domingo, 7 de abril de 2019

Nas rotas do contrabando, na raia seca de Vilarelho da Raia (Chaves)

... e nas minas romanas de Tresminas (Vila Pouca de Aguiar)

Onde há raia há contrabando. E há também histórias de contrabando. Histórias contadas pelas pessoas que no escuro da noite seguiam por caminhos traçados e imaginados em direcção à raia. Iam curvados com o peso das cargas e do receio de serem descobertos pela Guarda Fiscal ou pelos carabineiros. Com os olhos vigiavam o caminho, com os lábios recitavam orações, porque sabiam que era no campo sagrado que podiam procurar ajuda para que o pé fosse leve, apesar do peso da carga e para que os fardados não lhes saltassem ao caminho.
("Caminhos do Contrabando", Centro de Estudos Ibéricos)
No primeiro fim de semana de Abril, os Caminheiros Gaspar Correia tinham agendada uma actividade na zona raiana de Chaves, cujo ponto alto era a participação do grupo numa recriação das velhas rotas do contrabando, entre Vilarelho da Raia e as aldeias de San Cibrao e Rabal, em Espanha (Galiza), recriação organizada pelo Centro Social Cultural e Desportivo de Vilarelho da Raia, com a colaboração de habitantes locais e de ex-contrabandistas.
Neve na auto-estrada A24, 6.Abr.2019, 11h20
A meteorologia prometia um fim de semana de frio, chuva ... e até neve ... neve que nos surgiu em quantidade logo na longa viagem para norte, nas terras altas de Aguiar. Rumo à Galiza, a primeira caminhada começava em Oímbra, a meio caminho entre as terras altas, o vale de Monterrei e a fronteira portuguesa, onde chegámos à hora do almoço, no largo central daquele pobo raiano.
Oímbra está incluída na Denominação de Origem Monterrei, com vinhos de grande qualidade, como testemunha o facto de ser o concelho da Galiza com maior quantidade de lagares rupestres, vestígios arqueológicos que formaram antigas bases de prensas para uvas esmagadas e outras frutas (azeitona, maçã...) e escavadas em afloramentos rochosos naturais. De data imprecisa, os estudos científicos desenvolvidos até hoje apontam uma origem medieval, quando pequenos viticultores faziam o vinho entre as vinhas e não nas adegas, como acontece provavelmente desde os séculos XVII e XVIII.
Oímbra, no largo central, onde
iniciaríamos a Ruta dos Lagares
A Ruta dos Lagares de Oímbra foi portanto a primeira caminhada deste fim de semana, numa tarde em que o Sol por vezes aparecia por entre as nuvens escuras e alguns borrifos de chuva gélida.

Início da ruta: vultos por entre a folhagem primaveril
Ruta dos Lagares ... com as cores da Primavera
e o branco de um Inverno que voltou...
Pouco depois das quatro estávamos de regresso a Oímbra, entrando pela Igrexa de Santa María, de estilo clássico galego. Só então regressámos a terras lusas, fazendo de Chaves a nossa base ... para a "aventura" que nos esperava mais à noite...
Regresso a Oímbra, 16h15: Igrexa de Santa María
Uma vez montado o "acampamento" em Chaves, pouco depois das 18h30 rumámos a Vilarelho da Raia. Tanto Chaves como Vilarelho fazem parte do Caminho Português Interior de Santiago, o que para o Santiagueiro autor destas linhas foi uma sensação especial ... até por razões que o Tempo se encarregará de explicar. No Centro Social e Cultural de Vilarelho da Raia, depois de uma representação do respectivo Grupo de Cantares esperava-nos um saboroso e nutritivo rancho; a noite seria longa e tínhamos pesados fardos de contrabando a transportar pelas escuras veredas da raia...
Vilarelho da Raia, 6.Abr.2019, 21h10: os "contrabandistas"
recebem instruções dos "intermediários" do "patrão"...
Mais do que um "ganha - pão", o contrabando foi, durante algumas décadas do século passado, um modo de vida de várias localidades de fronteira. Pela calada da noite, grupos organizados transaccionavam vários produtos para um e outro lado da fronteira com Espanha. Ora, estando ligado à zona raiana do Sabugal e tendo participado já em recriações deste tipo em Vale de Espinho, Aldeia da Ponte e outras aldeias raianas, a experiência vivida em Vilarelho da Raia ultrapassou contudo todas as minhas expectativas e creio que as de todos os elementos do grupo!
Organizados em grupos de 15 "contrabandistas", cada um com 2 guias, saímos do local de carga dos fardos para a noite escura e fria. Evidentemente, não havia frontais, nem iluminação de qualquer tipo ... com a qual rapidamente seríamos apanhados pelos guardas fiscais e/ou pelos carabineiros. E como na época recriada não havia telemóveis ... nem era permitido registar imagens da "aventura", a não ser no local de carga e no local de entrega do "contrabando", já em Espanha. Daí incluir aqui esta reportagem RTP sobre uma recriação realizada também pelo CSCDVR em Agosto passado. Claro que a destreza de todos os nossos "contrabandistas" não é igual. A uns pesava-lhes mais o fardo, outros andavam menos ligeiros ... principalmente quando era preciso agilidade ... e quando os lobos começaram a uivar na serra! E de repente ... a guarda fiscal! Tiros! O cheiro a pólvora no ar! "Para onde vai com esse carregamento?", perguntou um guarda à minha parceira ... que até é arraiana, como os leitores destas "páginas" sabem. "Não sei, vou para onde me mandarem", respondeu... 😊. Mas lá a deixaram seguir. Outros e outras ... caíram em charcos da chuva que começou a cair! Por vezes o vulto da frente desaparecia na noite ... por vezes por isso seguíamos veredas erradas ... mas logo o nosso "passador" nos encontrava e nos metia na linha. Pelo caminho encontrámos um pobre emigrante perdido, a passar a salto, perguntando-nos se íamos para a França...
San Cibrao, 23h10 ... na entrega
dos fardos ao patrão espanhol...
Às onze horas estávamos na raia. Tínhamos percorrido um pouco mais de 5 km, faltava pouco mais de 1 km para San Cibrao, onde íamos entregar a mercadoria ao receptador ... recebendo uma nota de cem pesetas pelo fardo chegado ao destino. A missão estava cumprida!
Regressados a Portugal, a aventura do contrabando ainda não tinha acabado. Ao entrar em Vilarelho ... soubemos que alguns contrabandistas
San Cibrao, 23h40 ... vamos regressar a Portugal
tinham sido apanhados pela guarda fiscal; o pobre emigrante perdido, esse foi apanhado pelos carabineiros e repatriado. E lá fomos todos para o quartel da guarda fiscal, tentar dar-lhes algum apoio moral.
Sob os olhares de Salazar e Américo Tomás, nas fotos da sala do quartel, assistimos ao julgamento sumário dos contrabandistas e do pobre emigrante, repatriado por dois carabineiros. Vilarelho da Raia viu passar muita gente anónima, mas alguns presos políticos também ali fizeram os trilhos da fuga, como Álvaro Cunhal. "Passou ali no cimo da aldeia e depois esperaram-no do outro lado e levaram-no para França", contou emocionado um ex-contrabandista.

Quartel da Guarda Fiscal de Vilarelho da Raia, 0h20 / 0h45: recriação do julgamento de contrabandistas e emigrante
Era quase uma da manhã quando saímos do quartel; a mercadoria ficou apreendida e o pobre emigrante ainda foi interrogado à porta fechada; ouvimos os gritos de dor das bengaladas com que foi mimado! A recriação foi fiel ao pormenor!
No final, tal como os verdadeiros contrabandistas que escreveram na pele a história das gentes da raia, tínhamos à espera um mata-bicho de pão, figos secos e sardinha em lata! E eram duas da manhã quando regressámos à nossa "base", em Chaves. As setas amarelas do Caminho Interior de Santiago, tanto em Vilarelho da Raia como em Chaves ... essas pode ser que as volte a ver dentro em breve...

No Complexo Mineiro Romano de Tresminas
A noite foi curta para os improvisados contrabandistas Caminheiros. No dia seguinte ao "contrabando", a actividade do fim de semana incluiu ainda uma visita às minas romanas de Tresminas, em terras de Vila Pouca de Aguiar, não muito distantes das também auríferas Minas de Jales.

Nas terras xistosas de Aguiar, de onde os romanos extraíam ouro
O Complexo Mineiro Romano de Tresminas representa uma das mais importantes explorações de ouro do Império Romano. Os séculos I e II d.C. foram de intensa atividade mineira, principalmente para exploração de ouro, mas também de outros minérios, como prata e chumbo. Destes trabalhos resultou um conjunto monumental formado pelas cortas de exploração a céu aberto e por um interessante complexo de poços e galerias subterrâneas, das quais visitámos a principal.


Galeria das minas romanas de Tresminas, nas quais vive
uma pequena colónia de morcegos
Aldeia de Tresminas, junto ao Centro Interpretativo do Complexo Mineiro
Não encontrámos ouro ... mas encontrámos um completo e saboroso almoço na "Tasca do Chico", em Tresminas, depois da visita ao Centro Interpretativo ... e antes do longo regresso à capital do Império. Foi um fim de semana intensivo, mas um belo fim de semana, em que passámos por várias épocas, ambientes e vivências ... sempre com a alegria e amizade como elo de ligação entre aquelas, como tão bem se caracteriza a minha "família" Caminheira mais antiga.
Clique para ver o álbum completo

1 comentário:

filomena moura disse...

Boa e bela reportagem bem apoiada em texto e em imagem.
Parabéns Callixto