segunda-feira, 15 de abril de 2019

A caminho ... do Caminho

De Vale de Espinho a Santiago … pelo Caminho das Estrelas (Preâmbulo)

Com o "Caminho da Aventura", em Julho de 2014, os Caminhos de Santiago e de Fátima, os Caminhos Peregrinos ... entraram na minha Vida pela porta grande.
"Sexan cales foren as túas crenzas, o Camiño é unha experiencia única que vas vivir en corpo e alma. Unha viaxe espiritual que te leva ao encontro coa natureza, cos outros e, sobre todo, contigo mesmo."
Mal tinha regressado ... e o meu imaginário já estava a delinear aquele que seria o meu Caminho em 2015, a solo: partiria da "minha" Vale de Espinho, indo ao encontro do Caminho de Torres e do Caminho Português do Interior. Mas, em Fevereiro de 2015 ... morreu a miña nai ... e eu virei o ponto de partida para as areias de Santa Cruz ... num caminho que o destino não transformou em Caminho.
Brincando aos deuses nos Montes de Testeiro,
no "Caminho da Aventura", 11.Jul.2014
Santa Cruz, à partida para o
"Caminho das Cinzas", 15.Abr.2015
Em terras de Ourém, o Universo fez-me interromper esse Caminho ... ou terá sido a minha Mãe a dizer-me que não era a altura ... que eu não iria estar só nos meus Caminhos? Em Setembro desse mesmo ano, um dia, acordado ... eu tive um sonho! E como em cada Sonho há um Caminho ... em Abril de 2016 percorri mais de 900 km no Caminho Francês. Um ano depois ... os Caminhos do Salvador e Primitivo ... e em 2018 o Caminho Central Português, a partir de Fátima / Ourém ... completando o Caminho interrompido em 2015. E a minha Mãe tinha razão: nos meus Caminhos ... nunca estive só.
No cume de O Cebreiro, Caminho Francês, 19.Maio.2016
Cruz de San Salvador, Caminho do Salvador, 8.Maio.2017
Entre o Céu e a Terra, na Ruta de los hospitales,
Caminho Primitivo, 14.Maio.2017
Cruz dos Franceses, Serra da Labruja,
Caminho Central Português, 11.Maio.2018
Se no "Caminho da Aventura" tinha feito irmãos ... em todos os Caminhos de Santiago que se lhe seguiram estive sempre acompanhado, total ou parcialmente, pelos meus manos Paula e Zé Manel ... hermanos de corazón, como nos apresentamos nos Albergues ... que também fazem a história dos nossos Caminhos. Com a minha mana Paula ... terminámos sempre nos Camiños da fín da terra...
Nossa Senhora da Barca, Muxía, 28.Maio.2016 ... nos Camiños da fín da Terra ... lá, onde o Sol se põe
Não há descrição possível para o turbilhão de emoções que se sentem e partilham num Caminho de Santiago. Quem volta não é o mesmo que quem parte ... e eu volto e voltarei sempre para o amor que me agarda, para o meu ninho, para a minha estrela, que ainda não se achou com forças e motivação para se fazer ao Caminho; talvez um dia ... quem sabe...
O Caminho não é o chão que pisas ... o Caminho és Tu mesmo!
("Entre o Silêncio das Pedras", Luís Ferreira)
O Caminho vive-se e sente-se, partilha-se, não se descreve. O Caminho ... é acreditar na realização dos Sonhos ... é dar um passo de cada vez ... é encontrar os limites e superá-los. O Caminho é dormir em qualquer lugar, comer o que está na mesa, ver a Natureza com outros olhos ... o Caminho é encher os olhos de lágrimas sempre que se ouve falar dele.
Praza do Obradoiro, 22.Maio.2017
10 pessoas ... 7 nacionalidades ... unidas pelas Estrelas...!
O Caminho é Amor! Amar as estrelas, as montanhas, as nuvens, a chuva, o Sol, a água dos rios. O Caminho são as saudades que se tem da família, mas o Caminho também é Amar os Amigos ... conhecendo-nos e Amando-nos a nós próprios. O Caminho é Viver as emoções e as sensações de um convívio 24 horas por dia ... sensibilidades tantas vezes à flor da pele. O Caminho é fazer amizades com outros que, como nós, têm unha estrela por guia! Nas nossas memórias hão-de permanecer sempre o Vinicius, a Letícia, a Esther, o Michael, o Steve e a Anne, o Albert, o Joseph, a Stephanie e o John, o Paco, a Rosa e, claro, o Pedro ... e tantos outros. Particularmente o Caminho Primitivo, para nós ... também foi um Caminho de Afectos! Dos oito minutos que mediaram entre a Praza de Cervantes e o Obradoiro, em 2017 ... não há fotos, não há vídeos, não há descrição possível. Há a memória de muita emoção, a memória de 10 pessoas de mão dada, descendo a Rua da Acibechería e a Praza da Imaculada, passando o arco sob a ala esquerda da Catedral, onde se ouvia como sempre o som da gaita galega ... e entrando na mágica Praça do Obradoiro ... de mãos dadas, cantando, saltando, chorando e rindo ... vivendo aqueles minutos, aqueles momentos ... como se não houvesse amanhã ... intensamente ... num êxtase de Felicidade ... num êxtase de Amor! Amor pela Vida! O Caminho ... é amar a Vida!
Preparando o Caminho...
No "ninho", 15 de Abril
Por tudo isto e muito mais, com a Irmã a quem o Universo ligou os meus Caminhos, estou de novo ... a caminho do Caminho. Publico este preâmbulo no dia do 4º aniversário da minha partida das areias de Santa Cruz para o Caminho ... que viria a retomar em Ourém em 2018. No próximo dia 25 de Abril, eu e a Paula partiremos ... de Vale de Espinho. Foram meses de preparação, informações, Sonhos ... é o retomar do meu projecto inicial de 2015 ... antes do tenebroso mês de Fevereiro: ir ao encontro do Caminho de Torres e do Caminho Português do Interior. Entretanto, da Guarda a Trancoso também já é Caminho de Santiago, a Via Portugal Nascente. E o nosso Caminho 2019 foi-se concebendo e construindo ... para Viver dentro de dias, passo a passo ... dia a dia!
Se o Caminho de 2018 o dediquei à minha Mãe, este Caminho de 2019 vou dedicá-lo, naturalmente, àquele que repousa na sua e "minha" aldeia natal, Vale de Espinho ... àquele cuja filha mais velha, há quase meio século, se viria a sentar comigo nos bancos da velha Faculdade de Ciências de Lisboa ... e a construir a Vida comigo. Se existe algo para além da Vida terrena ... o meu querido Zé Malhadas, ou Zé Malhadinhas, como lá o tratavam, vai-nos acompanhar, a mim e à minha Irmã do coração, de Vale de Espinho às terras do Douro, de Chaves, de Ourense, até Santiago ... e às "terras do fim do mundo".
Tal como dois pequenos seixos de Santa Cruz jazem em Fisterra e em Muxía ... também um pedacinho de terra beirã, da terra de Vale de Espinho ... irá misturar-se com as águas que lavam os rochedos mágicos da Virgem da Barca.
Comigo vai também a vieira e a cabaça que todos os dias, nos Caminhos, passo da mochila para a cabeceira da minha cama. O urso do jovem "casal sexagenário" à direita ... esse sou eu 😋; e esse fica cá, com a minha pequena estrela; ela ... a ursa ... ela vai comigo ... e é lá, nos Caminhos ... a minha pequena estrela! Mas comigo viajam também 7 outros objectos que, tal como estes, não são objectos. São símbolos, são ícones de uma ligação. Sem eles ... não me sinto eu. Os que estão representados sabem quem são ... foram eles que mos deram. Só a imagem de Nossa Senhora de Fátima ... essa foi-me dada pela minha Mãe há muitos anos, com o intuito de me acompanhar e proteger nas minhas aventuras ... por fragas e pragas...! Um outro ícone, símbolo de um Amor fraternal e de dois Caminhos que o Universo ligou, anda permanentemente comigo ... e esse até já "viveu" um dos muitos mistérios do Caminho...
Ao Caminho, ao Amor e à Vida! Ultreïa!

You don’t choose a life ... you live one

domingo, 7 de abril de 2019

Nas rotas do contrabando, na raia seca de Vilarelho da Raia (Chaves)

... e nas minas romanas de Tresminas (Vila Pouca de Aguiar)

Onde há raia há contrabando. E há também histórias de contrabando. Histórias contadas pelas pessoas que no escuro da noite seguiam por caminhos traçados e imaginados em direcção à raia. Iam curvados com o peso das cargas e do receio de serem descobertos pela Guarda Fiscal ou pelos carabineiros. Com os olhos vigiavam o caminho, com os lábios recitavam orações, porque sabiam que era no campo sagrado que podiam procurar ajuda para que o pé fosse leve, apesar do peso da carga e para que os fardados não lhes saltassem ao caminho.
("Caminhos do Contrabando", Centro de Estudos Ibéricos)
No primeiro fim de semana de Abril, os Caminheiros Gaspar Correia tinham agendada uma actividade na zona raiana de Chaves, cujo ponto alto era a participação do grupo numa recriação das velhas rotas do contrabando, entre Vilarelho da Raia e as aldeias de San Cibrao e Rabal, em Espanha (Galiza), recriação organizada pelo Centro Social Cultural e Desportivo de Vilarelho da Raia, com a colaboração de habitantes locais e de ex-contrabandistas.
Neve na auto-estrada A24, 6.Abr.2019, 11h20
A meteorologia prometia um fim de semana de frio, chuva ... e até neve ... neve que nos surgiu em quantidade logo na longa viagem para norte, nas terras altas de Aguiar. Rumo à Galiza, a primeira caminhada começava em Oímbra, a meio caminho entre as terras altas, o vale de Monterrei e a fronteira portuguesa, onde chegámos à hora do almoço, no largo central daquele pobo raiano.
Oímbra está incluída na Denominação de Origem Monterrei, com vinhos de grande qualidade, como testemunha o facto de ser o concelho da Galiza com maior quantidade de lagares rupestres, vestígios arqueológicos que formaram antigas bases de prensas para uvas esmagadas e outras frutas (azeitona, maçã...) e escavadas em afloramentos rochosos naturais. De data imprecisa, os estudos científicos desenvolvidos até hoje apontam uma origem medieval, quando pequenos viticultores faziam o vinho entre as vinhas e não nas adegas, como acontece provavelmente desde os séculos XVII e XVIII.
Oímbra, no largo central, onde
iniciaríamos a Ruta dos Lagares
A Ruta dos Lagares de Oímbra foi portanto a primeira caminhada deste fim de semana, numa tarde em que o Sol por vezes aparecia por entre as nuvens escuras e alguns borrifos de chuva gélida.

Início da ruta: vultos por entre a folhagem primaveril
Ruta dos Lagares ... com as cores da Primavera
e o branco de um Inverno que voltou...
Pouco depois das quatro estávamos de regresso a Oímbra, entrando pela Igrexa de Santa María, de estilo clássico galego. Só então regressámos a terras lusas, fazendo de Chaves a nossa base ... para a "aventura" que nos esperava mais à noite...
Regresso a Oímbra, 16h15: Igrexa de Santa María
Uma vez montado o "acampamento" em Chaves, pouco depois das 18h30 rumámos a Vilarelho da Raia. Tanto Chaves como Vilarelho fazem parte do Caminho Português Interior de Santiago, o que para o Santiagueiro autor destas linhas foi uma sensação especial ... até por razões que o Tempo se encarregará de explicar. No Centro Social e Cultural de Vilarelho da Raia, depois de uma representação do respectivo Grupo de Cantares esperava-nos um saboroso e nutritivo rancho; a noite seria longa e tínhamos pesados fardos de contrabando a transportar pelas escuras veredas da raia...
Vilarelho da Raia, 6.Abr.2019, 21h10: os "contrabandistas"
recebem instruções dos "intermediários" do "patrão"...
Mais do que um "ganha - pão", o contrabando foi, durante algumas décadas do século passado, um modo de vida de várias localidades de fronteira. Pela calada da noite, grupos organizados transaccionavam vários produtos para um e outro lado da fronteira com Espanha. Ora, estando ligado à zona raiana do Sabugal e tendo participado já em recriações deste tipo em Vale de Espinho, Aldeia da Ponte e outras aldeias raianas, a experiência vivida em Vilarelho da Raia ultrapassou contudo todas as minhas expectativas e creio que as de todos os elementos do grupo!
Organizados em grupos de 15 "contrabandistas", cada um com 2 guias, saímos do local de carga dos fardos para a noite escura e fria. Evidentemente, não havia frontais, nem iluminação de qualquer tipo ... com a qual rapidamente seríamos apanhados pelos guardas fiscais e/ou pelos carabineiros. E como na época recriada não havia telemóveis ... nem era permitido registar imagens da "aventura", a não ser no local de carga e no local de entrega do "contrabando", já em Espanha. Daí incluir aqui esta reportagem RTP sobre uma recriação realizada também pelo CSCDVR em Agosto passado. Claro que a destreza de todos os nossos "contrabandistas" não é igual. A uns pesava-lhes mais o fardo, outros andavam menos ligeiros ... principalmente quando era preciso agilidade ... e quando os lobos começaram a uivar na serra! E de repente ... a guarda fiscal! Tiros! O cheiro a pólvora no ar! "Para onde vai com esse carregamento?", perguntou um guarda à minha parceira ... que até é arraiana, como os leitores destas "páginas" sabem. "Não sei, vou para onde me mandarem", respondeu... 😊. Mas lá a deixaram seguir. Outros e outras ... caíram em charcos da chuva que começou a cair! Por vezes o vulto da frente desaparecia na noite ... por vezes por isso seguíamos veredas erradas ... mas logo o nosso "passador" nos encontrava e nos metia na linha. Pelo caminho encontrámos um pobre emigrante perdido, a passar a salto, perguntando-nos se íamos para a França...
San Cibrao, 23h10 ... na entrega
dos fardos ao patrão espanhol...
Às onze horas estávamos na raia. Tínhamos percorrido um pouco mais de 5 km, faltava pouco mais de 1 km para San Cibrao, onde íamos entregar a mercadoria ao receptador ... recebendo uma nota de cem pesetas pelo fardo chegado ao destino. A missão estava cumprida!
Regressados a Portugal, a aventura do contrabando ainda não tinha acabado. Ao entrar em Vilarelho ... soubemos que alguns contrabandistas
San Cibrao, 23h40 ... vamos regressar a Portugal
tinham sido apanhados pela guarda fiscal; o pobre emigrante perdido, esse foi apanhado pelos carabineiros e repatriado. E lá fomos todos para o quartel da guarda fiscal, tentar dar-lhes algum apoio moral.
Sob os olhares de Salazar e Américo Tomás, nas fotos da sala do quartel, assistimos ao julgamento sumário dos contrabandistas e do pobre emigrante, repatriado por dois carabineiros. Vilarelho da Raia viu passar muita gente anónima, mas alguns presos políticos também ali fizeram os trilhos da fuga, como Álvaro Cunhal. "Passou ali no cimo da aldeia e depois esperaram-no do outro lado e levaram-no para França", contou emocionado um ex-contrabandista.

Quartel da Guarda Fiscal de Vilarelho da Raia, 0h20 / 0h45: recriação do julgamento de contrabandistas e emigrante
Era quase uma da manhã quando saímos do quartel; a mercadoria ficou apreendida e o pobre emigrante ainda foi interrogado à porta fechada; ouvimos os gritos de dor das bengaladas com que foi mimado! A recriação foi fiel ao pormenor!
No final, tal como os verdadeiros contrabandistas que escreveram na pele a história das gentes da raia, tínhamos à espera um mata-bicho de pão, figos secos e sardinha em lata! E eram duas da manhã quando regressámos à nossa "base", em Chaves. As setas amarelas do Caminho Interior de Santiago, tanto em Vilarelho da Raia como em Chaves ... essas pode ser que as volte a ver dentro em breve...

No Complexo Mineiro Romano de Tresminas
A noite foi curta para os improvisados contrabandistas Caminheiros. No dia seguinte ao "contrabando", a actividade do fim de semana incluiu ainda uma visita às minas romanas de Tresminas, em terras de Vila Pouca de Aguiar, não muito distantes das também auríferas Minas de Jales.

Nas terras xistosas de Aguiar, de onde os romanos extraíam ouro
O Complexo Mineiro Romano de Tresminas representa uma das mais importantes explorações de ouro do Império Romano. Os séculos I e II d.C. foram de intensa atividade mineira, principalmente para exploração de ouro, mas também de outros minérios, como prata e chumbo. Destes trabalhos resultou um conjunto monumental formado pelas cortas de exploração a céu aberto e por um interessante complexo de poços e galerias subterrâneas, das quais visitámos a principal.


Galeria das minas romanas de Tresminas, nas quais vive
uma pequena colónia de morcegos
Aldeia de Tresminas, junto ao Centro Interpretativo do Complexo Mineiro
Não encontrámos ouro ... mas encontrámos um completo e saboroso almoço na "Tasca do Chico", em Tresminas, depois da visita ao Centro Interpretativo ... e antes do longo regresso à capital do Império. Foi um fim de semana intensivo, mas um belo fim de semana, em que passámos por várias épocas, ambientes e vivências ... sempre com a alegria e amizade como elo de ligação entre aquelas, como tão bem se caracteriza a minha "família" Caminheira mais antiga.
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