sábado, 25 de junho de 2011

Cornón e vale do Trabanco, no paraíso de Somiedo

Em férias "eternas" há 3 anos, este verão de 2011 tem estado a proporcionar-nos umas "férias das férias" completamente especiais ... até porque tanto eu como a minha parceira temos descoberto uma capacidade  e  uma  resistência na montanha  que têm  ultrapassado  as  nossas  próprias  expectativas.
Braña vaqueira de La Peral, 24.06.2011 
Somos, realmente ... como o Vinho do Porto... J!
Anteontem, dia 23, deixámos as terras mágicas do Gerês ... rumo às terras mágicas de Somiedo! Até nisso estas férias são especiais: pela primeira vez, numas mesmas férias, percorro as minhas três "terras natais": Gerês, Somiedo ... e de aqui sairemos para Vale de Espinho e para as terras raianas! E se, no Gerês, vivemos a espectacular experiência da travessia em autonomia que fizemos ... em Somiedo subimos ambos ao Cornón, o mítico ponto mais alto das terras somedanas, a que há vários anos eu ambicionava chegar!
Estamos, portanto, em Pola de Somiedo ... a capital do paraíso. Desde a Primavera branca de 2009 que não vinha a Somiedo, há mais de 2 anos! E desta vez estamos mesmo no larguinho central de Pola, num apartamento recentemente renovado pelo nosso amigo Herminio, da "Casa Miño". Só o simples facto de estar aqui é mágico, mesmo que não saíssemos da vila. Mas ... claro que saímos... J!
Ontem foi o grande dia da conquista do Cornón. Com os seus 2188 metros de altitude, o Cornón é o tecto de Somiedo, embora se situe no limite sul do Parque Natural, na "fronteira" entre Astúrias e Leão. Antes das 9 da manhã, estávamos assim em Santa María del Puerto, deixando o carro no mesmo sítio onde o deixámos igualmente há 5 anos, quando da caminhada de Coto de Buenamadre.

Santa Maria del Puerto de Somiedo, 24.06.2011, dia de San Xuan
O percurso tinha sido estudado minuciosamente, pelas cartas (tenho todo o território de Astúrias em 1/10.000...), pelo PR definido pelo Parque Natural de Somiedo, e pelos muitos registos de outros amantes da montanha que partilham os seus trilhos. O Wikiloc é sempre, nestes estudos prévios, a melhor das bases de dados actualmente existentes. Não gosto de ir e vir pelo mesmo caminho, pelo que tinha estudado o regresso pelo vale do rio Trabanco, paredes meias com a braña vaqueira de La Peral.
Boca de los Ríos (1580m alt.)
Morro del Rebezu e Miro Malo
Sensivelmente com uma hora de marcha, estávamos na Boca de los Ríos, quase a 1600 metros de altitude. Entre os 1700 e os 1800 metros, a subida suavizou um pouco ... o suficiente para a minha companheira de "aventuras" ganhar novo alento ... impulsionada também pelo encorajamento de um montanhista espanhol que também ia para o Cornón. Em 2 horas de marcha tínhamos feito 5 km e subido 300 metros de desnível. Toda a envolvência era sublime, com as montanhas recortadas num azul do céu espectacular, contrastando com o verde das encostas.

Avançamos através de paisagens sublimes!
Uma pausa aos 1700 metros de altitude. Ainda falta subir quase 500...
Boquete de la Mozarra (1794m), 11h10h: o Cornón surge no horizonte!
Vertente leonesa
Laguna del Barroso (1850m)
O objectivo ainda está mais de 300 metros acima...
Momentaneamente em terras leonesas, cruzamos a Vega de la Mozarra e ultrapassamos os 1800 metros. Regressamos a Astúrias sobre a cabeceira do Trabanco e a Laguna del Barroso ... e estamos perante a mole do Cornón! Estamos agora a 1885 metros de altitude. Faltam sensivelmente 300 metros de desnível ... para vencer em cerca de 1,25 km; 24% de inclinação média! Mas a coragem é muita ... e quem chegou até aqui também chega ao cume! À minha frente, a trepadora de todas as montanhas (a começar pela montanha da vida... J) lança-se ao "ataque". No meio de um mar de rocha, a íngreme vertente do Cornón vai sendo vencida ... e pouco depois das duas da tarde a grande trepadeira põe o pé no Cornón, a 2188 metros de altitude!

"Será que conseguirei?..."
1950m alt., 13:20h - Vai começar o "ataque"...
Uns sobem...
... outros descem ... incluindo um de 4 patas!
"Estou quase..."
E às 14:05 a grande trepadora põe o pé no Cornón (2188m alt.)
" E de aqui eu domino o mundo! "
Nós somos os senhores de Somiedo!
As sensações vividas no cume do Cornón são indescritíveis. Ali, sentimo-nos príncipes das alturas, senhores de Somiedo e do mundo! 360º à nossa volta, a cordilheira cantábrica estende-se imponente, destacando-se a vertiginosa vertente leonesa ou o espectacular vale de Zreizales, berço do Pigueña. Para leste, Peña Salgada, Peña Chana, a Torre de Orníz e, ao fundo, o maciço das Ubiñas! Quase tudo locais por onde já andei ... quase tudo locais onde ainda tanto há para andar...!

Vertente norte, sobre o vale de Zreizales, berço do rio Pigueña
Para leste, ao fundo, o maciço das Ubiñas
Zoom aos Huertos del Diablo e Peña Ubiña
Mas ... eram horas de descer para o vale do Trabanco
Mas tínhamos ainda uma longa tarde pela frente. Ao descer do Cornón, enveredámos por uma rota diferente da mais utilizada. Íamos contornar a norte o maciço de Peña Penouta, descendo o fabuloso vale do Trabanco, um autêntico paraíso perdido, bem no seio do paraíso de Somiedo.

1970m alt. - Descida para as Fuentes del Trabanco
O Shangri-La que tínhamos à frente!...
Não foi
fácil descer isto...
Percorrendo o Shangri-La do vale do Trabanco
Campo de los Centenarios, vale do Trabanco (1650m alt.)
O descanso da grande montanheira!
As alturas de onde vínhamos...
... e o vale para onde íamos!
Camurças, nas encostas
de Peña Blanca
Peña Blanca
e as suas camurças
Ainda a 1570 metros de altitude, continuamos rumo a leste ...
... até chegarmos à vista de La Peral
Outros "montanheiros"...
Eles e nós íamos dizer adeus ao vale do Trabanco
E ... Santa Maria del Puertu à vista, com 18 km percorridos pelo paraíso!
Quase às 8 horas da tarde, 10 horas depois de sairmos e com quase 18 km percorridos, voltávamos ao ponto de partida! Tínhamos "conquistado" o Cornón, tecto de Somiedo. Mas tínhamos também conhecido, sem dúvida alguma, uma das mais belas e paradisíacas zonas de quantas já aqui percorri!


(Álbum de fotos completo neste link)
 

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Ronda da Pena de Anamão, em terras de Castro Laboreiro

Ontem chegámos a Lobios, terminada a nossa "aventura" do solstício, no Gerês. Hoje ... deambulei pelo planalto de Castro Laboreiro, em demanda de um percurso viável para fazer com a "família" Caminheira, daqui a pouco mais de um mês, na actividade de verão. Lobios é uma boa base para explorar toda esta zona, de ambos os lados da fronteira. Mas esta ronda por terras de Castro Laboreiro acabou por ser uma caminhada a solo; a minha valente acompanhante ... preferiu descansar, em Lobios ... e recarregar baterias para as "aventuras" que nos esperam em Somiedo!

22.06.2011 - Miradouro do Gerês / Xurés, na estrada Entrimo - Castro Laboreiro
Assim, pouco depois das oito da manhã, saí do "Lusitano" rumo a Entrimo e à fronteira da Ameixoeira. A ideia original era uma caminhada circular baseada no "trilho castrejo", um dos diversos trilhos marcados daquelas terras "perdidas" no NW do Parque Nacional da Peneda-Gerês e de Portugal. Castro Laboreiro seria o ponto de início e fim da caminhada, mas agora, nesta prospecção, eu podia começá-la na aldeia de Curveira, na estrada entre a fronteira e a vila. E em boa hora o fiz...!

Aldeia de Curveira (Castro Laboreiro), 9h:25 - Vai começar a "Ronda de Anamão"
Um belo exemplar de Castro Laboreiro
E atravesso a aldeia de Curveira
Rocha do Bico do Patelo, sobre o vale da Curveira
Após uma pequena descida para a ribeira da Curveira, o trilho sobe a bom subir, ganhando rapidamente uma perspectiva quase aérea sobre a zona a sul de Castro Laboreiro, até ao Alto das Manguelas, a 1050 metros de altitude. Depois, entro num mundo completamente rural, onde pessoas e gado se misturam na lavoura das pequenas parcelas de terra que se me deparam. Inflectindo agora completamente para SE, começa a surgir no horizonte a silhueta enorme da Pena de Anamão, silhueta que, à distância, eu já conhecia até da grande caminhada das Sombras, em Outubro passado.

Alto das Manguelas (1052m alt.): panorâmica sobre a Curveira e a zona a SE de Castro Laboreiro
Mundo rural...! Por trás, começa a surgir a Pena de Anamão
Aqui trabalham-se os campos!
Pena de Anamão, face norte
No cruzeiro de Anamão
Panorâmica para sul: ao fundo ... o Gerês!
O "monstro" de Anamão
A Pena de Anamão é um monolito granítico que se vislumbra de quase todo o território de Castro Laboreiro e do Gerês luso-galaico. Tendo possivelmente vestígios de cultura castreja, deu mais tarde origem à edificação de uma pequena Ermida, a sul do Cruzeiro de Anamão. Embora não muito longe, a Ermida ficava contudo fora da rota. Do cruzeiro segui para as aldeias de Seara e Padrosouro, através de belas panorâmicas do planalto castrejo.

Elementos naturais
Aldeia de Seara
A caminho da aldeia de Seara
Depois de Padrosouro, o trilho desce entre muros de pedra, sempre com belas panorâmicas. A Pena de Anamão continua altaneira, vigiando o horizonte. Um troço de alcatrão faz-me voltar atrás, procurando um velho trilho que a carta assinala. E encontro-o; com os Caminheiros, desceremos esse velho trilho até à ponte de Cainheiras, outra aldeia "perdida" no planalto de Castro Laboreiro.

Entre Padrosouro e Cainheiras, vou-me afastando do Anamão
Ponte de Cainheiras
Por esta altura começo a abandonar a ideia de fazer o trilho castrejo completo, com o grupo. Não sendo difícil, o percurso já feito apresenta contudo a grande subida entre Curveira e o Alto das Manguelas; e o resto não é propriamente fácil para alguns elementos do grupo, além de que em Castro Laboreiro também convém ter algum tempo de visita. A caminhada, no próximo mês, pode portanto terminar na aldeia de Bico, abaixo de Cainheiras, ou então mantê-la circular ... se encontrar um caminho entre Bico e Curveira sem ser pela estrada. À procura dessa hipótese, atravessei a aldeia de Bico ... onde não vi vivalma. Sem trilho mas em terreno bom, fui-me aproximando de Curveira, a leste da estrada ... mas quando o declive se acentuou a vegetação também aumentou substancialmente. E foi através de um denso emaranhado vegetal que cheguei às proximidades da aldeia ... onde ainda havia uns muros para saltar! Decididamente ... para o mês que vem não será por ali... J!

E, por montes e vales, desço da aldeia de Bico para a de Curveira; o caminho por enquanto ainda era transitável...
E depois desta pequena "aventura", o carro lá estava à minha espera, em Curveira. Ainda fui a Castro Laboreiro e ao seu castelo, visitando no caminho a simpática tartaruga de rocha que ali jaz há milénios. Regressado a Lobios ... postei as fotografias no Picasa e escrevi estas notas ... que no entanto só serão publicadas quando o "Por fragas e pragas..." chegar à actualidade... L!


Amanhã vamos sair de Lobios e do Gerês ... rumo a outras terras mágicas... J!