segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

De Vale de Espinho à Marvana e às terras de Pesqueiro e Sobrero - 43km / 1600m D+

No meu retiro de Vale de Espinho desde o passado dia 24, só no dia 26 tinha feito uma pequena caminhada de 8 km ao "meu" sempre belo Moinho do Rato e ao alto da Pelada e Vale da Maria.
O Côa no Moinho do Rato, 26.01.2016
Para o primeiro dia de Fevereiro, contudo, na perspectiva de um dia primaveril, tinha programado uma jornada dura, pela extensão e desníveis. Doze minutos antes das sete da manhã, deixei a aldeia ainda adormecida na noite, para ir ver nascer o Sol aos 1049 metros do cume do Passil, lá onde a Beira Alta se debruça sobre a Beira Baixa. O objectivo era ir até ao cume da Marvana, terra de segredos e mistérios. Não que não conhecesse já a maior parte do que ia percorrer, mas tendo prevista para Março uma jornada com mais de trinta amigos dos trilhos, na senda das lendas da Marvana e do ouro do vale de Sobrero ("sobre el oro"), quis ir verificar a passagem nalguns pontos onde já não passava há uns anos. Mas, a solo ... tinha de regressar a Vale de Espinho, claro... J

01.02 - Para poente também se reflectem as cores do amanhecer, mas às 7:39h ... o astro rei ergue-se sobre a Serra
E ... virado a Sul, às terras da Beira Baixa
Ao longo das cumeadas entre as Sepulturas e o Poço do Inferno, o primeiro objectivo foi descer à Ribeira das Ferrarias, afluente do Bazágueda, para depois subir à linha de fronteira, entre a Pedra dos Namorados e o Alto de La Mina. Já me referi a estes curiosos topónimos, quando em Janeiro de 2012 subi pela primeira vez ao cume da Marvana; voltarei a fazer-lhes referência quando, em Março, ali levar as "tropas" que se inscreveram para o desafio que lhes lancei.

Ribeiro das Ferrarias: a quantidade de água
fazia antever como estariam outros ribeiros...
Ao longo da raia, com a Serra da Marvana em pano de fundo

Este foi, até ao fim, o meu único acompanhante,
ao longo desta longa jornada... J
A Malcata propriamente dita vai ficando para trás. Ao centro percebe-se o vale do Bazágueda.
Às dez e meia da manhã estava no cume da Marvana, com 17 km percorridos desde Vale de Espinho, em pouco mais de três horas e meia. E estava ... como que a planar sobre as terras da Extremadura espanhola: aos meus pés tinha o vale de Pesqueiro e Sobrero, limitado a norte pela barreira das Serras das Mesas e da Gata, com o meu Xalmas a coroar. Para sul, o cabeço de Monsanto sobressai atrás da serra de Penha Garcia; mais a sudoeste, a Gardunha no horizonte, para lá da Cova da Beira e dos relevos com que a Malcata se esbate em terras de Penamacor.

Cume da Marvana (859m alt.)
O morro de Monsanto sobressai da serra de Penha Garcia
A imensidão das terras de Pesqueiro e de Sobrero, do cume da Marvana
A sudoeste, a Malcata esbate-se até à Cova da Beira, com a Gardunha ao fundo
A nordeste, a planície estremenha fecha-se na cordilheira das Mesas e da Gata. Ao fundo, ao centro, o Xalmas domina.
E do cume da Marvana ... havia que "mergulhar" para terras de Pesqueiro. Os corta fogos são as vias mais directas, passando-se rapidamente dos 860 metros aos pouco mais de 400 daquele vale fértil, onde tantas gerações de Vale de Espinho trabalharam na apanha e tratamento da azeitona. A velha Prensa lá estava, triste e abandonada, no meio de uma selva de silvas que já não permite sequer entrar onde entrei na primavera de 2007, com dois filhos destas terras e da vida dura de há várias décadas atrás.

Descida da Marvana para
o vale de Pesqueiro
E chego aos olivais de Pesqueiro: um vale com história e com estórias ...
A velha
Prensa: memórias perdidas na noite
dos tempos
Cruzados os ribeiros de Cárnicas e de la Casa, passei junto às chamadas Casas da Florida, "quartel general" de tantas gentes de Vale de Espinho que ali trabalhavam e dormiam, na lida do azeite. O rumo era agora nordeste, começava o regresso ... e tinha o rio Sobrero para atravessar. Como estaria?...

E, pelos olivais de Pesqueiro, a Marvana ia ficando para trás
Casas da Florida ... mais memórias perdidas...
Casas de Barriche, junto ao rio Sobrero
Nascido na Toriña, junto à raia, o rio Sobrero é o mais caudaloso da zona, levando as suas águas para o Erges. O topónimo Sobrero parece derivar de sobre el oro ... o ouro "escondido" na serra da Marvana ... mas vou deixar essas lendas para Março. Agora, tinha-o para atravessar; quando o vi assustei-me ... e não podia caminhar sobre o ouro... J

Rio Sobrero ... e houve que procurar um sítio para atravessar...
Depois de fazer um estudo ainda de onde estas fotos foram tiradas ... arrisquei descer para um local onde as pedras me pareciam facilitar a passagem. E arrisquei bem, mas, mesmo assim ... valeram-me os bastões para o equilíbrio instável ... e com água acima do tornozelo!
Uma vez cruzado o Sobrero, ainda pensei ir beber uma caña a Valverde del Fresno. Mas ... já passava da uma e meia da tarde e tinha agora pela frente o muralhão imponente da cordilheira Mesas - Gata. Se fosse a Valverde a jornada terminaria seguramente com mais de 50 km e mais de 2000 metros de desnível acumulado ... e por isso decidir avançar ao longo das barrocas do Vieiro, Porquera, Toirinha.

Barroca de la Porquera, com as Ellas e o Xalmas ao fundo
Rumo à raia ... com a ajuda da Virgem de Fátima
Pouco depois das três horas de uma tarde primaveril, estava a entrar no caminho serrano que liga Valverde del Fresno a Vale de Espinho. As Ellas continuavam a brilhar ao Sol, enquanto eu ia subindo o Piçarrão. Lá longe, a Marvana como que se despedia, fechando a sudoeste o circulo mágico das montanhas que rodeiam os vales férteis de Pesqueiro e Sobrero. E  às quatro horas estava na Portela da Raia, entrando de novo em Portugal.

Subida para a Portela da Raia
O que resta da Caseta dos Carabineiros do Piçarrão
A Marvana como que se despede, ao fundo, nas cores do entardecer
E ... agora é só descer rumo à "minha" aldeia...
Pelo velho caminho tantas vezes trilhado do Ribeiro Salgueiro e Nabo da Cresta, regressei à velha ponte "romana" de Vale de Espinho. O campanário estava a dar as cinco horas quando me despedi do Côa ... o campanário cujo belo painel de azulejos esperemos que seja, agora, finalmente recuperado.

Ribeiro Salgueiro: os campos bem verdes de Vale de Espinho...
Vale de Espinho à vista! A jornada já tinha passado dos 40 km...
A bela Ponte "romana" de Vale de Espinho, a ver passar o Côa há gerações e gerações...
Eram cinco e vinte quando estava a entrar no meu "retiro espiritual", como costumo chamar à casinha que, há 11 anos, é a base das minhas e nossas "aventuras" nas terras raianas. E que prémio eu havia de merecer, no fim desta longa jornada de 43 km, com praticamente 1600 metros de desnível acumulado? Nada melhor que umas saborosas "mílharas", como aqui se chama às papas de carolo de milho, com abóbora. Uma autêntica delícia ... que fechou com chave de ouro uma bela jornada, num belo dia primeiro de Fevereiro ... que espero melhor do que o Fevereiro de há um ano...

E no fim de uma longa jornada ... umas deliciosas "mílharas"... J
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sábado, 23 de janeiro de 2016

Caminhos do Tejo e do Trancão

23.01.2016, 7:42 - Parque de
S. João da Talha
A "maratona" Bobadela - Santarém, em Novembro passado, e a permanente atracção pelos Caminhos de Fátima e de Santiago, aliada a outros pequenos percursos ribeirinhos do Tejo e do Trancão, há muito que tinham criado o desejo de fazer uma caminhada tipo prospecção, partindo da porta de casa, à procura de alternativas numa ligação do Trancão e da Bobadela às terras de Alverca e de Alhandra. Lançado o desafio com apenas algumas horas de antecedência ... apenas um companheiro teve a possibilidade de responder à chamada. E assim, às sete e meia da manhã, estávamos a partir do estacionamento do Pingo Doce da Bobadela para uma "maratona" de quase 40 km, quase toda feita a uma excelente média superior aos 6 km/h, que só no fim decaiu, devido à muita lama na várzea do Trancão.

Portela da Azóia ... e o Sol nasce sobre o Tejo
8:05h - A várzea de Loures, vista do alto da Portela da Azóia
Uma caminhada deste tipo tem, forçosamente, uma elevada componente urbana. A primeira saída off road foi junto ao Parque Urbano de Santa Iria da Azóia e ao Cemitério da mesma vila. Debruçados sobre o vale da Ribeira de Alpriate, algumas descidas são, ali, classificadas pelos adeptos do BTT como as "descidas maradas". Como não somos "marados" ... prosseguimos para leste, rumo aos bairros de Manjões e Salvação, para depois atravessar a Póvoa de Santa Iria rumo ao Tejo.

Traseiras do Parque de Santa Iria: uma descida marada...
Panorâmica para o vale da Ribeira de Alpriate
Póvoa de Santa Iria e o Tejo: embarcações avieiras
Passadiço ribeirinho da Póvoa de Santa Iria: à esquerda, o Mouchão da Póvoa
Pelos chamados trilho do Tejo e trilho da Verdelha, às dez horas estávamos junto ao Museu do Ar e à estação ferroviária de Alverca. Só aí fizemos uma primeira e curta paragem.

Alverca, 10:00h
Na Póvoa, já tínhamos entrado no Caminho do Tejo, ou seja o troço comum dos Caminhos de Fátima e de Santiago. Seguíamos, portanto, as setas azuis e amarelas ... as setas que me parecem atrair e conduzir...! E entre Alverca e Alhandra, o Caminho atravessa ainda zonas meio rurais, embora no meio de toda a industrialização que caracteriza aquela zona. Já perto de Alhandra, não parece contudo ser possível fugir à Estrada Nacional 10, na rotunda que constituiu, pouco depois das dez e meia da manhã, o nosso ponto de inflexão para o retorno a casa. Estávamos praticamente com 19 km percorridos, à excelente média de 6,4 km/h em movimento.

Campos, entre Alverca e Alhandra
Nos Caminhos de Fátima e de Santiago ... sempre!
Estrada Nacional 10, de retorno a Alverca
O início do retorno foi urbano: Nacional 10 até Alverca, travessia de Alverca, rumo à Central de Cervejas, para passar por baixo da auto-estrada A1 entre o Forte da Casa e a Póvoa de Santa Iria, junto a um "famoso" e velho viaduto ... que não leva a lado nenhum. Exemplo de como se gasta dinheiro neste país...

No passadiço sobre os
acessos na EN10 à A1
Vai uma
cerveja?...
Sobre o Forte da Casa e o Tejo
"Miradouro" sobre a A1 e Vialonga
Um viaduto ... para lado nenhum...!
Pouco depois deste insólito viaduto, estávamos de novo nos Caminhos de Fátima e Santiago, agora contudo em sentido contrário. Voltávamos a caminhos rurais, rumo a Alpriate e à várzea do Trancão.

Verdes são os campos...
Uma guarda de honra natural...
Pico da Aguieira ao fundo. Junto à Quinta do Monteiro Mor, já na várzea do Trancão
Várzea do Trancão. Unhos ao fundo.
Sempre atreita à formação de lamas, na várzea do Trancão ... parecíamos por vezes que estávamos num estranho bailado. O piso ... era mousse de chocolate...! Os 30 km já palmilhados e o novo elemento escorregadio ... reduziu a média. Mas também não estávamos ali para bater records...

Várzea do Trancão, rumo a Sacavém ... mas para regressar ao ponto de partida, na Bobadela
Às duas da tarde estávamos a iniciar a subida para o Bairro da Bela Vista e para a Bobadela. A "maratona" estava a terminar. E com ela ... 37 km percorridos em pouco mais de seis horas e meia!
Obrigado pela bela companhia, Zé Magro!



O Trancão, no seu troço final antes de Sacavém, visto da subida para a Bobadela
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