domingo, 9 de fevereiro de 2020

De Sintra a Mafra ... ligando Patrimónios Mundiais da Unesco

Tinha eu entrado não há muito tempo nos "Novos Trilhos", em Dezembro de 2013 não pude participar na caminhada de Palácio a Palácio, entre Mafra e Sintra; quase seis anos depois, em Julho do ano passado voltei a não poder. Mas, como não há duas sem três ... à terceira foi de vez, hoje, com o meu mano Zé Manel Messias e a minha panaymi Madalena ... e mais quase meia centena de "Caminheir@s Perdid@s ... pela Natureza".
Convento de Mafra, 09.Fev.2020, 7h45 ... a aguardar pela Madalena, Zé Manel e Dina
Sintra, Palácio da vila, 10h30: na "Paisagem Cultural
de Sintra", Património Mundial da UNESCO
A ideia era ligar os dois Patrimónios Mundiais, a vila de Sintra e o Palácio Nacional de Mafra, numa jornada pedestre de pouco menos de 30 km, numa caminhada linear, dependente portanto dos transportes públicos. Para a maioria dos participantes, a concentração foi assim em Mafra, para ali apanharmos o autocarro da Mafrense para a Portela de Sintra, onde poucos minutos depois das dez horas estaríamos a começar a marcha ... entre Palácios. Atravessado o centro da vila, seguimos o PR5 SNT, passando junto à misteriosa Regaleira e à medieva Casa do Fauno, para logo descer a Galamares e à Ribeira de Sintra.
Sintra, Palácio da vila, 10h40: meia centena de "Caminheir@s Perdid@s ... pela Natureza" tinham começado
uma jornada entre Patrimónios Mundiais (Foto: Fernando Damil)
Junto à misteriosa Quinta da Regaleira e
descendo para a Ribeira de Colares
Entre a Ribeira de Sintra e Nafarros, 11h50
Um pequeno troço entre a Ribeira de Sintra e Nafarros coincidiu com o ainda há dias percorrido a caminho do Cabo da Roca, mas hoje rumámos a norte, para Alfaquiques e Odrinhas. O almoço foi num belo parque de merendas em Codiceira ... incluindo o "meu" "Quinta dos Termos"... 😋

S. Miguel de Odrinhas, 14h40
Depois de Odrinhas, desceríamos para o vale do Lizandro, com espectaculares panorâmicas sobre a aldeia do Carvalhal e o rio, de ambas as encostas. E como os Caminhos Peregrinos são muito mais do que nós ... em todo este troço estávamos no Caminho de Fátima e de Santiago, o chamado Caminho do Mar.

A caminho do vale do Lizandro e da aldeia do Carvalhal ...
no Caminho do Mar, Caminho de Fátima e de Santiago     
E já na encosta norte do vale do Lizandro, com a aldeia do Carvalhal aos pés
Passada a aldeia do Boco, voltámos a descer, desta vez para o vale do arquitecto. As últimas chuvas transformaram parte dos trilhos ... em divertidos escorregas lamacentos ... onde houve momentos hilariantes. E lá estava, no fundo do vale, a Capela da Srª do Socorro ... ou Srª do Arquitecto.
E assim chegamos à Capela da Senhora do Arquitecto, ou Senhora do Socorro
Porquê estes topónimos? Conta a lenda que, ao finalizar a sua obra, o arquitecto responsável pelo Convento de Mafra mandou construir duas capelas, no ponto mais alto e no ponto mais baixo do concelho, respectivamente a Serra do Socorro e este vale que corre ao fundo da vila, renomeado então para Vale do Arquitecto. Outra lenda, contudo, diz que a segunda capela foi mandada construir por um pescador que, ao ver-se em perigo no mar, prometeu erguer uma ermida a Nossa Senhora do Socorro.
Capela da Senhora do Arquitecto, ou Srª do Socorro
Junto à Capela da Senhora do Arquitecto, os dois mentores da caminhada e do grupo fizeram o epílogo desta bela jornada. Num mundo cada vez mais globalizado - nem sempre pelas melhores razões - é de louvar a carolice (ou paixão) e o espírito de altruísmo com que põem de pé estes eventos gratuitos e públicos. O único prémio é a sensação de reconhecimento que, no final, lêem nos rostos e nos testemunhos daqueles que participaram ... pela mesma carolice ou paixão. Bem hajam!

Pelo meio de um paraíso ...
... chegamos a Mafra (Igreja de Santo André, o templo mais antigo da freguesia de Mafra - Sec. XIV)
Pouco depois das cinco da tarde entrávamos em Mafra, pela velha freguesia de Santo André, núcleo original da vila, a cerca de um quilómetro do Convento e do actual centro. A missão estava cumprida, com 28 km a acrescentar aos rankings de cada um dos participantes. Faltavam as despedidas ... e a foto da praxe. Obrigado a todos os que puseram de pé este dia memorável.

Mafra, 17h35 ... e chegamos ao Convento, para a
foto final de grupo (Foto: Deonel Pinto)  
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Do Trancão ao Cabo da Roca ... ou do nascer ao pôr-do-Sol

Em Outubro de 2014 - já lá vão mais de 5 anos - e um ano depois de uma longa marcha de uns "redondos" 60 km quando fiz 60 anos, idealizei uma outra marcha que, partindo igualmente de casa ou de perto ... me levasse de novo à Costa Oeste, mas desta vez mais a sul ... ao mítico Cabo da Roca.
Junto à Ribeira do Prior Velho, entre Sacavém e Camarate,
04.Fev.2020, 7h20
O ponto de partida foi a foz do Trancão, mas por diversas razões relatadas na "reportagem" daquela "aventura" a marcha ficou-se pelas Azenhas do Mar. Apesar de várias outras "insanidades sãs" bem maiores feitas depois - 100 km num dia ... 130 km em 27,5 horas - o projecto de chegar ao Cabo da Roca ficou contudo sempre a fermentar. Seriam ... e foram ... apenas uns "míseros" 50 km, por um percurso um pouco mais a sul do das Azenhas do Mar de há 5 anos. Para me acompanhar ... duas grandes Amigas e companheiras de muitas "aventuras", a Lucília - desde as Galinheiras (e vinda também a pé desde casa) - e a Madalena ... esta última a minha panaymi peruana 😊 - desde a Várzea de Sintra.
Rodeado o aeroporto, o Sol nasceu sobre o Tejo às 7h42, junto ao Eixo N/S, entre Camarate e Fetais
A minha primeira parte foi a solo ... por azinhagas "tenebrosas" entre Camarate e Fetais, ao encontro da Lucília na Estrada Militar das Galinheiras. Com 3 km já percorridos desde casa, a Lucília iria fazer no total apenas menos 4,5 km do que eu. E rapidamente descemos à Póvoa de Santo Adrião, para a seguir termos a primeira grande subida do dia, rumo a Odivelas, Ramada e Pedernais. Sabíamos que principalmente esta primeira parte da jornada seria muito urbana ... feita ao bom ritmo que o objectivo impunha ... e que levou a pequenos percalços "técnicos" rapidamente "remendados" 😋
Ribeira de Odivelas
Passada Caneças e já na descida para o vale de
Carenque ... havia "problemas técnicos" para resolver...
Junto ao Aqueduto na Ribeira de Carenque (em cima)
e já a caminho do Belas Clube de Campo
Às onze e meia da manhã estávamos no Belas Clube de Campo, com 22 km percorridos no meu caso e a Lucília com quase 18. A Lucília confidenciou-me que ia passar a aconselhar o filho, adepto do golfe ... a ir a pé... 😜. Estávamos entretanto a abandonar a parte mais urbana e a entrar em belas matas ... com a Serra de Sintra ao fundo. Pelo Telhal, chegávamos próximo da Granja do Marquês.
Belas Clube de Campo, 11h40
E a serra de Sintra - a Serra da Lua - surge no horizonte, envolta nos seus mistérios
Raios de magia, por
entre a magia dos bosques...
Largos horizontes, nos quais já se adivinha o mar, próximo da Granja do Marquês e da A16
Mas a estes belos campos ... seguiu-se a parte mais agreste do dia: 2 km de uma interminável recta, em estrada, entre a A16 e a EN9, no Ral. Eram horas de almoço, o pouco que tínhamos comido até ali tinha sido em andamento. A Lucília invocou os deuses para pedirem à "entidade patronal" (referia-se a mim...) um intervalinho para comer. Concedi-lhe 5 minutos ... que foram dilatados para 12 ... à entrada dos Viveiros Vítor Lourenço, uns viveiros de plantas a meio daquela interminável recta. É que nós tínhamos um encontro marcado com o Sol, às seis da tarde, no Cabo da Roca ... e antes desse ainda tínhamos um "encontro imediato" em Cabriz - Várzea de Sintra...
Dois "maratonistas" chegam à Várzea de Sintra,onde se juntam ...
... com o 3º elemento da equipa que havia de chegar ao Cabo da Roca
                                                                                                              A partir da Várzea éramos portanto três. Faltavam sensivelmente 14 km para o Cabo da Roca ... e faltavam três horas e meia para o Pôr-do-Sol. Parecia suficiente ... mas tínhamos as falésias da Adraga e da Praia da Ursa pelo meio. Era preciso dar às pernas ... apreciando as belas paisagens deste dia de uma primavera antecipada.

Sempre com a Serra a vigiar-nos, entre a Várzea e Colares ... a jornada segue a bom ritmo
Em Colares, a Madalena lançou um repto: "E se fôssemos beber um vinhito?". E assim que ela diz isto ... aparece-nos o "Cantinho da Várzea", ali encostadinho à Ribeira de Colares. À "entidade patronal" também lhe apetecia um branquinho fresquinho ... e assim foi; brindámos entre o meu branquinho, o tinto da Madalena e a cevada maltada da Lucília ... e prosseguimos sob o efeito do "dopping"... 😋
Ribeira de Colares, junto à qual nos surgiu o "Cantinho da Várzea" ... e os bons néctares que lá bebemos...
Antes das cinco, como convinha, saíamos dos bosques para a Adraga. Estávamos no mar! Faltavam menos de 5 km para o destino ... mas as falésias da Ursa iam retardar-nos um pouco. A Madalena dizia-me que o Sol esperava ... eu dizia-lhe que não acreditava 😊. Mas chegámos a tempo de assistir ao poente, nas falésias um pouco antes de atingirmos o Cabo da Roca. E ali, naquele êxtase pela missão cumprida, demos largas à nossa "loucura" ... gritámos ... abraçámo-nos ... enquanto o astro Rei explodia mergulhando para lá das ondas ... para lá do mar ... para lá do pensamento e da imaginação.

Praia da Adraga, 16h45 ... chegávamos ao mar

Pedras, falésias e Praia da Ursa
Às seis e vinte estávamos a chegar ao Cabo da Roca, ainda com as cores do poente a pintarem o horizonte e Vénus a acenar no firmamento que iniciava a escura noite. Com 50 km exactos nos meus pés, 46 nos da Lucília e 14 nos da Madalena ... tínhamos cumprido mais uma das minhas "insanidades". "Quanta beleza tem / E a amizade contem / Quando se quer tão bem" ... versejaria mais tarde a nossa Mada poeta. Tinha ligado o Trancão ao ponto mais ocidental do continente europeu.
Cabo da Roca, 18h20 ... ali, onde a Terra acaba e o Mar começa ... onde celebrámos a Amizade e a alegria de Viver
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