quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Fontes Lares: Em busca da bota perdida...

Em terras de Vale de Espinho - as terras a que me liguei há já mais de 40 anos - o sítio das Fontes Lares teve sempre para mim uma mística especial, muito por via destas duas fotos (afinal distanciadas no tempo apenas 10 anos), mas também por via das muitas memórias ligadas àquele local.
Fontes Lares, foto "histórica" no barroco "sagrado", 1963
Fontes Lares, 20 de Abril de 1973
As Fontes Lares eram um sítio "histórico", pertencente à família materna da pequena arraiana que um dia veio parar à minha vida. Um lugar cheio de memórias, sofridas, muitas, mas de memórias que o barroco "sagrado" parece sempre querer contar, rejuvenescidas a cada dia pelas águas límpidas e frescas da pequena nascente que dava e dá vida à pequena e velha presa e aos campos que a rodeiam. Situadas a 4 km da aldeia, para norte, conheci as Fontes Lares logo quando da minha primeira vinda a Vale de Espinho, no já longínquo ano de 1973! Ainda conheci a velha casa de pé ... a velha casa que viu as núpcias dos pais da minha estrela, depois de um casamento nocturno, num dia 28 de Abril de 1952. Sim ... um casamento nocturno ... mas isso são velhas lendas envoltas na bruma do tempo ... são contos aprendidos a uma lareira quase apagada ... a lareira da velha "avó de baixo" (a ti Maria "Clementa") ou da "avó de cima" (a ti Gusta B'gueira), como a minha Lala lhes chamava no seu linguarejar de menina raiana.
É muito raro vir a Vale de Espinho sem ir às "minhas" Fontes Lares. Há pouco mais de um ano dormimos ali, eu e a minha estrela ... sob  as estrelas. Aquele lugar e as suas memórias prenderam-me para sempre. Gosto de receber a energia do barroco "sagrado", de ver correr a água da nascente, de contemplar o freixo e o carvalho seculares ... mesmo que assistindo, ano após ano, ao desmoronar da velha casa, transformada em ruína ... a ruína que escolhi para última jazida das "minhas botas, velhas, cardadas, palmilhando léguas sem fim". Em Março de 2014, fiz ali o "funeral" a um meu primeiro par de botas, históricas, que muito já tinham palmilhado ... por fragas e pragas...; mais tarde um segundo par ali ficou também. Agora, no passado dia 12, no regresso da caminhada de Vale de Espinho, fiz um desvio ao "santuário" das Fontes Lares. Das minhas velhas botas ... faltava uma! E o seu par, dorido e sofrido, estava tombado. Na altura não havia tempo ... mas logo ali prometi a mim mesmo voltar às Fontes Lares ainda nesta estadia em Vale de Espinho ... em busca da velha bota perdida...

Nas ruínas da velha casa das Fontes Lares, 12.08.2016
- do primeiro par de velhas botas ... faltava uma!
A operação de "resgate" foi hoje, seis dias depois. A equipa ... eu e o meu júnior mais sénior e a respectiva "estrela". Apesar de não acostumados a caminhadas ... lá foram subindo comigo, pelo Areeiro e Có Pequena. E às dez e meia estávamos sentados ... no "meu" barroco "sagrado"!

Fontes Lares, 18.08.2016 - No barroco "sagrado", que tantas gerações já viu sentar, deitar ... disfrutar...
A operação de "resgate" mobilizou "forças" de intervenção a dois níveis: uma (o meu júnior João) ao nível do silvado onde era previsível que a bota estivesse caída; e outra (o autor destas linhas) ao nível "aéreo" ... ou seja no cimo da ruína da parede traseira da velha casa, onde um dia, há um ano e tal, deixei para a posteridade o meu primeiro par de botas Meindl. E, no meio das silvas ... lá estava moribundo um "corpo" caído da parede de pedra ... que rapidamente voltou à sua posição original.

O "corpo" tinha caído para esta selva de fetos e silvas ... mas o par de novo se juntou ... para a eternidade!
Resgatada a bota perdida ... a missão estava cumprida. Mas ... nunca gosto de voltar pelo mesmo caminho. Por isso, as ruínas da velha casa do ti Zé Tomé, as minhas velhas mariolas, o velho caminho da quelhe das pedras, o ribeiro da Presa ... conduziram-nos de regresso a Vale de Espinho e a casa. E, assim ... lá continuarão as "minhas botas, velhas, cardadas" ... recordando as "léguas sem fim" que já palmilharam. Quem sabe ... um dia serão acompanhadas por outras ... por bastões de caminhada ... pelas memórias das fragas e pragas vividas por quem um dia adoptou e foi adoptado por estas terras e gentes...

Cumprida a missão ... pai e filho no barroco "sagrado" ...
... e de regresso a Vale de Espinho, por entre as mariolas que um dia construí

Pela velhinha
quelhe das pedras
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A tempo de um almoço em família, antes das 13h estávamos de regresso a casa, com exactamente 8 km percorridos ... nem sempre os mais fáceis; uma enorme caminhada ... para 2/3 da equipa de "resgate"... J.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

De Vale de Espinho ao Sabugal Velho (Aldeia Velha)

A ADAVE - Associação dos Amigos de Vale de Espinho - organizou para este dia 12 de Agosto mais uma das suas "Caminhadas da Saúde", exactamente um ano depois da última, em que igualmente participei com a minha "estrela" Valespinhense. Tratou-se desta vez de um percurso circular, entre Vale de Espinho e as ruínas do Sabugal velho, nas imediações da Capela da Senhora dos Prazeres e de Aldeia Velha. Pelos Nheres e Balsas, o primeiro troço foi aliás comum ao do ano passado, até à estrada que liga os Fóios ao Soito, pelo alto da Serra Melhana, ou do Homem de Pedra.
A manhã estava bem fresca, à hora a que os pés se puseram ao caminho. Mas rapidamente o Sol atravessou a vegetação, por vezes em feixes que pareciam chamar os muitos caminheiros que haviam respondido à chamada. A camisolita dos primeiros quilómetros ... rapidamente foi arrumada na mochila. E antes das oito e meia tínhamos o "meu" Xalmas à vista, lá por trás do cabeço onde nasce o Côa.

12.08.2016, 7:30h - Tinha começado a 5ª Caminhada da Saúde da ADAVE
O Xalmas (ou Serra da Enxalma) surge vigilante
No parque de merendas da Senhora dos Prazeres, com 9 km percorridos, a organização providenciou um revigorante pequeno almoço, a que se seguiu a visita às ruínas do Sabugal velho, sobranceiro a Aldeia Velha, a olhar para as serras da Gata e da Penha de Francia e, até, esbatida, a Serra de Bejar.

Visita às ruínas do Sabugal Velho
O importante conjunto de ruínas do Sabugal velho situa-se no monte da Srª dos Prazeres, a 1019m de altitude. O topónimo indicia uma datação anterior à do Sabugal actual, situado a 22 km do local. Conta a lenda que um dos carrascos que assassinou D. Inês de Castro ali se refugiou e que El Rei D. Pedro I mandou destruir a aldeia no intuito de o apanhar.

Aldeia Velha, da colina do Sabugal velho, e, ao fundo, a Serra da Penha de Francia
Verdadeiros artistas na arte de beber, durante
o reforço alimentar na Srª dos Prazeres
Às dez e meia iniciámos o regresso, pelo mesmo percurso até às imediações do Cabeço Melhano e depois pelo trajecto mais curto que desce a Serra Madeira, atravessando o parque eólico do Homem de Pedra.

De regresso...
Ainda há pastores...
Descendo a Serra Madeira, rumo à Có Pequena e a Vale de Espinho
Com andamento ligeiro e descendo a Serra Madeira ... não podia deixar de fazer um pequeno desvio ao percurso do grupo ... para visitar o meu "santuário" das Fontes Lares. Lá estavam a fonte e o barroco "sagrados", as ruínas da velha casa que há 4 décadas ainda conheci de pé ... mas das minhas velhas botas que um dia ali viram o seu "funeral" ... faltava uma! E o seu par, dorido e sofrido, estava tombado.

Fontes Lares ... sempre as "minhas" Fontes Lares ... o meu "santuário"...
Fontes Lares ... a nascente da mais bela água da raia...
Nas ruínas da velha casa das Fontes Lares ... "cemitério"
de botas com história. Mas do primeiro par falta uma ...
Agora não havia tempo ... mas tenho de voltar às Fontes Lares, à procura da velha bota desaparecida...
No regresso, passei pelo que resta da carcaça da velha carrinha do Tó Machadeiro. Em tempos, também o meu "burro" (leia-se o meu velho UMM Alter) ia por ali ficando. Apanhei de novo o grupo ainda antes do cruzeiro da Có Pequena e antes do meio dia e meia hora estávamos de novo em Vale de Espinho.

Areeiro, 12:10h - De regresso a Vale de Espinho, com 19 km nos meus pés, quase 17 nos do resto do grupo
Um almoço de convívio encerrou mais esta caminhada da ADAVE, nas instalações da Associação ... ou seja na velha Escola Primária de Vale de Espinho, cuja reconversão impede felizmente o indesejável abandono. Parabéns ADAVE!
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