domingo, 21 de fevereiro de 2016

Regresso aos Olhos de Água do Alviela

Os Olhos de Água do Alviela, próximo de Alcanena, ficaram para sempre ligados às primeiras "aventuras" do "rapaz pacato" que um dia começou a escrever as suas memórias... J.
Olhos de Água do Alviela, 21.Fevereiro.2016, 8:50h
Nos tempos áureos da Espeleologia, ali acampei diversas vezes, bem como depois, já nos tempos de faculdade, para estudo dos nossos "primos" quirópteros. Com os Caminheiros Gaspar Correia, voltei lá em Julho do ano passado, para uma "Noite dos Morcegos" ... e voltei lá agora para um percurso pedestre dinamizado pelos "Caminheiros do Litoral" ... e em que participava a minha "mana" Paula; a Serra Amarela uniu-nos; os Caminhos do Tejo fizeram de nós Irmãos ... e o mais que o futuro nos reserva... J
Estavam inscritos mais de uma centena de caminheiros e caminheiras de todas as idades. O percurso era simples, ao longo dos campos a leste das nascentes do Alviela. E que verdes campos fomos atravessando!

Pela margem direita do Alviela, e a Quinta do Alviela, solar do séc. XVIII, propriedade dos Morgados de Alviela
E continuámos pela margem direita ... até à paragem de reforço alimentar,
junto à ponte em que cruzámos o "nosso" Alviela
A ponte do Alviela marcou o ponto de viragem para o regresso, agora pelos terrenos da margem esquerda e passando pela aldeia da Raposeira.


Os campos eram propícios ...
a algumas brincadeiras... J
Verdes são os campos...
Na parte final do percurso, quase de regresso ao ponto de partida, as grutas dos "olhos de água", que deram o nome ao local, não podiam deixar de fazer parte do programa. E ... recuei no tempo: voltei a entrar nos "olhos de água" ... 41 anos depois...!

Descida para as
grutas do Alviela
x
41 anos depois de ali ter andado em estudos de Quirópteros ... 46 anos depois dos primeiros acampamentos ...
voltei a entrar nos "olhos de água" do Alviela...

Com a Mana Paula ... a quem agradeço este belo domingo
nos Olhos de Água do Alviela
O jovem Alviela brota das suas nascentes...
Com 12,5 km percorridos, regressámos ao ponto inicial ... ainda a tempo de um bom almoço na original "Tertúlia do Gaivoto", na aldeia da Louriceira. Sem dúvida um belo domingo. Obrigado Paulita! J

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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Na rota da prata e do ouro
Do Penedo Furado a Andreus (GR44, Sardoal)

Três amigos dos Caminheiros Gaspar Correia, numa bela quinta feira, combinámos fazer um reconhecimento de caminhada na zona do Sardoal. Tratava-se de parte da GR44, a Rota da Prata e do Ouro, um percurso de grande rota que liga os concelhos de Vila de Rei e do Sardoal.
Depois de um dia cinzento e de chuva, esta quinta feira acordou fria mas soalheira. E às nove e meia da manhã já estávamos perto do centro geodésico de Portugal - o vértice da Milriça - e sobre a Ribeira de Codes, onde a mesma se aperta no sítio do Penedo Furado, que se admira da antiga estrada N2, entre Brescôvo e Milreu. O sítio é um espectacular Miradouro, de onde se admira uma fabulosa panorâmica sobre a ribeira e as encostas.
Ribeira de Codes, no Miradouro do Penedo Furado, Vila de Rei, 18 de Fevereiro de 2016, 9:37h
Lá em baixo, a ribeira corre fresca e cristalina. Para lá chegar, uma passagem no meio da rocha valeu ao sítio o nome de "Penedo Furado". Mas antes, no miradouro, de tempos idos guardaram-se em azulejos as lendas perdidas de mouras e pastoras...
Em passo ligeiro, de pé descalço, uma jovem pastora caminhava atrás das ovelhas e das cabras. Entre assobios, toques com o cajado e latidos dos cães, encaminhou o rebanho para os lameiros verdejantes. Saboreando  o  dia  lindo  e  soalheiro
- como o nosso... - deixou-se estar sentada, a ouvir o canto da água e dos pássaros. É então que distingue, no meio de todas as melodias naturais, o canto de uma mulher, afinado, exótico, numa língua que ela não conhece e não percebe. Levanta-se; devagar, dirige-se para de onde lhe parece vir o canto, melodioso e triste. Aproxima-se sem ruído, quase com medo, e espreita por entre as ervas e as árvores. Vê-a. Sentada numa laje, com uma pele morena e dourada, cabelos negros como carvão, vestida de sedas e cetins, enfeitada com jóias preciosas ... uma moura!
A pentear os seus lindos e longos cabelos com um pente de ouro. Tamanha maravilha a pastora nunca vira! Cobiçou o objecto, dourado e brilhante, que deslizava nos cabelos macios da Moura. Aproximou-se um pouco mais, pé ante pé. Um pau que estala, uma pedra que resvala, ela não se apercebe, mas a Moura dá conta dela. E olha na direcção dela, com os olhos grandes, escuros e tristes, como se lhe entrasse no profundo da Alma. Em silêncio, fitam-se. A jovem e alegre pastora pobre, a Moura rica e triste.
Perante o olhar da Moura, a pastora enche-se de coragem e estende a mão, pedindo-lhe o pente. A Moura sorri, tristemente, e diz-lhe: "Queres o pente, não é?... Pois terás de te converter à minha fé. E se mais quiser, um bezerro dourado estou a guardar, para quem por bem vier e me souber amar...". A pastora, cansada de pobreza e beatices, de padres bem vestidos e bem alimentados pelas ofertas forçadas dum povo pobre e inculto, aceita sem hesitar. A ideia do bezerro dourado aguçou-lhe a coragem, pensando no irmão que poderia amar a bela Moura. Acena com a cabeça, aceitando. A Moura levanta-se, as pernas esbeltas e morenas a vislumbrarem-se sob os véus de seda que a cobriam. Sorri e diz-lhe: "Para a minha fé poderes rezar, o céu da boca tenho de te beijar...". E, perante os olhos da pastora, a bela Moura transforma-se numa serpente, para lhe ser mais fácil entrar na boca dela. Assustada, a pastora grita e faz o sinal da cruz, virando costas e fugindo. Com um silvo, amaldiçoada e presa no encantamento, a Moura esgueira-se e desaparece por entre as rochas, deixando um sulco gravado e pintado com pó de ouro, que o tempo se encarregou de levar. A pastora, essa, fugiu a sete-pés para junto da família e, mais tarde, recuperada a coragem, voltou armada e acompanhada. Desceram pela passagem do Penedo, procuraram atrás de cada árvore e erva, vasculharam nas rochas ... mas nada. Nem sinal de Moura, de bezerro ou de tesouro. Apenas o sulco ficara como recordação da aventura e prova do medo da pastora...

Ribeira de Codes junto ao Penedo Furado ... na senda da Moura encantada e do Bezerro dourado...
Cascatas da
Ribeira de Codes
Sem encontrarmos vestígios da Moura encantada ou do Bezerro dourado ... subimos o curso da Ribeira de Codes, que depois deixámos rumo a sul. E ... subimos a bom subir, rumo a Salgueira e a Santiago de Montalegre. Esquecida nos actuais percursos dos Caminhos de Santiago, esta freguesia atesta ainda a passagem dos Santiagueiros medievais rumo à cidade do Apóstolo.

Ponte de Codes
Lameiros junto à Ribeira de Codes
Poços dos Mouros (ou Minas romanas?)
Estará aqui enterrado o Bezerro dourado?...
Santiago de Montalegre
Seguiram-se as aldeias de Lameiras, Lobata e Mivaqueiro. De uma parte inicial muito bonita, fomos contudo subindo e descendo depois através de eucaliptais mais monótonos, pelo que optámos por cortar alguns troços do traçado original do GR44. Já junto à Ribeira de Andreus, eram já quase duas da tarde, com 14 km percorridos, quando chegámos a uma certa casa já nossa conhecida, rural, no meio da quietude daquele lugar tranquilo. E um dos caminhantes até tinha a chave...

Junto à Ribeira de Andreus ...
o almoço foi nesta bela casinha rural!
Foi sem dúvida um belo percurso, num belo dia de Sol de inverno. Terminada em Andreus, da jornada pedestre ainda fariam parte mais cerca de 2,5 km junto à aldeia de Valhascos, num pequeno troço do PR4. A câmara do Sardoal está sem dúvida de parabéns pelo desenvolvimento dos seus percursos.

Andreus, em fim de percurso
Campos próximos de Valhascos
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