarreira para a Moucharia, já com a linha de costa a perceber-se no horizonte ... e com a brisa do mar a começar a refrescar um pouco uma tarde quente. Uma breve paragem na Carregueira permitiu-nos breves momentos de conversa com 4 senhoras que descansavam à porta do café ... espantadas quando lhes dissemos de onde vínhamos e para onde íamos... J! Um pequeno reforço hídrico e alimentar ... e os pobres pés um pouco ao ar... J!

Cumeada da Serra de Sarreira, descendo para a Moucharia
Passadas as imediações de S. Pedro da Cadeira, chegámos ao Sizandro, onde ainda há pouco mais de um mês tinha chegado vindo de Torres Vedras. Tal como naquele dia, dali à Foz acompanhámos os meandros do rio, chegando ao Atlântico vinte minutos depois das seis da tarde, com o espectáculo do pôr-do-Sol no mar a iniciar-se ... e com 55 km nos pés! Pessoalmente, tinha batido pouco antes o meu anterior "record" de distância num dia, os 54 km da Malcata à Gardunha.

Praia da Foz do Sizandro,
18:20h ... com 55 km já percorridos
A travessia da Praia Azul, para o autor destas linhas ... foi a parte mais penosa da caminhada. A progressão na areia, mesmo junto ao mar, não é propriamente o meu forte...; mas a dificuldade era compensada pelo espectáculo do mar e do gradual recolher do astro rei!

Travessia da Praia Azul, ante o imponente espectáculo do pôr-do-Sol no mar
E ... estávamos quase a atingir o objectivo! Na subida ao Alto da Vela e descida para Santa Cruz, íamos fazendo conjecturas sobre onde os nossos GPSs iriam marcar os "históricos" 60km...! Santa Helena, a padroeira de Santa Cruz, abençoou o pouco que faltava ... e agradecemos-lhe o muito que já tínhamos palmilhado!

A Praia Azul fica para trás ...
... e surge Santa Cruz, do Alto da Vela
Obrigado Santa Helena, padroeira de Santa Cruz
Os 60km aconteceram exactamente em Santa Cruz, na "minha" velha praia, pouco depois da Torre que é um ícone da pérola do Oeste, ante um espectacular pôr-do-Sol. Sem dúvida ... um momento "mágico"!

Santa Cruz: Praia Formosa
Que melhor prenda poderíamos ter, no final desta longa jornada?...
Os 4 "heróis" no momento dos 60 km!
Estava cumprida a "promessa": 60 anos ... 60 km!
E como todos os momentos mágicos têm um epílogo ... o epílogo foram mais dois quilómetros suplementares, até ao extremo norte de Santa Cruz ... onde em casa do irmão e cunhada deste carola do pedestrianismo eles e os pais de ambos esperavam os quatro "aventureiros que, 14 horas antes, tinham saído da Bobadela. A missão estava cumprida!
Os números desta "aventura":
Distância percorrida: 61,85 km
Tempo total: 14 horas / Tempo de paragens: 1h 25m / Média de marcha: 4,92 km/h
Desnível acumulado: de subida - 1086m / de descida - 1102m


Aqui fica o meu agradecimento aos meus três companheiros desta simbólica travessia. Obrigado amigos ... e será que de aqui a 10 anos fazemos 70 quilómetros?... J

domingo, 11 de agosto de 2013

Assombrações e Portais da Serra da Lua

Conhecida na antiguidade como Monte da Lua, Serra Solércia ou Monte Sagrado, a Serra de Sintra sempre foi considerada como sagrada desde tempos imemoriais. As suas lendas, narrativas, história e esoterismo conferem-lhe o estatuto de Serra Sagrada por antigos e clássicos. Entre alguns locais particularmente encantatórios, destacam-se a Quinta da Regaleira, as grutas do Castelo dos Mouros, a demanda do Santo Graal e o Parque da Pena, o Convento dos Capuchos e a alquimia, as inscrições hindus da Penha Verde, o Palácio da Vila, os templários e os árabes de Sintra, a célebre profecia da Serra da Lua, ou ainda Mafra e o V Império, Cascais e a enigmática "Boca do Inferno".
É neste contexto que a "Casa do Fauno" tem dinamizado uma série de caminhadas nocturnas, sob o tema geral "Sintra Assombrada". O tema - e a própria "Casa do Fauno" - há algum tempo que me haviam despertado a curiosidade ... e a oportunidade surgiu neste sábado, em que o "desafio" eram as "Assombrações e Portais da Serra".
Acompanhado pela minha "donzela encantada", aproveitámos para ir conhecer a Casa e a sua espectacular envolvência, propícia desde logo aos voos da imaginação e do esoterismo. A Casa do Fauno situa-se no coração da Serra de Sintra, por entre carvalhos, azevinhos e outro arvoredo, dentro da Quinta dos Lobos, num terreno que em tempos fez parte da floresta de Almosquer, doada por D. Afonso Henriques aos Cavaleiros Templários, no séc. XII.
«Aqui neste mesmo caminho,
aqui mesmo ontem
o Rei Fauno saltava.
Ele cantava, despreocupadamente e em voz alta,
vociferando o seu nome.
Ele cantava, no meio dos ramos de carvalho,
passando de rocha em rocha,
mantendo-se protegido:
"Aqui o Fauno é livre,
aqui o Fauno é livre!
(Robert Graves, Fauno)                                                                        
Não estávamos longe de outro local bem ligado ao esoterismo, a Quinta e o Palácio da Regaleira, verdadeira mansão filosofal de inspiração alquímica. E assim, às dez da noite lá estávamos nós na "Casa do Fauno", prontos para recebermos o que a organização nos propunha:
"Que os Portais da Serra se abram para nós e nos levem a outras dimensões,
que o nefasto não nos atinja mas que se nos revele!
"
A Casa do Fauno, na Quinta dos
Lobos, Caminho dos Frades, Sintra
Os candidatos à revelação eram ainda umas boas dezenas de pessoas. Durante quase quatro horas, ouvimos lendas e mitos de lugares carregados de energias sobrenaturais. Maria João Martinho, a guia desta invulgar caminhada, narrava histórias de fenómenos insólitos e sobrenaturais - muitos mesmo da sua experiência pessoal - ao longo dos quase 10 quilómetros do percurso. De repente, sentíamo-nos protagonistas d'"O Último Portal", de Roman Polanski (“The Ninth Gate”, 1999), do qual algumas cenas foram aliás filmadas nChalet Biester, na estrada da Pena.

Ouvindo as histórias de assombrações
e portais da Serra da Lua, 10.08.2013
E assim ouvimos a história do Quarto nº 18 do Hotel Tivoli, no Palácio de Seteais, assombrado pelo Conde que nele morreu; ou a história dos amores de D. Fernando de Saxe-Coburgo e da Condessa d'Edla, cujo Chalet foi consumido pelo fogo em 1999, quiçá observado pelo fantasma angustiado da condessa, entoando uma ária das que cantou no princípio da sua vida romanesca. Ou ainda a arrepiante história do "fantasma da boleia", ou a autêntica "chuva de pedras" da Quinta da Penha Verde, em 17 de Outubro de 1982: durante seis horas, as pedras da calçada apareciam no ar e caíam, fenómeno testemunhado por bombeiros, GNR e populares.
Portais secretos para uma outra dimensão?...
Mas também ouvimos as vivências da própria Maria João Martinho, como quando depara com a figura lúgubre de um homem amparado por um cajado, no meio da estrada, e a seguir vê um grupo de pessoas cobertas por mantas coloridas ... pessoas que o amigo que com ela circulava afirma que não vê; ou quando o seu carro continuava a trabalhar mesmo depois de desligado e retirada a chave da ignição, ou, noutra altura, quando se vê transportada, no seu carro, para uma estrada desconhecida, onde as acácias roçavam os vidros ... e de repente aparece no cruzamento da estrada dos Capuchos.
O Fauno, Casa do Fauno
Era já quase uma e meia de uma madrugada bem escura quando começámos a descer o caminho assombrado do Vale dos Anjos, onde por vezes as pessoas se sentem acompanhadas por entidades desconhecidas, ouvindo-se ruídos estranhos, passos, pancadas nas costas, reflexos talvez da passagem de cavaleiros templários ali perdidos no tempo. Trilho estreito e pedregoso, entre os muros da Penha Verde e da Regaleira, aqueles 900 metros de descida foram demorados ... provavelmente vigiados e protegidos pelo Rei Fauno...
Sem percalços de maior para além da escuridão, 15 minutos depois das duas da manhã terminávamos esta caminhada de sentidos pelos mistérios de Sintra, numa noite excepcionalmente quente. Com um grupo bastante menos numeroso, teríamos certamente ouvido o som das corujas, ou de qualquer outro animal da serra ... ou, quem sabe, teríamos recebido o contacto de alguma das muitas assombrações da Sintra assombrada, ou atravessado algum portal para uma outra dimensão...