sábado, 9 de março de 2019

Montesinho ... 25 anos depois

Do rio Baceiro à Lama Grande e a Rio de Onor

Em 1990 e 1994, com a "minha" Escola Secundária de Sacavém, nos tempos áureos em que o Ensino era Ensino, levei grupos de alunos a conhecerem o Parque Natural de Montesinho, essa jóia preciosa no extremo nordeste transmontano. Alguns deles despertaram para a Natureza em actividades como aquelas; alguns deles seguiram uma vida profissional nas Ciências da Natureza; muitos deles ... permanecem meus amigos ... quase 30 anos depois.
Aldeia de Vilarinho, 7.Março.2019: a equipa
prospectora vai iniciar as operações
Um quarto de século depois, voltei a Montesinho nestes últimos 3 dias, vindo das "minhas" terras raianas ... com a minha "estrela arraiana" e os "manos velhos" Maria dos Anjos e António Mousinho. O mote para o regresso ... os reconhecimentos para uma actividade da nossa "família" Caminheira Gaspar Correia. Três dias, três belíssimas caminhadas ... e a muita Amizade que já vem de há quase meio século.
Quinta feira o destino era o vale do Rio Baceiro e da ribeira do Ornal, um percurso centrado na aldeia de Vilarinho e identificado como PR4 pelo Parque Natural de Montesinho. O dia esteve cinzento e com aguaceiros, obrigando a tirar das mochilas o equipamento para a chuva ... e teria feito falta também o equipamento para a travessia de zonas alagadas... 😊

Capela de Santo Amaro, num esporão sobranceiro à Ribeira de Ornal
Memórias de alguém da aldeia de Vilarinho?...
Ribeira de Ornal

Ribeira de Ornal ... e o
universo numa gota de água...
Campos alagados e moinho, nas margens do Rio Baceiro
Ponte sobre o Rio Baceiro
E de regresso à aldeia de Vilarinho
Bragança, 8.Março.2019, 8h05 - Ao fundo, na Serra de Montesinho ... havia neve!
A base para esta "redescoberta" do Parque Natural de Montesinho foi em Bragança. E obedecendo às previsões, o dia seguinte acordou soalheiro; frio, mas soalheiro. Mas, lá ao fundo ... via-se neve! E aquela era a direcção de Montesinho! A depressão que havia trazido a chuva e aguaceiros dos dias anteriores ... para Montesinho e para as montanhas de Sanabria tinha trazido neve! O dia, portanto ... prometia ... tanto mais que era o dia do meu regresso à Lama Grande, 25 anos depois.

Subida de Montesinho à Barragem da Serra Serrada
Da aldeia de Montesinho subimos à Barragem da Serra Serrada. Das minhas memórias de há 25 anos lembrava-me que o autocarro, embora não muito grande, tinha chegado quase à Lama Grande, mas pelo caminho por onde ainda tentámos subir de carro rapidamente concluímos que não teria sido. Assim, voltei a descer à aldeia; o acesso é pelo estradão que parte do cruzamento da Cheira da Cruz, na base do geodésico de Montezinho. A velha barragem da Serra Serrada seria então a base para os reconhecimentos ... e para me separar dos meus três companheiros. Enquanto eles seguiam directamente para a Lama Grande, rumei a solo para os cumes da linha de fronteira ... e para a neve.

Acima da Barragem da Serra Serrada ... chegou a neve!
Até próximo do marco de fronteira 386, o trilho era bem nítido. Já estava acima dos 1300 metros de altitude ... sentindo-me pequeno, muito pequeno naquela imensidão. As pás do parque eólico espanhol vigiavam a minha progressão ... mas uma vez cruzada a Ribeira das Andorinhas, quando a fronteira inflecte para poente ... o trilho desapareceu na neve e no mato. E o dia de Sol deu lugar, por momentos, a um céu cinzento de onde chegaram a cair uns pequenos farrapos de neve.
Rumo à Lama Grande ...
...  eu não estava afinal
sozinho nesta imensidão gelada...
E assim, pouco depois do meio dia e 25 anos depois, cheguei à Casa da Lama Grande! Os meus três companheiros tinham trazido o carro até onde a neve o permitiu, mas quedaram-se quase 1km a sudeste ... o que me fez (re)viver a solo as memórias, boas, de quando professores e alunos ali souberam conjugar convívio, amizade, responsabilidade, liberdade.
Casa da Lama Grande, nos confins da Serra de Montesinho ... 25 anos depois
A Casa da Lama Grande era uma Casa Abrigo gerida pelo Parque Natural de Montesinho. Como já referido, em 1990 e 1994 alojei-me ali com grupos de jovens (dos quais inclusive os meus dois filhos fizeram parte) e com outros professores. Claro que as condições não eram luxuosas ... nem eram luxos que então ali esperávamos. O que quis foi transmitir aos meus alunos um pouco daquela que sempre foi a minha Paixão pela Natureza, pelos grandes espaços, pela imensidão natural. A Casa da Lama Grande foi construída aproveitando um dos imponentes penedos graníticos em que a serra é fértil. Perfeitamente integrada na paisagem, possuía um vasto salão com lareira, uma cozinha, instalações sanitárias com duches e, no piso superior, as camaratas que alojavam 20 a 30 pessoas. Mas ... tudo isso foi nesse passado distante. À infeliz semelhança de outras casas abrigo e florestais nas nossas Áreas Protegidas ... a Casa da Lama Grande foi abandonada ... degradada ... vandalizada... 😰
Quando saudade ... nostalgia ... tristeza
... raiva ... andam de mãos dadas...
Uma pesquisa simples pela história da Lama Grande traz-nos sucessivas notícias de projectos de aproveitamento e de ocupação. Em Dezembro de 2008, o "Público" noticiava: "Casas do Parque Natural de Montesinho lotadas para o fim de ano e brevemente abertas aos jovens". Mas os anos passaram e passam ... e a Casa da Lama Grande agoniza, guardando dentro daquelas paredes de pedra memórias e histórias ... recordações de quando a Conservação da Natureza em Portugal não era letra morta ... de quando a Educação Ambiental se praticava, se ensinava, se aprendia ... se Vivia! Senhores governantes ... senhores do Instituto da Conservação da Natureza e Florestas ... urge voltar a fazer com que as áreas protegidas sejam mais do que leis num papel morto, esquecido, ressequido...
Ainda a solo e com o pensamento mergulhado no criminoso estado da Lama Grande ... claro que me surgiram as imagens da Ventosa, do Canto da Ribeira, da Quinta do Major, da Nascente do Côa ... e de outras casas abrigo abandonadas na "minha" Malcata e nas Mesas ... e em tantos outros lugares. Somos um país pobre ... ou um pobre país?...

Adeus Lama Grande ...
até quando?...
Antes da uma da tarde a "equipa" estava de novo reunida ... mas apenas para o necessário reforço alimentar. De novo a solo, o objectivo era agora o alto Sabor, o rio que nasce ali do lado de nuestros hermanos, paredes meias com a fronteira, atravessa Montesinho e corre para o Douro.
Ao fundo surge a albufeira das Veiguinhas, no alto Rio Sabor
Descendo o vale do alto Sabor, aqui na Barragem das Veiguinhas
E o Sabor segue o seu curso para sul, rumo ao Douro
Os meus companheiros haviam entretanto regressado à Serra Serrada, para dali descerem ao meu encontro na zona das Pedras Negras, verdadeiro miradouro natural sobre a aldeia de Montesinho. Em sentido contrário e depois de passado o testemunho (leia-se a chave do carro... 😊), subi o troço que eles desceram, acompanhando o vale da Ribeira das Andorinhas, enquanto eles desciam directamente para a aldeia, onde daríamos por finda esta belíssima jornada.
A aldeia de Montesinho, do alto do miradouro natural das Pedras Negras
Subida do vale da Ribeira das Andorinhas, rumo à Açude das Gralhas
Barragem da Serra Serrada, de regresso, 15h35
Aldeia de Montesinho, 16h00 ... com o seu famoso Café infelizmente fechado
Em fim de uma jornada de serra, uma boa "loirinha" ou algo mais teria sabido bem ... mas embora a tabuleta na porta dissesse "Aberto"
... o famoso Café Montesinho estava fechado. Uma simpática aldeã ainda nos disse que estavam para os campos ... e até se dispôs a ir chamá-los ... mas quanto tempo levariam a largar a faina e vir? Ficará para quando viermos com a nossa "família" Caminheira.
Entre esta digressão circular quase sempre a solo e os reconhecimentos prévios de acesso à Serra, tinha percorrido sensivelmente 26 km neste belo dia de quase fim de inverno. Depois foi o regresso a Bragança ... para no dia seguinte recordar Rio de Onor.
Vale do Rio de Onor, 9.Março.2019, 9h50
O último destes três dias no Parque Natural de Montesinho foi dedicado a uma curta mas belíssima caminhada por terras de Rio de Onor … ou Riohonor de Castilla … "un pueblo mixto único en la península ibérica, una unidad poblacional donde la frontera, en vez de separar, unió a sus habitantes".
Rio de Onor, 19.Maio.1984. O Carlos Magalhães
é o segundo a contar da direita
Tal como à Lama Grande, não ia a Rio de Onor há 25 anos ... mas 10 anos antes, em Maio de 1984, o meu saudoso professor e amigo Carlos Magalhães tinha-me feito uma proposta irrecusável: levar um grupo de alunos meus à Serra da Nogueira e a Rio de Onor, num autocarro dos Serviços Florestais, no sentido de eventualmente lhes despertar interesses nas áreas da Biologia, Silvicultura, gestão florestal e afins! Isto ... há 35 anos!... Hoje ... dediquei esta visita a Rio de Onor e dedico este texto à saudosa memória do Carlos Magalhães.
O percurso que agora escolhemos para Rio de Onor foi o PR11BGC. Deixei a minha "estrela" e os "manos velhos" onde o trilho sai da estrada alcatroada, fui pôr o carro à entrada da aldeia, pronto para nos recolher no final ... e voltei atrás a pé, ao encontro deles, descendo depois ao vale do Rio de Onor.
Belo exemplar de carvalho negral, secular, declarado árvore notável

Neste local ... três corços atravessaram o prado à nossa frente ...
bem mais rápidos do que qualquer tentativa para os fotografar...

Cantos e recantos paradisíacos, à medida que subimos o curso do
Rio de Onor
E temos a aldeia de Rio de Onor à vista
Eram onze e meia da manhã quando entrámos em Ruidenore, o nome que a aldeia recebe no dialecto rionorês, um dialecto de base asturo-leonesa que apresenta alguns traços do português transmontano e do dialecto sanabrés do Sul.
Igreja Matriz de Rio de Onor
A aldeia está muitíssimo bem preservada e a fronteira só existe nos mapas. Os casamentos mistos sempre foram frequentes, como frequentes são as deslocações de um e do outro lado, para trabalhar nos campos de lavoura. Resulta por isso anedótico o facto de ter existido uma corrente que dividia ambas as aldeias entre 1975 e 1990; na sequência do 25 de Abril de 1974 existia o temor de que as tropas de Franco entrassem em Portugal por este ponto fronteiriço. É precisamente junto a essa corrente a foto de Maio de 1984, com os meus alunos de então e o saudoso Dr. Carlos Magalhães.
Na rusticidade bem preservada de Rio de Onor
Na margem esquerda do Rio Onor, junto à foz da Ribeira de Regassores: tínhamos acabado de passar uma fronteira virtual
Em Riohonor de Castilla, atravessando o rio pelas poldras
De Rio de Onor a Puebla de Sanabria não chega a 20 km; não admira, portanto, que em Rio de Onor tenha vindo ter comigo uma indicação do Camino de Santiago Sanabrés. Um dia destes ... estarei lá.

O chamamento de Santiago...
Regressados ao lado português de Rio de Onor ...
... aproximava-se a hora da partida
Um adeus a Rio de Onor ... ou apenas um até breve
Eram horas de almoço, mas o único restaurante, "O Trilho d'Onor", é pequeno e já tinha muita clientela à porta. Fomos almoçar n'"O Careto", na pequena e bonita aldeia de Varge, à beira do Rio Igrejas, que juntamente com o Onor se junta ao Sabor em Gimonde. E os dias de Montesinho estavam no fim ... e que dias! Com os Caminheiros Gaspar Correia ... brevemente haverá mais 😊
Clique para ver o álbum completo
dos três dias em Montesinho

sábado, 2 de março de 2019

À volta do Côa, de Vale de Espinho ao Salgueiral

Praia fluvial de Vale de Espinho, junto à açude da Ponte Nova, 2.Março.2019
Entre Julho de 2010 e Janeiro de 2014, em "etapas" à medida da vontade e da disponibilidade, completei a descida pedestre do Côa no Concelho do Sabugal, que deu origem a uma série de artigos nestas minhas "fragas e pragas",
O Côa e os seus mistérios, no "meu" sempre mágico Moinho do Rato
(15.Janeiro.2019)
complementados com os relativos aos afluentes que o alimentam até Vale de Espinho: as águas que correm para o Côa. Agora, quase 9 anos depois da primeira daquelas "etapas" ... o apelo voltou. Já em Janeiro, numa curta caminhada durante os dias passados no retiro raiano, o Côa chamou-me ao "meu" eterno Moinho do Rato e não só; e agora, regressados no primeiro dia de Março ... avancei Côa abaixo, quase sem dar por isso ... numa tarde em que apenas ia dar uma volta...

Praia fluvial de Vale de Espinho, junto à açude da Ponte Nova, 2.Março.2019
A velha estrada que nunca chegou a Malcata foi início e fim desta tarde de Sol à volta do Côa. Apesar da chuva que teima em não cair, o rio ainda assim corre bem e os campos estão verdes, anunciando a Primavera que já se avizinha. Esta descida pedestre relembrou-me recantos da segunda das "etapas" de há 9 anos ... recantos que voltarei a atravessar, acompanhado, daqui a menos de dois meses; o tempo se encarregará de trazer a explicação...

Capela do Espírito Santo, junto à praia fluvial de Quadrazais
O Côa é um espelho de memórias e de encantos
Na Açude do Salgueiral, Quadrazais
Atravessei o Côa na Açude do Salgueiral ... e o regresso foi portanto pela margem direita, rumo aos Urejais, à Ervaginha ... e a Vale de Espinho.
Côa que levas as águas...
Moinho da Escaleira, já no regresso
Agora subindo o Côa, próximo da TrutalCôa
Foz da ribeira dos Urejais,
junto da TrutalCôa
Levada e Açude dos Urejais
Alguns troços desta "aventura" foram, claro, fora de trilhos. Mas os "corta mato" não foram complicados. Passada a foz da ribeira dos Urejais, a levada que alimenta o complexo da TrutalCôa é sempre bela ... talvez a lembrar as levadas da Madeira. Depois, junto à açude, não é difícil continuar ao longo da margem direita do Côa, entrando já nos campos e lameiros que conduzem à Ervaginha, o último dos velhos moinhos da área de Vale de Espinho.
Panorâmica da Açude dos Urejais
Moinho da Ervaginha ... onde dizem que as bruxas se juntavam em concílio...
Com o Sol a pôr-se, pouco depois da Ervaginha estava de novo na Ponte Nova ... e quase em Vale de Espinho. A volta vespertina somou 12,5 km ... a beber os sons, os ares e os cheiros destas minhas terras raianas. Afinal ... há quase 46 anos que eu bebi da água da Fonte Grande...

Vale de Espinho já estava próximo, com as cores do pôr do Sol
Vale de Espinho, Fonte Grande: pois é ... há quase 46 anos que bebi da água desta fonte... (*)
Clique para ver o álbum completo
(*) Como já contei noutras paragens destas minhas "fragas e pragas", reza a lenda que o rapaz, não natural de Vale de Espinho, que beba da água da Fonte Grande ... fica preso a esta aldeia para sempre. Eu bebi ... há quase 46 anos...