sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Travessia da Serra da Estrela

4 dias de trekking: Vila Soeiro / Loriga - 62 km

Para além das fragas percorridas nas montanhas, bosques e vales essencialmente da nossa Ibéria ... também percorro frequentemente os trilhos virtuais da grande rede que a tecnologia do séc. XXI colocou à disposição de (quase) todos. Ao longo dos trilhos da net, há já algum tempo que me chamavam a atenção os "Trilhos de Ideias", projecto de turismo de Natureza de um jovem casal especializado e apaixonado pela Serra da Estrela. O "cartão de visita" seduziu-me logo à partida:
"Explorar vales glaciários e covões apenas acessíveis a pé (...) pernoitar sob as estrelas em travessias de montanha em autonomia (...) refrescar-se em lagoas e cascatas de águas cristalinas (...) percorrer arestas rochosas e corredores gelados para chegar aos cumes da nossa maior montanha."
E assim, naturalmente, surgiu a minha inscrição nos 4 dias intensos que acabei de viver na "mãe de todas as caminhadas", como a "Trilhos de Ideias" chama à travessia da Serra da Estrela. De nordeste para sudoeste, atravessámos todo o maciço montanhoso, desde Vila Soeiro até Loriga, ao longo de dois dos maiores vales glaciários da Serra, com passagem por típicas aldeias de montanha, pela Torre ... e culminando com a espectacular Garganta de Loriga!

Vila Soeiro, 9.09.2013, 13:15h - Começou a travessia
da Serra da Estrela, junto ao Mondego
Foi a primeira vez que participei numa "aventura" organizada por qualquer das várias empresas de turismo de Natureza que começam a proliferar também no nosso país. O que tinha lido e ouvido nunca me tinha seduzido para essa opção, fundamentalmente pela "massificação" dos grupos formados e pelo impessoal que se torna participar numa actividade com tanta gente desconhecida, com guias desconhecidos...! Excepto quando se anda sozinho, caminhar, desbravar os grandes espaços e as grandes panorâmicas, não é só andar, é ou deveria ser também partilhar as sensações, criar novas amizades, viver e aprender com a experiência de quem nos está a guiar e que transmite a sua paixão pelo que está a fazer e pela região a que se dedicou.
O vale do Mondego, entre Vila Soeiro e Trinta, 9.09.2013
Ora, foi tudo isto e muito mais que encontrei na "Trilhos de Ideias": actividades exclusivamente na Serra da Estrela, na qual se especializaram; um máximo de 4 a 5 participantes; exemplar orientação do grupo, com explicação do que de relevante existe em cada local; apoio logístico em termos de transporte de material, nomeadamente de acampamento na serra. Muito mais do que 2 empresários e 4 clientes ... fomos 6 amigos que viveram e conviveram ao longo de quatro dias de uma fabulosa travessia da Serra!
E a "aventura" começou assim à hora do almoço de 2ª feira, dia 9, entre as aldeias de Vila Soeiro e Trinta, ao longo do vale do Mondego. 9 km de uma subida gradual, acompanhando de perto os meandros do jovem rio e o que resta de velhas quintas e fábricas de lanifícios.

Quinta do Fojo, vale do Mondego
Subida para a aldeia de Trinta. Haverá melhor catedral?...
Depois de um opíparo jantar no "Ponto de Encontro" da simpática Dona Mena, ainda na aldeia de Trinta, a primeira dormida foi em Videmonte. A jovem co-fundadora da "Trilhos de Ideias" leva-nos as "trouxas" maiores e restante equipamento na carrinha da empresa, na qual se fazem igualmente os transfers necessários. E em Videmonte ficámos alojados na Casa Abrigo da Junta de Freguesia, uma muito agradável casa tradicional de pedra, nas traseiras da igreja. Como madrugador que sempre fui ... um pequeno passeio matinal permitiu-me assistir no dia seguinte ao magnífico nascer do Sol!

Videmonte, 10.09.2013, 7:00h - O Sol vai nascer...
Um curto transfer levou-nos de Videmonte à pequeníssima aldeia de Quinta da Taberna, "perdida" nas profundezas do vale do Mondego, Mondego que foi o rei e senhor das panorâmicas fabulosas de grande parte da segunda jornada pedestre. Acima já dos mil metros de altitude e em direcção sudoeste, subindo o rio, o olhar levava-nos para panorâmicas fabulosas. Do lado de lá do vale percebia-se a Portela de Folgosinho e as muitas linhas de água que alimentam o ainda jovem Mondego.

Quinta da Taberna, 10.09.2013, 9:10h - Começou a 2ª caminhada da travessia
Subida da encosta da Serra do Gato
Vale do Mondego e, ao fundo, a Portela de Folgosinho
O jovem Mondego
Cântaros e Torre à vista!
Sobre o Covão da Ponte e ao longo do chamado Corredor de Mouros, começámos a avistar ao fundo os Fragões das Penhas, primeiro, e depois os Cântaros e a Torre! Mas ainda faltavam dois dias para lá chegarmos... J!

O vale do Zêzere começa a avistar-se
Antes das quatro da tarde começávamos a descida para Manteigas. Em linha recta, os vales do Mondego e do Zêzere distam neste ponto uns escassos 4 km. E a descida para Manteigas, ao longo da Ribeira de Pandil, foi outro ponto alto do dia, pelas saborosas sombras, pelo melodioso cantar das águas ... e até pela saborosa conversa com um pastor que, ao ritmo da terra e do vento, apascentava numeroso rebanho de cabras.

Descida para Manteigas, ao longo da Ribeira de Pandil
Ainda há
pastores...
Cruzando a Ribeira das Forcadas e pela Fonte dos Namorados, pouco depois das cinco da tarde entrávamos em Manteigas, com o vale do Zêzere sempre espectacular.

Manteigas e o vale do Zêzere, quase no final da 2ª jornada
Até o painel da Fonte dos Namorados condiz com a simpatia do jovem casal de empresários da "Trilhos de Ideias": em cada separação (ele como guia pedestre, ela como responsável pela condução da carrinha de apoio), não deixava de haver o beijo da despedida ou do saudoso reencontro... J.
Bonito de se ver, nesta época e neste mundo tão conturbado e agressivo!

Fonte dos Namorados,
à entrada de Manteigas
Em Manteigas ... o jantar e alojamento foram "de luxo"... J! Fazendo parte da diversificação da actividade, ficámos instalados no Hotel "Berne", à beirinha mesmo do Zêzere. Tínhamos feito sensivelmente 22 km não propriamente "de passeio", merecíamos um bom descanso... J.

Manteigas, 11.09.2013, 9:30h - Vai começar a 3ª etapa da travessia...
A terceira "etapa" era aquela que pessoalmente conhecia melhor: a subida do vale glaciar do Zêzere, de Manteigas ao Covão da Ametade.
E lá vamos subir o vale glaciar
No primeiro dia de Setembro de 2012, tinha-o descido com elementos do Clube de Montanhismo da Guarda, no MegaTransect da Estrela. Já conhecia portanto todo o percurso, mas as perspectivas são sempre diferentes. Com quase 6 km de subida e de novo acima dos mil metros de altitude ... foi o local escolhido para o aprazível almoço. Não poderia haver melhor local ... mas as tentativas de mergulhar nas águas do Zêzere por parte de dois dos presentes é que não passaram dos pés ... que mesmo assim quase congelaram... J.

Junto às límpidas e gélidas águas do Zêzere ... que melhor sítio poderia haver para o almoço?...
Subida do vale glaciar
A subida do vale glaciar do Zêzere é espectacular, mesmo para quem já o conhecia. Sucedem-se velhas cabanas de montanha, algumas com telhados de colmo; notam-se os efeitos de antigos glaciares e das linhas de água que alimentam o vale, como a Ribeira da Candeeira ... que ainda um dia tenho de subir ou descer... J.

Base da Ribeira da Candeeira, 1140m alt.
Natureza em estado puro...
Aos 1350 metros de altitude, o trilho chega à estrada Manteigas - Torre, junto à Ribeira da Barroqueira. Dali ao Covão da Ametade é um salto, sempre com o Cântaro Magro a vigiar-nos. E como não há duas sem três, depois do refúgio de Videmonte e do hotel em Manteigas ... a terceira noite foi noite de campo, acampando no Covão da Ametade! Mais uma vez, tudo é a cargo da "Trilhos de Ideias", desde as tendas aos sacos cama. E que belo local para esta última noite, com fogo de campo (nos churrascos ali existentes para o efeito), um belo jantar de campo, que entre outras especialidades incluiu umas deliciosas moelas, chouriça assada e couscous ... tudo bem regado com néctares da Beira Interior... J.

No Covão da Ametade (1420m
alt.), preparando o acampamento ...
... e um
belo jantar!
Neste jantar participou também aliás um amigo de Vale de Espinho que, residindo na Covilhã, me resolveu fazer uma visita e ao grupo. A uma "Quinta dos Termos" que eu havia levado para o efeito ... juntaram-se mais umas que o amigo Carlos levou... J. A noite caiu, mas os frontais e a vontade de viver iluminavam a animação. Cantar, viver, conviver, ao calor de um fogo de campo ... e senti-me por momentos transportado para os meus 17 ou 18 anos, quando iniciei o meu percurso pelas "fragas e pragas" de uma vida ao ar livre...

Jantar à luz de frontais...
e os meus "aposentos" no Covão da Ametade
E como toda a história tem um fim, chegou o último dia da travessia da Serra. Último ... mas que dia! Tal como prometido no programa, a quarta e última "etapa" foi a "cereja em cima do bolo"! Do Covão da Ametade a Loriga, o percurso passava pelo Espinhaço de Cão e Torre, a que se seguia a descida da espectacular Garganta de Loriga! 20 km ... absolutamente fabulosos!

Covão da Ametade, 12.09.2013: a fabulosa equipa destes fabulosos 4 dias!
E aí vamos nós para a 4ª etapa...
Um íltimo adeus ao vale do Zêzere
Uma lesão num pé obrigou um dos membros a desistir do percurso no último dia; a equipa ficou assim reduzida a 4 elementos. Começámos por subir à Nave de Santo António, seguindo-se o espectacular trilho do Espinhaço de Cão, sobre o vale de Alforfa e a barragem do Covão do Ferro.

Subida da Nave de Santo António ao Espinhaço de Cão
Panorâmica do Espinhaço de Cão para o vale de Alforfa e a barragem do Covão do Ferro
Let's fly...J
Rumo à
Torre
Do espectacular trilho do Espinhaço de Cão passámos por momentos à estrada Nave - Torre, junto à Senhora da Boa Estrela, para logo a seguir rumarmos directamente à Torre.

A Senhora da Boa Estrela abençoou-nos esta fantástica caminhada...
Subida à Torre (1916m alt.), com o Cântaro Magro a destacar-se na paisagem
A simbólica Torre do topo da Serra
À medida que subíamos, atrás de nós estendia-se a soberba panorâmica que se abre para leste. Lá ao fundo ... lá estavam as "minhas" Serras da Malcata e das Mesas, o "meu" Xalmas, as colinas da Gata e da Penha de França e até, já um pouco perdidas na neblina, as alturas de Béjar.
Com os seus 1993 metros de altitude (ou os 2000 completados pela torre), a Torre da Serra da Estrela limita-se ao simbolismo de ser o ponto mais alto de Portugal Continental. É lamentável o estado de degradação de alguns locais e até de placas sinalizadoras ... nomeadamente do "Centro Comercial" ali construído.
Após a merenda e o café (pago a preço francês ou alemão, num "restaurante" cujos sanitários não tinham papel higiénico nem sabonete...), esperava-nos a descida aos Poços e à Garganta de Loriga. Pessoalmente, já conhecia a panorâmica da Penha dos Abutres sobre Loriga e a que se tem da zona das Salgadeiras para aquela famosa garganta. Mas ... não fazia ideia da imponência e da fantástica "aventura" que é descer (e que também há-de ser subir) a Garganta de Loriga! Trata-se de mais um dos vales glaciários da Serra, acompanhando a Ribeira da Nave, mais popularmente chamada Ribeira das "Courelas".

A caminho dos Poços e da Garganta de Loriga
Lagoa do Covão do Quelhas
Orvalhinha (Drosera rotundifolia)
A Garganta de Loriga é sem dúvida uma das mais fantásticas experiências de montanha na Serra da Estrela! São mais de 1100 metros de desnível, por trilhos ainda hoje percorridos por pastores e seus rebanhos, para chegar aos pastos de altitude, como aliás testemunhámos.
Durante a última glaciação, a paisagem terá sido completamente diferente, com uma massa imensa de neves perpétuas que vagarosamente ia fluindo e moldando o actual perfil desta espectacular garganta.
Fotografando as quita-merendas
(Merendera montana)
Vai começar o "mergulho" sobre Loriga...
Sobre o Covão do Meio e respectiva barragem
Meandros da Ribeira da Nave
E continuamos a "aventura"...
No Covão da Nave, fomos testemunhas de quão cedo começa a vida dura nesta serra e nestas gargantas agrestes: apascentando as suas ovelhas, um muito jovem pastor estava atento ao seu trabalho e até ao local por onde iríamos passar. Ele e o pai, que um pouco mais tarde desceu das alturas com as cabras ... pareciam voar nos paredões rochosos que nos ladeavam. Ainda há pastores na Serra!

Descida para o Covão da Nave (1560m alt.)
Ainda há pastores!
(Covão da Nave)
E descem as cabras da vertente norte da Garganta de Loriga
Pouco depois das cinco da tarde estávamos já abaixo dos 1500 metros de altitude, no Covão da Areia, onde uma saborosa nascente nos saciou a sede. Mas o êxtase continuaria serra abaixo...

Sobre o Covão da Areia
Uma pausa na jornada ... que nem todo o caminho é fácil...!
Com os raios do Sol poente a começarem a projectar-se diante de nós e a Lua a nascer sobre os paredões rochosos, Loriga começou a aparecer no fundo daquela vertiginosa garganta.
O Sol poente ilumina Loriga e as serras ...
... enquanto a Lua nasce sobre os paredões rochosos da Garganta
De onde viemos...!
Vestígios das antigas moreias glaciares
E às sete e meia da tarde, quase com o Sol a esconder-se por trás das serras ... chegámos a Loriga e à Casa "O Vicente". Com 20 km percorridos desde o Covão da Ametade, aquelas mesas e cadeiras souberam a ouro! Mas os olhos e a alma vinham cheios de uma experiência de montanha inolvidável!

Loriga ao Sol poente!
"O Vicente", em Loriga ... onde acabou esta espectacular
travessia da Serra da Estrela
Mas a "aventura" tinha acabado? Não! N' "O Vicente", fechámos o dia com um jantar típico loriguense, as tradicionais calhorras, um prato de carnes e enchidos à base de feijão branco grande (a feijoca), cultivado nos campos daquela vila serrana. Curiosamente, junto à Escola Secundária de Sacavém, onde tantos e tantos anos dei aulas, ainda hoje se situa a Associação dos Naturais e Amigos de Loriga.

Os 6 intervenientes nesta "aventura" ... à volta
de uma mesa de "calhorras"!
Aconchegados os estômagos com as deliciosas iguarias que também muito simpaticamente nos serviram ... havia que regressar às bases. Mais uma vez, o jovem casal da "Trilhos de Ideias" faz o transfer para os locais de encontro iniciais, que no meu caso era a Guarda, para onde havia ido de autocarro 4 dias antes. Mas destes 4 dias fica realmente muito mais do que a recordação de dois empresários e três outros clientes. Destes 4 dias fica a recordação de um grupo de seis amigos, que viveram e conviveram ao longo de uma fabulosa travessia de montanha!
Travessia da Serra da Estrela
(álbum completo)
                                                                                                                            Desejo à "Trilhos de Ideias" o maior sucesso e as maiores venturas, continuando a transmitir a sua paixão pela Serra e pelo modo como a dão a conhecer e a viver. Obrigado Maria João e Rui, a experiência que vivi com vocês foi sensacional! Obrigado também Joana, João e Eduardo, uma equipa só é equipa quando os seus membros reflectem os sentimentos de partilha, da construção de amizades ... do sabor da vida! A todos ... até à próxima!
(Começado a escrever no autocarro Guarda - Lisboa, 13.09, publicado a 16.09.2013)
 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Da Várzea de Loures à Costa Oeste - 62 km

Depois das "assombrações" em Sintra, o mês de Agosto não teve mais "aventuras" ... a não ser a aventura de passar 24 horas por dia, em Vale de Espinho, com 3 neto(a)s entre os 3 e os 5 anos... J.
A sede de caminhar já era portanto muita; ora, dizendo o bilhete de identidade e o calendário que o autor destas linhas ganhou há uma semana o estatuto de sexagenário, porque não correlacionar dois números? - 60 anos ... 60 km... J!
Em 27 de Abril de 2012 já tinha testado os meus limites, ao ligar a solo a Malcata à Gardunha. Onde bater esse record e perfazer os "redondos" 60km? Bem ... uma hipótese era ir a pé de casa àquela que, durante a minha meninice e adolescência, foi ... a "minha" praia: Santa Cruz.
Estudadas as cartas e feita uma "prospecção" à frente do meu velho OziExplorer, lancei o desafio a alguns companheiros destas lides das grandes jornadas pedestres. Com grande pena minha, nenhum dos que viveram comigo a aventura do Monte Perdido Extrem estava disponível ... mas três já "velhos" companheiros de várias GRDs responderam ao repto... J!
E assim ... às seis da manhã estávamos a partir da Bobadela em direcção ao vale do Trancão e à várzea de Loures. É o troço inicial dos caminhos de Fátima ... ou de Santiago! O dia começou a clarear pouco antes das ruínas da velha Quinta do Monteiro Mor, com as primeiras cores do nascer do Sol para os lados da Granja. Passado o Tojal, seguiu-se a subida da margem direita do Trancão, com a aldeia do Zambujal do outro lado. Fanhões era a primeira “etapa” … e com 12,5 km percorridos em menos de duas horas e meia … estávamos satisfeitos com a média... J!

4.09.2013, 6,25h - A "aventura" começou bem de noite...
Ao fundo o Pico da Aguieira
Ruínas de velhas quintas, na encosta fronteira à aldeia do Zambujal (Foto: José Baleiras)
Uma travessia desta dimensão tinha forçosamente de incluir troços de alcatrão, no entanto procurámos reduzi-los ao mínimo e, a maioria dos que houve, em estradas e caminhos secundários. De Fanhões para Ribas de Baixo (para a qual curiosamente se sobe...) percorremos a Serra do Picoto, passando precisamente entre os fortes do Picoto e de Ribas. E em Ribas de Baixo fizemos a primeira curta paragem, para o café matinal. O Cabeço de Montachique ia ficando a sudoeste, à medida que nos aproximávamos da Póvoa da Galega, com a linha de chaminés do complexo vulcânico de Lisboa no horizonte.

Ao fundo o Cabeço de Montachique
Póvoa da Galega e as chaminés do complexo vulcânico de Lisboa
Entre Roussada e Jeromelo cruzámos a linha do Oeste, descendo depois para a Ribeira de Pedrulhos. E à metade do caminho, com 30 km percorridos, 5 minutos depois do meio dia resolvemos parar em Vila Franca do Rosário, para o necessário reforço alimentar.

Linha do Oeste, próximo de Roussada
Aldeia de Jeromelo
Com a Tapada de Mafra à nossa esquerda, próximo do Gradil voltámos a passar por duas vezes a Ribeira de Pedrulhos, para depois rumarmos a norte, para o LivramentoAsseiceira e Poços, próximo de Freiria.

Ao fundo a Serra do Socorro
Paisagens rurais, entre Aboboreira e Freiria
Um dos troços mais bonitos da caminhada foi a vertente da Serra de Sarreira para a Moucharia, já com a linha de costa a perceber-se no horizonte ... e com a brisa do mar a começar a refrescar um pouco uma tarde quente. Uma breve paragem na Carregueira permitiu-nos breves momentos de conversa com 4 senhoras que descansavam à porta do café ... espantadas quando lhes dissemos de onde vínhamos e para onde íamos... J! Um pequeno reforço hídrico e alimentar ... e os pobres pés um pouco ao ar... J!

Cumeada da Serra de Sarreira, descendo para a Moucharia
Passadas as imediações de S. Pedro da Cadeira, chegámos ao Sizandro, onde ainda há pouco mais de um mês tinha chegado vindo de Torres Vedras. Tal como naquele dia, dali à Foz acompanhámos os meandros do rio, chegando ao Atlântico vinte minutos depois das seis da tarde, com o espectáculo do pôr-do-Sol no mar a iniciar-se ... e com 55 km nos pés! Pessoalmente, tinha batido pouco antes o meu anterior "record" de distância num dia, os 54 km da Malcata à Gardunha.

Praia da Foz do Sizandro,
18:20h ... com 55 km já percorridos
A travessia da Praia Azul, para o autor destas linhas ... foi a parte mais penosa da caminhada. A progressão na areia, mesmo junto ao mar, não é propriamente o meu forte...; mas a dificuldade era compensada pelo espectáculo do mar e do gradual recolher do astro rei!

Travessia da Praia Azul, ante o imponente espectáculo do pôr-do-Sol no mar
E ... estávamos quase a atingir o objectivo! Na subida ao Alto da Vela e descida para Santa Cruz, íamos fazendo conjecturas sobre onde os nossos GPSs iriam marcar os "históricos" 60km...! Santa Helena, a padroeira de Santa Cruz, abençoou o pouco que faltava ... e agradecemos-lhe o muito que já tínhamos palmilhado!

A Praia Azul fica para trás ...
... e surge Santa Cruz, do Alto da Vela
Obrigado Santa Helena, padroeira de Santa Cruz
Os 60km aconteceram exactamente em Santa Cruz, na "minha" velha praia, pouco depois da Torre que é um ícone da pérola do Oeste, ante um espectacular pôr-do-Sol. Sem dúvida ... um momento "mágico"!

Santa Cruz: Praia Formosa
Que melhor prenda poderíamos ter, no final desta longa jornada?...
Os 4 "heróis" no momento dos 60 km!
Estava cumprida a "promessa": 60 anos ... 60 km!
E como todos os momentos mágicos têm um epílogo ... o epílogo foram mais dois quilómetros suplementares, até ao extremo norte de Santa Cruz ... onde em casa do irmão e cunhada deste carola do pedestrianismo eles e os pais de ambos esperavam os quatro "aventureiros que, 14 horas antes, tinham saído da Bobadela. A missão estava cumprida!
Os números desta "aventura":
Distância percorrida: 61,85 km
Tempo total: 14 horas / Tempo de paragens: 1h 25m / Média de marcha: 4,92 km/h
Desnível acumulado: de subida - 1086m / de descida - 1102m


Aqui fica o meu agradecimento aos meus três companheiros desta simbólica travessia. Obrigado amigos ... e será que de aqui a 10 anos fazemos 70 quilómetros?... J