domingo, 4 de fevereiro de 2018

Por terras da Barrenta e do planalto de São Mamede

Nos meus "anos loucos" do início dos 70s, a Serra de Aire era destino frequente de "aventuras", naqueles meus velhos tempos em que me iniciei na Espeleologia, nas caminhadas, no são convívio, na vida ao ar livre. Para além da aldeia de Zambujal de Alcaria, a aldeia da Barrenta era "famosa" nas nossas "expedições", tanto que, muitas vezes, chamávamos Barrenta à própria Serra d'Aire.
Aldeia de Pia do Urso, 03.02.2018, 10h00
Nunca mais tinha voltado à Barrenta. 47 anos depois, pela mão dos Caminheiros Gaspar Correia e pela mão de um filho daquelas terras cársicas ... voltei à Barrenta, passei próximo do velho Cabeço do Roubo ... reavivei memórias perdidas numa noite de quase meio século.
Pelas nove e meia da manhã estávamos na aldeia de Pia do Urso, típica aldeia serrana recuperada, na freguesia de São Mamede e a escassos 12 km de Fátima. A nossa actividade começou com o pequeno mas belo percurso do Ecoparque Sensorial, orientado para a preservação dos valores ambientais da aldeia e para a divulgação das formas do modelado cársico.

Ecoparque Sensorial da Pia do Urso: em tempos recuados, um urso que vivia nas serranias
tinha por hábito beber numa das muitas formações rochosas em forma de pia
Na Pia do Urso ... estava no Caminho de Fátima; o chamado Caminho da Nazaré, ou Caminho Poente, passa na aldeia. Mas o objectivo agora eram as cumeadas do planalto de São Mamede, onde se abraçam os parcos terrenos com aptidão agrícola, ladeados de quercíneas, com particular destaque para Quercus faginea. Presente em todo o percurso, como nota dominante, o solo pedregoso, calcário, que emergiu do fundo dos oceanos há 160 milhões de anos. O nosso guia, filho destas terras cársicas, tudo ia explicando, de tudo ia contando as suas vivências e as suas histórias.
E aproximavamo-nos da velha Barrenta ... à medida que as horas também se aproximavam da hora do almoço... 😉

Ao longo dos trilhos da serra, junto ao Cabeço do Increal
Meio dia: a "muralha" calcária do Cabeço da Morada, pouco antes da Barrenta
Recuamos no tempo, à entrada da velha Barrenta
Pouco depois do meio dia entrávamos na Barrenta. Pouco me lembrava da Barrenta dos meus tempos da Espeleologia, mas logo à entrada a ruralidade quis-nos fazer recuar no tempo. Testemunha viva das labutas de outrora, uma eira associada a uma casa humilde, de pedra, ilustra os primórdios da arquitectura da região. Mas a nova Barrenta também ilustra a velha lenda do "velho da Morada".
O nosso guia conta-nos a lenda do "velho da morada"
Reza a lenda que um cavaleiro do castelo de Ourém um dia perdeu-se quando andava a caçar no vale da Morada. Já noite cerrada, avistou uma casa iluminada por candeias de azeite. O cavaleiro bateu à porta e pediu ao dono da casa, já velho, para passar ali a noite porque andava perdido. O velho respondeu que o acolheria, mas preveniu-o da simplicidade e pobreza do seu lar. Pediu então à mulher que pusesse mais lenha na fogueira e que fizesse papas de farinha de milho com mel. O cavaleiro, que nunca tinha provado tal coisa, comeu e gostou.
Sentados à lareira, os três foram falando da vida do campo; e o cavaleiro combinou o dia em que o velho camponês havia de ir ao castelo, para ser tão bem recebido como ele foi ali, no misterioso vale da Morada. Assim, no dia previsto, o velho apresentou-se aos guardas do castelo. Ora, como o camponês tinha um carapuço na cabeça, umas botas de cabedal e umas calças de surrobeco, os guardas não o deixaram entrar. Mas o velho insistiu e insistiu, até que um guarda resolveu-se a falar com o cavaleiro. Qual não foi o seu espanto quando este mandou entrar aquele homem com aspecto tão rude! Mas no dia seguinte, o velho regressou ao vale da Morada muito alegre, por ter sido recebido num castelo de um nobre cavaleiro ... que agora era também um amigo. (https://goo.gl/KKUt2o)
Mas a nova Barrenta também é conhecida pelo seu "Encontro Nacional de Tocadores de Concertina", que na sua 16ª edição, em Setembro de 2017, reuniu mais de 400 tocadores. A pequena aldeia, com pouco mais de 40 residentes, recebe nessa altura milhares de visitantes. Aliás, à noite, já em Fátima ... seríamos brindados com uma exibição de três elementos do Grupo de Concertinas da Barrenta, animando a habitual festa de Carnaval dos Caminheiros Gaspar Correia.
E o nosso almoço foi nas instalações da Associação Cultural da Barrenta, no Largo da Saudade. A velha Barrenta, dos meus tempos da Espeleologia, lutou contra o despovoamento e a desertificação e conquistou admiração e um lugar no mapa e na cultura popular.
Centro Cultural da Barrenta
E a jornada prossegue, para norte da Barrenta e do Cabeço do Roubo
Pouco depois das duas retomámos o percurso, agora para norte, pelas Covas Altas e o parque eólico de Chão Falcão. O destino final era a aldeia do Alqueidão da Serra. O dia, mais ou menos cinzento, viria a cumprir a "promessa" de alguma chuva a partir de meio da tarde. Mas, antes da chuva ... ainda vimos Fátima ao fundo, do miradouro natural do Moinho Velho.

Numa tarde a ameaçar a chuva que aí vinha ... ao fundo avistávamos a Basílica de Nª Srª do Rosário!
E às quatro da tarde ... chegava a prometida chuva...
Já na parte final ... a panorâmica sobre o Planalto de S. Jorge perdeu-se no nevoeiro e na chuva. E mesmo a velha calçada romana de Alqueidão da Serra teve uma visita rápida ... e escorregadia. Construída entre os Séc.s I aC e I dC, a estrada romana da Carreirancha foi usada por diferentes civilizações. Foi este o caminho que conduziu D. Nuno Álvares Pereira ao Campo Militar de S. Jorge, na véspera da Batalha de Aljubarrota. 500 anos depois, as tropas napoleónicas também por aqui passaram ... e este foi o tema da Conferência a que assistimos no Auditório José da Silva Catarino, no Alqueidão da Serra. O repórter João Amado Gabriel prendeu-nos a atenção com o misto de realidade e ficção ligada ao terror vivido naquela época, retratada no seu romance "Avô Capitão".

Calçada romana do Alqueidão da Serra
E se à Barrenta eu não voltara em 47 anos, no Alqueidão da Serra eu tinha passado há menos de 3 anos, com os meus "Manos" Zé Manel e AJ, entre Santa Cruz e Fátima ... no terceiro dia do caminho que o destino não transformou em Caminho.

Panorâmica sobre o Alqueidão da Serra ... no meio do nevoeiro e da chuva
Já de autocarro, do Alqueidão da Serra rumámos a Fátima, base de pernoita entre as duas etapas deste fim de semana caminheiro ... porque no dia seguinte tínhamos à espera o Buraco Roto.

Reguengo do Fetal,
4.02.2018, 10h10
Situada um pouco a norte do Alqueidão da Serra, Reguengo do Fetal também se chamou Reguengo da Magueixa e mais tarde apenas Reguengo, que significa "terra do Rei". Até 1820, o rei, os conventos, as obras religiosas e as famílias nobres tinham certos direitos sobre as povoações; com a revolução liberal, tudo mudou. Fetal foi a forma de distinguir esta freguesia de centenas de outras com o mesmo nome, homenageando também Nossa Senhora do Fetal, que desde o séc. XVIII tem em Reguengo uma ermida da sua invocação. Como quase todo o maciço estremenho, a envolvência faz parte de numerosos subsistemas cársicos, de que o "Buraco Roto" é a exsurgência mais conhecida.

A caminho do Buraco roto
No Buraco roto e panorâmica sobre Reguengo do Fetal
Após o túnel natural do Buraco roto, o trilho apresenta-se ladeado por carvalhiças, madressilva e gilbardeira. E vamos subindo até à EN 356 e ao Cruzeiro de Reguengo do Fetal, que pertence à Via Sacra inaugurada em 1927 entre esta aldeia e a Cova da Iria. Por um trilho sinuoso e escadas de madeira e pedra, desce-se então à espectacular Pia da Ovelha, cova natural de grandes dimensões, que deve o seu nome à pia ali construída por baixo de uma estalactite e que goteja abundantemente em época de chuvas. Ao contrário de sábado, contudo ... o nosso domingo foi um magnífico dia de Sol.

Cruzeiro sobre o Reguengo do Fetal, na EN 356
Na espectacular formação da Pia da Ovelha
Ao fundo o Alqueidão da Serra, visto da Pia da Ovelha
Descida da Pia da Ovelha para o vale
Após a Pia da Ovelha, uma pequena parte do grupo desceu directamente de regresso ao ponto de partida. Os restantes, continuámos ainda para sul, subindo ao Cabeço do Poio, para depois entrar no Vale dos Ventos ... onde o vento frio dava bem razão ao topónimo. E passava já da uma e meia da tarde quando regressámos ao autocarro, no Reguengo do Fetal, culminando assim a componente pedestre do belo fim de semana que vivemos em terras do planalto de S. Mamede e do Fetal.

De regresso ao Reguengo do Fetal e ao ponto de partida
De referir que todos os anos, no primeiro fim de semana de Outubro, o Reguengo do Fetal se anima com a sua "festa dos caracóis". Porquê dos caracóis? Porque a deslocação da imagem de Nª Srª da capela para a igreja matriz e da igreja matriz para a capela é iluminada por milhares de lamparinas feitas com cascas de caracol, azeite e um pavio. Com as cascas, escrevem-se palavras e desenham-se figuras no solo, alusivas à procissão de Nossa Senhora do Fetal.
Ver o álbum completo

Percurso de Sábado ⏩
Percurso de Domingo ⏬
Uma palavra final de agradecimento aos organizadores deste belo fim de semana caminheiro ... e de admiração pelo orgulho patente em cada momento. Orgulho pelas belas paisagens que nos mostraram, mas também pela partilha das vivências de ontem e de hoje das gentes da Barrenta, do Alqueidão e do planalto, pelos acordes das concertinas, pela viagem ao tempo das invasões francesas que generosamente nos ofereceram. Bem hajam!
O almoço foi em Fátima, onde ainda houve tempo livre antes do regresso a casa. Pelo que me toca ... a última vez que ali cheguei foi a pé, em 24 de Outubro passado, com 130 km nos pés. Se o Universo assim o permitir, em meados de Março lá chegarei de novo a pé ... e mês e meio depois de lá partirei, por terras de Oureana, a pé ... rumo ao Campo das Estrelas e às terras "do fim do mundo". Ultreïa!
Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, 4.Fev.2018, 15h45

domingo, 28 de janeiro de 2018

VIII Marcha Nacional de Montanha

Travessia Invernal da Serra do Marãoxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Todos os anos o Grupo de Montanhismo de Vila Real tem organizado uma Marcha Nacional de Montanha, na Serra do Marão, integrada no Calendário anual da FPME - Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada.
Nas edições anteriores, não me foi possível participar, com pena ... até porque alguns dos meus "Manos" têm sido participantes assíduos nas últimas edições desta Marcha. Mas à oitava edição ... os "deuses" do Marão mobilizaram-se para me deixar participar; e fi-lo em representação do Clube de Montanhismo da Guarda, o Clube de Montanhismo do meu distrito adoptivo ... o distrito das minhas terras adoptivas de Vale de Espinho. Sexta feira ao fim do dia, com os meus "Manos" Cristina e Zé Manel e muitos outros montanhistas de diversos Grupos e Clubes, estávamos em Vila Real preparados para sábado bem cedo começarmos a Marcha.

Sobre Aveção do Cabo, 27.01.2018, 8h55 ... à conquista da Serra do Marão
Aveção do Cabo é um lugar da freguesia de Campeã, a ocidente de Vila Real, onde a Serra do Marão se esbate para norte e se abre para os vales dos rios Tâmega e Olo e para a Serra do Alvão. Ali começámos a Marcha, antes das nove da manhã, a 800 metros de altitude. O fim de semana prometia frio e vento, mas da pouca neve que ali caiu já nada restava. À medida que subíamos, as antenas do Marão iam aparecendo a sudeste, relembrando-me a mim e à "Mana" Cristina a bela actividade em que, há exactamente três anos, subimos ao cume daquele "reino maravilhoso".

Ultrapassados os 1000m, para sudeste levantam-se os pontos mais altos do Marão
Três "Manos" integrados no grande grupo desta VIII Marcha Nacional de Montanha
Para norte, terras de Basto, destacando-se o
Monte Farinha e o Santuário de Nª Senhora da Graça
E a Marcha prossegue para ocidente
Antes do meio dia estávamos a descer para a pequena aldeia de Covelo do Monte, única aldeia de montanha ao longo do percurso. Predominam as velhas construções de xisto e granito, algumas com telhados de lousa. A vida pastoril e agrícola ainda é uma realidade bem presente em Covelo.

Descida para Covelo do Monte
Almoço em Covelo do Monte
E em Covelo do Monte ... esperava-nos uma surpresa. O Grupo de Montanhismo de Vila Real, organizador da Marcha, tinha providenciado um lauto e saboroso almoço naquela aldeia perdida nas faldas do Marão! Das carnes fumadas a uma reconfortante feijoada ... ganhámos forças para a restante caminhada 😊
Saímos de Covelo ao longo do vale, à sombra de florestas autóctones e de pinhais. Seguiu-se a longa subida até ao vértice geodésico da Neve. O trilho ladeia a Portela dos Trigais até à Costa do Pedrado, onde encontramos as minas desativadas de Fonte Figueira, de onde se explorou estanho e volfrâmio até à década de 70 do século passado. O acesso às minas fez-se por duas variantes: por estradão, quem quis uma opção simples ... ou recorrendo a uma corda de apoio que a organização providenciou no local, para uma curta experiência de escalada.

Covelo do Monte vai ficando para trás, à medida que subimos a Costa do Pedrado ...
... e que chegamos às
Minas de Fonte Figueira
Minas de
Fonte Figueira
E a Marcha prossegue para sul, rumo à Capela da Senhora de Moreira
Pelas quatro da tarde cruzávamos o Parque de Lazer da Lameira, rumo à Capela da Senhora de Moreira, no alto do mesmo nome, a 972 metros de altitude, onde acorrem milhares de fiéis todos os anos, numa dura ascensão por um caminho medieval desde Ansiães.

Parque de Lazer da Lameira
Capela de Nª
Senhora de Moreira ...
... e a espectacular panorâmica que dali se admira para sul e sudoeste
Três quilómetros separavam-nos do final da caminhada, na Pousada de S. Gonçalo. Em Outubro de 2007 (já se passaram mais de 10 anos...) iniciei ali uma outra bela caminhada, com o CAAL.
Pousada de S. Gonçalo, ou Pousada do Marão
Tínhamos percorrido 22 km, nesta 1ª "etapa" da VIII Marcha Nacional de Montanha. À noite, em Vila Real, houve jantar convívio, com as boas vindas e os parabéns dos organizadores e a entrega de lembranças aos Clubes envolvidos. Estando a representar a associação do meu distrito adoptivo ... fui portador da que se destina ao Clube de Montanhismo da Guarda 😊
Discursos e entrega de lembranças aos Clubes e Associações participantes
Rumo ao Alto de Freitas, 28.01.2018, 10h00
2ª "etapa": Domingo, Alto de Freitas
Não muito longe da Pousada do Marão, o Alto de Espinho, a 1020 metros de altitude, na velha EN 15, era o ponto de partida para a segunda "etapa" deste fim de semana de Montanha. O vento zunia forte quando ali chegámos ... e às 9h30 o termómetro marcava 1ºC. Mas, à medida que subíamos, os horizontes abriam-se de novo, revelando-nos uma atmosfera mais límpida ainda do que no sábado. O destino era, para já, o Alto de Freitas, a 1346 metros de altitude, o segundo ponto mais alto do Marão. E à medida que subíamos, a neve ia também aparecendo no caminho. Pouca, muito pouca, mas bem alva e cintilante.

Os horizontes abrem-se, à medida que subimos o Portal de Freitas
Alto de Freitas (1346m alt.)
No Alto de Freitas, o vento empurrava-nos e quase nos fazia voar. As ruínas de uma capela de origens envoltas em mistério pouco abrigavam da inclemência gelada. No horizonte, a norte, avistávamos limpidamente o "meu" Gerês, terras de Pitões das Júnias, e, mais a leste, as alturas nevadas do Larouco. Mais perto, pouco mais alto que nós, o cume maior do Marão, a Senhora da Serra (1416m alt.), a lembrar mais uma vez, há três anos, a subida ao cume daquele "reino maravilhoso".

No Alto de Freitas, as ruínas de uma Capela de origens envoltas em mistério
A Senhora da Serra (1416m alt.), cume do Marão, vista do alto de Freitas (1346m alt.)
O Monte Farinha em primeiro plano e, ao fundo ... terras de Pitões das Júnias
A descida das Freitas fez-se sobre as vertentes íngremes e escarpadas da Ribeira dos Moinhos e da aldeia de Montes, aldeia tristemente assinalada por uma tragédia em que diversos habitantes encontraram a morte por electrocussão quando um cabo de electricidade caiu ao longo da encosta.


Descida do Alto de Freitas e, ao fundo das escarpadas vertentes, a aldeia de Montes
Com mais 9 quilómetros percorridos, à uma da tarde estávamos de regresso ao ponto de partida ... com as vistas e a alma cheia das belas paisagens serranas do Marão. E no Alto de Espinho, ponto de partida e de chegada da 2ª "etapa" da Marcha, fizemos as despedidas. A VIII Marcha Nacional de Montanha foi a minha primeira Marcha Nacional ... mas não será certamente a última. Menos de 5 horas depois estava em casa.
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